Opinião Pessoal LXXXIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
15 outubro 2025

SOBRE VACINAÇÃO

Já aqui escrevi sobre a descoberta da primeira vacina pelo médico inglês Edward Jenner (1749-1823): a inoculação de pessoas com o líquido obtido a partir das vesículas de vacas doentes com vaccinia iria protege-las da varíola (1796).

Em homenagem a Jenner, o cientista francês Louis Pasteur (1822-1895) passou a utilizar a designação de vacinação (alusiva a vaccinia) para todas as inoculações administradas com o fim para evitar doenças infeciosas. Pasteur, na altura, não imaginaria que o método de Jenner iria erradicar a varíola, mas sabia que a sua descoberta era uma conquista extraordinária para a Humanidade. Assim aconteceu, a partir de 1980, a varíola passou a ser uma infeção que existiu no passado. O vírus nunca mais voltou a circular. Nunca mais voltou a provocar epidemias. Nunca mais voltou a provocar doença. Nunca mais voltou a matar.

A libertação do risco que a varíola antes constituía (conhecida, entre nós, por bexigas) explicaria a determinação em desenvolver ações preventivas para outras infeções, virais ou bacterianas, através de programas devidamente planeados, geridos e avaliados.

Nesse contexto, percebe-se que a Direção-Geral da Saúde (DGS) tenha promovido uma sessão pública para assinalar os 60 anos do Programa Nacional de Vacinação, a fim de divulgar novos sucessos, comprovadamente, já alcançados.

Começo pelo princípio.

Em 1965, a médica Maria Luísa Van Zeller (1906-1983), então Diretora-Geral da Saúde, lançou a vacinação das crianças que, desde logo, contou com o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Cedo, a DGS definiu como princípios estratégicos fundamentais: facilidade de acesso, universalidade e gratuitidade, na perspetiva em garantir equidade absoluta, sem qualquer discriminação. Nesse ano (1965), as vacinas do calendário oficial destinavam-se à prevenção da tuberculose, tétano, difteria, tosse convulsa e poliomielite, além da varíola.

Naturalmente, o Programa Nacional de Vacinação iria evoluir em função das mudanças ocorridas no padrão epidemiológico (morbilidade e mortalidade) e, ainda, das novas possibilidades proporcionadas pelos imensos avanços dos conhecimentos científicos e em tecnologia, que afinaram o fabrico de vacinas. A este propósito, sublinho que, hoje, todas as vacinas licenciadas são seguras. Aliás, não faria sentido que assim não fosse.

Em Portugal, a prevenção das infeções contemplada no Programa Nacional de Vacinação, aprovado pela DGS, baseia-se na produção de anticorpos protetores para prevenir a ocorrência de doenças infectocontagiosas e, igualmente, para evitar determinados cancros.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com  
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal LXXXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
8 outubro 2025

SOBRE A LIBERDADE DOS PAIS

O tema de hoje interpela questões relacionadas com a liberdade individual. Procurarei demonstrar que a liberdade de cada pessoa não pode prejudicar ninguém, incluindo, naturalmente, os filhos. Lógico.

Ora, como todos reconhecerão, a mãe e o pai têm deveres, inquestionáveis, sobre a proteção da saúde das respetivas crianças. Por outras palavras, têm a obrigação de tudo fazer para evitar doenças dos filhos, tal como para os proteger em relação ao frio, ao calor ou à malnutrição.

Aliás, o Estado, desde 1976, consagra o direito à Liberdade na Constituição da República, mas a sua interpretação tem fronteiras: o Capítulo dedicado aos “direitos, liberdades e garantias pessoais” estipula que “os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos” (número 5, do artigo 36º). Sublinho: direitos e deveres.

Nestes termos, os pais não têm liberdade para recusar a frequência da escola, do mesmo modo que não devem negar a vacinação de seus filhos. Deveres.

