SIC, 23 de setembro de 2019
Francisco George relembra a perda da mulher e da filha no mesmo dia: “Elas vinham ter comigo para jantar…”
17 de setembro de 2019 | Auditório do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra
Posted by Serviço Nacional de Saúde on Tuesday, 17 September 2019
In “Notícias ao Minuto”
15 de setembro de 2019
Discípulo do fundador do Serviço Nacional de Saúde António Arnaut, Francisco George testemunhou e participou na construção do SNS ao qual dedicou a sua vida profissional para ajudar a promover a saúde da população.
Antes da criação do Serviço Nacional de Saúde em 1979, Francisco George já era médico e desempenhava funções de delegado de saúde em Beja, no Baixo Alentejo, onde havia muitas mortes maternas.
Foi como delegado de saúde que conheceu António Arnaut, uma vez que Beja foi um dos três distritos-piloto do país onde “construíram o Serviço Nacional de Saúde”, recordou Francisco George, que foi diretor-geral da Saúde durante 12 anos.
“Trabalhei muito de perto com ele, fiquei sempre muito impressionado com a forma determinada como tomava uma decisão e como esta era concretizada sem demoras”, disse o atual presidente da Cruz Vermelha Portuguesa em entrevista à Lusa.
Os tempos que antecederam a publicação da lei que criou o SNS, a 15 de setembro de 1979, foram atribulados e marcados por vários momentos históricos.
Tudo começou em 1974 com a lei do Movimento das Forças Armadas que atribuía ao governo provisório a missão de lançar as bases para a criação de um serviço nacional de saúde ao qual todos tivessem acesso, lembrou Francisco George.
“Depois vem a Assembleia Constituinte e a aprovação definitiva da Constituição de 1976 que determina que os portugueses têm direito à saúde e esse direito é realizado pela criação do Serviço Nacional de Saúde”, recordou.
Mas foi em 1978 que o projeto inicial do despacho, assinado por António Arnaut, então ministro dos Assuntos Sociais do governo de Mário Soares deu entrada no parlamento e constituiu uma verdadeira antecipação do SNS, abrindo o acesso dos serviços médico-sociais a todos.
A construção do SNS é conseguida nos sete meses do ministério da António Arnaut em 1978, mas só viria a ser criada na Assembleia da República no Governo de Maria de Lurdes Pintassilgo.
“Foram sete meses de grande dinamismo, sete meses de brasa, fantásticos”, lembrou Francisco George.
Recordou ainda o histórico dia 15 de setembro. Nesse dia, António Arnaut, então vice-presidente da Assembleia da República, substituiu de “forma simbólica” o então presidente Teófilo Carvalho dos Santos, que lhe cedeu o lugar para que pudesse “aprovar a lei que hoje tem o seu nome”.
Francisco George sublinhou que a lei tem o nome de Arnaut, sobretudo porque em 1978 “ensaiou com grande sucesso a implementação das primeiras medidas do SNS”.
Em quatro décadas, as melhorias nos cuidados de saúde foram fundamentais: Portugal “estava entre os mais atrasados dos atrasados países europeus e colocou-se, em 40 anos, num pódio que ocupa os três primeiros lugares a nível europeu, sobretudo no que respeita à mãe e à criança”, frisou.
Para este resultado, contribuiu o “trabalho notável” na área da saúde materno-infantil definido por “um grande médico português”, Albino Aroso, considerado o pai do planeamento familiar.
“As mulheres portuguesas, as mães, muito devem nestes últimos 40 anos ao trabalho que foi conseguido, formulado, desenhado, implementado e depois sucessivamente avaliado, incluindo a interrupção voluntária da gravidez, por Albino Aroso”, salientou o médico.
Por isso, afirmou, “considero-me um discípulo de António Arnaut e de Albino Aroso”, já falecidos.
“Trabalhei muito nestes processos de construção desde 1974. Já era médico e, portanto, sou muito espetador, um pouco do ator também, ajudei, na medida do possível, no processo de construção e mais tarde, como diretor-geral da Saúde”, vincou.
A dedicação exclusiva ao serviço público foi uma opção de Francisco George, também filho de um médico que diz tê-lo “influenciado muito” nas escolhas.
