Opinião Pessoal CIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
4 março 2026

SOBRE PROCRIAÇÃO MEDICAMENTE ASSISTIDA

Como já aqui contei, Maria do Carmo e seu marido queriam começar uma nova etapa da vida conjugal. Desejavam ter filhos. Pensaram em tudo, incluindo a preparação dos quartos para as crianças e, principalmente, nas poupanças necessárias que teriam de fazer. Ansiavam pela confirmação dos sinais da primeira gravidez. Mas, ao contrário das expectativas, mês após mês era um desencanto. A esperança inicial transformou-se em desilusão. Inquietação. Sofrimento, mesmo.

Por fim, o esquema por eles idealizado, em 1975, com a intervenção do doutor Silva resultou. No entanto, ao invés do inicialmente planeado, ficaram por um único filho.

Curiosamente, passados apenas três anos sobre a noite de Carmo com José Silva, nasceu Louise Brown, em Manchester, a 25 de julho de 1978, que foi concebida por técnica artificial inovadora. O primeiro bebé-proveta da História da Medicina. O “serviço” então prestado pelo doutor José Silva deixaria de voltar a ser necessário. Começara a nova era da Procriação Medicamente Assistida.

O método de fecundar o óvulo pelo espermatozoide in vitro deve-se ao cientista britânico Robert Edwards (1925-2013) que conseguiu proporcionar a fertilização em laboratório seguida pela implantação no útero da mãe de Louise. Idealizou e concretizou a fecundação fora do corpo da mulher, na perspetiva do tratamento da esterilidade. A equipa pioneira da fertilização in vitro (designada abreviadamente como FIV) envolveu, também, o ginecologista Patrick Steptoe e a enfermeira Jean Purdy. Um avanço histórico.

A partir daí, em termos de planeamento familiar, a componente da Medicina da Reprodução viria a adquirir grande importância a nível global, apesar das críticas de alguns setores conservadores associadas a questões morais e religiosas.

A técnica FIV, pouco depois, passou a ser largamente utilizada em todo o mundo para tratar a infertilidade. Em Portugal, foi o obstetra António Pereira Coelho que introduziu a fertilização in vitro. A primeira criança portuguesa assim concebida nasceu em 1986. Porém, só em 2006 foi criada a entidade que regula as diferentes técnicas: Conselho Nacional de Procriação Médica Assistida.

A seguir ao sucesso obtido pela FIV, outras técnicas foram desenvolvidas. Em 1983, viria a nascer a primeira criança como resultado da transferência do embrião criopreservado (o azoto líquido permite conservar a atividade das células do embrião à temperatura entre -156 e -196 °C).

Muitos anos depois do nascimento de Louise, Sir Robert viria a ser laureado, em 2010, com o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia. Consagração, se bem que tardia, justíssima.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
25 fevereiro 2026

(continuação)

Como já contei, em 1975, Maria do Carmo e José Silva passaram a noite juntos, mas separaram-se pela manhã do dia seguinte, ainda antes do pequeno almoço.

Carmo foi transferida, a seu pedido, para outro ministério, onde prosseguiu a carreira de funcionária administrativa.

José Silva continuou a desempenhar o seu cargo de chefia no mesmo local. Mais tarde, viria ser promovido a diretor de serviços. Durante estes 10 anos nunca mais voltou a ver Maria do Carmo. Quase esquecera a espantosa noite vivida com a sua antiga secretária. Para ele, terá sido um acontecimento de tipo relâmpago, que se esfumaçou ao longo dos anos até a um certo dia do verão de 1985.

Ora, no final da tarde de um sábado quente, Silva estava na fila da bilheteira da estação do Rossio a comprar um bilhete de comboio para ir visitar amigos em Sintra. Por mero acaso, inesperadamente, uma senhora com um filho pela mão, ao reconhecê-lo no meio da multidão, foi junto dele e perguntou-lhe:

– Como está, senhor doutor?

