Curriculum vitae

CARREIRA
Francisco George nasceu em Lisboa, em 1947. É licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa desde 1973 (distinção).
Foi interno de medicina interna dos Hospitais Civis de Lisboa, no Hospital de Santa Marta.
Completou, em 1977, o Curso de Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública (Lisboa).
Médico especialista em Saúde Pública, foi delegado de saúde a partir de 1976, primeiro no concelho de Cuba e depois em Beja.
Como bolseiro da Organização Mundial da Saúde (OMS) fez o Curso Santé Familiale promovido pela OMS e pelo Centro Internacional de Infância (Paris) em 1978.
Entre 1980 e 1991 foi funcionário da Organização Mundial da Saúde. Para além de Bissau e Harare, foi consultor em missões que tiveram lugar em Pequim, Xangai, Brazzaville, Genebra, Rio de Janeiro, Maputo, Praia, São Tomé, Luanda, Bamako, Antananarivo, Maseru e Lusaca. Na qualidade de funcionário da OMS, em 1980, foi designado Chefe do Projecto de Desenvolvimento dos Serviços de Saúde, em Bissau e em 1986 Representante da OMS na República da Guiné-Bissau. Em 1990 desempenhou as funções de Epidemiologista do Programa Mundial de Luta Contra a SIDA como coordenador para a África Austral.
A seu pedido, uma vez terminada a licença de longa duração, regressou à carreira nacional.
Após concurso de provas públicas, obteve a categoria de chefe de serviço de saúde pública, desde 1992.
Foi nomeado Subdiretor-Geral da Saúde em 2001 e reconduzido em 2004.
Foi nomeado Diretor-Geral da Saúde, primeiro em 2005 e depois, no seguimento da Reforma da Administração Pública, em 2006 e novamente em 2009. A Comissão de Serviço foi renovada, por confirmação, no cargo de Diretor-Geral da Saúde e mantida depois da reorganização orgânica de 2012. Após concurso, tomou posse, outra vez, em 2013.
Foi membro do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida, entre 2007 e 2010.
Foi, igualmente, membro do Conselho de Orientação do Instituto de Investigação Científica Tropical.
Foi, também, membro do Conselho Consultivo do Instituto de Higiene e Medicina Tropical desde 2015.
No quadro da União Europeia, em representação de Portugal, participou na reunião de peritos no domínio da saúde VIH/SIDA e no Comité de Doenças Relacionadas com a Poluição. Foi, desde 2001, membro do High Level Committee on Health, bem como do Health Security Committee e, desde 2005, participou nas reuniões dos Chief Medical Officers.
Em 2004, foi designado membro do Conselho de Administração do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (Estocolmo). Integrou o respectivo Comité de Programa.
Em representação de Portugal, na qualidade de Diretor-Geral, visitou oficialmente e participou em numerosas reuniões quer no âmbito da União Europeia quer de cooperação multilateral ou bilateral.
No contexto da Organização Mundial da Saúde participou, regularmente, nos trabalhos da Assembleia Mundial da Saúde e do Comité Regional da Europa. Foi membro suplente do Conselho Executivo da OMS (2005-2008).
Em 2007, foi chefe da delegação de Portugal à Conferência das Partes sobre a Convenção-Quadro para o Controlo do Tabagismo em Bangkok.
Integrou, como representante do Ministério da Saúde, o Conselho Supremo da Cruz Vermelha Portuguesa desde 2010.
Em 2014, na sequência da eleição de Portugal para o Comité Permanente da OMS Europa, foi nomeado como Representante do Estado Português para o triénio 2014-2017.
Foi, a partir de 2005, Professor Associado Convidado da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa.
É autor e co-autor de diversos artigos científicos publicados e de documentos sobre identificação, prevenção e controlo de riscos para a saúde pública. É relator e coeditor da publicação intitulada Health in Portugal divulgada, em língua inglesa, no âmbito da Presidência Portuguesa da União Europeia (2007).

É autor dos seguintes livros: “Guia de Clínica Médica”, destinado a ser utilizado nos países africanos de língua oficial portuguesa, publicado pela Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, maio de 1983); “Histórias de Saúde Pública” publicado em Lisboa, em 2004, pelos Livros Horizonte; “Prevenir Doenças e Conservar a Saúde”, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (2019).
Na qualidade de conferencista convidado tem participado em numerosas reuniões científicas nacionais e internacionais.
É membro da Sociedade Portuguesa de Virologia, tendo sido Presidente do Conselho Fiscal até janeiro de 2014.

DISTINÇÕES
Em 2006 foi condecorado com a Ordem do Infante D. Henrique, Grande-Oficial, pelo Presidente da República, Jorge Sampaio.
Em 2014 recebeu a Medalha de Serviços Distintos do Ministério da Saúde, Grau Ouro, atribuída pelo Ministro Paulo Macedo.
Em 2017 venceu o Prémio Saúde Sustentável (negócios&accenture).
Por limite de idade cessou funções como Diretor-Geral da Saúde, em 20 de outubro de 2017. Na ocasião, recebeu do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a Grã-Cruz da Ordem do Mérito.
Também no mesmo ano foi agraciado pela Câmara Municipal de Lisboa com a Medalha de Mérito Social.
Em 26 de outubro de 2017 foi eleito Presidente Nacional da Cruz Vermelha Portuguesa, cargo que desempenha como voluntário, sem remuneração.
Em 2019 foi designado membro do Conselho de Cidadãos da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Nesse ano, recebeu o Prémio Terra Justa 2019 (Fafe).
Ainda em 2019, foi agraciado com a Medalha de Ouro do Instituto Politécnico de Lisboa.

Frederico George (1915-1994) – Tio & Homem de Belas Artes

Irmão muito próximo de meu Pai, Frederico George nasceu em 1915 na casa de Campo de Ourique no número 75 da Rua Coelho da Rocha. Foi o último filho de meus avós Albert e Joaquina. Antes dele tinham nascido Helena, Alberto, Elizabeth, Ema e Carlos.

