O Segredo dos Gémeos[1] (I)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 30 março 2022

Como se sabe, no âmbito da investigação criminal conduzida pela Polícia Judiciária (PJ), é necessário, muitas vezes, recorrer ao laboratório científico para os peritos poderem identificar um suspeito através de análises ao ADN, por exemplo, em amostras de sémen, de saliva num copo de água por ele utilizado ou numa gota de sangue.

Este procedimento, como meio de prova, baseia-se no princípio que cada pessoa tem um determinado ADN que é diferente de outras. Ora, assim sendo, quando o ADN analisado tem correspondência ao do alegado criminoso, a Acusação deduz que o resultado da análise é um meio de prova a apresentar ao Tribunal. É quase uma metodologia certeira. Infalível?

Exemplifique-se, em termos de pura ficção.

O José Silva é suspeito de cometer um crime por, alegadamente, durante a noite, ter arrombado e furtado joias de um cofre de uma ourivesaria em Lisboa. Os investigadores da PJ ao encontrarem beatas de cigarros deixadas junto do local recolheram-nas e enviaram para pesquisa laboratorial que certificou que o ADN encontrado era igual ao do José Silva…

Mas!

Mas, entretanto, os agentes souberam e confirmaram que o José Silva tinha um irmão gémeo idêntico, chamado Manuel. Repentinamente, surgem dúvidas. Um abalo na investigação. Grande confusão. Muitas interrogações. Terá sido o José? Ou o Manuel? O que fazer? Foi, então, que o chefe de brigada dá ordens para reverem as imagens da videovigilância que mostram o “José” a entrar na ourivesaria. O investigador principal, subchefe da mesma equipa policial, verifica, desolado, que o Manuel é igual ao José e que os fotogramas do sistema de segurança não conseguem distinguir se é um ou o outro. Eram como duas gotas de água. Iguais. Tal como o ADN. Nem os pais os distinguiam…

Precise-se, agora, em termos científicos.

Nas mulheres em idade fértil, o ovário, estimulado por hormonas, liberta um óvulo em cada ciclo. Após a ovulação, dentro do período de 24 horas, esse óvulo pode ser fecundado por um espermatozoide. Nesta situação, logo de seguida, inicia-se a formação do embrião (o ovo fertilizado divide-se em 2, depois em 4, 16, 32…).

Imagine-se, de repente, sem qualquer explicação, absolutamente devido a simples casualidade, esse embrião divide-se ao meio e que cada metade prossegue a multiplicação celular, desta vez cada qual por seu lado. O mesmo embrião gera, assim, dois. O mesmo património genético dá lugar a dois iguais. O ADN do primeiro passa a ser o mesmo de dois embriões e, portanto, depois, os genes são comuns em dois fetos, duas crianças, dois jovens e dois adultos…

Em resumo, é este o processo de formação de gémeos idênticos, também designados como verdadeiros ou univitelinos.

Para além da aparência semelhante e dos genes serem análogos, o sentir, no plano psicológico, de dois gémeos assume características muito especiais. Antes de tudo, a inabalável solidariedade que, habitualmente, os une (ainda mais do que a união entre dois simples irmãos).

PS: O ADN identificado na saliva dos cigarros será do José ou do Manuel? Atendendo à igualdade do ADN e, também, às imensas parecenças físicas quer da expressão facial, da corpulência, da forma de andar e até do tom de voz, como resolver a investigação policial dos irmãos gémeos idênticos?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] O autor, declara, para os devidos efeitos, ter um gémeo idêntico.

Tuberculose

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 24 março 2022

Hoje, 24 de Março, assinala-se o Dia Mundial da Tuberculose em sessão pública promovida no Instituto Ricardo Jorge, organizada em conjunto com a DGS. A ideia será realçar a importância que a doença ainda representa como problema de Saúde Pública.

É bom que aconteçam estes dias comemorativos. No caso da tuberculose é preciso relembrar e refletir nas conquistas alcançadas recentemente. Mas, é necessário continuar. Não desistir. Ganhar ambição.

Ora, ao longo dos anos, a tuberculose foi, justamente, considerada como uma doença major killer, associada à pobreza e às classes trabalhadoras (mineiros, em particular), mas que não poupava famílias de altos rendimentos.

Sabe-se, desde o anúncio, a 24 de Março de 1882, da descoberta pelo cientista alemão Robert Koch que a tuberculose é provocada por uma bactéria com a forma de bastonete (bacilo). Por esta razão, passou a ser designada como Bacilo de Koch ou, simplesmente, por BK.

A doença, em regra, evolui com acentuado emagrecimento, acompanhado de sintomas e sinais respiratórios.