Silva demorou alguns instantes para a identificar. Respondeu ao cumprimento de Maria do Carmo, apenas com a conversa habitual para essas situações comuns:

– Muito bem, obrigado. E a Maria do Carmo como vai? Na Baixa, às compras?

– Nós lá em casa estamos excelentes. Obrigado. Eu e o meu filho regressamos agora a Queluz, onde continuamos a residir.

– Desejo-vos, então, muita sorte e boa saúde. Felicidades.

Depois das despedidas, passados uns segundos, José Silva concluiu que a criança era seu filho. Voltou a olhar e viu a silhueta de Maria do Carmo a afastar-se, com um rapazinho agarrado ao seu braço. Repentinamente, tinha que decidir se iria ou não atrás dela para olhar de frente para a criança. Não sabia o que seria melhor, tanto para si mesmo como para a mãe e filho. Sentiu uma estranha agitação interior. Naqueles momentos queria saber como fazer e o que seria mais adequado perante tão extraordinária circunstância. Sentiu uma imensa sucessão de emoções intensas. Uma tempestade de pensamentos contraditórios. Ao rubro. Por fim, decidiu não ir. Não foi. Provavelmente pretendeu regressar à tranquilidade da sua vida anterior. Mesmo assim, as dúvidas persistiram por muito tempo.

Questões para reflexão de cada leitor:

O que faria no lugar do doutor José Silva? Iria atrás de Maria do Carmo para conhecer o seu filho?

Maria do Carmo deverá continuar a guardar o segredo entre ela, seu marido e Silva? Nada dizer à criança? Nunca?

Uma vez que em 1975, a procriação não dispunha das atuais soluções médicas de fertilização, o que teria feito no lugar de Maria do Carmo? E se fosse o seu marido?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
18 fevereiro 2026

O QUE FARIAS SE FOSSES O DOUTOR SILVA?

As duas crónicas que hoje têm início destinam-se a posterior reflexão de cada leitor. A época e os eventos descritos são reais. Apenas os nomes foram modificados.

Em 1975, Maria do Carmo tinha 29 anos de idade. Na altura, era funcionária pública em Lisboa. Trabalhava como assistente administrativa numa repartição do Estado. Casara seis anos antes com o namorado que conhecera ainda nos tempos do liceu. Em Queluz, viviam felizes em apartamento amplo, uma vez que desejavam ter filhos.

Pontualmente, às 9 horas, Maria do Carmo chegava ao serviço.  Começava a selecionar a correspondência entrada e a datilografar os ofícios para serem assinados pelo doutor Silva, que era o seu chefe de divisão. José Silva era um jurista, formado pela Faculdade de Direito de Lisboa. Ainda jovem, aparentava ter pouco mais de 30 anos de idade, era por todos que aí trabalhavam considerado como muito educado e atencioso, tido como pessoa discreta. Apesar do “verão quente”, próprio da altura, ninguém conhecia as suas tendências políticas, mas reconheciam a sua dedicação ao interesse publico.

Um certo dia, depois dos assuntos diários despachados, pouco antes da hora de saída, Maria do Carmo bateu à porta do gabinete do doutor Silva, entrou e em tom emotivo, mas convincente e corajoso, perguntou-lhe:

– Senhor doutor, desculpe a minha ousadia, mas queria convidá-lo para irmos os dois dormir a um quarto do hotel aqui em frente. O meu marido já reservou um quarto e ensaiou comigo esta conversa.

– Ó Dona Maria do Carmo, está a pedir-me para eu dormir consigo?

– É isso mesmo, Senhor Doutor! Eu e o meu marido tentamos desde há seis anos ter uma criança, mas até agora sem resultados. Consultámos muitos médicos especialistas e realizámos imensos exames. Por fim, concluíram que o problema era ele porque tinha tido papeira em criança, que provocou lesões nos testículos. Aquilo funciona, mas não produz espermatozoides. Foi ,então, que me perguntou se havia alguém simpático e com boa figura que trabalhasse comigo. Eu respondi-lhe que o único de jeito era o meu chefe. Foi ele que planeou tudo. Percebe?