Se bem que, em Portugal, o assunto não represente um problema social, há países onde surgem sinais preocupantes ligados a grupos que insistem na propagação de ideias erradas sobre riscos da vacinação, que são geradoras de hesitações, comportamentos e estilos de vida negacionista. Essas opiniões, propagandeadas sem qualquer fundamentação científica, colocam em perigo não só a saúde dos pais, como, também, de seus filhos e da comunidade. Refiro-me, por exemplo, aos Estados Unidos da América, onde a irracionalidade da argumentação até é defendida por membros da governação atual.

Considero que um adulto tem o direito de recusar a ser vacinado, mas esse direito é apenas aceitável para si mesmo. Não pode impor essa negação a ninguém, incluindo aos filhos. O direito à liberdade é apenas para si, uma vez que tem o dever de proteção dos filhos em relação a doenças que são, comprovadamente, evitáveis pela imunização. Não tem o direito em negar a prevenção de doenças aos filhos.

Preciso.

Como norma, a seguir ao parto, ainda na maternidade, ao recém-nascido é administrada a primeira dose da vacina contra a infeção da hepatite B, que integra o Programa Nacional de Vacinação. É, por isso, universal e gratuita. Na idade adulta, essa criança ficará, depois de completado o esquema vacinal, protegida em relação ao cancro do fígado. Agora, admitamos, como cenário hipotético, que a mãe ou o pai não tinham autorizado a imunização e que a mesma criança irá adoecer com cancro do fígado, que teria sido evitado pelo cumprimento do calendário vacinal.

Dever de proteger os filhos ou direito à negação?

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal LXXXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
1 outubro 2025

SOBRE O OCIDENTE

Como sabemos, a bússola indica os pontos cardeais à superfície do Globo: norte, sul, este e oeste. Foi inventada na China, há 1000 anos, como instrumento para ser utilizado em náutica, uma vez que a agulha magnética aponta o sentido dos pólos norte e sul.

Por isso, na época de Colombo e Vasco da Gama, foi uma ferramenta de orientação indispensável para a expansão marítima. A famosa “rosa-dos-ventos”, em forma de estrela, então já introduzida, resultou da integração dos pontos colaterais: nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste. Ainda hoje, é utilizada na navegação oceânica e aérea, bem como na leitura de mapas.

Mas, se é certo que, em termos geográficos, a expressão Ocidente é clara ao representar o lado onde o Sol se põe (Poente), em oposição ao Oriente, correspondente à posição onde nasce (Nascente), já o mesmo não acontece no âmbito da geopolítica.

Nos dias difíceis que agora vivemos, o Ocidente assume um significado muito mais complicado. A sua compreensão não é fácil. Na ausência da exatidão da agulha magnética, a bússola de base política tem, atualmente, interpretação duvidosa e até preocupante: situação associada à perceção do risco iminente de guerra nuclear. Uma angústia.

Preciso.

Em 1947, no ano em que nasci, os vencedores da II Guerra Mundial, já tinham acordado os desenhos das linhas fronteiriças que separavam, na Europa, Ocidente e Oriente. Na altura, a demarcação do Ocidente estendia-se até às fronteiras orientais da Finlândia, da República Federal da Alemanha, da Áustria e da Itália. Com exceção da Grécia, a Europa do Oriente equivalia à União Soviética, República Democrática da Alemanha, Polónia, Checoslováquia, Hungria, Jugoslávia, Albânia, Bulgária e Roménia. Assim permaneceu, dividida em dois blocos, até ao final de 1991: Ocidental e Oriental. Era o tempo da “cortina de ferro” que opunha dois lados, dois sistemas económicos e políticos e, também, duas alianças militares, que viviam em permanente “guerra fria”. Era a fase dos espiões e contra-espiões.

O Oriente era comandado por Moscovo e o Ocidente por Washington. Nunca surgiu um líder Europeu para o Ocidente. Seguia-se uma política obediente aos interesses económicos, políticos e militares dos Estados Unidos da América, independentemente do presidente que ocupava a Casa Branca.

