Opinião Pessoal CXXIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
22 julho 2026

SOBRE PREVENÇÃO (VII)

Até agora, passei em revista o conceito de prevenção primária que incluiu tópicos sobre estilos de vida e proteção específica. Hoje, descrevo outras categorias preventivas, mas, igualmente, indispensáveis para a conservação da saúde de todas as pessoas. São, no conjunto, essenciais para elevar o bem-estar e a prosperidade.

Começo pela prevenção secundária que é baseada na implementação de ações com o objetivo de diagnosticar doenças ainda no início, a fim de poderem ser tratadas sem demoras. Ou, dito de outra maneira: tudo fazer para possibilitar o diagnóstico precoce e o tratamento rápido (médico ou cirúrgico), logo no princípio, antes de surgirem manifestações ou complicações.

Exemplifico.

O famoso “teste do pezinho”, realizado aos recém-nascidos entre o terceiro e sexto dia após o parto, visa diagnosticar doenças metabólicas existentes que podem ser graves se não forem identificadas e tratadas imediatamente.

Nas idades adultas, os rastreios de base populacional destinam-se à deteção de diversas doenças crónicas, nas respetivas fases iniciais: osteoporose, cancros (da pele, do colo do útero, da mama, da próstata, do cólon e do reto), diabetes e suas complicações vasculares.

Em oncologia, a importância preventiva destas iniciativas fundamenta-se na constatação que o processo de multiplicação desordenada de células cancerígenas é lento. Ou seja, o cancro não surge subitamente, de forma aguda.

Já a prevenção terciária visa eliminar a ocorrência de eventuais complicações a seguir ao tratamento de doenças e evitar a agudização de problemas anteriormente existentes (doenças crónicas). Isto é, está associada à reabilitação e à reinserção na perspetiva individual, familiar, laboral ou comunitária. Pretende reduzir a incapacidade por doença. Para tal, implica a adoção de medidas de adaptação para prevenir o agravamento de situações patológicas diagnosticadas antecipadamente. Neste âmbito, as recomendações ditadas pelos médicos de trabalho (saúde ocupacional) são acertadas na ótica preventiva e da redução de riscos. Um trabalhador que tenha tido, por exemplo, um acidente de trabalho ou sofrido um enfarte do miocárdio, AVC, insuficiência cardíaca ou respiratória pode necessitar de mudar de posto na mesma empresa onde está empregado. Mudança que pode assumir um caráter definitivo, em função das condições de cada caso e que pode exigir formação complementar.

Em conclusão, à exceção dos tratamentos instituídos aos doentes sem precocidade podemos admitir que todas as prestações de cuidados de saúde são preventivas, uma vez que englobam os três níveis de prevenção: primária, secundária e terciária.

Francisco George
www.dossierdelutas.pt

Opinião Pessoal CXXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
15 julho 2026

SOBRE PREVENÇÃO (VI)

Pasteur foi o primeiro a usar a expressão vacina para designar a imunização artificial obtida pela injeção de agentes microbianos que provocam a produção de anticorpos, mas sem causar a respetiva infeção. Homenageou, assim, o médico inglês Edward Jenner por ter praticado a inoculação sistemática da população com a substância obtida das lesões da vaccinia (doença das vacas) na perspetiva da prevenção da varíola.

Ora, na época de Pasteur (segunda metade do século XIX) a preocupação dos cientistas era conseguir atenuar ou inativar as bactérias e vírus, a fim de, uma vez introduzidos no corpo humano, poderem garantir a capacidade de produção de anticorpos específicos, “enganando” o sistema imunitário.

Desde então, muitas doenças passaram a ser consideradas como evitáveis pela vacinação: raiva, tuberculose, sarampo, papeira, rubéola, poliomielite, tétano, tosse convulsa, difteria, gripe, hepatite B, bronquiolite pelo vírus sincicial respiratório, meningites bacterianas, doença invasiva pelo pneumococo, infeção por vírus do papiloma humano, varicela, gastroenterite pelo Rotavírus, zona e COVID-19, entre outras indicadas para determinadas circunstâncias, em particular para viajantes (febre tifoide, hepatite A e febre amarela)  ou, para pessoas grupos de risco (como mpox, hepatite A e para a gripe H5 zoonótica).

