Opinião Pessoal CXIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
13 maio 2026

SOBRE A CRISE DO SURTO DE HANTAVÍRUS

A propósito da epidemia de infeção respiratória grave provocada pelo Hantavírus, que foi identificada em passageiros do navio “Hondius”, é preciso reconhecer a oportuna intervenção das autoridades do Ministério da Saúde de Espanha. Um modelo de indiscutível eficácia, desde a conceção das operações necessárias de resposta à emergência de saúde pública, à rápida mobilização de meios e, também, à adoção das medidas adequadas destinadas a controlar o surto. Tudo foi bem feito. Um exemplo. As diversas ações conduzidas pelos especialistas espanhóis, baseadas em princípios científicos, mas logo apoiadas pelos políticos, foram criteriosamente aplicadas com êxito e seguidas de perto pelo Diretor-Geral Organização Mundial da Saúde.

Porém, a ter acontecido em Portugal essas atividades teriam sido bem diferentes. Tudo mais complicado. Mais difícil. Mais confuso, tanto no plano político como da organização do Estado.

Antes de tudo o mais, há que reconhecer que adoção das ações que visam o isolamento obrigatório ou a quarentena, tal como o internamento compulsivo, mesmo perante o risco iminente de contágio de doença grave, continua a não ter enquadramento legal, em Portugal. O maior obstáculo para aprovar uma nova Lei de Emergência Sanitária é o artigo 27º da Constituição da República que impõe, como regra, apenas a possibilidade do internamento obrigatório de “portador de anomalia psíquica em estabelecimento terapêutico adequado, decretado ou confirmado por autoridade judicial competente”. Ou, dito de outra maneira: a eventualidade de internamento compulsivo está constitucionalmente limitada a doentes psiquiátricos, visto que não inclui doentes com infeções contagiosas, segundo estipula, rigidamente, a alínea h), do número 3, do citado artigo.

Por esta razão não houve qualquer sucesso com as anteriores tentativas em aprovar uma lei capaz de garantir a implementação de ações de proteção da população perante ameaças de Saúde Pública. Primeiramente, há que proceder à revisão da Constituição.

Ninguém percebe as constantes hesitações dos deputados em decidirem nada fazer nesse sentido. Ainda por cima, é o artigo 284º da própria Constituição que determina: “1. A Assembleia da República pode rever a Constituição decorridos cinco anos sobre a data da publicação da última lei de revisão ordinária. 2. A Assembleia da República pode, contudo, assumir em qualquer momento poderes de revisão extraordinária por maioria de quatro quintos dos Deputados em efetividade de funções”.

Ora, assim sendo, por que esperam os 230 deputados dos diferentes partidos com assento na Assembleia da República?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
6 maio 2026

SOBRE OS MORCEGOS (II)

A propósito das frondosas mangueiras que rodeavam a minha casa de Bissau, que eram povoadas por centenas de morcegos, já aqui realcei que as fezes que eliminam, tal como a urina e a saliva, podem transmitir infeções a outros animais e a pessoas suscetíveis. Por isso, em epidemiologia, os morcegos são considerados reservatórios, uma vez que armazenam, na natureza, os agentes patogénicos, nomeadamente uma multiplicidade de vírus.

São grandes as diferenças da envergadura e corpulência de morcegos pertencentes às várias espécies existentes nos cinco continentes, mas estou certo que não serão animais especialmente simpáticos, nem atraentes, nem “fofinhos”. É verdade. Mas, o pior é a ameaça que podem representar para a nossa própria saúde pelo papel que desempenham como reservatório natural de infeções emergentes de origem zoonótica.

Preciso.