Depois, em 1992, tudo mudou. O fim da “cortina” conduziu à emergência de novos estados. As fronteiras deslocaram-se. O Ocidente cresceu. A Europa Oriental passou a ser apenas a Rússia. Porém, em 2025, estranhamente, o Ocidente continua sem liderança, apesar dos desvairos da Casa Branca. Incompreensível.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal LXXXVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
24 setembro 2025

SOBRE A ESCOLA “LAR DA CRIANÇA”

No princípio dos anos 50, a “Escola da Câmara”, à Rua Pereira e Sousa, em Campo de Ourique, apesar das suas razoáveis instalações e de estar próxima da nossa casa, não foi a escolha de meus pais para a educação dos filhos. Preferiram uma escola que observasse princípios de laicidade e de independência política em relação ao regime. Ora, isso não era possível nos estabelecimentos oficiais, visto que tinham em cada sala, pendurados na parede, por cima da ardósia, um crucifixo, ladeado por retratos de Salazar e de Carmona. Era essa a regra em todas as escolas públicas, no tempo do Estado Novo, que meus pais não aceitavam.

Por essa razão, inscreveram os filhos no “Lar da Criança”, uma escola nova, instalada numa vivenda da Rua Almeida Brandão, à Estrela. que tinha sido inaugurada para se dedicar ao ensino primário, em administração privada. Ao contrário do tal estabelecimento camarário que separava, em alas distintas, estanques, as alunas e os alunos, no “Lar da Criança” a distinção de género era pouco rígida. Os convívios eram frequentes e os almoços na cantina juntavam todas e todos.

O ensino era laico, marcado por modernos conceitos educativos, introduzidos pela pedagoga Berta Ávila de Melo (1920-2011).

Desde a primeira classe até ao exame da quarta, vivi tempos memoráveis. Aí aprendi a ler e escrever, mas muito mais. Também a compreender a importância da cultura, da literatura, da arte e da música. Relembro as magníficas sessões de canto e coral conduzidas por Francine Benoît (1894-1990), com quem comecei a cantar a “Portuguesa”, além de canções populares. Personalidade ímpar, Francine era muito respeitada nos meios da Oposição.

Gosto de reviver esses dias, incluindo lembranças apimentadas: comia, com gozo, as ginjas que conseguia alcançar ao trepar a árvore do pátio ou, à socapa, provava os queijos artesanais fabricados pelos próprios alunos nas aulas demonstrativas sobre lacticínios, deixando-os marcados pelo meu atrevimento…

Também recordo as lições de inglês e os exercícios com aguarelas em papel cavalinho, a par dos trabalhos manuais com barro que, depois de moldado e seco era pintado.

Aprendi os significados da Sentença de Salomão e da parábola da Espada de Dâmocles. Narrativas que viriam a marcar o meu pensamento para o futuro.

Na Sala do Médico, os exames periódicos pelo pediatra Farmhouse eram minuciosos. Um exemplo do valor da saúde escolar. Foi ele que orientou a vacinação contra a varíola, inoculada com a “caneta”, que iria erradicar a doença, em 1980.

Agora, a Escola irá festejar 75 anos de existência. Lá estarei.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal LXXXV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
17 setembro 2025

SOBRE RESPONSABILIDADE DE UMA TRAGÉDIA EM LISBOA

A recente Tragédia da Glória fez-me reviver um outro grande desastre em Lisboa que tem sido pouco citado. Refiro-me à queda da cobertura das plataformas na chegada dos comboios da linha de Cascais, na Estação Ferroviária do Cais do Sodré, que acompanhei porque meu Pai era um dos médicos que então trabalhava no Banco de São José dos Hospitais Civis de Lisboa. No dia seguinte, já em casa, relatou à família o terrível acidente, que nunca mais esqueci. Foi uma lição de responsabilidade. Apesar de ser ainda jovem, tinha 15 anos de idade, compreendi que aquela calamidade não poderia ter ocorrido. Mesmo nunca. Não foi um tremor de terra, nem uma tempestade, nem um raio caído do céu que fez ruir os tetos do terminal dos comboios. Foram, isso sim, confirmadamente, erros de cálculos de engenharia, deficiências na construção e fiscalização imperfeita da obra.

