Memórias dos Anos 60 – Guerras Coloniais (I)

A vida política dos anos 60, em Portugal, é marcada por acontecimentos inesquecíveis. Governava, então, António Oliveira Salazar e a partir de 1968 Marcelo Caetano. A emergência das guerras coloniais por um lado e os movimentos oposicionistas (tal como as lutas académicas) por outro, assinalam esse período. Aqui ficam retratados alguns desses episódios.
Em janeiro de 1960, a fuga de Álvaro Cunhal da prisão de Peniche e, um ano depois, o assalto ao paquete Santa Maria por Henrique Galvão embaraçam o regime de Salazar. A simpatia e apoio generalizado, incluindo a nível internacional, daqueles acontecimentos, iriam abalar o regime. Abalos e mais abalos suceder-se-iam.

No final de 1961, a descolonização iria ter início. Tudo começou com o rápido desaparecimento do Estado da Índia de Goa, Damão e Diu. Entre 17 e 19 de dezembro, a bandeira Portuguesa fora substituída pela Indiana quando as tropas de Nehru invadiram, com sucesso natural, aqueles territórios. Salazar envia telegramas para a guarnição não se render. Insiste que o reduzido contingente devia lutar até à morte. Mas, ao contrário das instruções recebidas, os chefes militares portugueses aí destacados (nomeadamente Manuel Vassalo e Silva) decidem, sensatamente, a rendição incondicional.

Salazar interpreta os acontecimentos “antipatrióticos” na então Assembleia Nacional em alocução que, no entanto, não consegue ler devido ao seu estado emocional, motivo pelo qual entregou o microfone a Mário de Figueiredo. Lembro-me bem dessa transmissão difundida em direto pela Emissora Nacional que foi iniciada com a voz rouca inconfundível de Salazar e pouco depois pelo Presidente da Assembleia que acabou o discurso em seu nome.

O Império ficaria ameaçado para sempre.

Poucos dias depois, na madrugada de 1 de janeiro de 1962 o quartel de Infantaria de Beja é assaltado por Varela Gomes sob o comando estratégico de Humberto Delgado que se encontrava refugiado ali bem perto, em Vila de Frades (Vidigueira), em abrigo organizado por José Luís Conceição Silva. Na ocasião, é abatido a tiro, à entrada da porta de armas do quartel o subsecretário de Estado do Governo de Salazar. A operação, apesar do insucesso para os Revoltosos, elevou níveis de esperança para a Oposição. Varela Gomes é ferido e detido. Delgado foge.

As celebrações do Dia do Estudante em 1962 são reprimidas. Repetem-se cargas policiais e multiplicam-se as prisões em Caxias.

Em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau emergiram movimentos de Libertação. Os guerrilheiros são apoiados por muitos países. As lutas pela independência constituem acesas frentes de combate que a Imprensa oficial classifica de mero “policiamento”.

Em Lisboa, na Casa de Estudantes do Império, ao Arco do Cego, líderes dos movimentos Africanos articulam-se com a Oposição Portuguesa.

São muitos os que simpatizam com a ideia da independência das Colónias. São muitos os Portugueses que se manifestam contra a Guerra.

A repressão em Portugal aumenta. Notáveis intelectuais, artistas e académicos são perseguidos ou presos. Muitos decidem emigrar. É tempo do “salto” para França. A censura impede a expressão do pensamento de artistas, escritores e de políticos.

A 13 de fevereiro de 1965 Humberto Delgado é assassinado por agentes da PIDE numa localidade próxima de Badajoz.

Porém, as proibições impostas pela força policial que impossibilitaram direitos básicos aos portugueses não são comparáveis à situação então vivida nas Colónias. Ainda hoje, existe um estranho silêncio sobre esta questão. Sublinho, estranho silêncio. Os oposicionistas assassinados pela Ditadura, durante os anos 60, não se limitam a Catarina Eufémia (antes, em 1954), Dias Coelho (1961) ou Delgado (1965) mortos no Continente. Foram milhares os cidadãos assassinados na sequência de barbaridades consentidas pelas Autoridades Coloniais. Foram perseguidos, presos, espancados sem qualquer defesa, sem julgamento, uma vez que, na época, a Justiça era para colonos e colonizadores.

Salazar cai da cadeira em 1968. No ano seguinte Marcelo enfrenta a crise académica de Coimbra. Tenta “abrir” o regime, mas sem êxito.

Marcelo Caetano não acompanhou o sentido da História. A inevitabilidade da Independência das Colónias. As descrições no seu “Depoimento” (escrito no exílio depois de 1974) fazem transparecer a ideologia retrógrada e inflexível.

Francisco George
Verão, 2015

O Assalto ao Quartel de Beja

A madrugada de 1 de Janeiro de 1962 é inesquecível para mim. O telefone que se encontrava no escritório da nossa casa de Campo de Ourique, na divisão contígua ao meu quarto, tocou pelas 3 horas. Era o telefone do Estado que o Ministério da Saúde mandara instalar. Fenómeno raro, uma vez que quase nunca recebia chamadas nem era utilizado. Todos dormiam a essa hora.