Antes da era dos medicamentos específicos, os doentes com tuberculose eram internados em sanatórios para evitar a sua transmissão e proporcionar alívio da sintomatologia pelo repouso e pelas condições climáticas envolventes.

Em 1921, os franceses Calmette e Guérin prepararam a vacina que passou a ser denominada por BCG (iniciais de Bacilo de Calmette e Guérin).

Em 1943, a estreptomicina foi descoberta pelo ucraniano Selman Waksman.[1] Foi o primeiro antibiótico eficaz para tratar a tuberculose. Um imenso avanço que marcou a evolução do seu controlo: antes e depois da estreptomicina.

Porém, a partir de 1980, a emergência da pandemia de SIDA, ao provocar a deficiência das respostas imunitárias, esteve na origem do recrudescimento da tuberculose.

Em Portugal, em 2006, logo a seguir a ter terminado o mandato de Presidente da República, Jorge Sampaio foi designado pelo então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, como Enviado Especial para a Tuberculose. Sampaio, juntou um meticuloso trabalho político à metodologia médica para prevenir e controlar a tuberculose. Fez advocacia no sentido do desenvolvimento da luta contra a doença, à escala global. No âmbito do programa STOP TB PARTNERSHIP, encontrou-se com estadistas e especialistas, em todo o mundo. Invariavelmente apelava à inovação como prioridade absoluta para resolver o drama humanitário que a tuberculose continuava, inexplicavelmente, a representar.

No seu País, Jorge Sampaio apoiou os serviços do Ministério da Saúde, particularmente através de um fundo que criou para permitir afinar a estratégia do Programa de Luta contra a Tuberculose baseada no diagnóstico e tratamento precoces. Sabia que a tuberculose podia ser curada, ao contrário da SIDA. Gostava de sublinhar o lema “uma vida, duas doenças, uma resposta”, precisamente para realçar a interligação do controlo da tuberculose e da SIDA. As duas doenças “irmãs” como dizia Kofi Annan.

Sampaio, na dimensão política, trabalhou com os ministros António Correia de Campos e depois com Paulo Macedo. Recebeu, também, o apoio dos diretores nacionais do Programa, nomeadamente Fonseca Antunes e Raquel Duarte que acolhiam, com entusiasmo, a divisa do Enviado Especial das Nações Unidas: “fazer mais, fazer depressa e fazer melhor”.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Laureado com o Prémio Nobel da Medicina em 1952.

Cruz Vermelha

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 16 março 2022

A bandeira da Cruz Vermelha é precisamente inversa da bandeira Suíça com o propósito em assinalar a neutralidade. A Suíça, historicamente neutral, ficaria, dessa forma, associada, para sempre, à maior e mais antiga instituição humanitária a nível global. Assim foi decidido no âmbito da I Convenção de Genebra, em 1864, com a intenção em organizar o auxílio expressamente destinado à proteção e tratamento de soldados feridos em combates.[1]

Na altura, os italianos lutavam pela Independência contra os exércitos invasores do imperador austríaco Francisco José. Era o tempo das lutas heroicas de Garibaldi, mas também das óperas de Verdi.

No final da Batalha de Solferino, em 1859, era urgente acudir aos soldados feridos prostrados nos campos ensanguentados. Eram mais de 23 mil. Os relatos da época descreveram, em detalhe, os horrores, as atrocidades e a imensa violência dos combates, então ocorridos, entre as tropas em confronto. Ao todo eram mais de 220 mil militares.   O filantropo suíço Henry Dunant (1828-1910)[2] que, por mero acaso, testemunhou o desfecho do conflito, ao observar o sofrimento de tantos milhares de soldados tomou a iniciativa de promover a mobilização de voluntários civis, residentes nas aldeias limítrofes, para prestarem socorro e acolherem todos os feridos. Todos, sem distinção de derrotados e vitoriosos. Todos, sem atender à nacionalidade. Todos, católicos, protestantes ou ateus. Todos, sem qualquer discriminação. Todos, eram seres humanos, estropiados, em grande sofrimento, longe das famílias. Todos, feridos durante os combates, em nome da Pátria. Todos, vencedores e vencidos.

Em Solferino, os apoios rapidamente organizados por Henry Dunant no final dos pavorosos embates entre os exércitos, estiveram na génese dos sete princípios que continuam a regulamentar as ações conduzidas pela Cruz Vermelha: humanidade, imparcialidade, neutralidade, independência, voluntariado, unidade e universalidade.