“Eu escolhi ser o especialista não de um doente, mas dar um contributo para a promoção da saúde da população, isto é, para prolongar a vida daqueles que estão doentes”, rematou Francisco George.
(artigo publicado no sítio da Fundação Francisco Manuel dos Santos)
As doenças que se propagam sem respeitarem fronteiras são bem conhecidas desde a Antiguidade.
No Século V a.C. ficou célebre a descrição de uma epidemia transfronteiriça que “entrou” em Atenas durante a Guerra do Peloponeso que o historiador grego Tucídides (460-400 a.C.) relatou com impressionante precisão. Naturalmente, as referências a fenómenos ocorridos naquela época não permitem esclarecer a sua verdadeira natureza, a sua etiologia, mesmo depois de Hipócrates (460-370 a.C.) ter afastado causas divinas ou sobrenaturais para explicar a ocorrência de doenças e epidemias. Aliás, ainda hoje se discute qual a doença que esteve na origem daquele trágico surto de Atenas.
Compreende-se que as cidades portuárias, sendo pontos de desembarque e embarque de tripulantes, passageiros e mercadorias transportadas por via marítima tenham sido as mais mencionadas na literatura como palcos de grandes epidemias como as de cólera, peste, gripe, varíola, entre outras, registadas na Idade Média e na Renascença.
Foi necessário esperar pela segunda metade do século XIX para Louis Pasteur e Robert koch terem demonstrado a origem infecciosa de doenças transmissíveis e de John Snow ter comprovado a transmissão hídrica da cólera durante a epidemia, em Londres, de 1855.
Muito mais recentemente, médicos, epidemiologistas e biólogos explicaram os riscos que partículas virais representam para a saúde, quer Humana quer Animal (à luz do conceito One Health).
Nos tempos de hoje, apesar da dimensão ínfima dos vírus, a microscopia electrónica, associada aos avanços da biologia molecular, é possível identificar novos agentes, novas doenças, novas epidemias.
Foi o que aconteceu no Congo, em 1976, com a descoberta pioneira da doença provocada pelo vírus Ébola que, então, originou 318 casos, dos quais 280 óbitos (portanto, com a elevada probabilidade de 88% dos doentes morrerem).
A seguir, novos surtos de Ébola ocorreram em outros países africanos, nomeadamente na Costa Ocidental.
Em 2014, a epidemia iniciada na República da Guiné difundiu-se rapidamente pela Libéria e Serra Leoa. A sua velocidade de propagação, intensidade e gravidade (3707 doentes, incluindo 1848 óbitos) associadas, por um lado à inexistência de vacinas e de tratamento específico e por outro à facilidade da mobilidade inter-continental por via aérea, explicam a imensa preocupação que se instalou rapidamente não só na Sede da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, mas também nas capitais da maioria dos Países, em particular Washington que mobilizou meios de resposta extraordinários, coordenados pelo Centro de Controlo de Doenças de Atlanta (CDC).
A multiplicação de casos sucessivamente diagnosticados e logo noticiados com invulgar e grande alarmismo pela Imprensa, a nível global, agravou a sensação de insegurança colectiva. Todos passaram a conhecer a gravidade da febre hemorrágica devida à infeção pelo vírus Ébola. Todos, baseados nas imagens e textos comoventes, começaram a imaginar uma Pandemia de magnitude assustadora e incontrolável.
Barack Obama e François Hollande lideraram a mobilização extraordinária de meios de cooperação, tanto bilateral como multilateral, na perspetiva de responderem aos insistentes apelos formulados pela então Directoria-geral da OMS, Margaret Chan.
Portugal preparou-se internamente e colaborou na mobilização geral. A cooperação foi centrada na proteção da Guiné-Bissau devido à manifesta porosidade das fronteiras com as províncias atingidas pela epidemia da Guiné-Conakry. Os resultados da participação portuguesa foram excelentes. Destacaram-se os peritos da Direção-Geral de Saúde, do Instituto Ricardo Jorge e do INEM. O Laboratório de Virologia expressamente montado para o efeito em Bissau constituiu uma referência de qualidade que persiste.
Agora, também a partir do Congo, ressurge o problema. A ameaça é real. A confiança maior. A informação veiculada pela Imprensa menos emotiva.
