Covid-19. Responsabilidade.

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” em 19/02/2021

Imagine-se um hipotético cenário de possível tragédia iminente, por exemplo, quando o Comandante de um avião com 300 passageiros a bordo, em pleno voo, ao aproximar-se da pista para aterrar no aeroporto de destino, constata que o “trem de aterragem” não desceu e, portanto, que sem as rodas da aeronave no solo não haverá a operação habitual. Ele bem sabe que sem as rodas a aterragem tem risco certo de crash, de colisão seguida de incêndio e de potencial desastre fatídico. Conhece as regras. Discute com o copiloto e chama o Chefe de Cabina.

Preparam-se para o pior. Mas, com serenidade e confiança, que se sobrepõem ao medo, os tripulantes observam a rigor as normas de contingência previstas para a avaria verificada. Comunicam à Torre de Controlo que alerta, por sua vez, a corporação de bombeiros de serviço. O avião sobrevoa a cidade, em voltas e mais voltas, para consumir o combustível restante nos tanques. Avisam os passageiros para colaborarem e apelam para seguirem as indicações de segurança. Todos informados e preparados. Chega o momento de o Comandante decidir aterrar.

Aproxima-se da pista, especialmente preparada para o efeito, que está ladeada por carros de bombeiros e com cobertura de espuma que mais parece revestida a esferovite. A classe demonstrada pelos bombeiros bem treinados e os modernos equipamentos disponíveis são garantia do sucesso da resposta à emergência. Um êxito.

Ora, em Saúde Pública, também assim acontece: identificação de risco, a sua gestão e comunicação.

A identificação de riscos para a Saúde Humana, exige, antecipadamente, a formulação de planos de contingência que são desenhados para serem desenvolvidos quer perante um cluster de papeira que ocorre em alunos de idade escolar que não estavam imunizados, quer para controlar uma epidemia de doença dos legionários que surge inesperadamente em operários residentes em freguesias da cintura industrial de Lisboa ou, ainda, uma pandemia provocada pela ocorrência de um novo vírus numa região remota do Oriente, com origem zoonótica, mas que depois galga a Muralha da China e propaga-se, simultaneamente, por todos os continentes. Como acontece com a COVID-19.

As respostas exigem planos previamente concebidos e exercitados. A sua aplicação impõe a mobilização de meios. Isto é, sem tripulantes bem treinados, sem passageiros informados, sem bombeiros e sem a tal espuma não se pode evitar o desastre. Não se salvam vidas.

Igualmente, da mesma maneira, sem especialistas e sem infraestruturas de Saúde Pública não se evitam nem controlam clusters, nem epidemias, nem, naturalmente, pandemias.

Todos percebem que as corporações de bombeiros dos aeroportos têm que estar sempre em prontidão absoluta. Têm que dispor dos meios mais modernos. Apetrechamentos de última geração. Sucessivamente renovados. Têm que ser frequentemente reequipadas, mesmo na ausência de alertas de emergências. Ano após ano. Constitui sempre uma prioridade. Se não for chamada a intervir, tanto melhor. É bom ter corporações de bombeiros robustas. Indiscutível.

Bem pelo contrário, nos últimos 20 anos, o panorama da Saúde Pública é de progressiva fragilidade. Apesar das tentativas e dos esforços de alguns ministros, o insucesso foi a regra. Mesmo medidas anunciadas em programas eleitorais, não foram cumpridas. Cortes orçamentais inexplicáveis, cativações nunca descativadas, ausência de investimentos, ignorância sistemática da componente preventiva, sucessivas reformas penalizadoras da DGS. Uma questão de responsabilidade.

Francisco George
Fevereiro 2021

PS
O autor do artigo, em 1990, testemunhou, como passageiro, uma aterragem de alto risco em Joanesburgo, em avião sem trem de aterragem.