– Entendo bem. Eu sou o tal jeitoso. Então pretende que seja hoje?

– Sim, tem mesmo que ser hoje. Segundo o médico nos disse, a elevação da temperatura corporal que todos os dias avalio logo ao acordar indica o dia da ovulação do meu ciclo. Isto é, estou em fase fértil.

– Assim sendo, vamos a isso. É um prazer poder ser útil desta maneira.

– Ó doutor, obrigado. Fico à sua espera junto à paragem do autocarro.

No dia seguinte, Maria do Carmo entrou de férias até ser transferida para outro departamento.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
11 fevereiro 2026

SOBRE PROTEÇÃO DO POVO

Todos reconhecemos no Marquês de Pombal o governante que comandou, de forma notável, as operações de socorro e a reconstrução de Lisboa, depois do Grande Terramoto de 1755.

A ação que conduziu está eternizada na maior das estátuas portuguesas, na Rotunda. O imponente monumento, coroado pelo bronze da sua imagem ladeada por um leão, simboliza força e serenidade.

O projeto para a sua edificação era uma ideia antiga que nascera em 1882, mas que só em 1934 viria a terminar. Os atrasos da obra resultaram de múltiplas contrariedades, sobretudo devidas à insuficiência dos fundos provenientes de subscrição nacional. Curiosamente, Salazar não compareceu à cerimónia oficial de inauguração.

Os 271 anos que nos separam da Tragédia não desfocam o acerto das sucessivas medidas então tomadas, inovadoras para a altura, implementadas logo depois do abalo sísmico, seguido pelos incêndios e pelo tsunami que arrasaram Lisboa.

“Cuidar dos vivos e enterrar os mortos”, a famosa expressão atribuída ao secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo (o futuro Marquês de Pombal), traduz a sua preocupação em reduzir o sofrimento, mas também em impedir o agravamento da situação social e de saúde dos lisboetas. Nesse sentido, no próprio dia 1 de novembro foram distribuídos mantimentos à população da cidade. Não houve fome nem eclodiram epidemias.

Os militares dos regimentos de infantaria de Peniche, Elvas e Olivença, bem como os Dragões de Évora, foram mobilizados para apoiarem a segurança pública e participarem na remoção de escombros e desobstrução das vias de circulação.

O processo de reconstrução foi, igualmente, exemplar pela marca de modernização alcançada para a época. Para tal, Sebastião José rodeou-se dos melhores engenheiros e arquitetos. Consultou todos. Ouviu pareceres técnicos de peritos qualificados. Até solicitou a opinião do médico português Ribeiro Sanches, então exilado em Paris.

Privilegiou as propostas de engenheiros militares, nomeadamente os planos urbanísticos do general Manuel da Maia, do coronel Carlos Mardel e do capitão Eugénio dos Santos. As casas edificadas passaram a ter um “esqueleto” em madeira como estrutura antissísmica (as célebres gaiolas) e servidas por redes prediais de esgotos.

Hoje, os especialistas em gestão de catástrofes, a nível mundial, admitem que o Terramoto de Lisboa terá sido o primeiro desastre natural em que o Estado assegurou respostas de emergência pela mobilização imediata de todos os meios disponíveis, incluindo militares. Foi o começo da Proteção Civil, como instituição do Estado.

Foram 271 anos para “aprendizagem coletiva”!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
4 fevereiro 2026

SOBRE BOA JUSTIÇA

A história do cidadão português Jorge Santos, que antes, ele mesmo, tinha sido o americano George Edward Wright e a seguir o guineense José Luís Jorge dos Santos, que aqui resumi em crónica anterior, é tão insólita como rigorosamente verdadeira. Poderia ter sido o argumento de um filme, que iria incluir a fusão de diferentes tipos de argumento: policial, aventura, luta por ideais, thriller e romance. Ainda por cima, com final feliz, tanto na dimensão do amor pela portuguesa com quem viria a casar como da Justiça.