O alarme deu lugar ao alerta.
Julho de 2019
Francisco George
Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa
Meu Pai, que residia na Rua Coelho da Rocha, ao Bairro de Campo de Ourique, temeu durante a Segunda Guerra Mundial que Lisboa fosse alvo de bombardeamentos, uma vez que, como médico, era convocado com frequência para exercícios de Proteção Civil. Casado, com dois filhos, resolveu procurar uma casa de refúgio ao estilo de abrigo seguro, simultaneamente “perto e longe” de Lisboa. Escolheu a pitoresca Linha Azenhas do Mar, Praia das Maçãs e Praia Grande.
Claro que eu ao nascer em 1947, cinco minutos depois do meu irmão gémeo, não tive outra opção…
Lá fui, lá estive e lá me encontro. Lá fomos, lá estivemos e lá nos encontramos.
Recomendo passear à beira mar pela manhã, ler jornais antes de almoço, um livro a seguir, e ir à praia, mas sempre depois das 16h00. Costumo lá passar mas devidamente protegido por T-shirt, panamá de abas largas, óculos escuros e creme protetor solar, generosa e abundantemente, aplicado nas partes descobertas. Pois, sendo descendente de ingleses de pele muito clara, tenho a consciência da necessidade de levar a sério medidas de prevenção em relação ao cancro cutâneo. Na praia, assim “mascarado, visito e converso com os amigos habituais, alguns desde os tempos de infância ou juventude.
Antes do fim do dia, um telefonema para o “Restaurante das Patrícias, alternadamente com o “Coroa” ou a “Adega do Coelho” para marcar mesa de jantar.
Nos dias de hoje, quando acompanhado pelos meus netos, o começo das escolhas é sistematicamente antecedido pela discussão dos refrigerantes. Teimosos, pretendem determinadas latas que correspondem a água, aroma e sete pacotes de açúcar…
Claro que nunca autorizo!
Ontem a cena repetiu-se com maior intensidade. Consegui negociar depois de comparar os minúsculos rótulos onde constam os teores de açúcar desta e daquela marca. Duas latas e três garrafas diferentes foram apreciadas em voz alta e com contas apoiadas pela calculadora do telemóvel. Depois de muita conversa, alcancei um acordo para pedir uma embalagem light, mas beber apenas metade. Maria João e Henrique semi derrotados e Avô semi vitorioso. Unanimemente escolhemos bacalhau com broa, prato principal das Patrícias.
Verão, 2019
Francisco George
Entrevista ao Canal Q em 29/03/2019
Artigo publicado no Jornal Expresso de 06/04/2019
Quatro dias antes da partida do segundo voo humanitário da Cruz Vermelha Portuguesa para a Beira recebi um telefonema a anunciar a disponibilidade de Alexandre Soares dos Santos para apoiar as populações da Beira. Logo ficou acordado que a sua Família encarregar-se-ia da totalidade das despesas e que o Boing 767 iria repleto de equipamentos e artigos destinados à Mãe e à Criança, incluindo uma maternidade de campanha.
Abalados com os efeitos tão dramáticos do Ciclone, sem dúvida. Emocionados, desde então, logo notámos que as distâncias ficaram curtas. A separação geográfica como que desaparecera. A proximidade impunha-se, naturalmente. A fraternidade ergueu-se. Afastaram-se as nuvens dos receios que deram lugar à confiança. Era preciso participar. Ajudar a reduzir o sofrimento humano de tantos moçambicanos.
E foi isso que aconteceu. Fraternidade. Henrique, David e Fátima juntam-se aos voluntários da Cruz Vermelha e dos Médicos do Mundo.
A Operação Embondeiro por Moçambique que conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República aumenta todos os dias. Conta, também, com cidadãs, cidadãos, quer de forma espontânea ou organizados em autarquias, clubes, associações, sindicatos, empresas, grandes companhias, ou, ainda, em grupos informais. Trabalhadores e Empresários. Todos participam.
A angariação de fundos cresce. Muito para além do esperado, mas muito aquém das necessidades.
