O Tempo da Saúde Pública (I)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 4 outubro 2023

Atualmente, sobretudo depois da Pandemia de Covid-19, todos se pronunciam sobre a importância da Saúde Pública.  É bom que assim aconteça.

Por isso, considera-se oportuno dedicar as crónicas seguintes à própria Saúde Pública. Interpretar-se-ão as suas fontes e os principais conceitos que a fundamentam. As exposições serão, necessariamente, resumidas em palavras simples e claras.

Precise-se.

Cada pessoa está inserida na própria família e na comunidade onde reside ou trabalha, rodeada pelos respetivos ambientes. Ora, é precisamente esse conjunto que interessa à Saúde Pública. Tanto os membros que compõem o núcleo familiar (frequentemente constituído por três gerações), como as condições de vida em todas as suas dimensões, incluindo alimentação, emprego, rendimentos e habitação. Assim, a saúde do Povo, como noção social e em oposição a individual, resulta do bem-estar das famílias.

A ideia de Saúde Pública começou em meados do século XIX. Na altura surgiram eventos que estimularam a formatação do pensamento coletivo no sentido do direito à proteção da saúde a nível de comunidades e dos aglomerados populacionais, quer rurais quer urbanos.

Apontam-se, a seguir, os acontecimentos que assinalaram o começo da ideia de saúde focada na população:

1º O primeiro terá sido a Grande Fome na Irlanda de 1845-1849 provocada pela praga de um fungo que destruiu as plantações de batata, uma vez que a batata era a base alimentar da população. Motivou fome generalizada, doença, morte e emigração massiva, em particular para os Estados Unidos da América e para o Canadá. A crise constituiu um forte abalo social, traduzido pela redução de cerca de um quarto da população, durante aquele período. O irlandês Patrick Kennedy (1823-1858) foi, certamente, o mais célebre dos emigrantes ao ter iniciado a famosa dinastia de políticos democráticos nos Estados Unidos.

Foi nesse cenário de crise da população rural marcada pela pobreza-fome-doença que nasceu o desígnio de proteger a saúde das pessoas na perspetiva social. Coletiva. Comunitária.

2º Em Inglaterra, as condições de trabalho dos operários, em meio urbano, eram insalubres e geradoras de doença. Em 1845, Friedrich Engels descreveu pormenorizadamente a situação dos trabalhadores das empresas industriais de têxtil, no seguimento da sua estadia em Manchester. A sua obra documenta a necessidade inadiável de reformas destinadas a promover a saúde dos trabalhadores e das suas famílias no intuito da prosperidade.

3º A epidemia de tifo que ocorreu de entre os trabalhadores das minas de carvão da Alta Silésia (na Polónia) foi analisada pelo médico alemão Rudolf Virchow que concluiu pela necessidade de aumentar os salários dos mineiros a fim de controlar a epidemia. Só dessa forma seria possível elevar as condições de higiene dos doentes. Note-se que o tifo é uma doença transmitida por piolhos infetados pelo micróbio patogénico que está na sua origem. Fazer sair as pessoas da imensa pobreza onde estavam mergulhadas devido aos baixos salários era a solução indicada por Virchow, justamente considerado o fundador da Medicina Social.

Nota final: Atualmente, em muitos restaurantes irlandeses, as refeições servidas são acompanhadas de batatas cozinhadas de três maneiras diferentes como forma de homenagem às vítimas da Grande Fome de 1845.

(continua na quarta-feira)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

A Era das Vacinas (IV)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 27 setembro 2023

Terminam hoje os artigos sobre a era das vacinas. Poderão ter tido alguma utilidade aos leitores, visto que amanhã tem início a campanha para a estação fria que se avizinha que é centrada na indicação para serem administradas duas vacinas: gripe sazonal e Covid-19.

A vacina para a gripe é tetravalente, visto que contempla dois vírus do tipo A e dois do tipo B.

Sublinhe-se que a vacina para a Covid-19, lançada pela Pfizer com o nome de Comirnaty, está já adaptada para as variantes do vírus que circulam em 2023-2024.

Ambas as vacinas são gratuitas e estão aconselhadas a adultos maiores de 60 anos de idade e a doentes com problemas crónicos. Este ano, pela primeira vez, podem ser administradas próximo da residência e sem qualquer despesa: vacinas e inoculações têm custo zero nas farmácias privadas habituais.

6 Ao terminar a Era das Vacinas, enumeram-se, a seguir, determinadas doenças que podem ser evitadas através da imunização com novas vacinas, já aprovadas.

Precise-se.

6.1. Para a ZONA, provocada pelo vírus herpes zóster, a nova vacina traduz a maior preocupação atual em vacinar adultos contra certas doenças, até aqui sem proteção. A vacina, fabricada pela empresa farmacêutica GSK, tem o nome comercial de Shingrix, poderá ser adquirida nas farmácias por prescrição médica.

6.2. Para a GRIPE há, agora, uma outra vacina, diferente da sazonal, também tetravalente, mas de alta dose. Foi apresentada pela Sanofi com o nome de Efluelda, sendo indicada para a população mais idosa. Em Portugal tem sido utilizada em lares (tudo indica com bons resultados).