Apesar destas minhas considerações não houve filme, até agora. A tentativa de produção não teve sucesso. Um desperdício para a arte cinematográfica e uma perda para os cinéfilos de todo o mundo. Teria sido uma oportunidade para o cinema retratar um exemplo da observação de direitos humanos próprios da Justiça de um país como Portugal em flagrante contraste com a natureza do regime conservador dos Estados Unidos da América.

Em 2011, o FBI descobriu-o através da localização de um telefonema que fez para sua irmã, que residia nos EUA.

Curiosamente, muitos anos depois de Bissau, voltei a encontrar Jorge Santos, em Colares, onde vivia com a família. Sempre que nos víamos dizia-me que procurava clientes para pintar paredes. Fazia pinturas especiais com efeitos coloridos.  Depois de 2011, já com o seu percurso de vida publicamente desvendado, disse-me que procurava produtores de cinema para reproduzirem as suas aventuras e audácias.

A esse propósito pretendo realçar a justeza das decisões tomadas, em Portugal, pelo Tribunal da Relação e pelo Supremo Tribunal de Justiça que, em 2011, não autorizaram a extradição de Jorge Santos para os Estados Unidos, como pretendia o FBI. A nossa Constituição assenta em pilares que refletem os valores principais do humanismo como a limitação de prazo de prescrição de procedimentos criminais e a impossibilidade de extraditar cidadãos portugueses.

Ora, a evasão de Jorge Santos da cadeia onde, na América, cumpria pena verificou-se em 1970 e a sua espetacular fuga pelo sequestro do avião da Delta Airlines ocorreu em 1972. Isto é, como passaram cerca de 40 anos o princípio da prescrição (e o da cidadania nacional) impôs-se para impedir o FBI de ter conseguido deter o foragido George Wright.

Ainda bem que assim aconteceu.

PS: À falta de uma produção de Hollywood, a jornalista Sofia Pinto Coelho realizou para a SIC uma excelente série documental intitulada “George – o fugitivo que o FBI não esquece”, que foi difundida em novembro de 2024, mas que pode e deve ser revisitada, facilmente, por pesquisa no Google. Três episódios imprescindíveis.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
28 janeiro 2026

SOBRE HISTÓRIAS TROPICAIS INSÓLITAS

Tal como aqui já escrevi, cheguei a Bissau em 1980. Era a época da esperança manifestada pela generalidade dos guineenses, traduzida pela confiança no futuro do país governado pelos comandantes da Luta, que tanto admiravam.

Viver em Bissau era agradável, apesar das múltiplas complicações diárias. Os convívios entre dirigentes do Estado e cooperantes estrangeiros eram habituais. Invariavelmente alegres. Na comunidade portuguesa destacava-se a figura agregadora de António Manuel Reis, que organizava almoços de confraternização, especialmente aos fins de semana. Cada participante levava mantimentos para a casa do Tomané (o seu petit nom preferido), que eram partilhados. Nunca faltavam as ostras, que depois de lavadas eram preparadas na grelha e logo comidas com molho de limão e malagueta. Vinham em grandes sacas compradas em Quinhamel, a preços muito acessíveis. Uma categoria, insuperável, de entradas nas nossas festas!

Ora, foi num almoço desses que conheci o Jorge Santos, um guineense que exibia uma imagem e atitudes distintas de outros conterrâneos, quer pela dificuldade que tinha em falar crioulo ou português quer pela fluência da língua inglesa, carregada com forte sotaque americano. Alto e magro, Jorge aparentava ser um desportista, ao estilo de jogador de basquetebol. Trabalhava nos serviços da Embaixada dos Estados Unidos em Bissau, no tempo do embaixador John Blacken. Na altura, eu julgava que Jorge poderia ser um agente da CIA, uma vez que ele circulava com total liberdade nos corredores e gabinetes dos diplomatas.

Passados muitos anos, estava eu já na Direção-Geral da Saúde, em 2011, os noticiários das televisões relataram que o FBI tinha localizado, em Colares, um dos mais procurados fugitivos americanos e que agentes tinham viajado para Portugal para requererem a sua detenção, a fim de ser repatriado para os EUA. Com enorme espanto, identifiquei pelas imagens que o tal foragido era Jorge Santos, o nosso companheiro de festas no jardim do Tomané.