Lembro-me das explicações de meu Pai sobre os cuidados de socorro que foram prestados, marcados pela precariedade de meios disponíveis naquele tempo. Foi uma situação trágica. Pouco passava das 4 horas da tarde, do dia 28 de Maio de 1963, quando as pessoas que saíam das carruagens do comboio que acabara de chegar ficaram soterradas pela cobertura de betão que cedeu repentinamente, tendo desabado em cima dos passageiros, provocando 49 mortos e 69 feridos.

Na capital, como no resto do país, as ambulâncias existentes eram poucas. Nessa época, à falta do 112 e do INEM, havia o costume de levar doentes e feridos para o hospital em automóveis privados que a acelerar buzinavam sem parar e que tinham um lenço branco pendurado na janela do carro, a assinalar a emergência. Nesse dia assim sucedeu. Gerou-se uma imensa confusão no centro da capital. A pressão no Serviço de Urgência era desmedida.

Foi o célebre engenheiro Edgar Cardoso que concluiu que a culpa do acidente tinha sido do projetista, o que viria a justificar o direito à indeminização das vítimas e familiares dos mortos e as sanções aos construtores da empreitada.

No Governo de Salazar, o Presidente da Câmara de Lisboa era por ele mesmo escolhido e nomeado sem ser eleito pela população. Aliás, o próprio Presidente do Conselho também nunca foi eleito, motivo pelo qual nesse tempo não se mencionava a questão da responsabilidade política. Não se falava de política. Os governantes ignoravam questões de Ética.

Agora é diferente. Sem causas atribuídas a desastres naturais, as infraestruturas geridas pelas instituições públicas não podem falhar. Não podem ruir. Por isso, há responsáveis, incluindo, inevitavelmente, a nível político.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal LXXXIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
10 setembro 2025

SOBRE A LEI DA SAÚDE PÚBLICA

As leis inadequadas, incluindo as normas constitucionais, podem e devem ser modificadas. Afinal, é uma questão de vontade política tomada em função das necessidades. É um processo que envolve o Governo e a Assembleia e, a seguir o Presidente da República para fins de promulgação. Assim acontece, quase sempre, quando não há qualquer contrariedade constitucional.

Nos dias de hoje, desde a Primavera de 2020 e depois de todos nós termos sido abalados pelas vagas da Pandemia COVID-19, percebemos, afinal, que a nossa Constituição não permite a adoção de medidas preventivas essenciais para evitar a propagação de certas infeções. Por essa razão, durante a fase de intensa atividade da Pandemia, foi preciso suspender direitos, liberdades e garantias pessoais. Por isso, os bloqueios constitucionais tiveram que ser ultrapassados durante essas semanas, visto que o controlo da Pandemia exigia a suspensão de direitos à liberdade. Para tal, foram declarados sucessivos estados de emergência.

Na altura, muitas vezes, foi preciso colocar os doentes infetados em quarentena ou interna-los ou, ainda, organizar cercas sanitárias para impedir a livre mobilidade, na perspetiva de impedir a transmissão de novos casos da infeção.

Incompreensivelmente, a norma da Constituição que impede a adoção da quarentena, nunca foi modernizada no sentido do interesse da saúde pública. É tempo para terminar a inércia manifestada pelos diferentes grupos parlamentares da Assembleia da República.

Preciso.