Depois da primeira fase de emergência, referente à intervenção de meios de protecção civil que colocou fuzileiros, bombeiros e sapadores, nas áreas atingidas pela força do vento e pelas inundações, seguem-se, como sempre acontece, a implementação de medidas destinadas à prevenção das doenças e conservação da Saúde Pública e logo continuada pelos trabalhos de reconstrução da Cidade e da Província de Sofala.
Portugal presente. Avançaram fuzileiros, bombeiros, sapadores e brigadas especializadas da Guarda Nacional Republicana seguidos de médicos, de enfermeiros e de psicólogos quer apoiados em sólidos hospitais de campanha (um do INEM e outro da Cruz Vermelha Portuguesa e dos Médicos do Mundo) quer, também, organizados em associações humanitárias (como o caso da AMI).
Na véspera da partida em Figo Maduro, as vacinas e o briefing do costume nestas ocasiões.
Todos foram informados do rigor para com a aplicação dos recursos financeiros angariados nas contas abertas para este fim. Critérios exigentes. São muitas centenas de milhares de euros. Mesmo muitas centenas já somadas através dos dispositivos bancários oportunamente criados para tal. Agora, juntam-se mais 210 mil euros destinados ao voo, além do financiamento da carga. Mais de 33 toneladas.
Um orgulho. Uma imensa satisfação.
Asseguro a impermeabilidade absoluta do sistema, certificada pelo desenvolvimento de mecanismos de transparência em pleno funcionamento. Inquestionáveis em termos de eficácia.
Sublinho que todos os montantes depositados, quer pelo multibanco quer no banco, são diariamente publicitados na Página da Transparência do SITE em www.cruzvermelha.pt.
Por outro lado, além da sua publicitação são, igualmente, certificadas todos os dias pelo Auditor Externo Independente, o antigo Bastonário da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas, José Azevedo Rodrigues. Um modelo a seguir por todas as organizações.
Ricardo, Rogério e Carla Paiva incansáveis, mas também Dulce, Susana, Andreia, António e Pedro, mas também Sara e Sofia. Muitos. Frequentes contactos com o Embaixador de Moçambique em Lisboa.
À partida, Eduardo Ferro Rodrigues despede-se. Cumprimenta todos. Aterramos na manhã de 1 de Abril. Calor. Muito calor. Lara, Gonçalo, João tudo organizam, mesmo sem meios.
Primeiro, a visita ao Consulado em camioneta alugada que percorre os arruamentos esburacados da Cidade. Edifício antigo mas muito degradado, não digno do seu estatuto, provavelmente mesmo antes do Ciclone. Alguns portugueses procuram conselhos.
A seguir, pelo inferno dos arruamentos urbanos visitamos o Hospital de Campanha. As tendas agrupadas que o compõem são bem visíveis ao longe pela Bandeira da Cruz Vermelha Portuguesa que flutua sem parar. Parece obedecer ao ritmo da Equipa, que também não descansa.
À tarde, depois de rações de combate fornecidas pelo Exército Português e servidas com sorrisos, tem lugar reunião com o Presidente da Cruz Vermelha Moçambicana e representantes da Federação Internacional.
Em encontro com Autoridades da Província, fica o compromisso de Portugal reconstruir o Centro de Saúde e a Maternidade do bairro de Macurungo, pelas verbas doadas pelo nosso Povo. A visível e chocante degradação de hoje será substituída por construção definitiva e robusta, em alvenaria.
Regressamos na manhã de 2 de Abril. Avião transporta agentes de protecção de civil. Compreende-se o agradecimento do Ministro da Administração Interna à chegada, novamente em Figo Maduro.
É este o nosso e vosso Trabalho. O Trabalho de todos nós.
Francisco George
Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa
Artigo de opinião publicado no DIÁRIO DE NOTÍCIAS de 23/12/2018
O filósofo grego Clístenes (570 AC – 508 AC) terá sido na Antiguidade o primeiro a estabelecer os princípios da Democracia ao propor a criação de dispositivos de governação que assegurassem a igualdade de oportunidades a todos os cidadãos.
São, ainda, esses mesmos princípios que continuam a constituir a essência da vida democrática.
Compreende-se, por isso, que em Portugal, logo em Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas tenha estipulado no capítulo da Política Social o “lançamento das bases para a criação de um serviço nacional de saúde ao qual tenham acesso todos os cidadãos” (Decreto-Lei nº 203/74, de 15 de Maio).