Ora, é fácil admitirmos que os frutos daquelas árvores habitadas por morcegos possam ficar contaminados, durante o dia, pelas suas secreções e excreções. Suponhamos que esses mesmos frutos são, a seguir, comidos, por exemplo, nas zonas tropicais, por macacos e outros animais ou, consumidos por pessoas, mas sem serem previamente lavados nem descascados. Imaginemos que esses animais, depois de terem ingerido frutos contaminados, contactam diretamente ou são fonte alimentar de seres humanos… Ou, dito de outra maneira: nessas hipotéticas situações, há doenças infeciosas que poderão ser transmitidas, por via indireta, a partir de morcegos. Esta é, muitas vezes, a génese de certas doenças virais: infeções respiratórias provocadas pelos coronavírus, gripe, Ébola, Marburgo, encefalites, etc.

O conhecimento destes assuntos interessa a turistas, particularmente para os países asiáticos, sobretudo em regiões rurais e exóticas, na perspetiva de poderem evitar comportamentos de risco. São situações reais, que devem ser faladas, visto que não há vacinas para estas doenças.

Recentemente, investigações científicas conduzidas por virologistas confirmaram que os morcegos continuam a representar ameaças preocupantes para a Saúde Pública a nível global. Há sinais de alerta que exigem vigilância e medidas de prevenção, visto que podem originar doenças graves e a ocorrência de epidemias (incluindo de expressão pandémica).

Eis uma questão que importa a viajantes. Na Índia e no Bangladesh, partir de 2001, verificaram-se sucessivas epidemias de encefalite humana provocadas pelo vírus Nipah transmitido pelo consumo de frutos contaminados pelos excrementos de morcegos. Ainda por cima, suspeita-se da possibilidade da formação de cadeias de transmissão pessoa a pessoa.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
29 abril 2026

SOBRE OS MORCEGOS. UMA AMEAÇA INESPERADA.

As enormes árvores frondosas da rua onde eu residia em Bissau eram fantásticas, não só pelo porte gigantesco, pelo tom verde permanente, mas, sobretudo, porque protegiam a minha casa dos intensos raios solares tropicais. A sombra fresca era quase permanente ao longo do dia. Mas, mais do que isso, os seus frutos eram magníficos: deliciosas mangas da Índia. Havia, porém, um senão! Ao anoitecer, quando os morcegos que as povoavam acordavam, ouvia-se uma algazarra, perturbadora, provocada pela disputa dos frutos. Era uma gritaria que incomodava quem por ali passava por perto. Depois, repentinamente, começavam a esvoaçar e saíam em bandos pelo céu escuro. Era o início da vida noturna dos morcegos.

Aos meus filhos ensinava, então, que eram animais pacíficos, mamíferos com asas e que nada havia a temer pela proximidade deles.

Ora, como a verdade não é bem a que relatava nessa época, resolvi escrever, hoje, sobre morcegos à luz dos atuais conhecimentos. Nos últimos anos, no âmbito de pesquisas conduzidas por especialistas em biologia, virologia e epidemiologia sucederam-se descobertas, cientificamente comprovadas, que motivam, afinal, justificado desassossego.

Antes de tudo, lembremos que os morcegos são os únicos mamíferos verdadeiramente voadores. Vivem em todos os continentes. Pertencem à ordem dos quirópteros, designação com origem no grego antigo: cheir (mão) e pteron (asa), indicando que as mãos têm asas (membranas alares).  Os quirópteros subdividem-se em 21 famílias, 237 géneros e em centenas de espécies diferentes (quase 1500). Distinguem-se pela corpulência que apresentam, pelos locais que habitam e pelo tipo de alimentação. Há espécies que se alimentam de insetos (cerca de 70%) e outras de frutos (como no caso da minha casa de Bissau). Apenas três por cento são hematófagas.

A este propósito, os biólogos e os ambientalistas realçam a ação benéfica dos morcegos, uma vez que assumem em diversos ecossistemas uma importância principal na dispersão de sementes, na polinização e na redução da densidade populacional de insetos noturnos (pela respetiva atividade predadora).

