Opinião Pessoal LXXIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  9 julho 2025

SOBRE A IMIGRAÇÃO

Em Portugal, os problemas relacionados com o envelhecimento demográfico e com o crescimento negativo da população, só poderão ser reduzidos pela imigração através da adoção de leis inteligentes, fundamentadas em princípios humanistas.

Como já mencionei, à luz dos preceitos constitucionais, os portugueses e os imigrantes têm deveres semelhantes, a começar pelo pagamento de impostos e de descontos para a Segurança Social, em percentagens iguais para uns e outros. É natural que assim aconteça. Mas, também, dispõem de igualdade de direitos. Isto é, se os deveres são os mesmos, os direitos terão que ser idênticos, na perspetiva do Estado Social.

Assim sendo, são intoleráveis as intenções proclamadas por certos líderes políticos que defendem o impedimento dos imigrantes de beneficiarem do SNS.  Exigem até dificultar o reagrupamento familiar aos que aqui já se encontram a trabalhar.

Mais de 1,5 milhões de imigrantes aqui residem. Logicamente, o acolhimento e integração social devem assumir prioridade absoluta, na ideia da prevenção da marginalização e da exclusão, mas, mais que tudo, por razões de interesse nacional.

Sem imigrantes o nosso país seria menos produtivo e mais envelhecido e, em consequência, a população diminuiria ano após ano. Reparemos que, em 2024, sem o contributo das mulheres imigrantes, teriam nascido menos um terço das crianças nas nossas maternidades, o que conduziria, ainda mais, ao agravamento do saldo natural. Mesmo assim, nesse ano, a diferença da mortalidade e natalidade gerou um saldo negativo de 34 mil (óbitos em número superior ao de nascimentos).

Por outras palavras, o crescimento populacional e económico de Portugal está, atualmente, muito dependente de imigrantes. Sós, não conseguiremos avançar. Não conseguiremos continuar a contruir.

É tempo para Portugal definir uma política demográfica, baseada num amplo debate, a todos aberto, não exclusivamente parlamentar, destinado à aprovação de medidas legislativas e executivas de regulação da imigração.

Por outro lado, internamente, é inadiável a criação de incentivos tanto para aumentar a natalidade como para reduzir a emigração.

O processo de integração de imigrantes na nossa sociedade constitui uma obrigação nacional, prioritária. Uma questão de solidariedade e de democracia.

Na minha opinião, inúmeras famílias, todas descendentes de portugueses que, na segunda metade do século XX, “a salto”, procuraram trabalho em França e Alemanha, poderiam ser recebidas, em audiência formal, pelo principal líder populista da Assembleia da República de Portugal. Teriam, então, oportunidade, de testemunharem o benefício do reagrupamento familiar de imigrantes.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  2 julho 2025

SOBRE O “TAMANHO” DE PORTUGAL

Apesar das fronteiras serem as mesmas, desde há séculos, a dimensão de Portugal tem mudado ao longo dos anos em função das alterações verificadas quer nas distâncias que separam as localidades do Território quer da população residente.

A título de exemplo, não esqueçamos que antes das grandes obras públicas promovidas por Fontes Pereira de Melo (segunda metade do século XIX) o itinerário mais seguro e rápido entre Lisboa e Porto era por via marítima. Imagine-se. Só depois, as comunicações por estradas ou caminhos-de-ferro, iriam facilitar os transportes e encurtar o nosso país.

Nessa época, em 1860, a esperança de vida à nascença era de 31 anos.

Reparemos que o primeiro recenseamento populacional (1864) indicou, então, a presença de 3,8 milhões de habitantes. A seguir, a população cresceu: 4,1 milhões (1878); 4,6 milhões (1890); 5,0 milhões (1900); 5,5 (1911); 5,6 milhões (1920); 6,3 milhões (1930), tendo alcançado 8,8 milhões, em 1960 e 10,3 milhões (2001). Em 2011, a população ascendia a 10,5 milhões de habitantes, mas viria a decrescer para 10,3 milhões, em 2022. Agora, no final de 2024, voltou a crescer para 10,7 milhões de residentes.