Levantei-me e atendi: – “daqui fala Henrique Martins de Carvalho, pretendo falar com o Dr. Carlos George. É um assunto muito urgente”. Habituado a receber chamadas telefónicas dos doentes de meu Pai a qualquer hora da noite, se bem que no 660628, de início nada de anormal notei. Logo depois, ao entrar no quarto de meus pais para transmitir o recado e ao chama-lo para ir à sala, compreendi pelos seus comentários que era o ministro da saúde e assistência. Percebi que era um problema sério. Uma revolta contra Oliveira Salazar. Não mais se deitou e com o apoio de minha Mãe começou a fazer telefonemas para o Banco de São José e para os seus amigos de maior confiança.

Ao telefone, lembro-me, começava por dizer que tinha recebido instruções do Ministro para organizar equipas de assistência médica de emergência para imediatamente seguirem para Beja em ambulâncias rápidas (1). Sabia-se, apenas, que tinha havido uma revolta no quartel, com intenso tiroteio e que havia mortos e feridos para socorrer. Ignorava-se a sua verdadeira magnitude. Sabia-se, igualmente, que o antigo Hospital da Misericórdia de Beja não tinha meios para responder à situação.

Meu Pai seguiu, pouco depois, para São José para afinar as orientações com os seus Colegas. Como médico internista dos Hospitais Civis de Lisboa tinha-se dedicado, com igual paixão, à organização e administração de serviços.
Já em 1954, tinha sido nomeado para reorganizar o Hospital de Santa Marta na sequência da abertura do Hospital de Santa Maria e da transferência de professores, estudantes, médicos, enfermeiros e doentes para o novo Hospital. Era muito respeitado nestas suas “duplas” funções de médico e organizador de serviços hospitalares.

A Revolta de Beja tinha sido planeada por Humberto Delgado. Pretendia a partir daqui conseguir a sublevação de outros regimentos e unidades das Forças Armadas e fazer cair Salazar. O assalto não correu bem. O insucesso, muito provavelmente, terá tido como explicação principal a falta de comunicações, apesar de Delgado ter acompanhado o assalto a partir de Vila de Frades, aldeia a 25 quilómetros de Beja (2).

Como se sabe, durante o Assalto, o então subsecretário de Estado do Exército, tenente-coronel Jaime Filipe da Fonseca, foi morto pela GNR, por razões nunca inteiramente esclarecidas.

Só percebi a sequência integral do que se passou naquele Primeiro de Janeiro de 1962 depois da chegada da Equipa de Emergência de São José ao Hospital da Misericórdia de Beja, muitos anos depois, quando aí exerci funções de delegado de saúde, em 1976. Foi o médico bejense José Maltês que me relatou pormenores que completaram os meus conhecimentos. Contou-me a luta que manteve com a PIDE e o apoio que recebera de meu Pai pela linha telefónica que os ligava em permanência. A questão central colocou-se, sobretudo, no plano da ética porque, por um lado, a PIDE pretendia interrogar o capitão João Varela Gomes antes da intervenção cirúrgica, visto que queriam resultados imediatos da investigação e, também, porque os agentes receavam que a operação a Varela Gomes não tivesse sucesso e, portanto, ficariam sem informações sobre a Revolta. Pretendiam saber quem chefiava, quem participara, se havia mais revoltosos, onde estavam, etc. Por outro lado, o cirurgião destacado de Lisboa, Sérgio Sabido Ferreira, afirmava que o doente morreria se não fosse anestesiado e submetido naquele momento à intervenção. Os médicos recusaram, terminantemente, a entrada da brigada da PIDE no bloco operatório do velho hospital. Opuseram-se aos interrogatórios policiais. Expulsaram os polícias.

Seguramente, a barreira à PIDE com aquela firmeza, que juntou o médico de Beja, o cirurgião chefe do Banco de São José e o director dos Hospitais Civis de Lisboa, não tinha sido prevista pela linha de comando do Regime.

O ministro Martins de Carvalho tinha incumbido a organização da resposta de emergência a uma Equipa de médicos. Médicos que bem conheciam as exigências que a Ética impõe no exercício da profissão. Princípios que não discutiram e que observaram sem hesitações.

O Assalto ao Regimento de Infantaria 3 em Beja na viragem de 1961 para 1962 tem que ser lido no contexto dos acontecimentos históricos que marcam esses anos: a fuga de Cunhal de Peniche no ano anterior, o “Santa Maria” de Henrique Galvão, a tentativa de golpe palaciano de Botelho Moniz, o desvio do avião da TAP por Palma Inácio, a Crise Académica, o Fim de Portugal em Goa e, principalmente, o início da guerra colonial “para Angola rapidamente e em força”.