Mas, em sentido contrário, os virologistas apontam graves riscos para a saúde humana associada aos morcegos porque podem ser o reservatório de numerosos agentes patogénicos, nomeadamente dos vírus da gripe, entre muitos outros. Como reservatório de vírus, além de permitirem a sua sobrevivência na natureza, também os transmitem a outros hospedeiros suscetíveis, através da eliminação das fezes. Os cenários reias que protagonizam, já demonstrados, constituem motivo de preocupação.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
22 abril 2026

SOBRE AÇÃO HUMANITÁRIA (II)

Tal como antes contei, em 1859, o suíço Henry Dunant testemunhou, casualmente, a desumanidade da Batalha de Solferino. Perante os horrores que observou decidiu promover o recrutamento de voluntários civis nas aldeias vizinhas com o objetivo de prestarem socorro aos muitos milhares de feridos prostrados nos campos ensanguentados. Organizou o auxílio de emergência, indiferentemente das respetivas nacionalidades e patentes militares, tanto para vencedores ou vencidos. Para tal, conseguiu constituir equipas improvisadas para transportar os feridos até aos abrigos na perspetiva de receberem água, alimentos e tratamentos. A única preocupação era a redução de sofrimento.

Pouco tempo depois, em 1864, a ação humanitária conduzida por Henry Dunant viria a servir de base à Convenção para a Melhoria da Condição dos Feridos dos Exércitos em Campanha, que foi subscrita, inicialmente, pelos representantes oficiais de 12 países, expressamente credenciados para o efeito. A referida Convenção destinada a proteger os soldados feridos durante os combates logo passaria a ser designada como Primeira Convenção de Genebra.

Curiosamente, Portugal foi um dos primeiros signatários, uma vez que o rei Luís de Bragança transmitiu plenos poderes ao seu delegado para participar ativamente nas discussões que, então, decorreram em Genebra. Nestes termos, no final dos trabalhos, a Convenção foi assinada, a 22 de agosto de 1864, pelo médico militar José António Marques. O texto aprovado incluía apenas 10 artigos que visavam, antes de mais, assegurar o reconhecimento de neutralidade aos hospitais militares e de campanha, que os beligerantes deviam reconhecer e respeitar.

José António Marques (1822-1884), a seguir, viria a fundar a Cruz Vermelha Portuguesa e ser o seu primeiro dirigente. Contribuiu decisivamente para elevar a aplicação dos sete princípios que fundamentam a Cruz Vermelha, desde o início até à atualidade: humanidade, imparcialidade, independência, neutralidade, voluntariado, unidade e universalidade.

A Batalha de Solferino, para além de ter marcado a vida de Dunant, esteve na génese da aprovação das convenções de Genebra.

Em 1901, Henry Dunant viria a ser laureado com o primeiro Prémio Nobel da Paz, criado a partir desse ano.

De certa forma, a nível das relações multilaterais entre países, podemos considerar que o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) está para a Guerra, tal como o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) estaria para o tempo da Paz. Porém, os frequentes e incompreensíveis vetos dos respetivos membros permanentes perturbem, em lugar de construírem.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
15 abril 2026

SOBRE AÇÃO HUMANITÁRIA (I)

Uma vez que estamos a viver um tempo de guerras, mais do que nunca, precisamos de falar dos princípios humanitários universais, que devem ser respeitados durante os conflitos armados. Ou, dito de outra maneira: aos horrores e às atrocidades que diariamente assistimos, através das imagens transmitidas pelos canais televisivos, necessitamos de contrapor e defender o Direito Humanitário Internacional. Ninguém pode aceitar que sejam lançadas bombas sobre civis, escolas, hospitais, pontes, linhas férreas, barragens ou infraestruturas destinadas à produção energética de toda a população. Ninguém pode aceitar que sejam cometidos crimes de guerra. Há regras que têm que ser observadas pelas partes em confronto. Há limites que não podem ser ultrapassados. As localidades, urbanas ou rurais, não podem ser atacadas indiscriminadamente. As civilizações não podem ser incineradas à bomba. Inquestionável.