Frederico, como professor da Faculdade de Arquitetura aposentara-se em 1985. Desde então, minha Tia Margarida (Maya, como todos a conheciam) costumava insistir com meu Tio para viajarem a fim de poderem passar temporadas em ambientes exóticos. Quanto mais longínquo fosse o país, maior era esse prazer. Ora, nesse tempo, como os sobrinhos viviam nos trópicos, o itinerário da deslocação era mais fácil e dispensava hotéis. Assim sucedia e ainda bem. Foi muito bom para todos nós.

Juntos, percorremos a Guiné-Bissau, incluindo Bijagós, a Gâmbia, o Senegal e, depois, o Zimbabué.

Havia tempo para prolongadas conversas, sempre em redor dos mesmos temas, em especial agradavam-me as múltiplas explicações pormenorizadas sobre a nossa família inglesa, sobre arte e arquitetura. Eu, em geral, sentia muito prazer em ouvir respostas às perguntas que formulava, tal como gostava de ouvir a sua opinião sobre os mais diversos assuntos culturais.

Frederico George não gostava de falar de política. Para ele a democracia era natural. Relatava o funcionamento do sistema político em Inglaterra com notável orgulho. Tinha vivido em Londres, com seu irmão Alberto, pouco antes dos grandes bombardeamentos nazis. Detestava ditaduras.

Uma vez contou-me que tinha estado por alguns minutos com António Oliveira Salazar numa visita discreta que decidira fazer para verificar os trabalhos preparatórios da Exposição do Mundo Português, em 1940. Foi nesse dia que encontrou Salazar. Meu Tio Frederico, pacientemente, relatou ao Presidente do Conselho os detalhes dos painéis que estava a pintar. No final do esclarecimento, cumprimentaram-se sem calor nem elogios. Nada mais do que isso em ambiente frio e distante.

Lidei sempre muito de perto com meu Tio e meus primos Elsa e Pedro, mas foi só quando ele viajava para nossa casa em África, depois da sua aposentação, que fiquei a conhecê-lo verdadeiramente. Passei a perceber e a admirar a sua serenidade, a paciência, o gosto que demonstrava ter pelo ensino, a delicadeza dos seus gestos e, no fundo, a sua imensa classe. Falava muito sobre seus mestres, seus pares e dos seus alunos. Dedicara a sua vida a ensinar, a pintar e conceber projetos de arquitetura.

Frederico casara duas vezes. A primeira com Maria Luiza Conceição Silva, filha do Mestre pintor António Tomás Conceição Silva e a segunda com Maria Margarida, viúva de Fernando Mascarenhas, Marquês de Fronteira.

Por essa razão, internamente, entre família, a Tia Maya era, com carinho, tratada por “MARQUESA”. Não só não se importava, como até exibia um certo orgulho com tal tratamento, mesmo que dito em tom de gracejo.

Quando me perguntam como era meu Tio na intimidade, respondo sempre que era um artista e que como poucos, sentia as cores das plantas que, para ele, representavam um fascínio: as folhas, o porte das árvores e arvoredos, as cores das pétalas ou dos frutos. Tudo isso o encantava. Tudo isso era transcrito para a tela com imensa imperturbabilidade e rapidez porque trazia com ele uma maleta de madeira com pinceis e tintas. Sentava-se, acomodava-se e começava a pintar na explanada, no jardim ou na varanda. Produzia imenso. Em poucos minutos desenhava, primeiro a lápis e depois com pincel compunha o colorido que o impressionava mais (por vezes uma só pétala no meio de verdes de diferentes tons).

Aquela expressão artística traduzida pelo gosto em pintar de meu Tio, contrastava com a ausência de qualquer sensibilidade para as artes de meu Pai. Se bem que irmãos muito chegados em idade e em companheirismo, meu Pai era muito diferente. Não tinha qualquer aptidão para as Belas Artes. Quando eu colocava essa questão, para tentar perceber a génese de pessoas tão diferentes, sendo irmãos, meu Tio respondia-me que como era o mais novo costumava acompanhar seu Pai a visitar as exposições, enquanto meu Pai ficava em casa a estudar os livros de medicina. Era desta forma que explicava o seu gift e a admiração que tinha pelo irmão. Aliás, passavam a vida a dizer bem um do outro: Frederico nas Belas Artes e Carlos nos Hospitais Civis de Lisboa. Diria antes, uma questão de orgulho recíproco.

Lisboa, outubro 2017

Cuidado com as Curvas

No princípio do outono de 1976 iniciei os meus trabalhos como Delegado de Saúde no Concelho de Cuba. Anos inesquecíveis no Baixo Alentejo.

Portugal acabara de se libertar da Ditadura e de atravessar o período de governos provisórios. A Constituição da República, aprovada nesse ano, abriu uma época de esperança para todos e transmitiu novas energias.

Foi neste quadro que uma pequena equipa do então Centro de Saúde, provisoriamente instalado na Casa do Povo, lançou-se ao trabalho com ânimo redobrado e com a participação de cidadãos e famílias.

Uma das primeiras prioridades identificadas foi a necessidade de melhorar o abastecimento de água, quer na Vila quer nas sedes de freguesia ou, ainda, nos montes periféricos. A principal preocupação era promover a melhoria das frágeis infraestruturas de saneamento na perspetiva de cuidar da Saúde Pública e da preservação da qualidade do meio ambiente.

Para além da água potável, a ideia era reduzir a desordem na eliminação e no destino final de resíduos com a colaboração dos serviços da Câmara Municipal. Na altura, o Senhor Abrantes era o Presidente da Comissão Administrativa e logo assegurou o apoio possível. Mas, os recursos eram muito limitados e manifestamente insuficientes.

Era tempo de Cólera. Portugal estava confrontado com atividade epidémica de Cólera. Era, pois, preciso garantir a qualidade da água destinada ao consumo humano. Garrafas com solução de hipoclorito tinham sido enviadas pela Direção-Geral da Saúde. Também era preciso preparar os potes para serem cheios com “cloreto das lavadeiras” e, a seguir, mergulhados no fundo dos poços a fim de o cloro passar através das porosidades da cerâmica. Para tal, a localização dos poços em todo o espaço do Concelho fora assinalada em mapas militares.

A concretização do plano de luta contra a Cólera exigia a distribuição das garrafas com a solução de hipoclorito e a colocação dos potes na água dos poços.

Nestes trabalhos, relembro a importância desempenhada pelo Agente Sanitário do Centro de Saúde.

