Opinião Pessoal XXXIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 2 outubro 2024

Volto, hoje, mais uma vez, a escrever sobre a gripe, visto que é a mais importante e, inexplicavelmente, a menos temida das doenças infeciosas.

Muitos dos leitores poderão ignorar que a gripe é uma doença comum a animais e a seres humanos, motivo pelo qual é designada de zoonose. Sem qualquer dúvida, a gripe é a mais frequente e, simultaneamente, a mais grave das infeções humanas com origem zoonótica.

Sabe-se, com comprovação científica inquestionável, que os vírus da gripe são mantidos na natureza em aves silvestres migratórias, como os patos selvagens, que armazenam e transportam os vírus ao percorrerem rotas imensas, intercontinentais. Enquanto reservatório, as aves estão aparentemente saudáveis, apesar de eliminarem os vírus pelas fezes. Todavia, acontece que esses vírus podem, também, provocar doença em aves (gripe aviária). Quem não se lembra da célebre crise da gripe das galinhas de 1997, em Hong Kong e depois na China?

Nesta situação, as aves são hospedeiros dos vírus e, por isso, constituem um problema de Saúde Pública pela possibilidade de transmitirem a gripe entre várias espécies, incluindo a pessoas. Os vírus “saltam” sem barreiras de uma espécie para outras, dando origem à formação de cadeias de transmissão. Mas, sublinho que, para além de seres humanos, são muitos os animais pertencentes a diferentes classes e ordens que   podem adquirir a gripe: aves de capoeira, porcos, furões, morcegos, cavalos e até tigres como sucedeu, em 2004, quando os tigres de um jardim zoológico de Banguecoque foram alimentados com carcaças de galinhas provenientes de um foco de gripe aviária.

Ora, esta capacidade de a gripe poder incidir em tantas espécies diferentes, impossibilita, como se compreende, a sua eliminação (erradicação). Isto é, no futuro, pela certa, os habitantes do Planeta continuarão a ser confrontados com epidemias sazonais, alternadamente nos dois hemisférios, visto que o vírus da gripe dá a volta ao mundo em 180 dias à procura das estações do ano com climas frios.  Nestes termos, vamos ter, entre nós, a habitual pressão exercida no Serviço Nacional de Saúde devida à próxima época gripal. Protejamo-nos para tal, desde o final do Outono até ao começo da Primavera de 2025, tendo em atenção que os vírus desta estação serão diferentes da época anterior, visto que, entretanto, ocorreram múltiplas mutações.

Conclusão lógica: os vírus da gripe são mais camaleões do que os próprios camaleões porque além da “cor da pele” também mudam a composição genética.

Conclusão oficial: Uma vez que não há Inverno sem gripe e que este ano não será exceção, é preciso atender ao apelo da nossa Direção-Geral da Saúde: “Vá lá vacinar-se”.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XXXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 25 setembro 2024

Em Agosto, nos habituais alfarrabistas de fim-de-semana da feira de Colares, comprei um exemplar das “Crónicas de Fernão Lopes”, da Portugália Editora. Ao ter topado esta edição na banca, no meio de dezenas de outros livros usados, logo decidi pela compra. Ainda por cima, a prosa original de Fernão Lopes estava transposta para português moderno pelo historiador António José Saraiva (1917-1993) que assina, também, a introdução. Aliás, este texto introdutório, só por si, é imperdível, sublinho.

Fernão Lopes (1385-1460) foi Guarda-Mor da Torre do Tombo e por decisão de Dom Duarte acumulou este cargo com o de Cronista-Mor do Reino com a incumbência de escrever a história dos reis de Portugal.

Ora, vou relatar, de forma resumida, um dos episódios aí descritos por Fernão Lopes que foi passado no reinado de Dom Pedro (1320-1367) e que certifica a fama de justiceiro cruel e de déspota do nosso oitavo rei.