Compreende-se, por isso, que todas as pessoas se interessem pela atividade humanitária, que terá, inevitavelmente, de ocupar uma importância principal no pensamento. É uma questão de humanismo e inteligência.

Muitos leitores lembrar-se-ão que, em 2017, ao ter atingido o limite de idade, aos 70 anos, terminei as funções que desempenhava na Direção-Geral da Saúde e que, logo a seguir, cumpri o mandato de Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, com o estatuto de voluntário, entre 2017-2021. Tenho, assim, redobrada razão para poder intervir no debate sobre os fundamentos da ação humanitária.

Começo pelo princípio.

A Itália estava dividida em diversos estados até à unificação alcançada em 1861. A Independência, proclamada nesse ano, resultou de uma longa sequência guerras, designadamente contra o Império Austríaco.  Neste processo, a 24 de junho de 1859, as tropas italianas do rei da Sardenha, Vítor Emanuel II, derrotaram as forças da Áustria, em Solferino. No final do dia, os mais de 300 mil soldados dos dois exércitos envolvidos no confronto deixaram no terreno, ensanguentado pela carnificina, cerca de 40 mil feridos e seis mil mortos. Um horror testemunhado por Henry Dunant (1828-1910), que aí se encontrava por mero acaso e que, depois, viria a relatar nos termos seguintes: “batalhões inteiros ficaram sem comida; companhias, que haviam recebido ordens para largar as suas mochilas, não tinham absolutamente nada. Em alguns locais não havia água e a sede era tão intensa que os oficiais e soldados bebiam, das poças lamacentas, água imunda e cheia de sangue. Os cavalos fugiam em todas as direções, entre choros de medo e gritos de raiva. Que tamanha agonia e desmesurado sofrimento!”  

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
8 abril 2026

SOBRE FILANTROPIA ESTRATÉGICA

Já aqui mencionei que a descoberta da pílula anticoncecional foi resultado da ação filantrópica conduzida pela milionária norte-americana Katharine Dexter McCormick que, por morte de seu marido, herdou uma imensa fortuna que utilizou, criteriosamente, a favor da emancipação das mulheres em múltiplas dimensões: liberdade da própria vida sexual e reprodutiva, mas, igualmente, independência política em relação aos homens, traduzida pelo direito de voto e pela igualdade na promoção educacional e cultural. Lutas que mereceram o aplauso e reconhecimento universal.

Sem retirar relevo à participação ativa de Katharine no Movimento Sufragista dos Estados Unidos da América, reconheçamos que o “grande salto” para a Libertação das Mulheres foi a contracepção oral, alcançada em consequência do financiamento persistente das pesquisas científicas desenvolvidas por Gregory Pincus, em Massachusetts. No total, os donativos de Katharine ascenderam a mais de 19 milhões de dólares (equivalente atual dos montantes doados na época). Em 1960, as autoridades federais norte-americanas autorizaram a colocação no mercado da primeira pílula. No ano seguinte, a pílula foi comercializada na Europa com a designação comercial de “Anovlar”, com a finalidade de estar associada à ideia de não haver ovulação! Um triunfo.

Em Portugal, à nossa escala, não são muitos os exemplos de filantropia comparáveis ao modelo seguido por Katharine McCormick em proporcionar financiamento estruturado com o objetivo de atingir metas definidas. No entanto, para sermos justos, não podemos ignorar a existência de atividades conduzidas por fundações criadas com esse fim. Entre as mais relevantes é preciso realçar as ações implementadas pelos herdeiros de Francisco Manuel dos Santos (1876-1953), designadamente por decisão de Alexandre Soares dos Santos (1935-2019), que constituem um padrão excecional de serviço público, que visa impulsionar o desenvolvimento social da população portuguesa, através de doações regulares de elevados montantes destinados à promoção da educação e da cultura. Fundos que permitem, de forma organizada e estratégica, contribuir para a resolução de problemas da nossa sociedade. Entre outras iniciativas, é o que acontece, por exemplo, com a base de dados, de fácil acesso, disponibilizada on line pela PORDATA, desde 2010, onde é possível consultar informações estatísticas ou, também, com a publicação abundante de livros de interesse inquestionável, vendidos a preços módicos. A Fundação Francisco Manuel dos Santos edifica, assim, obras que constroem mais conhecimento. Mais cultura. Mais democracia.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
1 abril 2026

