Três Passarões

Há 100 atrás, o Jardim da Parada, em Campo de Ourique, foi palco para prolongadas conversas entre três jovens estudantes do Liceu Pedro Nunes: Eduardo, José e Carlos. Inseparáveis, desde então, aí encontraram o ambiente propício para afinarem convergências de pensamento e planos de vida para o futuro.

Até 1926, durante a adolescência, gozaram a liberdade da I República e depois resistiram ao Estado Novo de Salazar e da Igreja Católica, que o apoiava. Regozijavam-se por terem reconhecido Bernardino Machado a beber chá na “Tentadora”, à Rua Ferreira Borges.

Eduardo viria a ser engenheiro civil na Câmara Municipal; José e Carlos foram ambos médicos dos Hospitais Civis de Lisboa.

Casados, respetivamente, com Helena, Deolinda e Isabel, os filhos dos três casais, curiosamente, viriam a ter todos os mesmos nomes, por igual ordem de nacimento.

Cultivavam a amizade em todas as ocasiões. Promoviam convívios ao ar livre no pinhal de Oitavos, ou em encontros festivos organizados em casa de uns e outros. Tudo constituía motivo para se juntarem, incluindo o sucesso do foguetão Sputnik com a cadela Laika a bordo ou para celebrarem o Santo António no exíguo pátio da casa de Eduardo, à Rua Santana à Lapa, que era exímio a lançar foguetes de fogo de artifício.

No início dos anos 50, reclamaram para eles a designação de “Passarões”, muito provavelmente para assinalar os voos livres que todos ambicionavam praticar.

Em férias, Eduardo preferia Oeiras e os amigos José e Carlos, a linha da Praia da Maçãs e Azenhas do Mar.

Para as filhas e filhos foi a época da praia, do creme Nívea, de nadar nas águas salgadas das piscinas, das bicicletas pasteleiras, do cinema ambulante e, também, dos primeiros bailes de garagem ao som do gira-discos. Era outro tempo. Diferente. Bom.

Novembro, 2025
Francisco George