Em 2020, o mundo foi confrontado com a emergência de um novo vírus respiratório que no ano anterior tinha surgido na China. Refiro-me à grande Pandemia COVID-19 que tantas medidas dramáticas de controlo impôs: isolamento, quarentena, cercas sanitárias e confinamentos obrigatórios. Eis senão quando, em plena propagação da infeção, uma vacina foi anunciada. Todos nós ficámos impressionados não só pela rapidez da sua preparação, como também com a imensa escala de fabrico pelas empresas farmacêuticas que, em pouco tempo, a colocaram no mercado global.

Para tal, foram essenciais as descobertas realizadas pela húngara Katalin Karikó e pelo americano Drew Weissman que utilizaram uma nova tecnologia para iludir as defesas imunológicas através da utilização de ARN mensageiro: inoculação da proteína que dá instruções às células do organismo humano para fabricarem uma partícula do vírus que as próprias células imunitárias ao considera-la estranha induzem a produção de anticorpos. Conquista científica que justificou a imediata atribuição do Prémio Nobel (2023).

Em junho de 2026, a revista “The Lancet”, depois de biliões de vacinas aplicadas, publicou um estudo que confirma a eficácia e segurança da tecnologia ARNm e a sua utilidade para prevenir mais infeções, cancros e doenças autoimunes.

(continua)

Francisco George
www.dossierdelutas.pt

Opinião Pessoal CXXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
8 julho 2026

SOBRE PREVENÇÃO (V)

Retomo o tema da prevenção primária, no contexto da proteção específica, mas, agora, referente à vacinação que é destinada a evitar infeções provocadas por determinados agentes patogénicos (sobretudo vírus e bactérias).

Desde há muito, a vacinação é reconhecida como indispensável para prevenir infeções pela imunização que induz ao despertar a produção específica de anticorpos protetores pelo sistema imunitário.

Já aqui mencionei o sucesso da eliminação da varíola em todo o Planeta. Em 1980, foi a primeira doença oficialmente declarada como erradicada no seguimento de uma criteriosa campanha conduzida pela Organização Mundial da Saúde. No mesmo sentido, os especialistas em saúde pública estimam que, igualmente, poderão desaparecer da superfície da Terra: a poliomielite aguda (conhecida como paralisia infantil) e o sarampo. Para tal, é necessário que os programas de vacinação sejam cumpridos por cada uma e por todas as pessoas. A este propósito sublinho que a vacinação protege não só quem se vacina, mas também toda a população, atendendo à imunidade de grupo que é conseguida. Ou, dito de outra maneira: a presença de anticorpos em todas as pessoas irá impedir a circulação daqueles vírus, uma vez que os respetivos reservatórios são constituídos exclusivamente por seres humanos que, assim, deixam de ser infetados (tal como sucedeu com a varíola).  Não havendo transmissão dos vírus entre pessoas a doença e os respetivos agentes acabam por desaparecer. Lógico.

Ainda por cima, a vacinação para alguns agentes microbianos é eficaz para prevenir doenças oncológicas como o cancro do fígado (através da vacina contra a hepatite B) e os cancros originados por infeções devidas ao vírus do papiloma humano (associadas à transmissão por via sexual).

A antiga ideia de as vacinas estarem limitadas ao calendário infantil deu lugar ao atual conceito que exalta a oportunidade da prevenção de doenças ao longo de todas as etapas do ciclo de vida, incluindo na fase do envelhecimento.

Preciso.

A imunização para evitar doenças começa antes do nascimento, durante a gravidez, com o objetivo de anticorpos maternos protegerem o recém-nascido (através da placenta). Mas, a seguir ao parto, ainda na maternidade, inicia-se um vasto programa preventivo que visa evitar múltiplas infeções pela vacinação de crianças, jovens, adultos e de idosos (mesmo depois dos 85 anos).

São imensos os progressos científicos e tecnológicos que, recentemente, foram alcançados na preparação de vacinas inovadoras que proporcionam elevados níveis de eficácia e segurança na prevenção de mais doenças infeciosas e oncológicas.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXXVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
1 julho 2026

SOBRE PREVENÇÃO (IV)

No âmbito da prevenção primária retomo hoje o conceito da proteção específica que é alcançada através de medicamentos (habitualmente designada como quimioprofilaxia). Ou, dito de outra forma: perante determinadas circunstâncias concretas as pessoas podem ser protegidas especificamente quer de infeções originadas por certos agentes patogénicos quer de riscos de natureza diferente, incluindo durante a gestação.

Ilustro em três tópicos.