SOBRE A HISTÓRIA DA MEDICINA (IV)

Uma vez chegados à fantástica segunda metade do “nosso” século XX, retomo a enumeração das principais descobertas que mudaram a vida das pessoas, no que se refere à prevenção das doenças, à conservação da saúde e à preparação de medicamentos inovadores.

Preciso.

Começo por assinalar a cidade universitária de Cambridge, em 1953, uma vez que foi aí que o cientista inglês Francis Crick (1916-2004) e o biólogo norte-americano James Watson (1928-2025) decifraram a estrutura helicoidal da molécula de ADN. A apresentação do famoso modelo da dupla hélice constituiu uma viragem principal no conhecimento científico porque o ADN engloba as instruções genéticas contidas nos núcleos das células. Marcou uma nova era. Por isso, a quem vai a Cambridge, recomendo uma visita ao pub “The Eagle”, próximo do King`s College, onde Crick e Watson costumavam ocupar uma mesa do canto para as refeições e convívio. A primeira vez que aí entrei e reparei na placa que assinala a habitual mesa deles, senti uma estranha satisfação. Conta-se que um certo dia viram cair um colega devido ao excesso de cerveja que bebera e que o movimento helicoidal antes da queda simbolizou um momento de inspiração… Verdade ou não, Watson, em 1967, escreveu no livro de memórias que publicou que tinha sido neste pub que Crick, em 1953, gritara para quem estava por perto poder ouvir: “descobrimos o segredo da vida”!

O ano de 1955 foi marcado pela introdução da vacina injetável contra a poliomielite (paralisia infantil), devida ao virologista norte-americano Jonas Salk (1914-1995). A pólio passaria, assim, a ser uma infeção evitável e ainda mais facilmente depois da introdução da vacina por via oral preparada pelo polaco Albert Sabin (1906-1993). Tal como aconteceu com a erradicação da varíola (1980), a poliomielite aguda, a nível mundial, passará a ser uma doença do passado. Em Portugal, o último caso foi diagnosticado em 1986, em consequência do sucesso do Programa Nacional de Vacinação.

Em 1960, nos Estados Unidos da América foi lançada a pílula anticoncecional, que foi desenvolvida pelo biólogo norte-americano Gregory Pincus (1903-1967). A este propósito é interessante salientar que as pesquisas foram financiadas pela milionária Katharine McCormick (1875-1967). Um magnífico exemplo de mecenato a favor do planeamento da família, na perspetiva de os filhos serem pretendidos. A pílula representou, assim, o fim das gravidezes acidentais, involuntárias e indesejadas. A Mulher passaria a engravidar por vontade própria. Ser ela a decidir da sua vida reprodutiva.  Uma revolução libertadora para a saúde sexual da Mulher.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
25 março 2026

SOBRE A HISTÓRIA DA MEDICINA (III)

Prossigo as descrições, resumidas, sobre as descobertas principais que marcaram a evolução das ciências médicas durante a primeira metade do século XX.

Em 1933, o médico inglês Wilson Smith (1897-1965) foi o primeiro a demonstrar que a gripe é provocada por um vírus. As pesquisas que, então, conduziu em furões comprovaram que a gripe é uma doença infeciosa comum a animais e seres humanos e que o respetivo agente causal não era retido em filtros de porcelana, devido à sua reduzida dimensão. Ou, dito de outra maneira: o vírus da gripe atravessa os poros de porcelana em consequência do seu minúsculo diâmetro. Poucos anos depois, na era da microscopia eletrónica, desenvolvida a partir a partir do início da década de 40, verificou-se que o vírus da gripe mede, em média, 100 nanómetros (portanto, é dez mil vezes mais pequeno do que um milímetro).