Preciso.

Sobre crescimento da população, reparemos no saldo entre a mortalidade e a natalidade. Ou, dito de outra forma, notemos a diferença entre óbitos e nascimentos, registados no mesmo ano.

Segundo dados do INE, referentes a 2024, verificaram-se (em números redondos) 118 mil óbitos e 84 mil nascimentos, dos quais 56 mil crianças são de mães portuguesas e 28 mil recém-nascidos de mulheres com naturalidade estrangeira. Por outras palavras, em Portugal, as mulheres imigrantes contribuíram para aumentar em 33% o número de nascimentos (um terço do total). Ainda bem que assim aconteceu. Sem a cooperação de imigrantes o saldo entre as mortes e os nascimentos, que já era negativo, teria sido ainda mais saliente.

A esse propósito, considero que é indispensável assegurar condições de absoluta igualdade a todas as mulheres, portuguesas ou imigrantes, sobretudo no que se refere ao acesso às consultas de vigilância pré-natal e ações de saúde materno-infantil, conduzidas pelos médicos de família nas unidades de saúde familiares. Nestes termos, realço que compete ao Estado garantir a observação dos princípios constitucionais: “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”. (número 2, artigo 13º da Constituição da República).

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  25 junho 2025

SOBRE UNIDADES DE NEONATOLOGIA

Referir-me-ei, novamente, às questões associadas aos cuidados pediátricos, ainda a título de reflexão sobre os resultados divulgados pelo INE que confirmam uma subida de meio ponto na taxa de mortalidade infantil de 2023 para 2024. Este aumento, que corresponde a 42 óbitos, apesar de ligeiro, impõe análise atenta, como aqui já clarifiquei. Reconheçamos, antes de mais, que estamos a lidar com a “lei de pequenos números”, que dificulta a análise de tendências que visa objetivar o rumo da evolução da mortalidade infantil. Seria, por isso, mais aconselhável observar uma série temporal maior, em lugar de centrar a nossa atenção apenas em 2024.

Já aqui foquei o interesse em explicitar o número de crianças que nasceram prematuras ou com baixo-peso. É um assunto que me interessa especialmente, não só pelo rigor no exercício de interpretação do problema, como também por razões pessoais que irei precisar.

Eu e meu irmão gémeo nascemos com baixo-peso. Na altura, o obstetra de minha mãe, Coelho de Campos, tinha antecipado a gravidez gemelar no decurso das consultas pré-natais. Sem demoras, o meu pai, que era médico nos Hospitais Civis de Lisboa, tratou de planear as ações assistenciais para garantir os cuidados necessários e prevenir riscos. Tudo pensou. Tudo organizou. Mas, durante o consulado de Salazar, os programas de proteção materno-infantil eram muito frágeis. Portugal era o país mais atrasado da Europa Ocidental.  Por esta razão, meu pai preparou os cuidados neonatais possíveis, para a época. Neste sentido, contou com a colaboração de Fernando Sabido com quem tinha estudado na Faculdade. Na falta das incubadoras modernas que hoje existem nas maternidades, eu e meu irmão, recém-nascidos com baixo-peso, fomos colocados numa espécie de estufa, enrolados em algodão e alimentados por regime especial concebido por Fernando Sabido. Recuperámos rapidamente, ao contrário do que acontecia com a maioria das crianças portuguesas nascidas nas mesmas condições. Teremos sido, provavelmente, os primeiros casos de sucesso de Fernando Sabido que, 10 anos antes, tinha iniciado o internato de pediatria no Hospital Dona Estefânia. Ainda bem. Estamos cá.

Mas, agora, vivemos outro tempo.  O Serviço Nacional de Saúde dispõe da rede de novos hospitais que estão equipados com unidades de neonatologia de excelência. Atualmente, é possível assegurar não só a sobrevivência das crianças, mas também evitar sequela. Para tal, os pediatras organizam programas preventivos de intervenção precoce até à adolescência: ações que mobilizam e integram médicos, enfermeiros, técnicos, familiares e professores.