George Wright era há 40 anos perseguido pela polícia americana. Tido como membro do Black Panther Party, era acusado de evasão da cadeia onde estava preso e de ter assaltado um avião. Estava no top dos mais procurados do FBI. Conseguiu refúgio na Argélia.

Em Argel, conheceu dirigentes do PAIGC que ofereceram a cidadania guineense (certidão de nascimento, com novo nome). Mais tarde, adquiriu a nacionalidade portuguesa. Vivia tranquilamente com a família em Colares.   

PS Grande classe do Jorge, que apesar de fugitivo, teve a ousadia de trabalhar na embaixada americana. Só possível em Bissau!

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
21 janeiro 2026

SOBRE CORTESIA TROPICAL

Como tenho escrito, a vida em Bissau era muitíssimo animada, nos anos 80. Entusiasmante. Ali vivi episódios invulgares (alguns dos quais quase inacreditáveis) que, à semelhança da crise anual da praga de grilos, nunca mais esqueci pela singularidade indiscutível que representaram.

O clima quente e húmido é particularmente agradável, visto que em todos os meses do ano, de dia ou de noite, o traje habitual dispensava casaco, incluindo em encontros formais nos gabinetes governamentais ou nas chancelarias diplomáticas. As camisas tropicais de estilo balalaika quer de mangas curtas (para o dia a dia) quer compridas (reservadas ao mais rigoroso protocolo de Estado) eram muito agradáveis. Os seus quatro bolsos e os colarinhos abertos elevavam o conforto.

Ora, um determinado dia, eu tinha recebido um convite para assistir a uma conferência de Mário Soares que estava em visita oficial a Bissau a convite de Nino Vieira. A agenda previa um discurso do Presidente português sobre cooperação Norte-Sul. Como de costume, fiz contas para chegar ao local ligeiramente antes da hora marcada. Por isso, parei o meu automóvel nas redondezas à espera do tempo exato para chegar à hora, sem atrasos nem avanços. Então reparei que o Diretor-Geral do Instituto que acolhia o evento estava embaraçado porque o seu carro não pegava devido à humidade ambiental ter desgastado a bateria. Era preciso pegar de empurrão para libertar o espaço destinado às comitivas dos presidentes.  Percebi a sua imensa aflição. Ninguém estava por perto para empurrar (pintchar, em crioulo) o seu carro empanado. Ao ver a cena, decidi que tinha que ser eu a aparecer como voluntário. Assim calhou. Então, disse-lhe:

– Olhe, entre já para o automóvel porque eu empurro por trás!

Reconheceu-me e respondeu:

– Ó doutor aceito. Vamos a isso.

Pouco tempo depois o motor estava a trabalhar. Antes da despedida e dos agradecimentos, vira-se para mim e disse-me:

– Ó doutor, realmente nós, guineenses, andámos sempre a pintchar os carros dos brancos. Agora foi ao contrário. Só você teria tido esta cortesia de branco empurrar carro de preto!

Pouco minutos depois, com o parque desimpedido, chegaram os batedores dos dois presidentes.

Certamente que o meu traje balalaika terá ajudado a minha ação: apesar do calor o esforço não se refletiu no vestuário.

À noite, em casa, contei à família o sucedido, pormenorizadamente. Entre a estupefação e muitos risos recebi os aplausos de todos. Aprovaram sem reservas. Foi uma lição para meus filhos. Uma demonstração concreta de educação e civismo que sempre deve prevalecer em relações humanas.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
14 janeiro 2026

SOBRE MEMÓRIAS TROPICAIS

Tal como antes escrevi, a vida em Bissau era um misto de dificuldades e de prazeres, nos anos 80. Na época, todos se tratavam por camarada. A nível das relações humanas, o país tentou implementar valores da fraternidade e da igualdade, reclamados pelo PAIGC, desde o início da Luta e mantidos a seguir à Independência. No plano político teria sido um modelo baseado no exemplo da sociedade cubana, mas que viria a esfumar-se ao fim de poucos anos.