Curiosamente, logo em 1937, o médico norte-americano Joseph Stokes, Jr. (1896-1972) preparou a primeira vacina contra a gripe e insistiu na importância em induzir a imunização sazonal, a fim de limitar as complicações da gripe durante a estação fria do ano.

Também em 1937, o cientista sul-africano Max Theiler (1899-1972) descobriu a vacina contra a febre amarela, tendo, por isso, recebido o Prémio Nobel. A vacina antiamarílica representou o fim do risco de viajantes adquirirem a febre amarela, assim designada pela cor da pele característica da icterícia.

Em 1939, o químico suíço Paul Muller (1899-1965) divulgou o uso do DDT como inseticida, motivo pelo qual viria a ser laureado com o Nobel da Medicina. O DDT foi, na altura, amplamente aplicado como pesticida, tanto para controlar pragas agrícolas como doenças infeciosas transmitidas por mosquitos, nomeadamente o paludismo e dengue.

Em 1943, o bioquímico ucraniano Selman Walksman (1888-1973) anunciou a descoberta do primeiro antibiótico realmente eficaz para o tratamento da tuberculose: a estreptomicina. Uma imensa diferença no controlo da tuberculose. Receberia, muito justamente, o Prémio Nobel da Medicina.

Ainda antes do fim da primeira metade do século, duas descobertas essenciais viriam a impulsionar o progresso da Saúde Pública, a nível mundial.

Preciso.

A partir de 1947, a utilização generalizada da cloroquina para prevenção e tratamento do paludismo, que tinha sido sintetizada, em 1934, pelo químico alemão Hans Andersag (1902-1955).

Em 1949, o cientista norte-americano John Enders (1897-1985) viria a cultivar no laboratório o vírus da poliomielite (paralisia infantil) e a tornar possível a futura preparação da respetiva vacina. Iniciou a época das vacinas modernas.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
18 março 2026

SOBRE A HISTÓRIA DA MEDICINA (II)

Como já sublinhei, a partir de meados do século XIX sucederam-se descobertas científicas que, paralelamente ao desenvolvimento socioeconómico, viriam a explicar o extraordinário incremento da longevidade média. A esperança de vida ao nascer aumentou mais de 50 anos, desde então e até hoje.

Retomo os grandes marcos da Medicina.

Em Saúde Pública, a viragem para o século XX é assinalada pela introdução da desinfeção da água pelo hipoclorito de sódio (lixívia) dos sistemas públicos destinados a consumo humano. Em 1905, a cloração da água de forma contínua, foi proposta pelo médico britânico Alexander Houston (1865-1933) na cidade de Lincoln (Inglaterra) com o objetivo de controlar a epidemia de febre tifoide que aí ocorria. Os trabalhos conduzidos por Sir Alexander demonstraram a eficácia do cloro em garantir a potabilidade da água distribuída às populações. Rapidamente, a medida foi adotada a nível global. Um sucesso. Os especialistas em epidemiologia são unânimes ao considerarem que o método de introduzir cloro na água foi a descoberta que mais contribuiu para a promoção da saúde em todo o mundo (a par da vacinação). Salvou muitos milhões de pessoas ao prevenir doenças infeciosas transmitidas pela água. A mortalidade infantil diminuiu.

Em 1910, o cientista francês Charles Nicolle (1866-1936) descobriu que o tifo é transmitido pela picada de piolhos, motivo pelo qual viria ser laureado com o Prémio Nobel da Medicina.