Um êxito. Quase sempre.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  18 junho 2025

SOBRE CUIDADOS PEDIÁTRICOS

Já aqui escrevi que, em 2024, morreram 252 crianças sem terem completado o primeiro ano de vida, segundo dados publicados pelo INE. Foram mais 42 óbitos do que os verificados em 2023.

Conversei com colegas meus sobre o tema, particularmente com pediatras. Muitos defendiam, como explicação verosímil para o aumento da mortalidade infantil, que o problema estaria associado a mães que não tinham tido acesso a cuidados pré-natais nas unidades de saúde familiar e que a ausência de acompanhamento da gravidez poderia justificar a maior probabilidade de crianças nascerem prematuras ou com baixo-peso.

Portanto, será necessário perceber os contextos e as causas de todos os óbitos infantis, a fim de comprovar a tese da associação causal entre as mortes e prematuridade ou baixo peso à nascença.

É fácil admitir que uma criança nascida “antes de tempo” apresenta um risco mais elevado de morrer e que esse risco é tanto maior quanto menos semanas de gestação tiverem decorrido.

Sublinho que, em terminologia médica, a prematuridade é definida quando a criança nasce antes de concluírem 36 semanas de gestação (a gravidez de termo corresponde ao nascimento entre as 37 e antes de terminarem 42 semanas). Como se compreende, a prematuridade traduz uma maior vulnerabilidade pela elevada propensão do recém-nascido para adquirir doenças e complicações, em comparação com crianças nascidas de termo.

Outro indicador, igualmente principal, é o peso que a criança apresenta logo a seguir ao parto, que é avaliado como normal entre 2,5 Kg e 4 Kg. Mas, quando o peso de um nado-vivo é inferior a 2500 gramas, a sua comprovada fragilidade (debilidade) pode precipitar a morte ou originar sequelas para o futuro.

Nessas situações, uma criança com peso menor do que 2500 gramas é designada como sendo de Baixo Peso e, quando é inferior a 1500 gramas passa a ser considerada como de Muito Baixo Peso. Umas e outras necessitam de cuidados assistenciais pediátricos, especializados, em ambiente hospitalar, na perspetiva de o acesso ser garantido, independentemente do local de nascimento, organizados pelo Estado.

Interessa, portanto, conhecer as condições e motivos de cada uma das 252 mortes infantis ocorridas, em 2024. Entre estas, é preciso destacar os casos identificados como prematuridade e especificar o número de semanas de gestação de cada óbito, tal como o peso à nascença e o tipo de cuidados prestados. Dito de outra forma, das 252 mortes infantis, há que esclarecer quantas crianças eram prematuras (apontando as semanas de gravidez) e quantas tinham baixo peso à nascença (menos que 2500 gramas) ou muito baixo peso (inferior a 1500 gramas).

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  11 junho 2025

SOBRE REDUÇÃO DA MORTALIDADE INFANTIL

Retomo a reflexão sobre os dados que o INE recentemente publicou sobre a mortalidade infantil, em 2024.

Nesse ano, morreram 252 crianças sem terem completado um ano de vida, o que motivou a subida, em meio ponto, da taxa de mortalidade infantil (TMI) para 3,0 por mil nados-vivos (em 2023, era de 2.5 por mil).

Antes de mais, é preciso reconhecer que o valor de 3,0 por mil indica que a taxa permanece baixa, incluindo no contexto internacional, apesar de ter revelado, em 2024, um aumento que não pode passar despercebido. Impõe, portanto, uma análise pormenorizada. É preciso, para tal, tudo fazer para perceber as circunstâncias em que ocorreu cada óbito: verificar a respetiva causa, através não só do acesso ao dossier clínico, implicando, também, o resultado da autópsia realizada, bem como, complementarmente, conduzir entrevistas criteriosas aos pais. É um exercício indispensável, a ser orientado pela DGS, na perspetiva de poderem ser planeadas medidas preventivas, extraídas das conclusões, a serem implementadas a curto prazo. Para evitar demoras, seria até aconselhável, desde já, fixar uma meta para apresentação do relatório final, mas para breve, sublinho.