1. Na primeira situação (agentes microbianos), é do conhecimento geral que antes de se viajar para um país tropical (nomeadamente em África), mesmo por curtas estadias, é preciso prevenir doenças endémicas como o paludismo (ou malária) pela administração regular de anti-palúdicos, mas apenas por prescrição médica. Para tal, é preferível marcar uma “consulta do viajante” ou, em alternativa, procurar aconselhamento junto do médico de família. Como sublinhei anteriormente, o paludismo é provocado por um protozoário (plasmódio) transmitido pela picada de mosquito que pode assumir manifestações graves (em particular o paludismo cerebral), motivo pelo qual a quimioprofilaxia é indispensável.

2. No contexto dos cuidados pré-natais, logo no início da gravidez, as normas da Direção-Geral da Saúde indicam esquemas quimioprofiláticos que devem ser cumpridos: ácido fólico para prevenir anomalias congénitas do tubo neural (como a espinha bífida) e suplementos de iodo para prevenção de problemas neurológicos (defeitos do desenvolvimento do sistema nervoso central). Este último pode ser tomado em comprimidos de 200 microgramas de iodo ou pela utilização de sal iodado na alimentação em substituição do sal de cozinha (cloreto de sódio).

3. Na presença de uma explosão ocorrida em central nuclear destinada, por exemplo, ao fornecimento de energia elétrica de uma cidade europeia, alguns perigos da exposição aos riscos radioativos podem ser evitados. Ora, na hipótese de acontecer um desastre desse tipo, os habitantes residentes no raio de 30 quilómetros em redor da central podem ser protegidos por medicamentos de iodo que visam, especificamente, prevenir o cancro da tiroide. O iodo estável assim administrado satura as células da glândula tiroide, impedindo a absorção do iodo radioativo libertado pela explosão (o radioisótopo Iodo-131). Este procedimento preventivo deve ser atendido exclusivamente no seguimento de deliberação conjunta das autoridades radiológicas e de saúde pública da região em causa. Realço que os comprimidos de iodo não devem ser tomados em regime de automedicação, mas apenas depois dos avisos oficiais expressamente emitidos a seguir à explosão.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXXV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
24 junho 2026

SOBRE PREVENÇÃO (III)

Em Portugal, as despesas do Estado com o Sistema de Saúde ultrapassam 17 mil milhões de euros por ano (equivalente a cerca de 90% das receitas arrecadadas pelo IRS). Mas, sublinho que este montante, sem dúvida exorbitante, é destinado à globalidade do setor da saúde sem especificar qual a fração destinada à prevenção. Sabe-se, no entanto, que é exígua. Colocar a prevenção no centro da estratégia das políticas públicas para a saúde continua a ser inadiável. Um dever constitucional.

Ora, as atividades preventivas concretizam-se a vários níveis. Classicamente, consideram-se três categorias de prevenção: primária, secundária e terciária.

Esclareço os respetivos conceitos.

A prevenção primária assume a primazia pela importância que representa no conjunto das ações preventivas, conduzidas tanto pelo Estado como pela população. Visa a adoção pela escolha inteligente de estilos de vida saudáveis. Pata tal, na perspetiva de cada pessoa saber evitar riscos, inclui o desenvolvimento de programas de literacia para a saúde através de informações emitidas por fontes credíveis. Trata-se de um processo em cascata: informação/comunicação/conhecimento/ opção tomada para o modo certo de viver. Ou, dito de outra maneira: tem por principal objetivo a transmissão de informações capazes de gerarem opções por comportamentos sem riscos (sobretudo riscos evitáveis). Logo, tem em atenção a necessidade de propiciar a perceção de perigos decorrentes da prática de determinados comportamentos: alimentação com excesso de calorias, de sal, de açúcar ou de gorduras trans (gorduras modificadas); sedentarismo; abuso de consumo de álcool; exposição ao fumo do tabaco; consumo de drogas psicotrópicas e perturbações do sono.

São, também, exemplos de prevenção socialmente aceites: a proteção solar para prevenir o cancro cutâneo ou o uso de preservativos para impedir infeções por via sexual.

A prevenção primária engloba, igualmente, medidas de proteção específica para certas doenças quer pela administração de medicamentos quer pela vacinação.

Na primeira situação, são de uso comum, desde há muito, as terapêuticas quimioprofiláticas (através de prescrição clínica) de ferro, ácido fólico, fluor, aspirina, estatinas, entre outros exemplos. São medidas que evitam ou reduzem os riscos de anemia durante a gravidez, de cárie dentária, de acidentes vasculares ou de dislipidémias, respetivamente.