Centremo-nos na Idade Média e atentemos no rigor da sentença aplicada por iniciativa própria do rei, tal como é descrita no texto de Fernão Lopes:

“Como El-Rei mandou capar um seu escudeiro porque dormia com uma mulher casada”:  Dom Pedro, ao saber que o seu escudeiro Afonso Madeira seduziu Catarina  que era uma mulher “briosa, louçã, e muito elegante, de graciosas prendas e de boa sociedade”, mas que era casada com o corregedor Lourenço Gonçalves da corte do rei “mandou-o tomar na sua câmara e corta-lhe aqueles membros que os homens em maior apreço têm. Afonso Madeira foi pensado e curou-se, mas engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos com o rosto engelhado e sem barba. Morreu depois, de sua morte natural”.

Conclusão médica: a pena de castração aplicada pelo rei Dom Pedro a Afonso teve como consequência impedir a secreção fisiológica de testosterona que é a hormona masculina produzida pelas células de Leydig dos testículos. A descoberta da testosterona foi possível apenas em 1935. Como se sabe é a hormona responsável pelas características masculinas, incluindo o crescimento dos pelos e da barba. Compreende-se, assim, que o “pobre” do Afonso Madeira tenha perdido a barba.

Conclusão civilizacional: a crueldade do castigo imposto pelo rei Dom Pedro ao seu escudeiro Afonso Madeira fez-me lembrar, por associação de ideias, o atraso civilizacional que representaria a aprovação de penas semelhantes para determinados crimes de natureza sexual, ainda hoje defendidas por alguns políticos retrógrados. Por isso, é importante salientar que Fernão Lopes relata este episódio que aconteceu há mais de 660 anos, na Idade Média, portanto.

Conclusão moral: Pedro I, casado Constança, foi amante de Inês de Castro e de outras mais.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XXXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 18 setembro 2024

Precisamente dentro de um mês terá lugar, em Coimbra, o “Encontro para o Envelhecimento Protegido” organizado pela Sociedade Portuguesa de Saúde Pública.

É sabido que o envelhecimento da população é uma mudança real. Todos reconhecerão que não é um fenómeno súbito. Bem pelo contrário, é um processo progressivo e imparável que foi desde há muito tempo antecipado. Ano após ano, há cada vez menos crianças e cada vez mais idosos, em termos proporcionais, no conjunto de todas as pessoas que residem em Portugal.

Hoje, os habitantes com idades de 65 e mais anos são cerca de 2 milhões e meio, o que representa quase 25% da população total. Por outras palavras, um em cada quatro residentes é considerado cronologicamente como “idoso”, mas apenas por ter nascido antes de 1959. Porém, esta não é a maneira correta de analisar a questão porque o envelhecimento não coincide com a idade assinalada pela data de nascimento. O envelhecimento é uma sequência de alterações biológicas influenciadas por múltiplos fatores (ambientais, comportamentos, etc).

Está comprovado que o tempo que cada um de nós tem para viver não foi predestinado à nascença. São muitos os determinantes sociais que influenciam o estado de saúde em cada etapa do ciclo de vida. A este propósito, realço que dois irmãos gémeos idênticos (portanto, com o mesmo ADN) se forem separados e crescerem em ambientes diferentes deixarão de ser semelhantes: um poderá ser velho aos 65 anos e o outro ser ativo aos 85 anos…

Por isso, faz todo o sentido planear e implementar ações capazes de elevarem e conservarem a nossa saúde. Nessa perspetiva, não ignorando a importância da opção por estilos de vida saudáveis, as vacinas possibilitam maior longevidade e mais qualidade de vida. Essas medidas começam logo no próprio dia do nascimento com a vacinação contra a hepatite B, mas prolongar-se-ão ao longo das idades adultas e estendem-se, necessariamente, par além dos 85 anos.

Atualmente, há novas vacinas, obtidas em resultado dos avanços tecnológicos e científicos, que adiam o final da vida, visto que evitam determinadas doenças através da imunização protetora contra infeções quer de natureza bacterianas quer viral.

Sublinho que já estamos na era do ENVELHECIMENTO PROTEGIDO.