Ora, em Portugal, no âmbito do processo de redução da mortalidade infantil, a componente pós-neonatal (depois do 28º dia de vida) foi a primeira a ser alcançada. Um sucesso que foi conquistado pela melhoria dos programas de saúde infantil (incluindo a vacinação) e das condições do nível de vida, em resultado do desenvolvimento social e económico verificado, a partir de 1980, em especial em consequência das grandes obras públicas nas áreas da eletrificação, das comunicações, bem como de saneamento básico e qualidade ambiental. A mudança no sentido da prosperidade, desde então imparável, foi indiscutível. Aconteceu tanto nas zonas urbanas, suburbanas ou rurais, abrangendo o Litoral, o Interior e as regiões autónomas.

Mais lenta foi a redução da mortalidade neonatal, que corresponde aos óbitos ocorridos no decurso dos primeiros 28 dias de vida, mas que está relacionada com a acessibilidade e qualidade de cuidados pré-natais, de assistência ao parto e de unidades pediátricas de neonatologia.

Surpreendentemente, nos últimos 10 anos, epidemiologistas e pediatras têm criado cenários de redução da taxa de mortalidade infantil para a aproximar do ZERO. Admitem que essa hipótese é plausível e que depende, sobretudo, da definição de políticas de saúde pública, financiadas e desenvolvidas pelo Estado, desde que socialmente aceites. Baseiam-se no princípio que a morte de uma criança pode e deve ser evitada, à luz dos conhecimentos científicos atuais.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  4 junho 2025

SOBRE TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL

Uma vez que antes referi o conceito de mortalidade infantil, dedicar-me-ei, hoje, a clarificar o significado da TAXA, que traduz o risco de uma criança morrer antes de completar o primeiro ano de vida.

A Taxa de Mortalidade Infantil (aqui designada TMI) é calculada como uma proporção que relaciona o número de mortes de crianças com menos de doze meses, apurado em determinada região ou país, durante um ano civil, por cada 1000 nado-vivos ocorridos na mesma população, no decurso desse ano.

Assim definida, em rigor matemático, não é considerada uma taxa porque há crianças que morrem em determinado ano, mas que nasceram no ano anterior e, por outro lado, porque há nascimentos de crianças em certo ano civil que poderão morrer no ano seguinte, antes de completarem doze meses. Apesar desta subtileza, a designação de Taxa é, habitualmente, usada para indicar o risco de morte infantil (como probabilidade).

Desde o século XIX, a TMI é um indicador considerado útil para medir a evolução do risco de morte durantes os primeiros 364 dias depois do parto, tanto a nível nacional como internacional.

No tempo de Salazar, a Oposição Democrática denunciava a circunstância de Portugal ser o pior país no ranking da Europa, na perspetiva de chamar a atenção para as condições degradantes da área materno-infantil: em 1950, a taxa elevava-se a 94,1 por mil nados-vivos que revelava 19308 óbitos infantis. Ou, dito de outra forma, a probabilidade de uma criança morrer antes de completar o primeiro ano de vida era quase uma em cada 10 que nasciam em Portugal, nesse ano.

Compreende-se, pois, que durante o Estado Novo o risco de morte de crianças representava um dos vexames nacionais mais lamentáveis porque as causas eram, principalmente, evitáveis.

Em 1973, a TMI ainda ascendia a 44,8 que correspondia a 7726 óbitos infantis ocorridos em 172324 nascimentos vivos. Uma humilhação.

No ano seguinte, depois da Revolução, o médico Albino Aroso, obstetra e professor, que viria a integrar o VI Governo Provisório, concebeu, iniciou e desenvolveu um vasto programa para proteger mães e crianças. A rapidez e a simetria da descida da mortalidade infantil, em resultado das medidas implementadas, foram um sucesso. Já em 2002, os óbitos infantis tinham descido para 580 em relação aos 114539 nados-vivos (TMI de 5,1 por mil). No ano seguinte, ainda baixou para 4.1 por mil.