Um dia, depois de almoço “à do Jacinto” procurou-me. Estava ele em cima da motocicleta:

– Ó Doutor, monte a “cavalo” aqui atrás! Vamos a Albergaria dos Fusos aconselhar os habitantes a utilizarem as garrafas e a seguir colocar um pote a São Matias! Ora venha também, insistiu.

Olhei para ele desconfiado. Tirei as medidas ao banco da motocicleta e respondi-lhe:

– Porque não? Vamos! Cuidado com as curvas!

Francisco George
Setembro 2017

Férias Grandes

Reviver o passado é bom.Gémeos George

As fotografias da época ajudam a revisitar tempos, locais e cenários vividos nas antigas férias grandes de julho a outubro. Férias prolongadas que marcam a memória. No meu caso, durante a transição da adolescência para a juventude, os anos do rock and roll dos discos de 45 rotações estão sempre presentes.

Na Praia das Maçãs era assim: pela manhã, eu e o meu irmão gémeo frequentávamos as areias à beira mar protegidos pelas abas dos toldos. Ao lado, lá estava o escritor Ferreira de Castro sentado num banco de madeira, também à sombra, mas completamente vestido “à cidade” e que, por isso, marcava a diferença. Todos nós sabíamos que era o autor d’ A Selva. A sua filha Elsa alinhava, igualmente, no nosso grupo.

À tarde, na piscina de água salgada, as lições com o nadador olímpico João Franco do Vale a ensinar bruços, mariposa, crawl e costas preparavam-nos para as competições do final de agosto.

À noite, os bailes de garagem nas casas dos pais de uns e outros eram animados pelo gira-discos que não parava. Invariavelmente, as músicas eram sempre as mesmas e o ambiente “romântico” via nascer os primeiros amores de Verão. Outras vezes, frequentávamos o cinema em dias de filmes imperdíveis, assinalados ou por Brigite Bardot e Elizabeth Taylor ou, mais raramente, por filmes de referência como “O Leopardo” ou “Bruscamente no Verão Passado” ou ainda “O grito” de Michelangelo Antonioni.

As energias eram gastas pelos pedais das bicicletas e, infelizmente, repostas pelas bolas de Berlim do “Lá vou eu”.

Geraram-se amizades e cumplicidades para sempre. De entre as famílias da nossa Linha Azenhas do Mar, Praia das Maçãs e Praia Grande algumas passaram, muito mais tarde, para as primeiras páginas dos jornais. Foi o caso de Palma Carlos, o primeiro Primeiro-Ministro do Governo Provisório, Jorge Sampaio, Presidente de Regime Constitucional, e, mais tarde, o atual Presidente da Assembleia, Eduardo Ferro Rodrigues, ou o ex-ministro Jorge Braga de Macedo.
Em distinta dimensão de projeção pública, na altura, também, todas as manhãs caminhavam para a Praia das Maçãs os irmãos Lobo Antunes.

Inesquecível foi a decisão do nosso Pai ter premiado o meu irmão João devido ao salvamento, por ele protagonizado, de uma amiga que estava na iminência de se afogar nas retorcidas águas da pequena praia das Azenhas do Mar. Ao ver Teresa a imergir, destemidamente atirou-se para a ir buscar. Por alguma razão era ele que recebia mais medalhas das provas de natação…

Memoráveis são também os mexilhões apanhados nas rochas e os polvos agarrados com longos ganchos que os pescadores levavam aos ombros.
O regresso a Campo de Ourique era, à chegada, sinalizado pela presença dos vendedores de castanhas assadas que, à partida para férias, não estavam presentes.

Tudo são memórias inesquecíveis das nossas idades inocentes.

Olhar para trás é bom.

Francisco George
Julho de 2017

Campo de Ourique – Memórias da vida até à adolescência

Campo de Ourique é, saliento, desde já, um bairro muito especial. Os aí residentes desenvolvem um sentimento de cidadania particular e, mais do que isso, uma maneira de estar e de compreender a cidade de forma diferente.

A minha infância e juventude estão associadas ao Bairro. Por isso, descrevo alguns cenários inesquecíveis que vivi no terceiro quartel do fantástico Século XX.

Em 1947, quando nasci, saí da Maternidade Alemã e fui levado para o número 28 da Rua 4 de Infantaria, melhor diria, fomos levados, uma vez que tenho um gémeo que nascera cinco minutos antes. A casa dos meus Pais era no 1º andar por cima da Farmácia Castro Fonseca.

Joaquim de Castro Fonseca (1884-1964) nascera em Ponte de Sor e a partir de 1911 ficou habilitado pela Escola Superior de Farmácia de Lisboa a “exercitar a Arte de Farmácia”. Era um firme defensor da República. Foi oficial do Exercito mas, em 1913, fundou a sua Farmácia naquele número 28 da 4 de Infantaria.

Ora, as minhas memórias, as minhas recordações mais recuadas, mas ainda muito nítidas, colocam-me umas vezes atrás do balcão da Farmácia e outras a brincar no passeio amplo na banda do Jardim da Parada colada à 4 de Infantaria. Provavelmente teria 4 anos de idade. Julgo que eu costumava fugir para a parte traseira do amplo espaço da Farmácia quando minha Mãe esperava para ser atendida à frente do balcão ou, simplesmente, quando a caminho da rua descia as escadas com meus Pais; então, de fugida, lá conseguia eu escapar pela porta do lado para ver Castro Fonseca trabalhar. À entrada estava um cão perdigueiro, grande, branco com manchas castanhas, aliás, muito pachorrento, pelo que só muito raramente ladrava.