Isso mesmo. Os capitães sabiam que o acesso tinha de ser para todos. Sem desigualdades e sem iniquidades. Universal.
Pouco depois, em 1978, ainda na qualidade de Ministro dos Assuntos Sociais, António Arnault (1936 – 2018), ensaiou o desenho do futuro Serviço Nacional de Saúde em três distritos piloto. A sua preocupação principal foi, então, articular, a nível local, os organismos prestadores de cuidados de saúde que estavam, na altura, dispersos, como acontecia com os serviços dependentes das caixas de previdência, casas do povo, centros de saúde, dispensários da assistência aos tuberculosos (IANT) ou dos hospitais concelhios das Misericórdias.
Em 1979, a célebre Lei 56 de 15 de Setembro, ao institucionalizar o Serviço Nacional de Saúde, acentuava a “gestão descentralizada e democrática (…) a toda a população”. É importante reconhecer que António Arnault acrescentou a expressão “democrática” à gestão do Serviço que estava a criar.
Desde esse ano, a Lei veio separar o tempo antes e o tempo depois. É verdade. A Saúde em Portugal nos anos que se seguiram passou a ser marcada pelo financiamento das prestações através do Orçamento do Estado que, por sua vez, resulta dos impostos, quer indirectos (como o IVA), quer directos (tal como o IRS).
or isso, o pagamento no local da prestação (Centro de Saúde ou Hospital) não tem lugar, uma vez que a política fiscal deve encarregar-se de repor justiça, ao impor, naturalmente, que os ricos paguem mais impostos do que os pobres.
No início foi necessário investir na Mãe e na Criança. Recuperar atrasos. Elevar o País. Colocá-lo a par dos outros estados da Europa, no âmbito da Saúde Pública. A estratégia formulada foi um sucesso. Albino Aroso (1923-2013) destacou-se neste processo. Portugal trepou rapidamente para os lugares cimeiros, traduzidos pelos indicadores da Saúde Materna e Infantil que, com êxito, se mantêm. Hoje, a mortalidade infantil encontra-se entre as mais baixas a nível mundial (Top 5).
Grávidas de todas as condições socioeconómicas passaram a ter as suas crianças em modernos blocos de partos, equipados com tecnologia de última geração e dotados de pessoal especializado em obstetrícia, pediatria, neonatologia ou enfermagem. Sem discriminação e em absolutas condições de igualdade no acesso e, portanto, a vincar o modelo democrático.
Mas, depois da entrada para a Escola, as crianças começam a agrupar-se em patamares sociais distintos que, quase sempre, conduzem a desigualdades e estabelecem gradientes sociais, geradores de gaps intoleráveis. Está há muito comprovado que ricos têm menos riscos para a saúde e pobres são mais vulneráveis.
Governos Constitucionais sucederam-se. A regra foi inscrever prioridade à Saúde Pública nos respectivos programas, nem sempre alcançada.
Agora, a ministra Marta Temido, apresenta, muito justamente, uma nova Lei de Bases que visa actualizar a anterior de 1990. O seu texto dá um novo impulso ao princípio inquestionável da igualdade no acesso e no atendimento na saúde e na doença.
Nesses termos, o articulado da nova Lei de Bases é claro ao realçar que todas as pessoas têm direito “a aceder aos cuidados de saúde adequados à sua situação, com prontidão e no tempo considerado clinicamente aceitável, de forma digna (…)”. Mas, abre caminho, igualmente, à evolução progressiva para o estabelecimento de mecanismos de dedicação plena ao exercício de funções públicas dos seus profissionais. Separa áreas e procura definir fronteiras entre os sectores Público, Privado e Social.
É uma proposta inovadora para o século XXI. Prepara Portugal para os principais desafios do futuro, tais como os efeitos na Saúde decorrentes das alterações climáticas; a expressão epidémica preocupante das doenças crónicas, que têm como denominador comum determinantes sociais e estilos de vida; a par do processo de envelhecimento da população, que parece imparável.
Há razões para acreditar e redobrar a confiança no Serviço Nacional de Saúde como componente obrigatória do Estado Social. Da Democracia.
Francisco George
Médico, Ex-Director-Geral da Saúde, Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa.