Opinião Pessoal CXXI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
27 maio 2026

SOBRE A INDEPEDÊNCIA DA GUINÉ-BISSAU (II)

Em 1980, pela primeira vez, cheguei a Bissau, seis anos depois da Independência. Na altura, senti um pulsar especial traduzido em indiscutível satisfação coletiva. Apercebi-me do clima de confiança que a generalidade da população depositava nos seus dirigentes. Parecia ser expressão genuína do novo sentimento de orgulho nacional.

O Presidente da Guiné-Bissau era Luís Cabral, que partilhava a direção do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde) com Aristides Pereira, que, por sua vez, era o Presidente da República de Cabo Verde.

Um e outro tinham sido companheiros de Amílcar Cabral, que fundara, em 1956, o PAIGC e que seria o seu líder até ter sido assassinado a 20 de Janeiro de 1973, em Conacri. Se bem que o autor dos disparos tenha sido identificado (um guineense ex-combatente do próprio PAIGC), os motivos do complot, os objetivos e as circunstâncias da sua morte permanecem por esclarecer.

A eliminação do líder da Luta não impediu a Libertação do país. Apenas oito meses separaram a trágica morte de Amílcar Cabral e a proclamação unilateral da Independência pela I Assembleia Nacional Popular realizada na região de Madina do Boé, a 24 de Setembro de 1973. Mas, só um ano depois, a 10 de setembro, Portugal viria formalmente a reconhecer a Independência e a estabelecer relações diplomáticas com o Governo do PAIGC.

O Presidente Luís Cabral nomeara, então, os membros para integrarem o Governo da República. Singularmente, os titulares das diferentes pastas eram, no início, denominados como comissários e subcomissários de Estado, na perspetiva em ser evitada a pomposa designação de ministros ou secretários de Estado.

João da Costa foi o primeiro governante guineense da saúde. Logo depois de Portugal ter reconhecido a Soberania da Guiné-Bissau, esteve em Lisboa a convite do seu homólogo português, o secretário de Estado Cruz Oliveira. O objetivo era acordar mecanismos de cooperação no domínio da Saúde, uma vez que a saída do Exército Português também esvaziara a administração pública civil, que funcionava na época colonial. Aliás, eram os médicos militares portugueses que, durante as respetivas comissões, asseguravam a assistência à maioria da população. Isto é, dito de outra forma: os médicos e a maioria dos técnicos, que aí se encontravam, saíram de Bissau porque a grande maioria eram tropas portuguesas.

Resolver a inexistência de médicos a prioridade. Para tal, o comissário de Estado João da Costa concebeu um inteligente esquema no âmbito da cooperação bilateral quer com os países amigos durante a Luta quer com o novo Portugal.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com