Depois de passar pelo “Fiel”, ficava a contemplar o Farmacêutico a preparar remédios na bancada. Era um homem alto, com barba branca e que vestia invariavelmente uma bata de cor acastanhada muito clara, semi-aberta a mostrar o colete apertado que exibia o relógio metido na bolsa. Parecia um sábio. Na época, eram muitos os medicamentos que precisavam de prévia preparação antes de entregues aos clientes. Eram meticulosamente fabricados segundo as receitas dos médicos, viria eu a compreender mais tarde. Impressionava-me ver a sequência dos gestos para manobrar a balança de precisão. Também nunca esqueci o alinhamento dos grandes frascos de vidro semitransparentes, castanhos avermelhados, que continham pós ou líquidos. Uns com rolhas de cortiça e outros com tampas de vidro maciço afuniladas e com um “chapéu” redondo no topo. Almofarizes de todos os tamanhos povoavam, também, a bancada principal. Pequenas caixas redondas de cartolina robusta, empilhadas segundo diversos tamanhos, eram depois utilizadas para embalar pastas, pomadas e cremes. Tudo aquilo parecia magia. Castro Fonseca tinha no Agostinho Palhinhas (1927-2014) um ajudante de primeira água. Figura muito popular em Campo de Ourique, o Senhor Palhinhas, como era sempre chamado, controlava com mestria os pedidos manuscritos pelos médicos que logo depois eram preparados nas bancadas traseiras. Conhecia a letra de todos eles. Descodificava, sem problemas, os seus rabiscos. Provavelmente conhecia o hábito das prescrições em função do médico ou das doenças dos seus clientes.

Quando, em 1951, os meus Pais mudaram de casa para uma mais ampla no 3º andar do número 105 da Rua Coelho da Rocha, na esquina com a Azedo Gneco, as visitas frequentes ao Palhinhas eram sistemáticas, se bem que menos frequentes, naturalmente.

Prédio da Coelho da Rocha era simultaneamente grande e pequeno. Com muitas divisões assoalhadas por cada andar, só tinha mais um inquilino no 2º andar, uma vez que o 1º e r/c eram ocupados pela Família Alvorão – proprietária deste bloco que dobrava a esquina com a Azedo Gneco. A proximidade gerou um ambiente marcado pela amizade que juntou três famílias: George, Ribeiro e Alvorão.

O Jardim da Parada, logo em frente da Farmácia, adequado às primeiras brincadeiras com triciclos, trotinetas ou carrinhos tornou-se cada vez mais “pequeno”. Foi trocado pelo Jardim da Estrela nas horas dedicadas ao ar livre e às correrias de cowboys. As grandes folhas secas amareladas das seringueiras, atadas umas às outras com paus de fósforos apanhados do chão, faziam coroas para imitar os índios nos jogos do toca e foge. Foi aqui que conheci Jorge Avelino Braga de Macedo, também ele residente na Coelho da Rocha, com quem estabeleci laços de amizade que perduram.

A morte de minha Avó paterna, em 1952, marca este período. Era viúva do meu Avô inglês Albert George que morrera em 1940 (nunca o conheci, portanto). Viviam no 75 da Coelho da Rocha. Por perto, na 4 de Infantaria, viviam os meus avós maternos, sempre presentes.

No ensino pré-escolar frequentei primeiro a Queen Elizabeth`s School de Miss Denise Lester à Rua da Quintinha, em São Bento. Lembro-me de uma sala grande com piano e das primeiras lições a aprender a dizer as cores em inglês.

Depois, a partir de 1952, devido à mudança do Colégio Inglês para Alvalade, a opção foi “O Lar da Criança” da notável pedagoga Berta de Ávila (conhecida por todos como “Bertinha”), próximo da Estrela e, portanto, de Campo de Ourique. Aqui fiz o ensino primário completo. Alice e Estefânia ensinavam as letras e aritmética e Francine Benoit (1894-1990) música e canto coral. Com ela aprendi a cantar a Portuguesa e a perceber o sentido do diapasão que sempre ostentava. Tal como os meus irmãos e primos, os amigos de sempre (os Pinto Nogueira e os Silva Carvalho) lá estavam igualmente.

Destacavam-se, entre nós todos, já na altura, os alunos Eduardo Barroso e Marcelo Rebelo de Sousa. Na cantina da Escola nunca mais esqueci a empregada, de origem africana, Maninha a preparar as célebres gemadas de ovo cru batido com açúcar. Os recreios ao ar livre eram animados pelos jogos de bola. A seguir ao almoço todos os alunos descansavam em camas de lona de armar. Entre as pernas, de cadeira em cadeira, o “Jack” (o cão da Bertinha) farejava mas nunca mordia.

Também impossível esquecer a epidemia da Gripe Asiática que fez suspender a actividade escolar em Outubro de 1957. Todos nós ficamos, alegremente em casa, à espera de melhores dias para voltarmos à Escola.

Em 13 de julho de 1958, na Escola Oficial da Lapa, fiz exame de 4ª classe. Sala austera, inesquecível, com crucifixo na parede e duas grandes fotografias emolduradas, uma de Craveiro Lopes e a outra de Oliveira Salazar.

A seguir foi o Liceu Pedro Nunes (no famoso anexo, por nós batizado como TEXAS).

Em 1958 Lisboa, no Inverno, ficou coberta de neve. Foi uma festa. Todos na rua a erguerem bonecos de neve. Cenários inesquecíveis.

Mas, até à adolescência, a minha atenção estava centrada no 105 da Coelho da Rocha e, muito em particular, nos quarteirões contíguos e ruas mais vizinhas. A vista a partir do nosso 3º andar era sempre a mesma. A Ocidente a quinta das Terras do Sabido e a Oriente a rua alongava-se até ao seu início junto à Silva Carvalho.

Da janela do meu quarto avistava, em frente, a Taberna com a inevitável carvoaria ao lado (incluindo corvo) e na esquina oposta a Tabacaria com serviço de “apanha malhas” logo à entrada. Era frequente ver mulheres a entregarem encomendas para conserto das meias de vidro. A trabalhadora, solitária, sentada junto à porta, esforçava-se para compor as meias. Não seria uma tarefa nem fácil nem agradável. Sentada num banco, semi-dobrada sobre uma pequena mesa que suportava um tubo concebido para verificar imperfeições das meias. Com uma agulha manual ou com o apoio de uma maquineta eléctrica parecia que não parava de trabalhar.

Em baixo, do lado dos números ímpares, as três lojas seguidas: o Matias à frente da sua ourivesaria, o eletricista Dias e o pequeno atelier do alfaiate Nita. Logo depois vinha o Mercado.

Do lado da Azedo Gneco as Terras do Sabido representavam o que restava da ruralidade das antigas zonas periurbanas bem próximas do coração de Lisboa. O “Tio” Albano, com o seu cão-pastor “Leão”, conduzia um rebanho de ovinos pelos pastos da quinta (hoje ocupada pelos prédios altos recuados até à Sampaio Bruno). Aí vi nascer um cordeiro.

