Opinião Pessoal LIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 19 fevereiro 2025

Volto aos episódios guardados nas minhas memórias associadas a Campo de Ourique, onde vivi o terceiro quartel do seculo XX.

Os liceus mais frequentados pelos filhos dos residentes no Bairro eram, antes de mais, o Pedro Nunes e depois o Passos Manuel. O primeiro ficava a uma distância acessível, sem necessidade de transportes públicos e o Passos Manuel era servido pelo número 28 dos carros elétricos da Carris que saía do largo fronteiriço ao Cemitério dos Prazeres e fazia o itinerário até à rua da Conceição. Ou pagando o bilhete amarelo de 8 tostões ou pendurado atrás, os alunos liceais rapidamente faziam o percurso desde o bairro até à Calçada do Combro e de regresso, daqui para casa.

Ambos os liceus tinham sido inaugurados logo no início da República. Eram instalações modelares para a época.

Eu, aos 10 anos de idade, tinha sido colocado no Pedro Nunes e meu irmão gémeo no Passos Manuel.

Analisemos os patronos desses estabelecimentos de ensino secundário.

1. Sobre Pedro Nunes a unanimidade pelo reconhecimento da sua imensa grandeza como cientista e matemático eminente explica a decisão tomada para aplicar o seu nome ao liceu. Pedro Nunes nasceu em Alcácer do Sal, em 1502, e morreu em Coimbra aos 76 anos de idade. Foi cosmógrafo-mor e catedrático de matemática. Além de outros tratados, nomeadamente sobre navegação, em 1567, publicou a obra prima “Libro de Álgebra, Aritmética e Geometria” para ensinar a outros as suas descobertas.

2. Passos Manuel (1801- 1862) marcou a política nacional no período da Monarquia Liberal que se seguiu à aprovação da Constituição de 1822. Compreende-se que o seu nome tenha sido destinado ao liceu, uma vez que a sua ação política fora determinante na Reforma da Educação que criou o ensino liceal e que estabelecera a criação de um liceu em cada sede de distrito e dois em Lisboa (1836).

Porém, eu, ao estudar a personagem considerei muito curiosa a bizarria sobre o seu nome de batismo. Ora, ele mesmo, por sua autorrecreação, trocou o seu verdadeiro nome de Manuel Passos para “Passos Manuel”. Quando descobri o trocadilho adivinhei que iria ganhar o QUIZ a meu Pai. Assim aconteceu. No tal Sábado pela manhã meu Pai chamou os gémeos para perguntar se já sabíamos quem eram os patronos dos nossos liceus.

Foi então que perguntei:

– Ó Pai, sabe que “Passos Manuel” afinal não existiu?

– Fiquem a saber que foi um ministro do Liberalismo que reformou o nosso ensino ao estilo francês.

– Ó Pai, repare que, na altura, o seu irmão José era também deputado e acontecia uma confusão quando o Presidente do Parlamento dava a palavra ao deputado Passos. Para evitar irem os dois à tribuna, o Manuel resolveu dar a volta ao seu nome!

Francisco George
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