Agora, em 2024, foram registadas 252 mortes infantis (mais 42 do que no ano anterior), colocando a TMI em 3,0 (superior em 0,5 por mil em relação à TMI de 2023). Subida que não pode ser ignorada e que impõe, pela DGS, análise pormenorizada de cada óbito, em tempo curto.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  28 maio 2025

SOBRE MORTALIDADE INFANTIL

Ultrapassado o ambiente de campanha eleitoral, vivido durante a semana que coincidiu com a publicação dos resultados referentes à mortalidade de 2024 pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), considero oportuno clarificar conceitos sobre os dados alusivos à mortalidade infantil.

Começo pelas noções básicas que mais interessam para facilitar o entendimento relativo às informações agora divulgadas.

No ano de 2024, registaram-se 118374 óbitos de pessoas residentes em Portugal (mortalidade geral). Destes, 252 eram crianças que não completaram doze meses. Por outras palavras, que morreram sem terem festejado o dia do primeiro ano de vida. Ora, como se compreende, as circunstâncias e as causas da morte de cada criança são, inevitavelmente, distintas.

Mas, antes de tudo, há que esclarecer o tempo que cada criança viveu a seguir ao parto. Esse tempo de vida, só por si, assume um significado importante em Saúde Pública.

Preciso.

Em relação à idade da morte ocorrida durante os primeiros doze meses é preciso apurar se aconteceu antes ou depois do 28º dia após o nascimento. A primeira situação (durante os primeiros 28 dias de vida), marca o período neonatal. A segunda, balizada entre o 28º dia e até antes do 364º, assinala a mortalidade pós-neonatal. Ou, dito de outra forma, a mortalidade infantil é subdividida em duas componentes separadas pelo 28º dia a seguir ao parto: neonatal e pós-neonatal.

Além disso, o período neonatal pode, ainda, separar-se em dois segmentos: mortes verificadas ao longo da primeira semana de vida (mortalidade neonatal precoce), e óbitos verificados nas semanas seguintes até ao 28º dia (neonatal tardio).

Pediatras e epidemiologistas admitem, a título presumível, que a mortalidade neonatal terá como causas hipotéticas mais prováveis: doenças da gravidez, problemas hereditários, anomalias congénitas, prematuridade e baixo-peso à nascença (por vezes relacionado com doenças dos pais ou comportamentos de risco durante a gravidez, incluindo associados ao álcool, tabaco ou drogas), além da idade da mãe, bem como das condições de assistência pré-natal e do parto.

Já a mortalidade pós-neonatal tem como relação causal, em termos de probabilidade, as explicações seguintes: baixo nível de desenvolvimento social e económico e da qualidade da habitação e das infraestruturas ambientais de saneamento, tal como os contextos de vida do agregado familiar, nomeadamente grau de instrução dos pais, rendimentos, emprego, acesso a cuidados de saúde infantil (vacinação, por exemplo).

É, assim, indispensável conhecer a situação de cada um e de todos os 252 óbitos para perceber a essência da questão em 2024.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  21 maio 2025

SOBRE A SIDA

Ainda sobre a SIDA, hoje, prossigo a reprodução de excertos da conversa que tive com Almeida Santos, em 1989, à margem da visita oficial que fez a Bissau.

Senti, então, uma espécie de temor, atendendo à sua dimensão de líder político e governante do meu país. Pairava no ar algum stress. Mas, por outro lado, eu estava seguro dos conhecimentos sobre o tema e da minha capacidade de comunicação sobre a evolução da pandemia.

O nosso diálogo parecia ser uma entrevista ao estilo de um exame.

Com firmeza, Almeida Santos interroga:

– Ó Francisco, para vocês, médicos, qual foi o receio principal? Como foram descobertas as formas de transmissão e o agente?