Agora, Março de 2022, perante a manifesta desumanidade da invasão das tropas da Rússia na Ucrânia, as ações de socorro e solidariedade devem ser orientadas, naturalmente, por aqueles princípios. O desastre humano é o mesmo horror. Em tudo comparável, apesar da distância temporal. Ontem, provocado por bombas de pólvora e baionetas. Hoje, por mísseis disparados de sofisticados tanques e aviões.

Nestes dias de guerra, as tréguas para permitir corredores humanitários são vitais. Aliviam o horror generalizado. Água potável, alimentos, roupa e transportes seguros são imprescindíveis para civis, crianças e idosos, mas também para soldados feridos. É esse o papel da Cruz Vermelha.

As constantes e avassaladoras notícias referentes à invasão da Ucrânia pelas tropas russas são geradoras de sentimentos de solidariedade. Ninguém pode ficar indiferente. Não é aceitável que sejam as bombas a resolver conflitos. Não é possível defender a desumanidade e a perversidade das guerras.

Então, o que fazer?

Não será altura de exigir o respeito pelos princípios da Cruz Vermelha e da Convenção de Genebra?

Não será altura de introduzir reformas urgentes na ONU, principalmente no Conselho de Segurança?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Hoje, a Convenção de Genebra protege soldados feridos ou doentes e também civis e prisioneiros de guerra.

[2] Laureado com o Prémio Nobel da Paz em 1901.

 Demências

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 09 março 2022

As demências representam, reconhecidamente, um preocupante problema de Saúde Pública, não só atendendo à frequência e complexidade do tratamento, como também às dificuldades que colocam nas dimensões familiares e comunitárias. Constituem uma epidemia que as sociedades modernas e democráticas não podem ignorar.

Pela frequência e magnitude que já exibem, as demências são consideradas desafios prioritários, quer em termos de prevenção quer de diagnóstico precoce e terapêutica. É, para tal, absolutamente necessário mobilizar mais meios. Antes de tudo, são indispensáveis mais conhecimentos científicos, tanto sobre a sua génese e a possível componente hereditária, bem como sobre prevenção primária, diagnóstico clínico e tratamento medicamentoso.

É cada vez mais urgente descobrir novas abordagens, soluções e respostas, incluindo sociais. Para tal há que investir. Investir muito mais. O Estado e os sectores privado e social são convocados a tudo fazerem para colocar o controlo das demências nas respetivas agendas. Inadiável.

As demências, se bem que apresentem quadros clínicos semelhantes, englobam doenças distintas, sendo a mais célebre a doença de Alzheimer. Mas, também, são frequentes a demência com corpos de Lewy (causada por depósitos anormais de proteína, com forma esférica, nas células nervosas) e a Vascular (associada a acidentes vasculares cerebrais devidos à aterosclerose ou à hipertensão arterial). A mais comum e “popular” das três síndromes demenciais é, sem dúvida, a primeira.

Apesar de origens diferentes, as demências têm, clinicamente, sintomas e sinais análogos, expressos pela diminuição progressiva da capacidade intelectual, quase sempre lenta, com perturbações da memória, do pensamento e dificuldade de aprendizagem.

A relação proporcional entre a frequência das demências e a idade dos doentes está bem estabelecida, incluindo para a população portuguesa. Repare-se que no grupo de idades entre 65 e 74 anos a prevalência é de 2 %, mas que cresce para 30 % – 40 % acima de 85 anos de idade.

Estudos recentes indicam que haverá uma certa predisposição familiar, pelo que filhos e netos de doentes com demência poderão ter maior probabilidade de adquirirem a doença.

Por outro lado, a relação da incidência das demências com determinantes sociais foi comprovada pelo médico epidemiologista inglês Michael Marmot. Foi o primeiro a demonstrar, cientificamente, que a demência ocorre com mais frequência e mais precocemente em pessoas pobres. Comparou duas amostras aleatórias e representativas de dois grupos diferentes da população: uma formada por pessoas com altos rendimentos familiares e outra composta por pessoas comprovadamente pobres. Observou que os primeiros sinais de perturbação cognitiva ocorriam 15 anos mais tarde nos indivíduos pertencentes à primeira amostra, isto é, a correspondente às classes altas. Viria, mais uma vez, a demonstrar a existência de um gradiente social que determina o aparecimento da doença. A pobreza é geradora de doença.

Por tudo isto que acima se resumiu, pode admitir-se que muitas das pessoas atualmente residentes em lares de idosos, a par da idade avançada, terão demências sem serem diagnosticadas e tratadas devidamente.