Em 1921, o isolamento e purificação da insulina pelos cientistas da Universidade de Toronto, Frederick Banting (1891-1941) e Charles Best (1899-1978), marcaram o começo de uma nova vida para as pessoas diabéticas. Acrescentaram futuro aos doentes. Uma conquista admirável. Curiosamente, dois anos depois, Banting receberia o Prémio Nobel, mas, estranhamente, o seu colaborador, ainda estudante, Charles Best seria excluído, apesar de ter sido um dos investigadores (tinha apenas 22 anos de idade). Só muitos anos depois (1972), a Fundação Nobel reconheceria que a omissão de Best tinha sido um erro!

Também no mesmo ano (1921), os franceses Albert Calmette (1863-1933) e Camille Guérin (1872-1961) iniciam a vacina contra a tuberculose que ficou designada como Bacilo de Calmette-Guérin (BCG). Uma conquista universal na prevenção da tuberculose.

Em 1928, o médico britânico Alexander Fleming (1881-1955) descobriu a penicilina, inaugurando a era dos antibióticos para tratamento de infeções de natureza bacteriana. Logo depois, a molécula inicial foi modificada no sentido do alargamento do respetivo espectro de ação e da facilidade de administração por via oral.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
11 março 2026

SOBRE A HISTÓRIA DA MEDICINA

A 31 de dezembro de 1973, terminei o curso na Faculdade de Medicina de Lisboa. Poucos dias depois, recebi a Cédula Profissional assinada pelo então Bastonário da Ordem, João Pedro Miller Guerra. Na altura, eu era médico Interno no Hospital de Santa Marta. Sabia que Miller Guerra, meu antigo professor, associava a atividade de médico à participação cívica, a que se dedicava com visível satisfação e brio indiscutível.

Miller Guerra (1912-1993) era uma figura distinta que conjugava a tripla condição de transmontano (nascera em Vila Flor), de ter sido estudante na Universidade de Coimbra e de ter escolhido Lisboa para prosseguir a carreira de neurologista, académico e de político.

Aqui, na Capital, para além de professor da Faculdade de Medicina, aceitaria ser deputado, primeiro integrado na “Ala Liberal” da época de Marcelo Caetano e depois no Partido Socialista de Mário Soares.

Guardo na minha memória as palavras que, em 1966, proferiu na Associação de Estudantes sobre a importância da Medicina Contemporânea. Era eu estudante do primeiro ano da Faculdade. Apesar de terem passado 60 anos, ainda consigo lembrar-me dos conceitos que transmitiu durante a sua Conferência.

Miller Guerra considerava que a Medicina, em termos de conseguir, com eficácia, tratar doenças e preservar a saúde, existia há relativamente pouco tempo. Para ele seria uma história com cerca de cem anos.

Estou certo que tinha razão. Basta para tal comparar a evolução do indicador que traduz a longevidade das pessoas (esperança de vida ao nascer) e o ritmo dos avanços continuamente alcançados em Saúde Pública marcados pelas consecutivas descobertas científicas que acontecerem ao longo dos cem anos antes da Conferência de Miller Guerra.

Imaginemos a diferença dos tempos antes e depois de cada uma dessas conquistas. No conjunto, contribuíram para elevar a esperança de vida média de 31 anos, estimada para meados do século XIX, para mais de 81 anos, atualmente.

Preciso.

Descoberta da anestesia pelo éter e clorofórmio pelo médico inglês John Snow, em 1953 e a introdução da assepsia em cirurgia, pelo fenol, proposta pelo cirurgião britânico Joseph Lister, a partir de 1865.

A demonstração, em 1879, que agentes patogénicos estão na origem de doenças infeciosas pelo químico francês Louis Pasteur e confirmada pelo médico alemão Robert Koch, em 1882.

A descoberta dos raios X pelo físico alemão Conrad Rontgen, em 1895.

Início do uso de comprimidos de aspirina, em 1897, na sequência das pesquisas do químico alemão Felix Hoffmann. No ano seguinte, a radioatividade é descoberta pela física polaca Marie Sktodowska Curie.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com