Como exercício imaginário, pensemos, como cenário hipotético, que uma pessoa, aparentemente saudável, aterra no aeroporto de Lisboa proveniente de uma região afetada por uma epidemia de Ébola. Uma semana antes de embarcar no avião tinha estado em contacto próximo com um amigo seu que estava doente e que viria a morrer poucos depois com um quadro hemorrágico grave. O viajante em causa, já em Portugal, volvida uma semana, adoece com sintomas sugestivos de infeção pelo vírus ébola. Já no serviço de urgência do hospital o médico que o observou coloca a presunção diagnóstica de ébola e decide pelo isolamento rigoroso e internamento em quarto de pressão negativa. Mas, o doente, assustado pelo aparato ao seu redor, diz que não aceita ser internado e que prefere voltar para junto da sua família que o esperava no hotel. Gera-se, então, imensa confusão. O médico chama o agente policial de plantão à urgência, mas o administrador hospitalar confirma que a lei do internamento compulsivo é só aplicável a casos psiquiátricos como indica a alínea h) do nº 2 do artigo 27º da Constituição…

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXXIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  3 setembro 2025

SOBRE UM CRONISTA

Começo por declarar que não conheço o cronista-comentador-jornalista Miguel Sousa Tavares. Para além de uma curta entrevista, há quase 20 anos atrás, no jornal da tarde da TVI, nunca o encontrei nem falei com ele pessoalmente.

Nessa época, os seus comentários e opiniões, tanto refletidos em textos escritos para jornais ou emitidos em intervenções diretas nos canais de televisão, com demasiada frequência não defendiam o interesse da Saúde Pública. Não eram, por isso, do meu agrado. Refiro-me, especialmente, ao tempo do início da preparação da Lei do Tabaco. Ora, na altura, eu desempenhava o cargo de diretor-geral da saúde. Sei bem o prejuízo que causaram os seus comentários do “contra”, incluindo os efeitos em líderes políticos, sempre preocupados sobre as opiniões negativas publicadas por jornalistas que influenciavam o sentido das setas para cima ou para baixo. Foram lamentáveis as posições que assumiu em relação à prevenção do tabagismo. Sublinho lamentáveis.

O “nosso” cronista considerava, então, que o fumador tinha a liberdade de fumar onde entendesse, uma vez que para ele era um direito individual protegido pela Constituição e que nenhum “fascista sanitário” podia limitar…

Passados tantos anos das posições que assumiu sobre a regulamentação da Lei, provavelmente já terá percebido que as restrições que foram impostas aos fumadores visavam proteger os não fumadores que frequentam os mesmos espaços públicos fechados, designadamente cafés, restaurantes, recintos desportivos, etc. As crianças que acompanham os pais, tal como os respetivos trabalhadores dos estabelecimentos passaram a respirar ar não poluído. Há que reconhecer que a mudança conseguida foi socialmente aceite. Unanimemente elogiada.

Vencido, nunca mais voltou a escrever sobre o assunto ao ter percebido o aplauso geral das medidas preventivas de 2007.

Por mera associação de ideias, lembrei-me do tema porque, em férias, li uma belíssima crónica de Miguel Sousa Tavares no “Expresso” de 8 de Agosto, intitulada “Vergonha”. Desenvolve a evolução dos acontecimentos recentes protagonizados por líderes europeus sobre Gaza com impressionante clareza. Como é possível ver tamanha desumanidade sem uma resposta firme dos governantes do Ocidente? Afinal são eles que têm o poder de impor sanções comerciais, financeiras, políticas e até desportivas aos países que ultrapassam as linhas ditas “vermelhas” que eles próprios balizam. Decidem a aplicação de penas, de confiscos, a suspensão em jogos da UEFA ou Olímpicos ou até em concursos da Eurovisão, mas só para os outros.

Hipocrisia sem vergonha.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXXII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  30 julho 2025

SOBRE ALQUEVA

Alqueva é uma simpática aldeia situada no concelho de Portel (Évora), bem perto do Rio Guadiana, o que explica o nome dado à famosa barragem que foi erguida para impedir a respetiva linha de água de prosseguir livremente o seu caminho até ao mar. A partir de 2002, quando fecharem as suas comportas, deu origem à formação de uma imensa albufeira: um grande lago, artificialmente criado.