Compreende-se, assim, que a Saúde Mental deva ocupar uma preocupação central a níveis familiar, social e da política de saúde.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Diretora-Geral da Saúde, Hoje e Amanhã

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 02 março 2022

Desempenhar o cargo de Diretora-Geral da Saúde não é fácil. Antes de tudo devido a uma estranha sensação de responsabilidade que está sempre presente, mas difícil de explicitar. Também, porque essa responsabilidade está associada à emoção que resulta dos compromissos assumidos com a própria História do exercício do cargo.

Foi durante a Grande Epidemia de Peste do Porto, ocorrida no Verão de 1899, que o governo de José Luciano de Castro, no reinado de Carlos de Bragança, decidiu criar a Direção-Geral e nomear como primeiro Diretor-Geral João Ferraz de Macedo (1838-1907), com a incumbência precisa de preparar Lisboa para o eventual abalo que seria provocado pela epidemia de peste. Na altura, na Corte, admitia-se a possibilidade da propagação à Capital da doença que eclodira na Rua da Fonte Taurina, junto à foz do Douro. Problema que, no entanto, não se verificou, porque o então delegado de saúde do Porto, Ricardo Jorge (1858-1939), promoveu um cordão sanitário para cercar a Cidade de forma a impedir a exportação da doença para outras regiões do País. O sucesso do controlo da peste bubónica do Porto foi conseguido, apesar de alguns casos esporádicos terem ocorrido fora da cerca.

Mais tarde, logo a seguir à Proclamação da República, o médico António José de Almeida, então ministro do Governo Provisório[1],  nomeou Ricardo Jorge como Diretor-Geral de Saúde.

Prosseguiu a reorganização dos serviços de saúde pública, antes iniciada por Ricardo Jorge, que criara o Instituto Central de Higiene para desenvolver as pesquisas em bacteriologia, virologia e parasitologia, consideradas absolutamente indispensáveis em Saúde Pública.

Na Pandemia de 1918 foi, novamente, Ricardo Jorge a conduzir as frentes de prevenção e controlo no confronto com as sucessivas ondas da Gripe Pneumónica.

Em 1927, um ano antes de se aposentar, foi também ele que instituiu a obrigatoriedade de declaração médica para determinadas doenças como a varíola, escarlatina, difteria, febre tifoide, tifo exantemático, meningite, peste, cólera e a febre amarela. Com esta medida, fundou a primeira lista de doenças de notificação obrigatória para fins de vigilância epidemiológica. Um avanço extraordinário que conseguiu introduzir.

Ao longo dos anos, antes e depois da Revolução de 1974, sempre sob liderança do Diretor-Geral da Saúde, Portugal viria a resolver múltiplos problemas preocupantes que representaram ameaças à Saúde Pública como o paludismo, gripe Asiática, diarreias agudas, tuberculose, cólera, SIDA, além de muitas outras doenças infectocontagiosas.

O exercício do cargo de Diretor-Geral da Saúde pelos seus titulares tem demonstrado a importância de os mandatos não serem coincidentes com cada legislatura. Desta forma, não se verifica qualquer associação entre a nomeação do Diretor-Geral e a mudança de governo. Assim sucedeu, por exemplo, com Ricardo Jorge que, como se descreveu acima, se destacou ainda na Monarquia e que, já como Diretor-Geral, transpôs o período da I República para o Estado Novo. Arnaldo Sampaio, igualmente, manteve-se no posto antes e a seguir a Abril de 1974.

Assim tem acontecido, em termos históricos. Assim deve continuar a acontecer em nome da independência exigível para o desempenho de cargos públicos desta natureza.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Mais tarde seria Presidente da República entre 1919-1923.

Constitucionalidade da futura Lei de Emergência Sanitária

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 12 fevereiro 2022

A futura Lei de Emergência Sanitária deveria pressupor a limitação do direito à liberdade para possibilitar a prevenção e o controlo de situações que ponham em risco a saúde da população. Para tal, os deputados devem, previamente, promover uma revisão pontual da Constituição.

É uma questão de segurança que não pode ser ignorada pelo Estado nem pela Sociedade.

Exemplifique-se.

Imagine-se o seguinte cenário limite simulado: um doente imigrante, recém-chegado a Braga, vindo de Kinshasa no Congo, adoece subitamente com um quadro de febre alta, dores de cabeça e musculares, seguido de hemorragias. Transportado pelo INEM, é internado no hospital. As análises que faz no laboratório hospitalar e Instituto Ricardo Jorge comprovam o diagnóstico de infeção pelo vírus Ébola. Gera-se grande azáfama à volta dele, médicos e enfermeiros passam, repentinamente, a prestar todos os cuidados vestidos com equipamentos protetores especiais. O doente é de imediato transferido para um quarto de isolamento com baixa pressão que tinha sido planeado para doentes com tuberculose multirresistente.