As ruas de Campo de Ourique eram mais agitadas durante a manhã, sobretudo porque os vendedores ambulantes povoavam os passeios. Muitas vezes, subitamente, começavam as gritarias e algazarras que assinalavam a proximidade da polícia que perseguia sem contemplações os vendedores não possuíam licenças de venda. Vendiam flores, fruta, hortaliças e até pintassilgos. Dizia-se que tiravam a freguesia ao Mercado Municipal. Era a época das licenças obrigatórias, desde a bicicleta ao simples isqueiro de bolso. A fiscalização exercida por denunciantes à paisana representava uma forma de repressão sempre presente.

Os cães sem licença camarária eram apanhados com grandes redes e logo depois metidos em carrinhas de cor verde-azeitona escura. À sua chegada ouviam-se, sistematicamente, gritos de protesto.

O som característico da flauta dos amoladores que empurravam um bizarro carrinho de mão assinalava a oportunidade para afiar facas ou arranjar guarda-chuvas.

A Rua Coelho da Rocha tinha, na altura, poucos carros estacionados de um e do outro lado. Não seriam mais de 5 ou 6. Era o tempo da necessidade de ajudar a bateria para o carro pegar, em regra pela manhã. A “mise en marche” à manivela era possível porque os para-choques da frente tinham um orifício para a milagrosa ferramenta funcionar. Era também a época dos frequentes furos dos pneus. Por isso, os automóveis vinham de fábrica equipados com manivelas e poderosos macacos.

Em Maio de 1958 começaram a surgir pequenas tarjetas na fantástica campanha de Humberto Delgado. A maioria eram coladas às vidraças das montras das lojas ou nas portas das casas, nas caixas do correio, etc. Tinham dimensões pequenas (equivalentes a um cartão de visita na vertical), em papel amarelado, fino, que fazia sobressair uma fotografia do General. Não era difícil depreender que tinham sido postas durante a noite em operações relâmpago conduzidas pelos membros da Oposição.

A agitação, o ambiente conspirativo e a propaganda, próprias da Campanha de 1958, terão representado, para mim, o início do interesse pela política nacional. Pai e irmãos mais velhos explicaram-me minuciosamente o significado da importância em desalojar Salazar de São Bento. As diferenças entre ditadura e democracia. Meu Pai, filho de um cidadão Inglês, um dia disse-me “aqui prendem os Oposicionistas e em Inglaterra pagam salários para se oporem ao Governo”. Repetia estas palavras de quando em vez com assinalável revolta. Referia-se aos deputados e à dignidade que tem o estatuto de líder da Oposição no Parlamento Inglês. Foi então que entendi a diferença entre Governo e País. Governo e Estado. Ser Português não implicava apoiar o Governo, sobretudo quando os governantes não representam a vontade popular através de eleições justas.

Ainda adolescente percebi a importância do pensamento de cada cidadão poder ser expresso livremente, mesmo em público. A importância das lutas pela justiça social. Ver crianças e jovens em pé descalço ajudou-me a perceber as diferenças entre pobres e ricos. A injustiça era, naturalmente, geradora de revolta.

Por outro lado, a longa prisão de um irmão de minha Mãe em Caxias elevou esse sentimento de indignação.

Em frente da nossa casa vivia um agente da PIDE. Um carro tipo jeep com a traseira enquadrada por ripas de madeira assinalava o vínculo do condutor à Polícia e à Legião. Curiosamente, no prédio ao lado dele, por cima, no terceiro andar residia um democrata revolucionário. Hoje, pensando para trás, estou convencido que sabiam um do outro.

Aos 12 anos alcancei a idade de entrar no cinema. Campo de Ourique iria fazer de mim um cinéfilo para a vida futura. Vezes sem conta terei visto o Rio Bravo no antigo Europa. Frequentava também o Jardim Cinema (o “Vergas”, assim chamado porque as cadeiras eram em verga) e o Cinema Paris, única sala de cinema que projetava dois filmes diferentes separados pelo intervalo.
Começavam, ao mesmo tempo, os primeiros encontros na Tentadora ou no Canas e a seguir as primeiras festas no Arte & Sport a antecipar o fim da adolescência.

Francisco George
Março, 2015

 

Maria João George (1948-2006)

Em Inglaterra, no comboio a caminho de Cambridge, no Verão de 1964, conheci Maria João. Era época de Salazar, da repressão, da censura, de Caxias e Peniche, da guerra colonial, dos movimentos estudantis contra o regime, mas, também, da emergência de nova cultura jovem, da pílula que mudou para sempre a vida das mulheres. Era época do mundo dividido em dois blocos, mas, também, da China de Mao e, ainda, de Cuba de Fidel e da guerrilha do Che. Era tempo dos livros e dos filmes franceses e, também, de Maio de 68 de Daniel Cohn-Bendit e Charles De Gaulle. A música era dos Beatles. A conquista do espaço teria o auge em 1969 com a alunagem e com os inesquecíveis primeiros passos de Neil Armstrong a 20 de Julho. Eram os anos 60.

A afinidade intelectual era imensa entre nós. Visível a partir desses momentos iniciais sentados na carruagem em frente um do outro. Cambridge marca a nossa ligação. Os primeiros beijos no sótão. A mistura recíproca de sentimentos e afectos que nunca nos separaram. Os passeios pelos longos relvados verdes, nas barcaças do rio ou, ainda, de bicicleta pelos parques. Os projectos eram já equacionados. Futuros encontros, uma vez regressados, eram projectados. A intimidade a crescer.

Em 1966 entramos na Universidade. Arquitectura e Medicina. Afinal, a exemplo dos pais de cada um de nós. Estamos no funeral de Avelino Cunhal. Juntos, também, em Aveiro nos congressos da Oposição, a fugir às bastonadas do Capitão Maltês. Em 1969 não acreditamos na Primavera de Marcelo. Apoiamos a Resistência. Activos em células do Partido. Nas Associações de Estudantes, no Cine Clube ou na Livrelco e depois, na cooperativa Devir. Também na CDE de Jorge Sampaio.