Assisti à sua construção, uma vez que residia em Beja, onde era delegado de saúde. Tal como a generalidade da população, regozijei-me com a decisão da edificação do paredão gigante à cota mais alta que iria gerar a vastíssima reserva de água.

Entretanto, em 1995, tinha sido formalizada a criação da EDIA como empresa de capitais públicos destinada a impulsionar o desenvolvimento e as infraestruturas necessárias à utilização da água para fins múltiplos, mas, especialmente para a agricultura. Um novo perímetro de rega surgiu onde habitam mais de 150 mil pessoas. Era tempo de justificado entusiasmo. Mudança. Fim da crise. Confiança no futuro.

Minha Mulher, arquiteta, assumiu, na EDIA, a responsabilidade de coordenar a “deslocação” da velha Aldeia da Luz que ficaria, irremediavelmente, submersa. Com muita graça, costumava dizer que a aldeia ira mudar de sítio “de patins” para uma zona mais alta, a fim de fugir à inundação. Assim aconteceu. Em 2002, a Nova Aldeia foi inaugurada para acolher os mesmos moradores da velha. Tudo parecia bem encaminhado. Iniciativa irrepreensível. Promessas cumpridas.

Mas…

Inesperadamente, as terras começaram a ser vendidas pelos anteriores proprietários e tudo se transformou muito rapidamente. A agricultura clássica, de sequeiro, mediterrânica, foi abalada, desfigurada e mudada pela fartura dos canais de rega. Água em abundância. Seguiu-se a exploração superintensiva da terra com desregrada utilização de fitofarmacêuticos. As culturas abeiram-se das casas de habitação, causando justificados receios pelos riscos que representam, visto que são substâncias cancerígenas.

A questão que agora se coloca é assegurar a qualidade ambiental e a saúde pública.

NOTA: Como sempre acontece, estarei em férias em Agosto. Claro que irei observar as recomendações habituais para a estação: proteção solar na praia, na piscina e no campo, uso sistemático de T-shirt, de chapéu de abas largas (tipo panamá de papel) e óculos escuros. Infelizmente, não estarei disponível para veranear à volta de Alqueva. Espero que os governantes do meu país promovam garantias para controle e prevenção dos efeitos nocivos das plantações intensivas (como sucede com os superolivais de hoje).

Precisamos de MELHOR ALENTEJO.

Estarei de volta em Setembro.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXXI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  23 julho 2025

SOBRE REPOSICIONAR MEDICAMENTOS

Inevitavelmente, tomamos medicamentos, desde que nascemos até ao final da vida. Por isso, todos nós beneficiamos dos avanços conseguidos pelas ciências farmacêuticas.

A título de exemplo, pensemos na história da Aspirina. Antes, como substância natural, obtida a partir da casta do salgueiro (daí a designação de salicilina), no tempo de Hipócrates, na Antiguidade Grega, era já receitada para combater a febre. Muitos anos depois, na dobradiça do século XIX para o XX, o cientista alemão Félix Hoffmann, da empresa Bayer, descobriu a sua síntese (1897). Foi desde logo, lançada a sua produção como medicamento indicado para tratar a febre e dores. Mais tarde, a partir de 1980, foi, também, comprovada a sua eficácia como anticoagulante para prevenção de acidentes vasculares como o enfarte do miocárdio.

Ora, a nova indicação de um medicamento, diferente em relação à inicial (reposicionar o medicamento) alcança especial relevo atual. Tal como aconteceu com a Aspirina, também o Viagra foi reposicionado para tratar a disfunção eréctil, mas de princípio era destinado para a hipertensão arterial. Os exemplos multiplicam-se. Poupa-se tempo, recursos e vidas. Em vez de começar do zero, a aprovação para reposicionar medicamentos para novas indicações terapêuticas é mais rápida, mas obedece a métodos científicos. Tem relevância estratégica para Portugal, Espanha e França em iniciativa apoiada pela União Europeia. Convoca académicos, investigadores e especialistas, envolvendo universidades, polos tecnológicos, centros de investigação, sociedades científicas e empresas biotecnológicas num esforço transnacional, colaborativo.