Na altura, os fenómenos bizarros eram frequentes, tanto no domínio ambiental como nas relações sociais. Múltiplos acontecimentos estranhos apimentavam a vida coletiva rotineira, particularmente na capital.

Era o caso do aparecimento repentino, de um dia para o outro, de milhões de grilos que rapidamente se disseminavam por toda a cidade, incluindo no interior das casas. Os típicos cri-cri-cri perturbavam as noites quentes. Um cooperante português, professor liceal de biologia, explicou-nos que aqueles cantares típicos dos grilos eram os machos a chamarem e a seduzirem as fêmeas para fins de acasalamento. Ora, se os cri-cri-cri seduziam as fêmeas dos grilos, para nós constituíam um verdadeiro inferno. A vida noturna era terrível. Ao jantar saltavam para os pratos, à noite estavam no quarto debaixo da cama e até dentro dos lençóis. Grilos por todo o lado e a toda a hora. Muitos. Cenas indescritíveis. Depois do pôr do sol, procuravam os arruamentos com mais candeeiros públicos e especialmente o Palácio Presidencial, uma vez que era o edifício mais iluminado. Pendurados nas paredes com mais luz, transformavam a cor rosa da fachada em enormes manchas negras. Na manhã seguinte, os grilos mortos que enchiam os pavimentos alcatroados das ruas eram espalmados pelos pneus dos carros, originando sucessivos estalidos.

Passados poucos dias, o Diretor-Geral da Saúde, Dr Venâncio Furtado, dava ordem para pulverizar a cidade com um inseticida que era lançado nas vias urbanas durante a madrugada. Provavelmente, esta operação tinha efeitos negativos a nível ambiental, mas como encurtava a presença de tantos grilos nas nossas casas representava um remédio bem-vindo.

Nos anos 80, a praga dos grilos em Bissau era recorrente, tido como fenómeno cíclico, desde o tempo colonial.

PS: Em Campo de Ourique, quando era criança lembro-me de ir à florista Leonor, na Ferreira Borges, pela mão de minha Mãe, para comprar uma pequena gaiola com a forma de um cubo com grades de arame para prender um grilo. Uma vez regressados a casa o grilo era alimentado com folhas de alface. Ao ouvirmos os cri-cri-cri, era uma alegria para nós.

Conclusão: nem 8 nem 80.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
7 janeiro 2026

SOBRE BISSAU TROPICAL NOS ANOS 80

Uma vez Presidente, a partir de 14 de novembro de 1980, Nino Viera depressa conseguiu a separação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Com etnias, culturas e religiões distintas, os povos dos dois países apenas admitiam identidades partilhadas através da figura de Amílcar Cabral, o fundador do partido comum: PAIGC.

O país estava confrontado com a pobreza extrema da população, a par da fragilidade das infraestruturas em todos os setores. Ora, no seguimento da Independência da Guiné-Bissau, a saída das Forças Armadas Portuguesas demonstrou a imensa exiguidade de recursos essenciais em todas as áreas, incluindo da organização do Estado, já que, no tempo colonial, quase toda a Administração Pública dependia do apoio dos militares.

Ao contrário do que aconteceu em outras colónias, os investimentos portugueses tinham sido insignificantes em todos os domínios. Só por meio de doações e empréstimos (Banco Mundial) provenientes da cooperação (bilateral e multilateral) foi possível assegurar o funcionamento do sistema de saúde, a educação, mas também ampliar as instalações portuárias, construir nova aerogare, alcatroar estradas, modernizar as comunicações, desenvolver as pescas, o comércio, o parque hoteleiro, etc. Até o antigo Hospital Militar ficou rapidamente inativado porque se afundou nos terrenos pantanosos onde fora construído…

Estou em crer que a insignificância do património edificado durante séculos de ocupação portuguesa estaria associada à diminuta colonização (em termos da pouca expressão de colonos). A emigração para Angola ou Moçambique teria sido mais atrativa do que para a Guiné. A este propósito, um diplomata da nossa Embaixada disse-me que os portugueses residentes a seguir à Independência não chegariam a 200.