Casamos em 1970. Temos o Gonçalo dois anos depois e a Catarina em 21 de Março de 1974. Explosão da imensa alegria em Abril. A Alexandra só vem em 1980.

Maria João encantava-se com os ambientes à sua volta. Primeiro na Cuba de Bertolina e do José Duarte Sales e depois em Beja vivemos tempos de grande alegria e tranquilidade. Apoiados pelos amigos Isabel e José Reina, Covas Lima, Jorge Campos, Lina e Pedro Borges, Conceição e Luís Miranda e, ainda, entre outros, Alice e Mestre. Colaço e Carreira Marques ocuparam as principais esperanças em Beja para a Maria João, preocupada com o planeamento urbano da cidade.

O fantástico período de África começa nas terras de Amílcar em Outubro de 1980. Descobrimos a cooperação internacional nesta antiga colónia. Na altura era tudo muito difícil. Dificuldades atenuadas pelo entusiasmo. Mas, também, pela beleza dos guineenses e pelos verdes de múltiplas tonalidades. Árvores de mangas povoadas por ninhos de morcegos cobriam a nossa casa. À frescura que originavam associava-se o ruído dos morcegos a disputarem os frutos. Mais longe, no mato, as originais cores dos cajueiros acentuavam a formosura da paisagem.

Em Bissau os constantes e inesperados cortes de energia eléctrica eram a preocupação de todos os dias, mas também a falta de pão e de batatas. A música era contagiante. Os Mama Djombu cantavam a história dos guerrilheiros que, depois de instalados nos gabinetes ministeriais, mudavam de mulher. As companheiras da Luta eram, então, substituídas por mulheres vistosas. O antigo combatente transforma-se em homem de Estado. O novo País Libertado enfrentava um novo combate.

Ainda em 1980, a 14 de Novembro, a deposição de Luís Cabral por Nino Vieira. Cinco dias depois, na antiga Praça do Império, sentia-se a alegria popular. Uma espécie de comício e de festa para assinalar, de novo, a esperança do Povo. Lembrava o nosso primeiro 1 de Maio.

Em breve a emergência de um novo fenómeno concentrou a atenção. Refiro-me à SIDA. Foi preciso verificar como se transmitia e descobrir que era uma doença evitável.

A eleição de Jorge Sampaio para a liderança do Partido Socialista alterou as preferências partidárias. A caminho do Senegal, em banda curta, nos postos de fronteira com a Gambia, íamos sabendo notícias da queda do Muro. A seguir foi Harare, no Zimbabwe. Dois anos antes do regresso a Beja. A casa da Rua dos Infantes aprautada.

Maria João gostava muito de Beja. Adoptou-a. Teve uma filha em Beja, cidade onde arranjou a nossa casa de referência. A casa da Família era na Rua dos Infantes. Observava a Cidade à lupa. Preocupava-se com tudo o que dizia respeito à gestão dos espaços urbanos, mas, também, ao desenvolvimento humano. Desenhava os arranjos que considerava úteis para a cidade. Tinha sempre muitas opiniões e ideias. As portas, as janelas, as aldrabas, as fachadas, as platibandas, as cores dos barrões, tudo a interessava. Recebeu o Prémio Municipal “Espiga de Ouro” pela recuperação do prédio da Rua do Touro.

Tinha especial interesse pela arquitectura popular. Pela construção tradicional Uma espécie de fascínio pelo que a taipa conseguia fazer. Não criticava por criticar. Assumia responsabilidades pelo que dizia e fazia. Gostava de comunicar as suas posições, sobretudo em audiências vivas, a falar quer em público quer em ambientes privados. Escrevia muito. Registava tudo.

Gostava, igualmente, de fazer Crónicas para o Diário do Alentejo. Eu invejava a facilidade com que escrevia. Era rápida e perfeita. Eu ajudava simplesmente na revisão final dos textos. Podava alguns parágrafos, a seu pedido. Limava algumas palavras.

Como acima sublinhei, Maria João encantava-se com o mundo exterior. Urbano ou rural. Descrevia e retratava em pequenos desenhos o que mais a interessava. Olhava pormenores que outros não reparavam. Reagia sempre para cima. Não conhecia o desânimo. Preferia ir em frente, empurrar e puxar por outros. Cultivava a simpatia. Ouvia todos. Sorria para todos.

Na EDIA dedicou-se à reinstalação da Aldeia da Luz. Estudou e percebeu o Guadiana para poder coordenar o projecto da imensa albufeira que a barragem passaria a exigir. Coordenou, com êxito, o projecto que visava a recomposição do quadro físico com manutenção das relações sociais. Continuou a projectar ideias para cada ponto do regolfo.

A 21 de Março de 2006 um despiste de automóvel no ponto que afunila a estrada de Beja para Lisboa, antes de chegar ao Sado, tirou as vidas a Maria João e a Catarina que nesse dia completava 32 anos de idade.

A love like ours never dies foi a inscrição, inspirada numa famosa canção dos Beatles, que pedi ao canteiro para gravar no mármore branco da campa do cemitério inglês de Lisboa onde estão Maria João e Catarina.

As muitas manifestações de solidariedade que nesses dias e depois eu e os meus filhos recebemos foram decisivas para continuarmos.

Francisco George

Maria Isabel George (1916-2009)

Foi em Campo de Ourique que Maria Isabel da Conceição Moura nasceu a 9 de março de 1916. Aquele bairro de Lisboa que se distingue pelo caracter específico que o torna ímpar na Capital, viria a ficar ligado à sua vida. Aí nasceu, viveu e morreu aos 93 anos de idade.

A urbanização do bairro de Campo de Ourique tinha sido planeada no tempo da Monarquia. Ruas paralelas e perpendiculares geometricamente desenhadas a partir de cada um dos quatro lados do perímetro do Jardim da Parada. Prédios de apartamentos amplos, em regra com três ou quatro andares. Mas, foi já depois de 1910 que a as ruas receberam nomes que exaltam feitos e heróis da República.