Em pessoas mais idosas as complicações graves da gripe podem ser reduzidas pela vacina de alta dose. E, igualmente, a proteção em relação a outras infeções respiratórias, tanto provocadas pelo pneumococo como pelo vírus sincicial respiratório, é uma realidade. Também a zona (herpes zoster) dispõe de vacina eficaz.

Os custos serão compensados pela redução da hospitalização, de cuidados intensivos e de medicamentos. Lógico!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XXXVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 11 setembro 2024

Retomo o tema do cancro.

Nunca é demais insistir que há alguns riscos que predispõem as pessoas para certas doenças oncológicas que devem ser conhecidos na perspetiva de serem tomadas ações preventivas. É um princípio básico porque muitos riscos são evitáveis pelas opções que tomamos no dia a dia, em termos de comportamentos.

Comecemos pelo risco mais falado e, a seguir, pelo menos admitido. Ambos evitáveis, sublinho.

O primeiro é, como todos concordarão, o tabagismo. O fumo originado pela queima da folha o tabaco é forçosamente inalado pelo próprio fumador, mas, igualmente, por quem estiver por perto, sobretudo em ambientes fechados. Está cientificamente comprovado que quando apenas um dos cônjuges de um casal é fumador, a probabilidade do outro não-fumador ter cancro do pulmão também aumenta como resultado do fumo passivo (os ingleses usam a interessante expressão de fumar em segunda mão) que também representa risco. A este propósito, posso testemunhar que tinha um amigo sindicalista que morreu muito cedo devido a um cancro do pulmão, apesar de nunca ter fumado, mas que passara a sua vida a inalar o fumo dos outros durante as longas reuniões noturnas da sua organização. O fumo passivo é uma realidade que tem que ser compreendida. Ainda há dias, interpelei uma jovem mãe que estava a fumar com a sua criança ao colo, apesar de estar numa esplanada aberta. Não resisti. Disse-lhe que estava a fazer mal ao seu bebé e que não tinha esse direito. O meu tom de autoridade terá ajudado a resolver a situação de imediato. Espero que tenha servido de lição!

O outro comportamento de risco, menos percetível, é a exposição ao sol sem camisa T-shirt protetora e sem chapéu de abas largas, tanto na praia como no campo. Todos deviam saber que, pelo menos entre as 12H00 e as 16H00, essa proteção é muitíssimo importante para evitar o cancro cutâneo (melanoma maligno).

Por estas razões, é preciso que todos compreendamos os efeitos dos nossos comportamentos, incluindo da alimentação, no que se refere ao cancro, uma vez que há determinados estilos de vida que encurtam o tempo de estarmos vivos.

Se gostamos de viver não devemos fumar, nem estarmos desprotegidos à exposição dos raios solares.

Mas, já perante a doença, todos sabem que o diagnóstico precoce é fundamental para permitir o início rápido da terapêutica.

Ora, no começo, o tratamento do cancro estava limitado à cirurgia e só depois surgiram, sucessivamente: a radioterapia, quimioterapia e mais recentemente a imunoterapia e a terapia celular.

Mas, a inovação atual está associada a custos muito elevados destes medicamentos que representam montantes incomportáveis para os orçamentos dos hospitais.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XXXV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 4 setembro 2024

Férias terminadas, é tempo para retomar as crónicas de quarta-feira.

Irei tentar elucidar algumas noções principais sobre CANCRO, recorrendo para tal a conceitos básicos que serão desenvolvidos com a clareza que conseguir, uma vez que o texto é destinado a todas as pessoas, independentemente da respetiva formação.

Começo pela biologia e terminarei pelos tratamentos inovadores.

Como se sabe, os órgãos do corpo humano são formados por tecidos que integram células que têm características específicas para cada órgão. Por outras palavras, as células do fígado são distintivas do fígado, tal como as células do pâncreas são próprias do pâncreas e diferentes de todas as outras. Isto é, cada órgão tem um tecido composto pelo conjunto das suas células que são inconfundíveis quando observadas ao microscópio.