Em Portugal, apesar do clima ser predominantemente soalheiro, a insuficiência em vitamina D é frequente. Constitui um problema que impõe (se confirmada laboratorialmente) a toma suplementar desta vitamina a título preventivo.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXXIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
17 junho 2026

SOBRE PREVENÇÃO (II)

Já aqui acentuei que a adoção de medidas preventivas, tanto pelo Estado como pela população, permite melhorar a qualidade de vida de cada pessoa e prolongar o seu final. Ou, dito de outra forma: possibilita viver melhor e mais tempo. É verdade.  Para isso, é fundamental conhecer e implementar criteriosamente ações que visem promover a saúde e prevenir doenças e suas complicações.

Na tradição portuguesa o conceito de prevenção começou por ser designado como conservação da saúde.

Preciso.

Ainda na Idade Média, as obras do médico português Pedro Julião Hispano (1215-1277), que depois viria a ser o Papa João XXI, marcaram uma nova etapa do conhecimento de então.   Pedro Hispano ao escrever o “Liber De Conservanda Sanitate” já considerava que “diversos padecimentos mórbidos se originam no corpo humano por negligência (…) É mais conveniente prevenir as enfermidades do que procurar posteriormente uma cura que poderá não ser adequada. Uma vez que é melhor preservar a saúde do que lutar com a doença, deve tratar-se da dita saúde” e acrescentava: “Saúde é uma disposição que conserva o que é natural no Homem, segundo o curso da natureza. Pois, como o corpo humano é suscetível de corrupção e está submetido a um fluxo quádruplo, são lhe necessárias regras dos médicos pelas quais se defenda dos acidentes. É que é mais útil prevenir as doenças do que, uma vez contraídas, andar a pedir um auxílio, que provavelmente é impossível.”

Claro que os textos de Pedro Hispano, escritos em meados do século XIII, não fazem agora sentido, visto que na altura resultavam das suas crenças e da experiência pessoal que adquirira como médico, mas sem comprovação científica. Mas, é justo admitir que impulsionou a conceção da prevenção na prática médica.

Quinhentos anos depois de Pedro Hispano, em 1756, durante a época das Luzes, seria outro médico português, nascido em Penamacor, Ribeiro Sanches (1699-1783), a retomar a expressão conservação no livro que publicou, em Paris, intitulado “Tratado da Conservação da Saúde dos Povos”. Para Sanches, a noção de conservação implicaria prevenção das doenças, promoção e proteção da saúde. Foi um dos pensadores mais eminentes do Iluminismo. Não obstante a distância entre Paris e Lisboa e as diferenças filosóficas que separavam Ribeiro Sanches do Marquês de Pombal, as ideias principais da conservação da saúde foram acolhidas em Portugal.     

Porém, apesar dos ensinamentos deixados pelos antigos mestres e do desenvolvimento da Ciência verificado a partir das descobertas de Pasteur e de Koch, a ideia da prevenção nem sempre foi incluída nas agendas políticas da atualidade.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXXIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
10 junho 2026

SOBRE PREVENÇÃO (I)

Todos os especialistas em saúde pública consideram que Portugal investe pouco em prevenção. É verdade. Mas, também, reconhecem a dificuldade em quantificar os montantes provenientes do Orçamento do Estado e dos bolsos dos cidadãos dedicados à prevenção de doenças, de acidentes e de riscos para a saúde.

Por outro lado, admitem a urgência em privilegiar as medidas de prevenção como centro das políticas públicas, não apenas como instrumentos para a promoção da saúde, mas como pilares estratégicos essenciais à sustentabilidade económica do Sistema e do próprio país.

A população envelhecida, associada à elevada carga de doenças crónicas, está na origem da alta pressão exercida sobre o Sistema de Saúde, uma vez que os recursos são limitados. Perante este cenário demográfico, a opção em reforçar os meios para tratar doenças não é uma medida inteligente, visto que existe a possibilidade em evitar que essas doenças aconteçam ou que apresentem complicações graves.

A prevenção das doenças deve ser estruturante, contínua e integrada com envolvimento de todos os setores, todos os ministérios e de todos os departamentos do Estado, a todos os níveis da Administração Pública. Neste sentido, as decisões serão eminentemente políticas, mas sempre baseadas em comprovação científica inquestionável.

A ideia principal é colocar o interesse da saúde em todas as políticas como condição de boa governação. É fundamental assim decidir para responder às necessidades reais da sociedade. Uma prioridade absoluta.

Em 2019, a Pandemia demonstrou que perante uma ameaça real, o Estado é capaz de agir rapidamente, mobilizar recursos adicionais e tomar decisões acertadas. Ao olharmos para trás, percebemos, agora, que essas decisões sucederam com eficácia porque foram assumidas por todos os órgãos de soberania e amplamente participadas.