O próprio Jardim passa a designar-se Teófilo Braga (o Presidente do Governo Provisório), a Rua 4 de Infantaria em homenagem aos rebeldes que foram para a Rotunda, a Rua Azedo Gneco a lembrar um dos principais fundadores do Partido Socialista…

Os pais de Isabel, Gil Mendes de Moura e Elisa da Conceição residiam, igualmente, em Campo de Ourique, tal como quase toda a família. Gil, no dia 3 de outubro de 1910, apresentou-se como voluntário às ordens de Machado dos Santos. Contava, com orgulho, que de espingarda ao ombro foi montar guarda à Casa da Moeda. Elisa, apesar de não contrariar o marido, guardava encanto pela Rainha Amélia.

É a Rua Coelho da Rocha que marca a vida de Maria Isabel. Foi lá, no número 75, que nascera Carlos George, em 1913, com quem casou em 1939. Foi também na mesma rua, no terceiro andar do 105, que viria a residir quase 60 de anos no prédio de esquina com a Azedo Gneco.

Com excepção das férias nas Azenhas do Mar ou das visitas aos filhos que viviam em Inglaterra (Bromley), Maria Isabel morava em Campo de Ourique que conhecia como ninguém. Nascera no número 10 da Rua 4 de Infantaria. Ao casar mudou-se mais para diante, na mesma rua, mas em frente do Jardim. A partir de 1951 instalou-se na Coelho da Rocha. Teve cinco filhos.

Isabel e Carlos eram felizes apesar da rotina que a vida de médico impunha ao casal. Tudo obedecia a hábitos que se repetiam diariamente. Os finais de cada dia eram fáceis de adivinhar. Regressado das consultas, Carlos entrava para, imediatamente, se sentar à secretária por alguns minutos a fim de registar a atividade clínica diária. Logo depois, o jantar era servido à mesa com os filhos que, por ordem de idades, faziam os respectivos relatos da escola e dos estudos. Seguiam-se perguntas sobre temas académicos e de cultura geral. Só muito raramente, surgia um elemento diferente.

Um dia, no tempo do princípio das emissões da RTP, a televisão da sala de jantar tinha tido uma avaria. O eletricista, chamado logo pela manhã, só compareceu à hora do jantar. Bem equipado, de fato de macaco “gasto”, cara suada, resolveu o assunto em pouco tempo. O jantar de família já estava adiantado, quase a entrar na sobremesa. Carlos pergunta ao eletricista que terminara o trabalho se era servido. Inesperadamente ele aceita o convite. Carlos, visivelmente satisfeito pelo exemplo de “camaradagem” que ia dar aos filhos, sentou o operário ao seu lado, enquanto Isabel fazia, de soslaio, “caretas” de incompreensão pelo sucedido, pela manifesta inoportunidade, quer do convite quer da aceitação. O jantar acabou por ser diferente, bom e agradável. Isabel e Carlos eram muito diferentes um do outro, mas quando necessário, mesmo nas ocasiões de menor importância, o casal funcionava na perfeição.

Mas, em regra, Isabel cumpria, todos os dias, sempre o mesmo ritual. Revia as condições escolares dos filhos, as reservas alimentares da casa, falava pelo telefone e visitava familiares e amigas. Lia muito, especialmente neorrealistas. Cinema só ao fim de semana. Invariavelmente. São Jorge, Império e Monumental eram os preferidos. Nunca as salas de bairro como o Europa ou o Paris. Muito menos o Jardim Cinema.

Olhava para traz em cada mês que passava e verificava que o circuito era quase sempre o mesmo: o Salvador fornecia a carne do Mercado gerido pelo Nobre, a Mercearia Maravilha alimentos diversos, o Martins a charcutaria, o Abel assegurava o fornecimento de pão, o Aires os arranjos dos sapatos, a Leonor na Ferreira Borges as flores, a Farmácia Castro Fonseca do Palhinhas os medicamentos, Aloma, Értilas e Tentadora eram as fontes para doces, bolos e biscoitos, etc.

Os vendedores ambulantes sem licença camarária povoavam a Rua Coelho da Rocha, sobretudo no período da manhã. Acusados de concorrência desleal em relação aos que detinham banca “oficial” no mercado, lutavam pela sobrevivência nos anos difíceis da ditadura. De entre esses vendedores destacava-se a Rosa dos limões. Fazia lembrar uma figura revolucionária de Jorge Amado. Era uma líder natural. Loira, estatura média, feições bonitas, marcadas pela dura vida e pela miséria, sempre com filhos ao colo e outros a correrem à frente ou a traz, todos de pé descalço, desafiava permanentemente a PSP ao fugir dos cassetetes. Gritava, ora apregoava os frutos para venda, ora protestava contra os temíveis polícias, ao mesmo tempo que fugia, para logo depois regressar. Vendia sobretudo limões. Isabel era freguesa certa. Gostava de ajudar. Tinha simpatia pela causa dos excluídos, dos pobres. Associava esses combates às lutas dos seus irmãos, todos muito activos na Oposição e por isso presos em Caxias e perseguidos pela polícia política do regime.

Maria Isabel, no primeiro dia de cada mês, preparava os pagamentos. Separava em envelopes os montantes para as diversas rubricas: empregados, compras, seguros e prendas. Em cada Outubro havia um reforço, uma vez que eram muitos a festejar: pai, marido, três dos cinco filhos, nora, netos, etc.

Todos reconheciam em Isabel o símbolo ideal da moderna mulher Portuguesa. Associava o interesse pela Literatura, ao apoio a toda a família, sem ignorar a importância das receitas que dominava na cozinha com mestria invejável. Os seus livros manuscritos com as principais receitas foram mais tarde muito disputados.

Perde o marido em Setembro de 1986. Isabel enfrenta com notável coragem a repentina mudança do estilo da sua vida. Um e outro apoiavam-se mutuamente. Sem o suporte de Isabel, Carlos não teria tido a carreira notável de Médico dos Hospitais Civis de Lisboa. Certamente. E, por outro lado, sem Carlos, Isabel não teria tido a vida tranquila, segura e inteligente que todos admiravam nela.

Já viúva, Maria Isabel confessava que já estava cansada do bairro e que estaria arrependida de nunca de lá ter saído em termos de residência. Eram sempre as mesmas pessoas que se cruzavam na rua, sempre as mesmas lojas, sempre os mesmos prédios e arruamentos. Sempre o mesmo ambiente. Parecia que nada tinha mudado depois da quinta do “tio” Albano (Terras do Sabido), ter dado lugar às “novas” edificações (construção nos anos 50…) no final da Rua Coelho da Rocha quando termina na Sampaio Bruno.