A célula é uma pequena massa (citoplasma), de dimensão microscópica, envolvida por uma membrana e com um núcleo (imaginemos uma pequeníssima cereja apenas visível ao microscópio).

As células têm vida própria, traduzida pela atividade energética e pela divisão. Em regra, como norma, uma célula divide-se ao meio e dá origem a duas iguais que por sua vez também se dividem (e assim por diante) para garantir a substituição das células que, entretanto, morreram.

Ora, o tumor (ou neoplasia) resulta da multiplicação desordenada das células de um dado órgão. Este processo, denominado por oncogénese, tem duração muito variável, mas, em regra, é lenta, podendo levar anos a dar origem a uma massa visível (tumor).

Antes de tudo, considero oportuno clarificar o significado de tumor: designação médica que resulta do crescimento de um tecido em consequência da divisão descontrolada das células que pode assumir a forma benigna ou maligna. Na primeira situação a localização é circunscrita e não dá origem a metástases.

São muitas as explicações que estão na origem de tumores (causas da multiplicação desordenada das células). A este propósito realço que, cerca de 10% dessas causas são hereditárias, mas que estão confirmadas muitas outras: riscos relacionados com os estilos de vida, com a obesidade, mas também com o ambiente, bem como em consequência da exposição a determinados agentes físicos, químicos ou vivos.

Em relação a estes últimos agentes, está, cientificamente, demonstrada a capacidade oncogénica de certas inflamações provocadas quer por vírus (como o vírus do papiloma humano ou da hepatite B), quer por bactérias (Helicobacter pylori) ou por parasitas (bilharzíase).

Como já vimos, os tumores podem ser benignos ou malignos. Mas, apenas estes últimos são, comumente, designados como CANCRO (cancer em inglês e em português do Brasil).

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XXXIV)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 31 julho 2024

Ainda sobre VIH/SIDA.

Antes de tudo, há que distinguir duas condições diferentes: 1 as pessoas infetadas pelo VIH, mas ainda não doentes; 2 os doentes com SIDA. As primeiras são designadas como seropositivas (não apresentam sintomas) e as segundas têm manifestações clínicas que surgiram no final do período de incubação.

As análises reconhecem a presença de anticorpos contra o VIH no soro das pessoas sero+ (daí a designação sero e de positivo), mas as pessoas não sentem alterações do estado de saúde: estão aparentemente saudáveis, mas podem transmitir o vírus.

Estes anticorpos que circulam no sangue são produzidos pelos glóbulos brancos (linfócitos) depois dos vírus terem penetrado no organismo. É a resposta imunitária de defesa à infeção. As análises comuns revelam a presença de anticorpos (não de vírus), sendo, por isso, necessário dar tempo (algumas semanas) até à sua formação: é o período de janela, caracterizado por análises negativas, mas com a pessoa já infetada.

Ao contrário da generalidade das infeções virais, o VIH ao infetar qualquer pessoa nunca mais será eliminado. A maioria das vezes, a infeção VIH surge no seguimento de uma relação sexual não protegida (quando um dos parceiros está infetado pelo VIH ou doente). 

Preciso.

Todos sabiam, desde cedo, que o risco em adquirir VIH/SIDA é tanto mais alto quanto maior é o número de parceiros sexuais.

Nessa altura, a morte dos doentes era resultado de uma penosa evolução da doença incurável.

A debilidade da imunidade dos infetados pelo VIH e dos doentes com SIDA fez regressar a tuberculose com carater explosivo. 

Passou-se, então, a falar de três grandes epidemias que emergiram quase simultaneamente, mas interrelacionadas entre si. Dir-se-ia, com mais propriedade, que eram tês pandemias, visto que se propagaram ao mesmo tempo em vários continentes.