Em Bissau, nos anos 80, muitas mercadorias de primeira necessidade não eram alcançáveis, mesmo por cooperantes ou diplomatas. A moeda nacional (o Peso) não tinha valor. Quase tudo faltava.  Tudo, incluindo a energia elétrica fornecida pelo velho gerador da cidade. Os cortes que aconteciam todos os dias, sem exceção, eram motivados por repetidas avarias ou por falta de combustível.

Apesar das inúmeras dificuldades, a vida era tranquila. Pacata. Belíssima.

A descoberta do processo de construção ex novo de um Estado que tinha conquistado a Independência há poucos anos, representou, para os cooperantes que ali trabalhavam, um fascínio. Um tempo único.

Em Bissau, as rotinas do dia a dia tinham encantos: convívios e jantares em casa de uns e outros, a música, as danças, os sabores das ostras e dos camarões ou dos frutos tropicais. Inesquecíveis.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal C

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
31 dezembro 2025

SOBRE UMA REVOLUÇÃO TROPICAL

Em outubro de 1980, aterrei no antigo aeroporto de Bissau. Antes, tinha estado em Brazzaville (Congo), onde iniciei a minha carreira de funcionário da Organização Mundial de Saúde, que viria a durar 12 anos consecutivos.

Bissau era uma cidade única. Aprazível. Pairava no ar um perfume especial. Palmeiras, elegantíssimas, erguiam-se de entre a vegetação pintada por múltiplos tons de verdes, que quase escondia a cor vermelha das terras da região da capital guineense.

Era, ainda, o tempo do presidente Luís Cabral e do líder do PAIGC, Aristides Pereira (presidente de Cabo Verde, mas que de quando em vez ia a Bissau).

Rapidamente integrei-me na comunidade. À noite, havia o costume dos cooperantes portugueses frequentarem o Hotel 24 de Setembro. A beleza tropical e a tranquilidade da esplanada ao ar livre eram muito atrativas. Apesar de não estar ali hospedado, logo adquiri o hábito de participar nos convívios à mesa do café para trocar notícias sobre as políticas, tanto da Guiné-Bissau como de Portugal. Estas conversas noturnas eram fontes informativas imprescindíveis. Na altura, as novidades internacionais eram apenas acessíveis através das emissoras captadas em banda curta, uma vez que não havia televisão (muito menos internet) e que a rádio nacional só emitia em FM.

Uma dessas noites viria, para mim, a ser memorável. Eram 21 horas, do dia 14 de novembro (1980). Lá estava eu sentado à mesa em tertúlia usual com guineenses e portugueses. Repentinamente, ouvem-se burburinhos, algazarras, correrias, tentativas de alguns telefonarem na receção do Hotel… Uma enorme confusão instalada em poucos segundos e que interrompeu a típica serenidade do local. Então, surgiram guerrilheiros de camuflado que no centro da esplanada montaram um tripé com uma metralhadora pesada. Outros revoltosos, com espingardas apontadas para nós, deram ordens para estarmos de pé com as mãos bem levantadas para cima. Assim aconteceu. Todos nós obedecemos imediatamente. Assustados, estávamos à espera de novas instruções.  Eis senão quando, inesperadamente, aparece o empregado do Hotel “chefe de mesa” a perguntar ao líder da brigada revolucionária:
– Ó camarada, quem paga as contas?

Em resposta, ordenou em tom firme:
– Baixem os braços, paguem as contas e voltem a pôr os braços para cima!

Passados uns minutos, voltou a mandar:
– Vão todos para os quartos, já! Ninguém sai!

Ora, como eu não estava aí alojado, pedi a um português que, aliás, não conhecia, se poderia partilhar o quarto comigo.

No dia seguinte, ficámos a saber que os tumultos correspondiam ao golpe de Nino Vieira que destituiu Luís Cabral.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com