– Olhe, primeiro foi preciso conhecer os modos de transmissão da infeção, mesmo antes do cientista francês Luc Montagnier ter identificado o vírus, em 1983. Cedo verificou-se que os líquidos orgânicos infetados podiam transmitir o agente, incluindo por via sexual e da mãe infetada ao filho na gravidez e parto. O grande medo era saber se a infeção poderia ser transmitida por picada de mosquitos, como acontece com tantas doenças tropicais.

Almeida Santos, comentou, em tom assertivo:

– Sim, porque se isso fosse possível, a transmissão da SIDA seria inevitável, visto que ninguém consegue defender-se de uma picada de mosquito ao longo da vida!

– Claro. Se, por hipótese, assim acontecesse, todos estaríamos expostos. O cenário teria sido outro. Foi essa a razão dos médicos guineenses terem escolhido como slogan para os cartazes que a “SIDA É EVITÁVEL”, na ideia da promoção do uso da “camisinha”.

–  Percebe-se que nada tem de semelhante ao paludismo! Teria sido uma tragédia!

– Mas, note que o paludismo pode ser prevenido e curado com medicamentos, ao contrário da SIDA. Curiosamente, os parasitas do paludismo destroem os glóbulos vermelhos do sangue e, agora, os vírus da SIDA penetram nos glóbulos brancos. As partículas virais destroem os glóbulos que asseguram as defesas, o que explica a fragilidade do sistema imunitário a seguir à infeção que foi adquirida. Não esqueçamos que os glóbulos brancos produzem anticorpos protetores.

– Então, é isso! Mas, Francisco, há já um medicamento! Vamos ter uma vacina?

– É verdade. O AZT foi introduzido, desde 1987. Alcançou rapidamente licença como medicamento para a SIDA.  É comprovadamente eficaz. Mas, realço que o vírus não é eliminado do organismo que infetou. Porém, a vida do doente é prolongada, desde que seja tratado com esse medicamento. Já a vacina não será fácil. Não está no horizonte.

PS: Em Lisboa, 20 anos depois, voltaria a reencontrar Almeida Santos, mas em ambiente privado. Disse-me, então, que se lembrava das nossas conversas de Bissau.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  14 maio 2025

SOBRE O COMEÇO DA SIDA

Em Bissau, o diálogo com Almeida Santos prosseguiu. Estávamos em 1989 e continuávamos no hotel, em dia de sol e calor de Novembro.

A curiosidade de Almeida Santos em saber pormenores sobre o início da SIDA, mantinha-se. Sabia que eu era a pessoa certa para relatar a evolução dos acontecimentos, visto que tinha testemunhado o aparecimento do “furacão”. Na altura, ninguém antecipou que o inesperado fenómeno alcançasse a intensidade de categoria máxima, em termos de escala, a nível global. Então, o pensamento científico dominante não admitia a possibilidade da ocorrência de eventos imprevistos.

Almeida Santos ouvia tudo com atenção. Formulava perguntas até ficar esclarecido. Fiquei satisfeito pelo seu interesse tão genuíno. Com sorriso, mas estupefacto, não percebera a trapalhada do telegrama de alerta enviado pela OMS de Bissau para Genebra que não acentuava a estranheza dos óbitos terem surgido em pessoas, adultas, que antes eram robustas e aparentemente saudáveis e adoeceram com diarreia crónica e emagrecimento.

– Ó Francisco, como foi isso possível?

– Olhe, as autoridades guineenses comunicaram a situação com precisão, mas estou em crer que os telegramas expedidos pela Representação da OMS terão sido demasiado curtos. “Comer” palavras nos telegramas que redigia era um dos caprichos de Garcia Morilla…

– Mas, Francisco, essa tal especialista que veio a Bissau, julgando que eram casos de diarreia em crianças, que fez ela?

– Olhe, lembro-me bem. Foi Colette Roure, uma médica francesa que logo abraçou o problema. Regressou a Genebra com a descrição completa da situação que, repito, afetava adultos em idade ativa.