Essas pandemias eram, na altura, as seguintes:  

1. A seropositividade (pessoas com análises positivas, mas não doentes e sem saberem quando iriam surgir as manifestações clínicas);

2. A doença provocada pela infeção que, na altura, iria, invariavelmente, provocar a morte;

3. A epidemia na dimensão psicossocial representada pelo medo da doença e que motivou comportamentos inaceitáveis de discriminação em relação aos infetados e doentes. 

Em 1987, o novo medicamento (AZT) começou a alterar o panorama. Com a viragem do Milénio aquelas três pandemias viriam a ser controladas. Hoje, a introdução de novos medicamentos permitiu transformar a SIDA: de doença aguda que provocava a morte passou a ser uma doença de evolução crónica (tal como a hipertensão arterial, por exemplo).

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

PS: Estarei de férias em Agosto. Regresso na primeira quarta-feira de Setembro.

Opinião Pessoal (XXXIII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 24 julho 2024

Ainda sobre VIH/SIDA.

Como já escrevi, em Bissau, a notícia da confirmação pela OMS que os mosquitos não transmitiam a “infeção mistério” foi assinalada por um jantar comemorativo. O ambiente do “Hotel 24 de Setembro” era belíssimo. Nesse dia, o gerente, um simpático espanhol das Canárias, esmerou-se na ementa: castanha de caju assada e camarões cozidos, como entradas; depois, serviu sopa de ostras (pitchpach) e chabéu de peixe com arroz branco; no fim, magníficas mangas e papaias. As bebidas incluíam cerveja guineense “Cicer” e sumos tropicais.

Assim sendo, sem os mosquitos como vetores, concluiu-se que a infeção era evitável. Para tal, as relações sexuais com parceiros tinham que ser protegidas por preservativos.

Só mais tarde, em 1983, viria a ser esclarecida a causa que originava a deficiência do sistema imunitário. Essa descoberta deveu-se ao francês Luc Montagnier (1932-2022) que era um prestigiado cientista do Instituto Pasteur de Paris. Foi ele que identificou o novo vírus que tinha a capacidade de invadir e destruir os glóbulos brancos (linfócitos) produtores de anticorpos (por isso, a deficiência do sistema imunitário). Por outras palavras, eram os novos vírus que penetravam e destruíam os glóbulos brancos como se fossem “ladrões a invadirem as esquadras da polícia”, visto que são esses glóbulos sanguíneos que, em condições normais, devem proteger o organismo das infeções (e de doenças oncológicas).

Todavia, a descoberta do francês Montagnier não foi pacífica porque quase ao mesmo tempo o americano Robert Gallo criou um teimoso ambiente de controvérsia à volta da descoberta do vírus ao pretender chamar a si os louros da sua identificação.

Olhando para trás, percebe-se que a acesa disputa entre o europeu e o americano sobre a autoria da descoberta do vírus da SIDA poderá ter sido empolada, mas o certo é que o Nobel da Medicina foi atribuído, em 2008, a Luc Montagnier e não a Robert Gallo. Um desempate tardio?

No começo (1983), os vírus descobertos receberam designações diferentes de Montagnier e de Gallo. O primeiro chamou-lhe LAV (Limphadenopathy Associated Virus) e o segundo, designou o mesmo vírus como HTLV-3 (Human T LInphotropic Virus). Só em 1985 o Comité de Taxinomia decidiu que esses vírus eram idênticos e como tal, passou a receber a denominação oficial de VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana) e a doença que provoca SIDA (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida).

A nomenclatura uniformizada do vírus e da doença a que dá origem, explicita que o vírus infecta seres humanos e que a imunodeficiência é adquirida após a entrada do VIH no organismo.

Mas, o que acontece depois do VIH entrar no organismo?

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XXXII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 17 julho 2024

Continuo o tema VIH/SIDA.

A partir de 1981, multiplicaram-se os casos de doentes graves com síndromes que refletiam fragilidade da imunidade (que fora adquirida sem se perceber a razão).

Se é verdade que os quadros clínicos traduziam a fraqueza do sistema imunitário (que deixara de proteger o organismo de infeções e de cancro) é preciso, também, realçar que a sua causa era, então, inteiramente desconhecida. Uma incógnita surpreendente. Inesperada. Imprevisível.