Ao mesmo tempo, em ambiente de grande agitação provocado pela compreensível ansiedade, o Diretor Clínico telefona para a Diretora-Geral da Saúde que logo a seguir avisa a Ministra. Tomam-se as medidas previstas nos planos de contingência que, anteriormente, tinham sido desenhados, durante as epidemias ocorridas na África Ocidental em 2014 para a eventualidade de um voo aterrar em Portugal com um doente em período de incubação (portanto, sem doença aparente). A Ministra da Saúde, depois de ter contactado o Primeiro Ministro, prepara-se para fazer uma declaração pública.

Antes, porém, inesperadamente, o doente, assustado com o imenso corrupio ao seu redor, declara que decidira sair do quarto do hospital e ir para casa. Insiste que é essa a sua vontade e que nada o fará ficar no hospital.

Perante a imprevista pretensão do doente, gera-se nova confusão. Imenso alvoroço. Os médicos dizem que é impossível e que o doente tem, obrigatoriamente, que ficar internado e isolado. Novo telefonema para a Ministra. Consultam-se juristas e constitucionalistas. São eles que, para espanto de todos, reconhecem que o internamento obrigatório previsto na alínea h), número 3, do artigo 27º da Constituição, é unicamente possível para “portador de anomalia psíquica”, condição que exclui um doente portador de doença infectocontagiosa.

E agora? O que fazer?

Este cenário, ainda que implausível, decorre diretamente da Constituição. Convém recordar que os legisladores constituintes foram eleitos em 25 de abril de 1975, precisamente 49 anos depois da instauração do regime ditatorial que pôs fim à I República ao derrubar o presidente Bernardino Machado, em 1926.

Foram quase 50 anos de repressão permanente. Sem direitos, sem liberdades, nem garantias pessoais. A arbitrariedade de Salazar dava lugar à mais ampla liberdade! Poderá ter sido esta a explicação para os constituintes não terem previsto situações excecionais.

Mas a Constituição tem que ser a base de toda a legislação. Os seus artigos são alicerces da Lei.

Para a Lei de Emergência Sanitária poder restringir a liberdade, quando necessário para impedir a transmissão de doença infeciosa grave, os deputados terão que rever a Constituição. Não será assim?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Qual a sua idade?

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” de 16 fevereiro 2022

Ora, pense na sua idade, mas apenas depois de ler a historieta que a seguir se descreve. Não espere encontrar qualquer semelhança com a idade correspondente à verdadeira. Será um simples exercício mental condimentado por humor. Uma fantasia.

O José e o Manuel são amigos desde crianças. Nasceram no mesmo ano e cresceram em Campo de Ourique. Andaram sempre juntos na escola. Mas, há muito que não se viam e nem tinham tido oportunidade de falar pelo telemóvel.

Por mero acaso, aos 20 anos de idade, em dia primaveril, cruzam-se quando um descia o Chiado e o outro subia. Abraçam-se com visível emoção, sorridentes, manifestam genuína alegria pelo reencontro. O José vira-se para o Manuel e diz-lhe com vigor:

– Ó Manuel, tens que conhecer a minha namorada! É lindíssima! É única! Verás que tenho razão! Morena de olhos verdes! Exótica! Muito meiga! Associa uma rara beleza à inteligência! É um espanto de simpatia! Está no terceiro ano de Medicina! Tens que a conhecer! Sem demoras!

– Já estou ansioso por conhecê-la, respondeu o Manuel.

Os mesmos amigos, que há muito não se viam, encontram-se, de novo, aos 40 anos. Estavam em filas distintas à espera de chegarem à bilheteira dos cinemas do Corte Inglês. Abraçam-se, comemoram ali mesmo o encontro, fazem uma festa, falam tão alto que até assustaram as outras pessoas por perto. Eis senão quando, diz o José para o Manuel:

– Ó Manuel, ainda bem que te vejo, estava há meses para te telefonar, era para te dizer que sei de um novo restaurante. Que classe! No mínimo deverá ganhar três estrelas Michelin! Ambiente único! As mesas perfeitas! Design irrepreensível! Moderno! Cores agradáveis! Tudo a condizer! Iluminação quente! Lareira a lenha, vê lá tu! Até se ouve crepitar! Tem, também, um pátio magnífico! Os empregados são todos muito atenciosos, mas não exageram. Os pratos do dia são excecionais! As entradas superam as expectativas! Nem fales das sobremesas! Carta de vinhos completíssima! Deverás ir sem demoras! Não podes falhar!

– Já estou ansioso por conhecer essa maravilha, respondeu o amigo.