– Qual a razão do Francisco tanto insistir na diferença entre crianças e adultos?

– Repare que o sistema imunitário dos adultos é incomparavelmente mais eficaz quando é comparado com as idades infantis. Está mais desenvolvido. Por isso, habitualmente, os adultos saudáveis não são afetados por doenças infeciosas devido às defesas que adquiriram ao longo dos anos. Isto é, têm anticorpos protetores, ao contrário do sistema das crianças que é ainda imaturo.

– Nesse caso, essas pessoas adultas apresentaram doenças que seriam comuns em crianças. É isso que pretende dizer-me?

– É isso mesmo. Os doentes adultos que morreram adquiriram uma fragilidade do respetivo sistema imunitário que explicaria a vulnerabilidade a que ficaram expostos. As suas defesas passaram a não poder evitar certas infeções que seriam facilmente debeladas se o sistema imunitário funcionasse normalmente.

– Agora entendo a designação SIDA ao indicar Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. Mas, se antes não existia, como foi contraída?

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  7 maio 2025

SOBRE O INÍCIO DA SIDA

Em Novembro de 1989, tal como combinado, retomei a conversa com Almeida Santos, em Bissau. Encontrei-o, como previsto, à beira da piscina do hotel a “banhar-se” ao Sol. Era um dia de calor, como é habitual nessa época de transição para a estação seca, mais amena.

As questões de Saúde Pública ocupariam o centro do nosso diálogo. Almeida Santos começou por querer saber a origem da SIDA que julgava ter tido como epicentro as savanas africanas. Sem rodeios, perguntou-me:

– Visto que está aqui desde 1980, como percebeu o início da SIDA?

– Olhe, ninguém admitia que um problema desta natureza pudesse surgir de forma tão inesperada. Bem pelo contrário. O tom dos discursos dos cientistas e académicos era no sentido contrário. Todos acreditavam no controlo iminente das doenças infeciosas. Houve até um governante americano que chegou a defender que as Universidades retirassem os tratados sobre doenças transmissíveis! Não era aceitável a hipótese de surgir um novo vírus, uma nova doença capaz de provocar uma pandemia, como aconteceu a partir de 1980.

– Mas, Francisco, aqui na Guiné-Bissau, o que aconteceu ao princípio? Se a doença antes não existia, como foi, então, identificada? Refiro-me aos primeiros casos.

– Tem razão em formular essas questões. Foi um tempo tão inesperado e difícil. Foram meses e anos inesquecíveis. Posso dizer-lhe que aterrei em Bissau, em Outubro, de 1980, logo a seguir a ter participado em reuniões de briefing na Sede da OMS de Genebra e depois em Brazzaville. Ninguém mencionou qualquer problema preocupante. Ninguém, sublinho.

– Mas, como se apercebeu do “furacão”? Foi mesmo imprevisível? Inesperado?

– Sim, tudo o que aconteceu não foi antecipado!

– Já percebi. Mas, quais foram os primeiros sinais?

– Ao longo de poucas semanas, em 1980, registaram-se seis óbitos em adultos com diarreia prolongada, no Hospital Simão Mendes de Bissau. Ora, habitualmente, como saberá, a diarreia é perigosa em crianças e não em adultos. Eram quadros clínicos de evolução imparável até à morte. Todos apresentavam sintomatologia grave, incluindo acentuada perda de peso. Esta situação foi imediatamente comunicada pelas autoridades guineenses ao Representante da OMS, em Bissau, que era o médico espanhol Garcia Morilla, com quem trabalhei.

– O que fez ele?

– Eu entendia-me bem com Morilla. Ele falava em castelhano e eu em francês! Escreveu, logo, um telegrama a alertar a Sede como primeira medida. Na época, as comunicações internacionais seguiam por telegrama porque os telefones funcionavam mal. Por lapso, talvez porque o texto era curto demais, os serviços centrais enviaram uma especialista em diarreias infantis!

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com