A revista “Visão História” de Fevereiro de 2011 insere uma interessante entrevista a Varela Gomes, agora aos 86 anos de idade, que exalta a atitude dos seus médicos e a luta que ganharam aos agentes da PIDE em pleno Hospital de Beja. Uns a quererem salva-lo e outros a pretenderem interrogá-lo.

Lisboa, Abril de 2011
Francisco George

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(1) O Serviço de Emergência 115, precursor do INEM, ainda não tinha sido criado.
(2) José Luís Conceição Silva, destacado activista da Oposição e residente na Quinta do Almargem em Vila de Frades, terá organizado o acolhimento ao General que ficou alojado no centro da aldeia na casa dos Raminhos.

1917

Um dia, seguramente muito perto de 1958, numa época política animada pelas candidaturas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, perguntei a meu Pai o que era e o que representava o comunismo. Imediatamente, como que a simplificar a resposta, explicou-me que era o regime onde todos eram iguais, sem pobres e sem ricos. Respondi-lhe, na minha ingenuidade própria da idade, que “então era bom”…

Pouco tempo depois, minha Mãe levou-me de comboio para ver um Tio que estava preso (1). Não sabia bem ao que ia. Deixamos a Estação de Caxias e subimos um caminho de atalho para o portão da prisão. Depois, juntamente com meu Irmão gémeo, lá estivemos no parlatório separados por um vidro. Só mais tarde percebi que esta ida a Caxias seria um complemento à explicação inicial a fim de percebemos que o irmão de minha Mãe não tinha cometido qualquer crime e que simplesmente lutava por aqueles ideais.

Também só mais tarde, como é natural, viria a compreender as origens e as questões associadas ao comunismo. Karl Marx e Friedrich Engels, primeiro. O Manifesto Comunista, publicado em 1848, enunciou claramente que ”A História de toda a sociedade até aqui é a história de luta de classes…opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta…”.

A Revolução Russa em Outubro de 1917 marcou a minha geração de estudante universitário, em Lisboa, nos fantásticos anos 60. Eram as imagens, repetidas inúmeras vezes em revistas (sobretudo francesas), da tomada do poder e da organização dos Sovietes. A foice e o martelo como símbolos a exaltar a aliança de trabalhadores rurais e fabris. Também, a figura inconfundível de Lenine. O exemplo da sua liderança. Em 1936 a Guerra Civil de Espanha e mais tarde, em 1939-45, a vitória dos Aliados contra Hitler e a seguir o Vietname de Ho Chi MInh. Os acontecimentos inesquecíveis da luta armada de libertação de povos, a par da conquista do Cosmos com o lançamento da Laika no Sputnik (1957) e depois com Yuri Gagarine na nave espacial Vostok (1961).

A dimensão estética da Revolução era muito especial. Tinha um imenso poder atractivo. Parecia tudo natural. Era marcada pelos vermelhos e amarelos, mas, igualmente, pelo culto dos teóricos do Manifesto retratados em esculturas e em grandes cartazes. Cenas com trabalhadores e conquistas da Revolução eram motivo de constante produção plástica, sobretudo pintura e escultura. Até uma locomotiva podia ter um valor simbólico na Revolução.

Em 1972 estive em Moscovo e Leninegrado (2). Na capital impressionou-me o ritual da longa fila para visitar Lenine embalsamado no famoso Mausoléu junto ao Kremlin. Só noivos e delegações oficiais ultrapassavam aqueles que se alinhavam até à entrada. Esperei duas horas para ingressar na sala solene. Visitei o Museu da Revolução onde, pela primeira vez, vi uma película de cinema com Lenine. Imagens originais que, agora, estão aqui disponíveis (3).

Em Leninegrado revivi o itinerário dos revolucionários do Instituto Smolny ao Palácio de Inverno.

Em Portugal, o silêncio em redor deste “Novo Mundo” só era ultrapassado por quem podia sair e viajar. A partir de Paris, por exemplo, era fácil. Eram muitas as excursões organizadas a preços módicos para visitar a então URSS. Era parte da propaganda.

Tudo isto representava para os muitos jovens o sonho de uma Sociedade Nova constituída pelo Homem Novo.

Desde há muito, reconheço, porém, que a realidade não reflectiu aquele sonho inicial. Utopia.

O sistema político de um Estado tem, necessariamente, de assentar em valores e princípios democráticos indissociáveis da liberdade e de garantias individuais para todos os cidadãos. Justiça social. Humanismo.

Ora, não foi, como se sabe, o que aconteceu na ex-URSS de 1917. A queda do Muro era, portanto, inevitável. Sublinho inevitável.

Lisboa, Fevereiro de 2011
Francisco George

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(1)  Refiro-me a Rui Moura, irmão de minha Mãe.
(2) Obtive autorização especial da PIDE para poder efectuar a viagem à URSS só depois do Director da Faculdade, Professor Cândido de Oliveira, ter subscrito uma declaração que assumia a responsabilidade pela minha deslocação e regresso.
(3) Reprodução devidamente autorizada por Costa do Castelo Filmes, LDA.