Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 8 janeiro 2025
Recentemente, reli dois magníficos livros que estavam, desde há muito, guardados na estante. Tinham sido comprados por minha Mãe para a biblioteca que organizei em jovem. Refiro-me à “História da Eletricidade Estática” (1954) e à “História do Átomo” (1955), ambos escritos por Rómulo de Carvalho e publicados pela Atlântida, no âmbito da coleção ciência para gente nova.
Foi uma boa ideia que tive para gozar os dias festivos que agora terminaram. Gostei de refrescar a memória relacionada com os alicerces do conhecimento científico daquelas áreas básicas. Prazer tanto maior porque conheci de perto Rómulo de Carvalho (1906-1997). Foi uma personalidade ímpar da Cultura. Professor eminente. Escritor. Poeta. Assinava os textos científicos com o seu nome e os outros como António Gedeão. Na altura, muitas pessoas, certamente, não associavam o poeta que fabricou a “Pedra Filosofal” ao professor de química.
Rómulo e António Gedeão eram muito considerados, o primeiro como pedagogo e o segundo como poeta.
A dedicação de Rómulo de Carvalho ao ensino marcou muitas gerações de alunos, tendo contribuído para elevar a imagem de qualidade adquirida, então, pelo Liceu Pedro Nunes, mesmo para além da sua aposentação.
Morreu aos 90 anos, a 19 de Fevereiro de 1997. No dia seguinte, estive presente nas cerimónias fúnebres que tiveram lugar na Basílica da Estrela. Em última despedida, participei, no meio de imensa multidão, no cortejo a pé que faria uma paragem simbólica na Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Liceu. Alunos, colegas e funcionários públicos acenaram com visível comoção. Tributo público genuíno apenas reservado aos nossos melhores.
Rómulo residia em Campo de Ourique, na Rua Sampaio Bruno, à distância de 15 minutos do Liceu, em andamento normal. Via-o muitas vezes. Ao sair de sua casa dobrava a esquina para a Rua Coelho da Rocha que percorria sem parar. Passava em frente da casa onde vivera Fernando Pessoa e logo depois alcançava o Pedro Nunes, rebordando o muro do Cemitério Inglês.
Ensinava muito. Não só os alunos que frequentavam as aulas, mas também através da prosa que escrevia ao alcance de todos. Um exemplo.
Rómulo e Natália Nunes, juntamente com a filha Cristina, moravam no 3º direito do número 18 da Rua Sampaio Bruno. Era uma casa típica da classe média de Lisboa que algumas vezes frequentei. Lembro-me de espreitar com curiosidade a sala, virada para as traseiras, onde Rómulo escrevia, especialmente depois do jantar. Ao contrário de Natália Nunes, mais divertida, Rómulo não comunicava com os jovens que visitavam Cristina. A sua presença impunha um certo temor reverencial (aborrecimento que seria gerado pela minha mente, claro).
Francisco George
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