A meu ver, estas terão sido as maiores lições: rapidez e consistência da comunicação e, antes de tudo, a prevenção (promoção da literacia, vacinação e diagnóstico precoce).

Por isso, a ilação principal terá sido a dimensão política. Mais prevenção e mais vacinação. Proporcionar o envelhecimento protegido. São as estratégias que devem ser realçadas.

Curiosamente, a Itália de Meloni decidiu adotar um novo Plano Nacional de Prevenção para 2026-2031. Um modelo que não pode ser ignorado.  Ora, Portugal e Itália são países muito envelhecidos. Registam elevadas taxas de esperanças de vida, mas com excesso de proporção de anos vividos com doença e incapacidade. Os respetivos sistemas estão confrontados com indefensáveis listas de espera, dificuldades de acesso e escassez de profissionais.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXXII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
3 junho 2026

SOBRE A INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ-BISSAU (III)

Já aqui destaquei que a retirada total do Exército Português da antiga colónia da Guiné, em outubro de 1974, originou a saída simultânea dos médicos, enfermeiros e técnicos de saúde, uma vez que estavam incorporados juntamente com as restantes tropas. A maioria eram milicianos que cumpriam o serviço militar obrigatório.

Como sempre acontecera, prestavam assistência clínica não só aos soldados portugueses aí destacados, mas, igualmente, a civis, incluindo às populações guineenses nas zonas rurais.

Ora, sem médicos, os novos governantes do PAIGC tinham que resolver o problema. Era uma prioridade absoluta.

Naturalmente, os poucos médicos formados durante a Luta foram nomeados para desempenharem altos cargos na Administração Pública, designadamente como diretores-gerais. Era, portanto, necessário mobilizar estrangeiros e organizar o Sistema de Saúde a nível nacional. Para tal, o comissário de Estado João da Costa planeou a colocação dos diferentes contingentes de cooperantes concentrada em localidades distintas umas das outras. Nestes termos, a capital receberia cooperantes cubanos, enviados por decisão de Fidel Castro, logo a seguir à Independência. Era um dilatado número de médicos de todas as especialidades que, desde cedo, passou a garantir o funcionamento do principal hospital de Bissau. Mas, Bafatá funcionaria com as equipas da cooperação da URSS, enquanto que os médicos chineses iriam exercer no hospital de Canchungo.

No âmbito da cooperação bilateral, João da Costa separou, desta maneira, a prestação de cuidados de saúde por equipas: Cuba, URSS e China. Aliás, tinham sido os principais países que apoiaram ativamente a Luta conduzida pelo PAIGC.

A Organização Mundial da Saúde e a UNICEF colaboraram na implementação do programa de vacinação na perspetiva da redução da mortalidade infantil e materna.

Com o novo Portugal, a Guiné-Bissau estabeleceu um mecanismo de assistência médica hospitalar destinado a doentes que seriam evacuados por via aérea, desde que necessitassem de terapêutica especializada por serem portadores de doenças que não podiam ser tratadas no hospital de Bissau.

As agências de cooperação de países, particularmente nórdicos, garantiam o financiamento de projetos inovadores de promoção da saúde focados na universalidade do acesso a cuidados desenvolvidos com a plena participação dos próprios membros que integram as comunidades. Na região de Madina do Boé, o Projeto de Saúde de Base adquiriu expressão modelar. Constituiu fonte de inspiração para as recomendações da célebre Declaração de Alma Ata sobre Cuidados Primários de Saúde, em 1978.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXXI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
27 maio 2026

SOBRE A INDEPEDÊNCIA DA GUINÉ-BISSAU (II)

Em 1980, pela primeira vez, cheguei a Bissau, seis anos depois da Independência. Na altura, senti um pulsar especial traduzido em indiscutível satisfação coletiva. Apercebi-me do clima de confiança que a generalidade da população depositava nos seus dirigentes. Parecia ser expressão genuína do novo sentimento de orgulho nacional.

O Presidente da Guiné-Bissau era Luís Cabral, que partilhava a direção do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) com Aristides Pereira, que, por sua vez, era o Presidente da República de Cabo Verde.

Um e outro tinham sido companheiros de Amílcar Cabral, que fundara, em 1956, o PAIGC e que seria o seu líder até ter sido assassinado a 20 de Janeiro de 1973, em Conacri. Se bem que o autor dos disparos tenha sido identificado (um guineense ex-combatente do próprio PAIGC), os motivos do complot, os objetivos e as circunstâncias da sua morte permanecem por esclarecer.

