Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 25 dezembro 2024
Reconheçamos que os festejos de Natal vão muito para além das celebrações promovidas por cristãos.
Em casa de meus pais, na Rua Coelho da Rocha, a Campo de Ourique, a tradição dos presentes que desciam pela chaminé durante a noite de 24 de Dezembro constituía uma excitação para todos nós.
Meu Pai era médico, especialista em Medicina Interna, no Hospital de Santa Marta. Levava muito a sério o desempenho da sua atividade clínica naquele hospital público. Gostava do ambiente, apesar da pobreza das instalações. Comemorava, exuberantemente, os sucessos terapêuticos conseguidos em certos doentes. Apreciava a carreira que tivera que percorrer, incluindo os sucessivos exames. Primeiro como candidato e mais tarde como membro do júri. O entusiasmo em torno desses concursos era tal que se refletia nas conversas familiares à mesa do jantar. Vibrava com tudo o que dizia respeito aos Hospitais Civis de Lisboa.
Se a remuneração que meu Pai então recebia do Estado, correspondente aos serviços clínicos que prestava no hospital, fosse suficiente, estou certo que não teria tido necessidade de exercer clínica em regime privado. Mas, a absoluta necessidade em aumentar os rendimentos familiares levou-o a organizar a sua clínica para atender doentes fora do “seu” hospital.
Vem este relato a propósito das minhas memórias da época do Natal, vividas lá em casa nos anos 50. Os presentes oferecidos pelos doentes, nas vésperas do Dia 25, eram tantos que acabariam por alterar a tranquilidade da rotina diária e, por isso, de marcar as festas. A campainha da porta não parava de tocar. Chegavam a casa as mais diferentes oferendas, mas as predominantes eram caixotes de madeira com garrafas de vinho, semeadas em palha protetora, convenientemente assinalados no exterior com a marca ou casta respetiva; e perus vivos que, muitas vezes, alcançavam a vintena. Perante esta aglomeração, os inconfundíveis glu glu geravam imenso ruído. Perturbação que Minha Mãe procurava resolver ao apressar a hora da decapitação de todos os perus, mas só depois de, à força, beberem água-ardente através de um funil metido pela goela (maldades então consentidas e hoje intoleráveis). Um deles seguia diretamente para o forno e os outros, devidamente despenados e preparados, eram distribuídos pelos amigos.
Conclusão: O filho que fosse, pela calada da noite, espreitar os presentes na chaminé da cozinha seria, inevitavelmente, assustado pela agitação dos perus de patas atadas que se encontravam na marquise contígua. Um castigo pela inusitada indiscrição.
Francisco George
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