Neste âmbito, a Sociedade Portuguesa de Saúde Pública, que colabora no Projeto, conduz as atividades de comunicação e literacia para a saúde, na perspetiva em promover a perceção coletiva sobre o reposicionamento de medicamentos, uma vez que não basta desenvolver soluções tecnológicas. É preciso que sejam socialmente aceites.

O foco, agora, é reposicionar outros medicamentos em oncologia. É uma necessidade urgente. Há perspetivas prometedoras. Os doentes não podem esperar. O reposicionamento permite encurtar a autorização terapêutica, ao utilizar a que já existe, mas com novas finalidades, com menor risco e menor custo, sem dispensar a validação científica nem substituir os ensaios clínicos. É uma forma de inovar para tratar doenças raras e emergentes.

O Projeto de reposicionamento de medicamentos visa maior rapidez aliada a impacto social positivo. Fazer mais com menos. É uma alternativa eficiente e sustentável em saúde pública.

O futuro depende também da coragem em repensar o passado para avançar.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  16 julho 2025

SOBRE A RUA COELHO DA ROCHA

Em Lisboa, no Bairro de Campo de Ourique, a Casa Fernando Pessoa, à Rua Coelho da Rocha, é um museu de visita obrigatória.

Foi aí que Pessoa viveu os últimos 15 anos da sua vida. Residiu no 1º andar direito, do nº 16, desde 1920 até ao final da vida, aos 47 anos de idade (1935).

A Casa representa, para mim, uma referência especial não só por razões culturais, mas, igualmente, por motivos familiares.

Não tivesse eu nascido na maternidade, fora de Campo de Ourique, poderia dizer que seria natural da Coelho da Rocha, uma vez que vivi no nº 105 e que meu Pai nascera, na mesma rua, no 75. Ainda mais. Os meus avós, tanto paternos como maternos, aí moravam, também.

Por isso, as memórias são muitas. As imagens persistem nítidas. Debruçado à janela de meu quarto olhava para a direita a observar a rua que se estendia quase até ao seu começo, junto da Silva Carvalho e para a esquerda, via o seu final na bifurcação com a Sampaio Bruno.

Impressiona-me relembrar que, no princípio da década de 50, os automóveis estacionados ao longo da rua não chegavam a totalizar a dezena. Lembro-me bem, entre outros, do Hudson, de último modelo desportivo, do José Alvorão, do Mercedes descapotável do Mário Ribeiro e do Cadillac clássico de Justina Batista (guiado por chauffeur com trintanário a seu lado, ambos devidamente fardados).

Meu pai, que nasceu e morreu na Coelho da Rocha (1913-1986), foi, portanto, contemporâneo e conterrâneo de Fernando Pessoa, entre 1920-1935. Mais tarde, referia-se, a ele, muitas vezes, apesar de, na época, a sua figura ainda não ter conquistado a dimensão lendária que hoje possui.

Estou convencido que os prazeres pela leitura e pela escrita, que mantenho desde a adolescência, poderão ter sido potenciados pela influência, espontânea, que a fantástica lenda de Fernando Pessoa exerceu, naturalmente, na minha geração. Ainda para mais no Bairro.

Pessoa escreveu muito, ele mesmo ou em nome de outros escritores que criou, mas que nunca existiram: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis e muitos outros, além do “quase ele” Bernardo Soares. Cada um tinha a sua personalidade, profissão e história de vida. Tinham até cartões de visita com nomes e moradas respetivas. Pessoa chegava a escrever-lhes!

A este propósito, recordo-me do esforço que senti para distinguir os significados de heterónimo e pseudónimo. Processo que foi facilitado porque conheci dois poetas, pais de amigas e amigos meus, que escreviam com um nome inventado, mas, como professores, tinham nomes verdadeiros. Refiro-me a António Gedeão e Tomaz Kim que viviam, respetivamente, nas esquinas do lado poente e nascente da Coelho da Rocha.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com