A eliminação do líder da Luta não impediu a Libertação do país. Apenas oito meses separaram a trágica morte de Amílcar Cabral e a proclamação unilateral da Independência pela I Assembleia Nacional Popular realizada na região de Madina do Boé, a 24 de Setembro de 1973. Mas, só um ano depois, a 10 de setembro, Portugal viria formalmente a reconhecer a Independência e a estabelecer relações diplomáticas com o Governo do PAIGC.

O Presidente Luís Cabral nomeara, então, os membros para integrarem o Governo da República. Singularmente, os titulares das diferentes pastas eram, no início, denominados como comissários e subcomissários de Estado, na perspetiva em ser evitada a pomposa designação de ministros ou secretários de Estado.

João da Costa foi o primeiro governante guineense da saúde. Logo depois de Portugal ter reconhecido a Soberania da Guiné-Bissau, esteve em Lisboa a convite do seu homólogo português, o secretário de Estado Cruz Oliveira. O objetivo era acordar mecanismos de cooperação no domínio da Saúde, uma vez que a saída do Exército Português também esvaziara a administração pública civil, que funcionava na época colonial. Aliás, eram os médicos militares portugueses que, durante as respetivas comissões, asseguravam a assistência à maioria da população. Isto é, dito de outra forma: os médicos e a maioria dos técnicos, que aí se encontravam, saíram de Bissau porque a grande maioria eram tropas portuguesas.

Resolver a inexistência de médicos a prioridade. Para tal, o comissário de Estado João da Costa concebeu um inteligente esquema no âmbito da cooperação bilateral quer com os países amigos durante a Luta quer com o novo Portugal.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
20 maio 2026

SOBRE A INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ-BISSAU (I)

Tal como já antes escrevi, trabalhei, como médico, em países africanos, a partir de 1980 e até 1992.  Conheci, durante esses anos, todas as antigas colónias de língua portuguesa e, também, outras francófonas e anglófonas.

Hoje, o meu depoimento sobre a Guiné-Bissau pretende traduzir o pulsar daquele tempo, marcado por imensa esperança, a seguir à Independência.

A História da chegada dos portugueses remonta a 1446 quando o navegador Nuno Tristão descobriu o recorte continental e as ilhas atlânticas da Costa de África, na zona da foz do rio Gâmbia, que atravessa o Senegal. Porém, nesse mesmo ano, Nuno Tristão morreu, atingido por uma seta, na sequência de ataques comandados pelos guerreiros Mandingas armados de arcos e flechas envenenadas. As suas canoas, muito velozes (pirogas de um só tronco de árvore, como ainda persistem, atualmente), surpreenderam a tripulação e o próprio capitão da caravela. Por decisão do Infante, logo continuaram as explorações marítimas da região. As expedições das caravelas sucederam-se na perspetiva de continuarem o reconhecimento das margens dos estuários dos rios Guineenses. Alcançar e tomar as riquezas naturais ali existentes (como o ouro), a par da captura e exportação de escravos eram objetivos principais para a Coroa de Lisboa do rei Afonso V, justamente apelidado de “o Africano”.

Mas, ao contrário do que sucedeu em Angola e Moçambique, a Guiné-Bissau nunca terá sido verdadeiramente povoada por colonos portugueses, se bem que as suas riquezas tenham sido permanentemente buscadas, desde meados do século XV. Ou, escrito de outra maneira: o colonialismo aconteceu, mas sem colonos provenientes de Portugal, que nunca adquiriram expressão populacional significativa.

Aliás, a este propósito, os historiadores confirmam o insucesso das sucessivas tentativas de fixação de colonos com caráter permanente, em Bissau, incluindo na órbita da feitoria criada expressamente para esse fim, em 1696, que era dotada de fortaleza, igreja e hospital. O clima inóspito e as doenças tropicais (nomeadamente o paludismo) terão sido os motivos do afastamento de colonos europeus.

Durante os 527 anos, que separam a descoberta de Nuno Tristão e a proclamação da Independência, foram poucas as famílias de colonos que procuraram as terras guineenses para viverem, à exceção de alguns comerciantes que aí se estabeleceram no período pós-escravatura (depois de1869). Neste panorama, destacou-se a Casa Gouveia, fundada em 1879, especializada no comércio de produtos agrícolas (palmito, coconote e amendoim), que, em 1921, viria a ser adquirida pela CUF.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com