Anos mais tarde, também sem planos previamente combinados, encontram-se, inesperadamente, na sala da vacinação montada à pressa na Cidade Universitária para fazerem a quarta dose da vacinação contra a nova variante Ómega da Covid-19. Já tinham 60 anos de idade. Cumprimentam-se com a habitual exuberância. Grande satisfação pelo feliz encontro para poderem matar saudades. Na ocasião, espontaneamente, diz o José para o Manuel:

– Ó Manuel, sei de um médico! Tens que lá ir! Um especialista a sério! Um tipo sai da consulta dele logo diferente! Parece outro! Desaparecem os problemas! Não deve haver outro pelas redondezas!  Diria mesmo que é uma eminência! Vê lá tu que até tem acordo com ADSE e seguros. A marcação feita online é facílima!

– Já estou ansioso por ir à consulta dele, disse o Manuel em tom decisivo, para depois, arrependido, acrescentar:

– Ó José, olha que o meu médico de família da minha Unidade de Saúde Familiar também é magnífico. Ele, enfermeira e pessoal são excelentes!

Moral da história:

A data indicada no Cartão de Cidadão pode não ser a certa! As idades mais marcantes na vida dos homens são três: a das mulheres na juventude; a dos restaurantes na idade adulta; e, por fim, a dos médicos antes do começo do envelhecimento inadiável.

Francisco George

Bactérias & Vírus, Elefantes & Formigas

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” de 9 fevereiro 2022

Para descrever agentes infeciosos tão diferentes como bactérias e vírus, a título meramente pedagógico, começa-se por resumir a célebre fábula do elefante e da formiga que, apressadamente, caminhavam, lado a lado, em plena savana africana: Eis senão quando, já no fim da estrada de terra batida, antes de chegarem ao lago para onde se dirigiam, a formiga olha para trás e diz para o elefante:
– Oh Elefante, repara na poeira que nós os dois levantámos!

Serve a historieta para retirar como lição moral que a estranha exclamação da formiga, se bem que hilariante, era verdadeira. Tinha toda a razão, visto que eram os dois que estavam implicados na formação da imensa poeirada. Os dois, sublinha-se, apesar das proporções causais serem muito distintas!

Ora, as bactérias e os vírus são, ambos, agentes patogénicos capazes de provocarem infeções e doenças. Salvo os exageros da comparação com a narrativa acima contada, a bactéria seria comparável ao elefante e o vírus à formiga, atendendo às respetivas dimensões, tão acentuadamente diferentes.
Precise-se a distinção.

– Uma bactéria é um ser vivo, pertencente ao Reino Vegetal, que tem parede celular, núcleo e uma multiplicidade de minúsculos órgãos que asseguram a sua vitalidade, desenvolvimento e multiplicação (a bactéria divide-se por 2, 4, 8, 16, 32, 64 …).

A natureza patogénica das bactérias, isto é, a capacidade de poderem provocar doenças, foi descoberta pelo cientista alemão Robert Koch ao demonstrar, em 1877, que o carbúnculo era originado pelo Bacillus anthracis (o célebre anthrax amplamente mediatizado depois do 11 Setembro). Foi, assim, a primeira bactéria associada diretamente a uma determinada doença. Marcou o começo da Microbiologia. Desde então, sucederam-se investigações que viriam a comprovar a causa bacteriana de muitas outras doenças: tuberculose, abcessos, pneumonia, difteria, tétano, tosse convulsa, brucelose, cólera, peste, febre tifoide, certas intoxicações alimentares, meningite meningocócica ou pneumocócica, etc.
As bactérias são visíveis pela microscopia ótica e têm a característica comum de poderem ser tratadas ou curadas com antibióticos.

– Os vírus não têm vida própria. Ao contrário das bactérias, não consomem energia, não têm metabolismo, não se multiplicam. A replicação, causadora de infeção, ocorre depois de penetrarem nas células do hospedeiro.
São partículas, praticamente inertes, que devido às dimensões tão acentuadamente diminutas atravessam os poros de filtros de porcelana (enquanto as bactérias são retidas). Curiosamente, este atributo foi demonstrado pela primeira vez com o vírus da gripe, em Londres, durante uma epidemia do Inverno de 1933. As pesquisas com furões conduzidas pelo médico inglês Wilson Smith ficaram célebres porque evidenciaram, não só a origem viral da gripe e o reduzido diâmetro do vírus, como também a capacidade de originar doença em seres humanos e, também, em animais. Em média, estes vírus medem 100 nanómetros (equivalente a 10 mil vezes mais pequeno do que 1 milímetro). Por isso, apenas a microscopia eletrónica e os novos métodos de biologia molecular podem evidenciar e classificar os vírus.