Tudo parecia estar sempre na mesma. Só as ruas foram sendo cada vez mais pequenas para os carros dos moradores…

Francisco George
Verão de 2014

Carlos H. George (1913-1986)

Costumo dizer que nasci e cresci no Hospital de Santa Marta. Expressão que repito muitas vezes em homenagem à memória de meu Pai. Mas, é verdade que desde muito novo caminhava para o Hospital pela mão dele, sobretudo aos sábados e domingos, quando visitava os seus doentes mais graves e que mais o preocupavam. Recordo-me, aliás, com grande precisão, de atravessar o pátio dos claustros e entrar no elevador hidráulico. Era uma grande caixa de madeira, aberta de um só lado, que servia para transportar doentes acamados e o director de serviço. Puxava-se uma corrente, ouvia-se água a correr e começava a subir lentamente. Lembro-me que era um de dois elevadores que ainda funcionavam daquela maneira em Lisboa. Passados alguns anos, depois de grandes obras realizadas no final dos anos 50, o elevador foi substituído por um eléctrico, por razões justificadas pela necessidade de poupança de água. Ainda hoje me interrogo se terá sido uma medida correcta, e se não teria sido melhor conservar tão singular património Pombalino. O meu Pai dedicou-se ao Hospital de Santa Marta. Era o “seu hospital”. Representou grande parte da sua vida. Foi aí colocado, em 1957, logo depois de ter obtido o grau de médico dos hospitais, isto é, de assistente.

Ao longo da sua carreira o sucesso pessoal neste concurso terá constituído a sua maior satisfação. Tinha, antes, trabalhado nos Capuchos com Diogo Furtado. Com ele estudou Neurologia, sobretudo no começo depois do Internato. Citou-o muitas vezes ao longo da sua vida. Certamente terá sido o mestre que mais admirou e que mais o influenciou.

Amigo muito próximo de José Pinto Nogueira, Ludgero Pinto Basto, Vasco Urpina e Arménio Ferreira, todos médicos dos Hospitais Civis de Lisboa, Carlos George concentrava no Serviço de Santa Marta um original pólo de debate sobre temas de interesse à Medicina e ao País. Fez, como se reconhecia na época, Escola.

Um dia, Agostinho Neto procurou-o para aí fazer o Internato. Tornaram-se amigos e confidentes. Quando saiu de Portugal, Neto disse-lhe que ia combater um inimigo comum. Meu Pai respondeu-lhe que não tinha inimigos, com excepção de Salazar. Poucos dias passados, recebia dele um postal de Tanger. Depois da Independência de Angola, trocaram visitas em Lisboa e Luanda. Arménio Ferreira identificou nos Arquivos do Serviço a primeira História Clínica feita por Agostinho Neto. Encontrou-a pela data do Internato e pela letra que reconheceu sem dificuldade. O estilo rigoroso da língua e até poético de Neto era inconfundível. Todos os internos, incluindo eu, testemunharam a emoção de um e de outro, quando Neto recebeu do seu antigo Director o dossier clínico do primeiro doente que tratou em Santa Marta.

Em 1966, iniciei os meus estudos na Faculdade de Medicina de Lisboa. Tinha o hábito de levar um bloco de notas para a mesa, à hora de jantar, a fim de com meu Pai fazer uma revisão. Ensinou-me muito. Quer princípios inquestionáveis quer pormenores, por vezes simples traduções. Fui percebendo o que representava a clínica. Contou-me que não foi fácil, pela primeira vez, ter concordado com a biopsia hepática a um doente internado. Tinha debatido longamente com o seu colega Rosário essa indicação. Cedeu aos argumentos dele. Mas, não aceitava facilmente os métodos invasivos e cruentos.

Cultivou sempre o espírito de equipa. Sobretudo da “sua” equipa. Colocava os Hospitais Civis de Lisboa sempre em destaque. No exercício da Medicina procurava estimular a sua própria auto-estima por êxitos ligados à clínica.

Guardo na minha memória um episódio que representou, para mim, uma das mais importantes lições que dele recebi. Um certo dia, provavelmente em 1959, a meio da tarde telefonou à minha Mãe para pedir que o jantar nessa noite fosse servido na sala grande. Deu orientações para ser uma refeição festiva, melhor do que a que estaria em preparação, servida com champanhe e com requinte. As crianças deveriam estar aprumadas à mesa. Não quis anunciar o que iríamos festejar. Ninguém sabia o motivo. Todos nós, incluindo minha Mãe, tentámos adivinhar. Não era dia de aniversário, nem promoções ou nomeações fariam sentido, uma vez que, meses antes, tinha apoiado Arlindo Vicente e Humberto Delgado. À hora combinada entrou na sala, sentou-se e fez sinal para o jantar ser servido. Começou a ronda habitual, dando a palavra ao filho mais velho que descrevia o seu dia de liceu, depois o seguinte, a seguir os gémeos, por ordem de nascimento (eu era o segundo) e por fim minha irmã que na altura teria 8 anos de idade.

Ninguém percebeu a diferença até ao momento do brinde. Então explicou que estava muito contente com ele próprio, porque no seguimento do pedido de um doente seu do Consultório, tinha discutido em conferência médica o diagnóstico com um professor de Santa Maria. Ele era da opinião que não havia indicação cirúrgica para o tratamento do doente e o Colega entendia que seria precisa a intervenção. Em plena operação o diagnóstico definitivo demonstrou que ele tinha razão e que não teria sido necessária a cirurgia… Soube mais tarde que estava em causa o diagnóstico diferencial de icterícia. Meu Pai era assim. Vibrava intimamente com os seus próprios sucessos.

Apesar de ligado à Oposição, meu Pai manteve relações de trabalho e de grande lealdade com governantes que respeitava. Foi o que sucedeu, primeiro com Neto de Carvalho e depois com Baltazar Rebelo de Sousa. Curiosamente foi distinguido com condecorações antes e depois de 1974. Maldonado Gonelha e Ramalho Eanes compensaram o manifesto “desequilíbrio” pelas distinções recebidas no início da sua carreira.

Francisco George