Opinião Pessoal XLVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 20 novembro 2024

Os dez desafios enumerados no artigo anterior, não incluem aquele que é, muito certamente, o maior, uma vez que é transversal a todos os riscos que iremos defrontar no futuro. Refiro-me à pobreza que teima em persistir e até, em muitas situações a agravar-se.

Este problema da pobreza e da relação que apresenta com a doença tem sido demonstrada e descrita, cientificamente, a partir de meados do século XIX. Foram muitas as investigações exatas que clarificaram essa associação. A principal foi do médico alemão Rudolf Virchow (1821-1902) que, no seguimento do pedido do Governo, foi enviado à região da Alta Salésia (atualmente território polaco) a fim de estudar a forma de controlar a epidemia de tifo que se propagava de forma preocupante entre os mineiros de carvão. Depois de ter diagnosticado a doença e a forma como se transmitia, elaborou um relatório com propostas concretas. Para surpresa de governantes e patrões, a mais importante das medidas que Rudolf Virchow apresentou era simples: aumento imediato dos salários!

Virchow logo percebeu que miséria das condições de vida e a falta de higiene eram consequência da pobreza e das condições de exploração impostas aos mineiros. Concluiu que sem rendimentos familiares não era possível assegurar higiene familiar. Ora, o tifo é transmitido por piolhos…

Desde as investigações conduzidas por Virchow e do célebre relatório que apresentou em 1847, foi o próprio patronato que compreendeu essa relação entre pobreza e doença. Por outras palavras, pagando mais, os mineiros teriam mais saúde e, portanto, estariam aptos para produzirem a extração de carvão com normalidade sem interrupções por doenças evitáveis.

Conclusão social: Os rendimentos familiares dos trabalhadores, mesmo em situação de incapacidade, desemprego ou de velhice, têm que ser assegurados em nome de princípios de Justiça Social.

Conclusão moral: a pobreza não pode ser politicamente aceitável. Em Portugal, depois dos 50 anos da Proclamação da Liberdade, o regime não é, ainda, inteiramente democrático, atendendo à existência de um largo fosso social (gap) que impede o acesso igualitário à saúde e à prevenção das doenças, incluindo no que respeita ao acesso a certas vacinas que evitam infeções e as suas complicações graves. Reparemos a diferença entre dois adultos, ambos com 65 anos de idade, os dois diabéticos, mas um é rico e o outro pobre. O primeiro, compra, sem dificuldade, a nova vacina de alta dose contra a gripe e a vacina contra o herpes zoster, mas o segundo, não tem meios para as comprar. Um fica protegido e o outro desprotegido (portanto, com maior probabilidade de adoecer por doença evitável).

Inaceitável!

(continua)

Francisco George
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