Opinião Pessoal XLII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 23 outubro 2024

Retomo, hoje, o tema dos problemas relacionados com o abastecimento de água para consumo humano.

Trago aqui testemunhos pessoais que vivi no início da minha carreira, primeiro como interno no Hospital Curry Cabral e depois como delegado de saúde colocado no distrito de Beja.

Recuemos a 1974. Ao mesmo tempo que o Movimento das Forças Armadas nomeava os sucessivos seis governos provisórios, ocorriam epidemias de cólera em Lisboa e no Porto. Sublinho, cólera na capital do “Império” como resultado da herança recebida do Estado Novo que foi marcada pela precariedade de infraestruturas de saneamento.

O então Diretor-Geral da Saúde, Arnaldo Sampaio (1908-1984), esteve na linha da frente da luta contra a epidemia. Na altura, pela primeira vez, os meios de comunicação social (RTP, em particular) foram chamados para divulgarem as recomendações do Diretor-Geral da Saúde, na perspetiva de serem observadas pelas populações, no sentido de participarem na implementação de medidas de prevenção e controlo. Naturalmente, foram os bairros mais pobres da periferia de Lisboa os mais afetados pela epidemia. Sampaio confirmou que a cólera era provocada pelo vibrião El Tor do serotipo Inaba, que circulava, como endémico, em Angola. Era, portanto, uma epidemia importada.

Ora, como se sabe, a bactéria da cólera é eliminada pelas fezes dos doentes, sendo transmitida por via hídrica. Isto é, uma pessoa adquire a doença ao beber água contaminada com o vibrião colérico!

No total, foram registados mais de 2500 casos (incluindo dezenas de óbitos).

Como médico interno dos Hospitais Civis de Lisboa, participei diretamente no atendimento a doentes suspeitos que eram encaminhados para uma consulta especialmente dedicada a esses doentes que tinha sido instalada para o efeito no Hospital Curry Cabral. Apesar da imensa pressão que o volume de doentes originava, as consultas decorriam sem problemas. Todos eram consultados sem espera. Eu, como médico de plantão a esse serviço, começava por entrevistar o doente sobre o quadro clínico e a seguir observava se exisistiam sinais de desidratação. Invariavelmente, media a pressão arterial, antes da fase de aconselhamento e da prescrição. Quase sempre receitava sais de reidratação e tetraciclina, para além de insistir na desinfeção da água pela fervura ou pela adição de gotas de solução de hipoclorito (distribuído gratuitamente). A situação de debilidade das condições de abastecimento de água e de sistemas de esgotos, representava, para mim, um sentimento de revolta. Como era possível uma pessoa beber água contaminada com fezes de doentes?

Julgo que esse tempo viria a explicar o meu interesse futuro pela Saúde Pública.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com