O cliché ao lado reproduzido espelha a família de Albert George e de Joaquina
Almeida em 1918. O ano do final da Guerra, o ano da Pneumónica, o ano de Sidónio.
A vida dos George em Campo de Ourique é marcada pela personalidade ímpar de Albert. Filho de pai e mãe ingleses cultiva desde muito cedo a sua dupla condição de cidadão Britânico e Português. Albert nascera, em 1870, no bairro de Santos em Lisboa; era o mais novo dos 12 filhos de Charles e Emma.
Ao casar com Joaquina Almeida, reside primeiro no número 27 da Rua dos Ferreiros à Estrela e depois no 75 da Coelho da Rocha em Campo de Ourique. Trabalha na Carris, nos serviços junto à Administração. Fazia uma espécie de “ponte” entre os grandes acionistas Ingleses e os trabalhadores da Companhia. Aconselhava e ajudava todos. Era muito respeitado.
O rendimento familiar, que se limita ao resultado do seu trabalho, era destinado, sobretudo, à formação dos filhos. Com uma pequena parte da remuneração que recebia adquiria progressivamente alguns títulos da “sua” Carris, bem ao estilo de seguro para o futuro.
Mas a educação era o seu principal investimento. Insistia, igualmente, que o lazer não impedia a cultura. Tal como a literatura e a arte eram insubstituíveis no processo de formação e preparação para a vida futura. Uma questão de inteligência, dizia.
Albert vivia com a preocupação principal de formar os seus 6 filhos, quer pelo seu próprio exemplo quer pelos estudos que cada um viria a escolher e que acompanhava com grande entusiasmo. Era ele que nas secretarias fazia as inscrições dos filhos nas escolas primárias, nos liceus e até na Universidade. Preparava o caminho. Criava condições que considerava ideais para os estudos aos filhos.
A instrução era a base de tudo. O pilar central da Família, como ele entendia.
Albert seguia as questões educativas com redobrada atenção. Procura, pelo exemplo, impor regras éticas de grande rigor. A responsabilidade era uma componente essencial da ética que defendia. O cumprimento dos deveres cívicos. O interesse público. O significado de honrar a palavra.
A foto retrata o casal com os seus filhos. À esquerda Carlos (nascido em 1913), depois Helena (1900), Alberto (1902), seguidos de Elizabete (1907), Ema (1910) e Frederico que nasceu em 1915.
Cresceram a ver o Pai conduzir a vida sem lamúrias, humilde, discreta, propositadamente austera, ao mesmo tempo que impunha serenidade nas relações familiares e que realçava a importância de valores da fraternidade e solidariedade.
Apesar da exiguidade de espaço e de rendimentos familiares limitados, acolhe em sua casa, a partir do Verão de 1910, a irmã Helen quando perde o marido. Abriga-se sempre um filho, um irmão, outro dos princípios que observava.
Em 1910, Albert, Joaquina, quatro filhos e Helen fecham-se em casa nos dias 3, 4 e 5 até à vitória da República. Também festejam, mas como manifestação solidária em relação aos amigos revolucionários que os visitam depois da proclamação de Relvas na célebre Varanda.
Os tempos livres eram ocupados com encadernação das obras clássicas que lia. Camilo e Eça eram os seus preferidos.
Não perdia uma exposição de arte. Aliás, convivia com artistas, frequentava tertúlias animadas pelo pintor António Tomás Conceição Silva (o seu amigo mais próximo).
Muito elegante, mantinha a imagem associada à sua origem inglesa. Vestia casaco escuro, camisa branca com gravata e colarinho de goma ao alto. Talvez devido à sua indiscutível elegância, serviu, por mera amizade, de modelo para telas, esculturas e até estátuas de grande porte. Em Belém, o Vice-Rei Afonso de Albuquerque no topo da coluna é, efetivamente, a figura de Albert George esculpida no bronze por Costa Motta (1862-1930). Também nos mosaicos de São Mamede ou em óleos depositados em museus (Museu do Chiado, em particular) é possível observá-lo.
Mais tarde, o filho Frederico que viria a ser pintor e arquiteto e, no plano académico, professor e Director da Escola Superior de Belas Artes, dizia que ter visitado pela mão de seu Pai numerosas exposições o “contagiou” pela força das cores e da arte exibida nessas ocasiões.
Ao morrer em 1940, Albert George tinha cumprido o seu constante sonho que refletia a importância da união da Família como principal energia. Joaquina, que se junta ao marido no Cemitério Inglês, em 1952, deixa às gerações seguintes como único bem de herança o exemplo da sua vida com Albert.
Lisboa, Outono de 2015

Compreende-se não só pela semelhança do som como pela própria tradução do inglês para o português. Afinal muitos portugueses quando se referem à Rainha Isabel de Inglaterra não pronunciam o nome original que é, como se sabe, Elizabeth. Da mesma maneira ninguém diz New YorK para designar a famosa cidade dos EUA. A tradução será, pois, natural.
vapor que assinalam o início da Revolução Industrial. A prosperidade era indiscutível. Vitória reinava. Era a época marcada pela viagem do Beagle de Charles Darwin (1831), mas também pelo crescimento das altas chaminés alongadas nas povoações antes rurais e pelo início dos movimentos operários, mas, igualmente, pelas descrições implacáveis e certeiras de Charles Dickens.
Emma morre, em Lisboa, aos 68 anos, a 22 de Março de 1896, junta-se a Charles no Cemitério Inglês à Estrela no PLOT que depois receberia três dos seus filhos: Henry (1902), Albert (1940) e Helen (1945) e muitos dos seus descendentes.
Charles George nasceu em Inglaterra em 1825 na época do vapor, em plena Revolução Industrial. Dedicou toda a sua vida à nova energia e, em especial à construção naval.
A vida, quer em Inglaterra quer em Portugal, do casal Charles e Emma terá sido feliz e tranquila. Tiveram catorze: Elizabeth, Charles, Maria, John, Thomas, Emma, Helen, Edmond, Alfred, Henry, Wiliam, Frederick, Marta e Albert (avô do autor). Uns em Kent e outros em Lisboa. Inseriram-se no modo de viver em Lisboa e, naturalmente, perceberam e integraram-se na Cultura Portuguesa. Em homenagem ao Infante dos Descobrimentos o segundo nome de filhos, netos e bisnetos passou a ser Henrique…
Ao contrário do que acontece em muitos outros países, nomeadamente anglo-saxónicos, em Portugal não há o hábito de acrescentar aos nomes o número de ordem das gerações sucessivas quando os mesmos nomes (o próprio e apelido) são comuns.
Aliás, a fotografia de 1953 traduz essa relação à mesa do Mestre Conceição Silva (no topo) na casa de Vila de Frades (Vidigueira). Suzana, a filha que agora caminha para os 111, está sentada à sua direita. Mais tarde, no fim do ano de 1961, esta mesma casa serviu de refúgio a Humberto Delgado durante o célebre Assalto a Beja.