As infeções e doenças virais são, tal como as bacterianas, igualmente, muito frequentes na comunidade. Como regra, provocam situações agudas, mas, em determinas situações, podem evoluir para a cronicidade.

Para além da gripe, todos os portugueses conhecem numerosas doenças causadas por vírus: infeções respiratórias agudas, poliomielite aguda (também designada por paralisia infantil), sarampo, papeira, rubéola, varicela, herpes, papiloma, SIDA, doença do ébola, dengue, doença do vírus Zika, febre amarela e, agora, Covid-19, entre muitas outras infeções.

Apesar dos antibióticos não terem qualquer efeito terapêutico nas doenças provocadas por vírus, nos últimos 40 anos foram introduzidas novas moléculas antivirais com atividade comprovadamente eficaz, primeiro, no tratamento da SIDA e muito recentemente, já em 2022, para a Covid-19 (Paxlovid, por exemplo, entre outros medicamentos).

Francisco George

Dicionário pós-eleitoral

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” de 7 fevereiro 2022

Tendo em atenção os resultados das eleições legislativas, interpretam-se, em termos simples, alguns temas e conceitos considerados oportunos.

  • Avaliação da gestão da crise Covid-19: etapa indispensável que deverá ser promovida no fim da Pandemia, sem prejuízo de permanente monitorização. Avaliar é obrigatório. É um exercício transparente que deve ser conduzido por peritos independentes, sem as amarras das lógicas de tomadas de decisão definidas pelas lideranças de partidos, tão habituais em sede de comissões de inquérito no Parlamento. Naturalmente, quem geriu o controlo da Pandemia não poderá autoavaliar a sua própria ação. Nestes termos, no final da atividade epidémica, terão que ser outros a olhar para trás com o apoio de três retrovisores: um para a vertente científica, outro para ajuizar a correção das decisões políticas tomadas pelos diferentes órgãos de soberania e, também, um terceiro dedicado à análise das medidas adotadas na ótica da Ética. Assim sendo, o processo da avaliação tanto poderá ser assumido pela Assembleia da República como pelo Governo. Um Comité Independente encarregar-se-á da sua organização com respeito pelos prazos previamente balizados. Os documentos de trabalho elaborados neste âmbito poderão ser compilados e publicados sob a forma de “Livro Branco”. A sua aprovação terá apenas base científica, sem homologação de natureza política.
  • Futuro da Pandemia: ainda não é possível antecipar o fim da Pandemia Covid-19. A presença constante do coronavírus irá representar, a curto prazo, uma fase de endemia. Por outro lado, não é possível prever a eventualidade de uma outra variante poder emergir que, a ocorrer, iria originar nova onda epidémica. Porém, é preciso reconhecer que a população portuguesa está defendida por elevadas taxas de anticorpos, quer em resultado do sucesso da vacinação quer em consequência da circulação do vírus que provocou mais de 2 milhões de infeções. Esta é a equação a ser, novamente, ponderada na Legislatura que agora começa. Serão os deputados e os membros do Governo que terão que assumir a responsabilidade de aprovarem decisões concertadas para prevenção e controlo da crise pandémica. Constata-se, agora, a oportunidade inadiável para aprovar medidas que permitam reforçar a Direção-Geral da Saúde, as unidades regionais de Saúde Pública, bem como o Instituto Ricardo Jorge, incluindo a organização contínua da Reserva Estratégica para Resposta a Emergências (INFARMED) e a mobilização de mais meios destinados ao desenvolvimento do sistema de vigilância laboratorial genómica para monitorização da atividade viral.
  • Saúde Pública: área do conhecimento científico que tem como objetivo o prolongamento da vida, saudável e de qualidade, de todos os cidadãos através da aplicação de medidas preventivas e de promoção da saúde organizadas, em parceria, pelo Estado, pela Sociedade Civil e pela População. Para tal, as Leis que a regulam terão que ser revistas, com caráter de prioridade absoluta, a fim de serem criadas condições de legalidade que visem aperfeiçoar a organização de uma rede de Saúde Pública, necessariamente possante, na perspetiva de assegurar proteção e segurança a toda a população. No seio do Serviço Nacional de Saúde, as infraestruturas de Saúde Pública serão uma componente principal no âmbito de respostas eficazes a eventuais emergências que venham a acontecer.
  • Titular da Pasta da Saúde: tem a competência de conduzir a política de saúde. A sua equipa integra, habitualmente, dois secretários de Estado. Cabe à Titular da Saúde promover a mobilização de recursos para o desenvolvimento do Programa apresentado ao eleitorado. Será, certamente, a Saúde Pública a estar no centro das atenções. Se bem que, no conjunto, tenha respondido com notável qualidade, terá que ser reformada e revigorada. Deu provas inequívocas de competência, mas deverá ser ainda mais pujante. Mais preparada para planear e atrair meios para controlar futuras emergências. Para ganhar. A primeira lição a extrair da Pandemia Covid-19: colocar a Saúde Pública em posição cimeira.