A primeiríssima preocupação era descobrir se essa nova síndrome seria uma infeção transmissível de pessoa a pessoa e, se assim acontecesse, como se transmitia.

Para criar estratégias de prevenção na perspetiva de poder ser evitada essa infeção era preciso ter resposta à questão: quais os modos de transmissão?

As pesquisas conduzidas em múltiplos centros científicos, sob coordenação da Organização Mundial da Saúde (OMS), iniciaram-se, desde logo. Para tal, foi criado um programa especial que juntou investigadores, médicos, biólogos e epidemiologistas, designadamente europeus e norte-americanos.

Poucos meses depois, percebeu-se que os novos casos estavam associados a relações sexuais, tal e qual como 100 anos antes acontecera com a sífilis.

Também cedo se reconheceu a possibilidade do sangue transmitir a síndrome (através de transfusões ou da utilização comum de objetos cortantes ou perfurantes, por exemplo), bem como das mães doentes poderem transmitir aos filhos durante a gravidez, o parto ou a amamentação (transmissão mãe-filho).

Estabeleceram-se, assim, três vias de transmissão: 1 relação sexual; 2 pelo sangue; 3 da mãe para o filho.

As investigações epidemiológicas da OMS demonstraram, inequivocamente, que os mosquitos não transmitiam esse agente. Se assim sucedesse, isto é, se a picada de mosquito tivesse a possibilidade de transmitir o agente da nova síndrome então tudo teria sido diferente porque ninguém pode evitar a picada de mosquitos (a não ser que viva com fatos de astronauta).

Se, como a febre amarela, o dengue ou o paludismo, os mosquitos fossem capazes de transmitir o novo agente as consequências teriam sido ainda mais devastadoras. Mas, a impossibilidade dessa hipótese foi verificada: a frequência da nova síndrome identificada na população não apresentava diferença em função da densidade de mosquitos existente nas várias regiões investigadas (como os mosquitos multiplicam-se na água, a síndrome teria que ser mais frequente junto dos rios e lagos, em comparação com zonas áridas).

A notícia que confirmou a impossibilidade dos mosquitos transmitirem o “agente mistério” foi logo festejada em jantar especial no Hotel 24 de Setembro de Bissau.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XXXI)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 10 julho 2024

Voltando à SIDA.

Apesar das investigações científicas indicarem que o começo da nova doença terá acontecido, provavelmente, nos anos 1930-1950, a verdade é que apenas a partir de 1981 constituiu motivo de preocupação, atendendo quer à intensidade das manifestações clínicas quer à dimensão explosiva da epidemia.

À gravidade dos casos clínicos em adultos, juntou-se, a nível mundial, a rapidez da sua propagação.

A esse propósito, de forma simbólica, costumo dizer que eu “estava em Lisboa na manhã do dia 1 de Novembro de 1755” para comparar a situação de “autêntico terramoto” que a Pandemia significou em 1981. Nessa altura, eu trabalhava como médico em Bissau, onde vivia juntamente com minha mulher e as nossas três crianças.

Tentarei descrever alguns dos cenários que testemunhei.

A Independência tinha tido lugar há poucos anos. Primeiro, Luís Cabral e, depois, Nino Vieira, tinham erguido o Estado a partir das infraestruturas deixadas pelo tempo colonial e dos apoios da cooperação internacional. As políticas públicas para a saúde obedeciam a um plano para dar resposta aos principais problemas: paludismo, tuberculose, sarampo e diarreias agudas.

Inesperadamente, no final de 1980, foram diagnosticados no Hospital Simão Mendes seis doentes adultos que viriam a morrer de diarreia crónica. Todos os médicos sabiam que a morte por diarreia era frequente em crianças, mas não em adultos (onde é uma doença autolimitada em consequência da proteção do sistema imunitário desenvolvido).