Francisco George

Dicionário para as Eleições

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” de 26 janeiro 2022

Atendendo à iminência de eleições, interpretam-se, em termos populares, algumas expressões utilizadas.

  • Comunicação de risco: processo de grande relevância que visa informar a população sobre os riscos a que está exposta, bem como sobre as medidas de gestão tomadas para prevenção e controlo. A sua credibilidade depende da rapidez, clareza, coerência, consistência e verdade absoluta. A comunicação eficaz sobre a Covid-19 é indispensável.
  • Covid-19: designação abreviada construída a partir da expressão inglesa Coronavirus Disease (doença do coronavírus). A terminação 19 corresponde ao ano da identificação da doença, em 2019.
  • Democracia: sistema de organização política baseado no princípio do poder da população em escolher livremente o Governo. O regime democrático da organização de um Estado foi introduzido na Antiguidade pelo filósofo grego Clístenes no ano 508 antes de Cristo (mas, em Portugal, apenas em 1822).
  • Direita e Esquerda: demarcações políticas criadas durante a Revolução Francesa de 1789, uma vez que nas sessões parlamentares os aristocratas, defensores do Antigo Regime, estavam sentados à direita do presidente.
  • Eleições: foram livres, pela primeira vez, em 1975, para a Assembleia Constituinte, se bem que instituídas, antes, mas com limitações, durante a Monarquia Constitucional, I República e Estado Novo. A Constituição estipula que “o exercício do direito de sufrágio é pessoal e constitui um dever cívico” (Artigo 49º).
  • Endemia: situação, em Saúde Pública, caracterizada pela presença constante de um agente infecioso ou doença em certa população. Por exemplo, o paludismo é endémico na Guiné-Bissau.
  • Epidemia: identificação de um agente ou doença humana com frequência acima da esperada em determinada região, para aquela época do ano. A Covid-19 começou por emergir como epidemia, na China.
  • Maioria absoluta: corresponde à eleição de, pelo menos, 116 deputados. Ao invés da maioria plural, a maioria absoluta pode enfraquecer o poder de fiscalização do Parlamento em relação ao Governo.
  • Negacionista: cidadão que exprime opiniões sem fundamento científico e que nega a existência de factos ou conceitos indiscutíveis no plano experimental. A título de exemplo, é negacionista quem não aceita a realidade da atividade viral da Covid-19 ou quem não reconhece a proteção conferida pelas vacinas.
  • Pandemia: designação dada a uma epidemia que se propaga, simultaneamente, em diferentes continentes. Ao contrário do que aconteceu na Pandemia de Gripe de 1918, hoje, a rapidez de propagação é devida ao tráfego aéreo que liga, no mesmo dia, cidades em todo o mundo.
  • Variante: resulta do conjunto de mutações (alterações) do vírus durante a fase de replicação. As sucessivas variantes são designadas por letras do alfabeto grego.
  • Vírus: agentes infeciosos de dimensão diminuta que podem causar doença em seres humanos, animais ou plantas. Os vírus são partículas sem vida própria, inertes, que não consomem energia, que não têm metabolismo e que não se reproduzem. Depois de penetrarem em células vivas de hospedeiros originam novas cópias (réplicas). O diâmetro de um vírus pode variar entre 20 a 400 nanómetros (um nanómetro é um milhão de vezes inferior ao milímetro). Em média, o vírus da Covid-19 pode medir 100 nanómetros (equivalente a 10 mil vezes mais pequeno do que um milímetro).
  • Voto: decisão, sábia, do cidadão que participa na eleição, em oposição à abstenção, apesar de eventuais dúvidas poderem existir sobre a sua oportunidade. Cada voto na urna contribui para diluir os outros boletins ligados a partidos radicais ou tóxicos para a Democracia. Muitos bons diluem os maus. O voto foi uma conquista necessária ao desenvolvimento social. O voto útil escolhe, como opção inteligente, um partido defensor da tolerância (sendo intolerante com o extremismo). Votar útil deve ter em conta o número de deputados a eleger pelo respetivo círculo. Por outro lado, o abstencionista, ao recusar votar, perde, naturalmente, o direito moral de se pronunciar sobre questões políticas.

Francisco George