O que teria provocado a morte dos doentes? (Interrogação sem resposta até 1983).

Simultaneamente, verificou-se o aumento inesperado de casos com acentuado emagrecimento, clinicamente inexplicável e o recrudescimento das incidências da tuberculose, pneumonias e de outras doenças que habitualmente não eram observadas em adultos (como herpes zoster e micoses).

Próximo do Natal de 1981, nunca esquecerei o dia em que um guineense, funcionário público, bateu à porta da minha casa. Estava desesperado. Agitadíssimo. Era um jovem (teria 35 anos) que me dizia estar muito aflito porque sentia “bichos a morderem a garganta” e que não podia comer. Com lanterna e espátula examinei a orofaringe do doente e de imediato percebi que era uma infeção por fungos muito semelhante à que habitualmente ocorre em crianças (designada por “sapinhos”), visto que as defesas imunitárias ainda não estão plenamente desenvolvidas. Eram três as diferenças que marcavam o quadro do doente que procurou o meu conselho: 1 era adulto e, como tal, devia ter as defesas normalmente ativas; 2 as manifestações de candidíase oral eram muito extensas, invadindo o esófago; 4 eram resistentes ao tratamento comum.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XXX)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 3 julho 2024

Há 40 anos, a identificação, em Portugal, dos primeiros casos de SIDA irá ser assinalada com iniciativas promovidas pela Direção-Geral da Saúde. Ainda bem que assim sucede. É preciso falar mais sobre a infeção e a doença.

Saber da origem viral e como se transmite é condição principal para a prevenção da SIDA.

Durante estes 40 anos foram alcançados imensos sucessos traduzidos na transformação de uma doença aguda grave (como causa frequente de morte dos doentes) em doença crónica que, em consequência do tratamento medicamentoso inovador, deixou de encurtar a vida dos infetados.

Quer a minha idade quer a minha carreira colocaram-me, por mero acaso, no epicentro da Pandemia VIH. Tudo aconteceu de forma inesperada, em 1980. Surpreendeu os cientistas que, até então, não admitiam a possibilidade de aparecer uma doença que não existia anteriormente. É verdade, ao contrário da gripe, ninguém tinha antecipado a hipótese de surgir uma doença de expressão pandémica com a magnitude e gravidade da nova infeção viral. Sublinho, NOVA, uma vez que antes não se conheciam casos clínicos dessa doença.

Porém, ainda hoje, pouco se sabe como emergiu, quando e qual foi, verdadeiramente, a origem do vírus. Terá sido a partir de mutações ocorridas em vírus que circulavam em macacos ou em outros animais? Ao certo ainda ninguém demonstrou, no plano científico, o que aconteceu.

Também não se percebeu quando ocorreu a nova doença. Mas, se é exato que a epidemia explosiva foi só reconhecida em 1981, também é verdade que há razões para admitir que o seu início remonta aos anos de 1930 a 1950 (como casos esporádicos).

Preciso.

Há duas situações descritas, corretamente estudadas por cientistas, que fazem crer que a “doença mistério”, com as mesmas características de imunodeficiência, começou antes de 1980, em África. Uma delas, refere-se a um jovem marinheiro inglês de 25 anos de idade que estivera na África Austral e que viria a morrer em 1959 com um quadro clínico grave de pneumonia e de cancro (sarcoma de Kaposi), tendo sido autopsiado sem conclusão diagnóstica, na altura. Mais tarde, o médico do doente, ao lembrar-se dessa autópsia, foi investigar as peças congeladas e, com espanto, identificou o material genético do vírus da SIDA.

Um outro caso analisado foi a de uma criança que morreu de varicela (doença benigna), em 1976, filha de um viajante norueguês que tinha estado em África, dez anos antes. Posteriormente, os investigadores admitiram que a causa da morte foi SIDA transmitida pela mãe (que, tal como o pai, morrera de doença compatível com deficiência imunitária).

Mas, o “Grande Terramoto” com epicentro em África só viria a sentir-se depois de 1980.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com