6.3. Para a BRONQUIOLITE, está aprovada a indicação para as mulheres grávidas receberem a vacina contra a infeção originada pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR) considerada importante na perspetiva da proteção das crianças em relação à infeção provocada por aquele vírus. A vacina, preparada pela Pfizer, tem o nome de Abrysvo. Saliente-se que não é a primeira vez que uma vacina é administrada à mãe, durante a gravidez, para os anticorpos protetores passarem para o recém-nascido e, desta maneira, assegurarem proteção ao filho (prática há muito aconselhada, primeiro para o tétano e depois para a tosse convulsa).

6.4. Para a infeção humana por vírus MONKEYPOX existe a vacina denominada Imvanex, da farmacêutica BN.

6.5. O PALUDISMO, também chamado malária, é uma das doenças mais mortíferas do Planeta, especialmente em África. Atendendo à sua gravidade, foram muitos os cientistas que a partir de 1960 procuraram, sem sucesso, uma vacina eficaz.  Porém, em 2022, foi aprovada a primeira vacina pela Organização Mundial da Saúde, destinada a crianças. É segura e efetiva através de injeção muscular. Tem como nome comercial Mosquirix. Representa uma imensa esperança para reduzir a mortalidade abaixo dos cinco anos de idade nas regiões, sobretudo tropicais, onde os mosquitos Anófeles são vetores dos plasmódios (parasitas protozoários agentes do paludismo).

Nota final: Ao contrário das doenças infeciosas acima mencionadas, os cientistas não conseguiram afinar a vacina para a infeção provocada pelo Vírus da Imunodeficiente Humana (VIH), agente da SIDA. O vírus começou a circular há quase 50 anos e foi identificado em 1983, mas apesar de não haver vacina, em compensação, o tratamento medicamentoso é muito eficaz, tendo tornado a SIDA uma doença crónica.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.pt

A Era das Vacinas (III)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 20 setembro 2023

Em semanas anteriores foram descritas nestas páginas as 3 etapas iniciais sobre a preparação de vacinas, desde a antivariólica, à atenuação ou inativação dos micróbios patogénicos (ex. antidiftérica), até ao método de fabrico por técnicas de engenharia genética, como acontece com a vacina contra a infeção pela hepatite B que deve ser administrada à criança recém-nascida, logo a seguir ao nascimento, antes de sair da maternidade. Foi, note-se, a primeira vacina utilizada contra uma doença oncológica, visto que previne o cancro do fígado.

Ver-se-á, hoje, que os avanços tecnológicos e científicos foram imensos, tendo permitido lançar novas vacinas, incluindo para a Pandemia de Covid-19.

4. Resume-se, a seguir, a espantosa descoberta obtida com surpreendente sucesso por Ugur Sahin e sua mulher Ozlem Tureci. Estes dois cientistas que trabalham na Alemanha são um casal de médicos de origem turca. Conseguiram produzir vacinas inteligentes que induzem a produção de anticorpos protetores, mas indiretamente. Isto é, em lugar da vacina ser feita a partir do agente viral causador da Covid-19, prepararam a injeção de um mensageiro (ARN) que depois de ser inoculado no organismo humano “dá ordens” para ser fabricada uma proteína igual à presente na espícula do vírus. Ora, o sistema imunológico ao identificar esta nova substância como estranha reage com a produção de anticorpos dirigidos especificamente para essa proteína presente no organismo, mas que é idêntica à viral. Depois, se o verdadeiro vírus for transmitido a uma pessoa, encontrará os anticorpos anteriormente produzidos pelo sistema imunitário que, assim, funcionam como protetores.

Essa mesma vacina contra o Covid-19, adaptada às novas variantes do vírus original que foram surgindo, continua a estar indicada, em 2023-2024, porque o vírus se mantém em circulação.

5. Por outro lado, é preciso recordar que “não há Inverno sem gripe”. Os diferentes tipos do vírus da gripe circulam nas semanas frias do ano, mas alternadamente nos dois hemisférios: quando faz frio no Brasil ou em Moçambique, faz calor em Portugal e vice-versa, quando é inverno em Portugal é a estação quente no Brasil ou Moçambique. Acontece que durante esta volta ao mundo os vírus vão sofrendo alterações (mutações), motivo pelo qual a vacina que foi aplicada na estação de inverno de 2022, já não é eficaz no ano seguinte. Por isso, tem que ser fabricada de novo com as previsões das mutações baseadas nas análises laboratoriais dos tipos de vírus quando circulam no outro hemisfério.

É oportuna a decisão tomada pelo Ministério da Saúde, no seguimento da proposta da DGS, em juntar a administração das duas vacinas para a gripe e Covid-19. Ainda bem que assim sucede. Deliberação acertada porque a vacinação simultânea é segura e muito compensadora em termos de custos. Aliás, todos os especialistas admitem que os resultados da vacinação são altamente custo-efetivo. Por outras palavras, em termos de custo-efetividade, os dinheiros públicos são bem utilizados porque a redução da probabilidade de ocorrerem internamentos hospitalares por doenças graves, evitadas pela vacinação, é lucrativa.

Moral: As vacinações contra a gripe sazonal e Covid-19 são gratuitas. Quem for vacinado compra, por zero euros, menos doenças para o inverno. O Estado paga e ganha!

(continua na quarta-feira)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

A Era das Vacinas (II)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 13 setembro 2023

O artigo anterior foi dedicado à primeira fase das vacinas que começou na viragem do século XVIII para XIX em plena Revolução Industrial, mas antes dos primórdios da Microbiologia que germinou no seguimento das pesquisas impulsionadas pelo químico francês Louis Pasteur e pelo cientista alemão Robert Koch.

As investigações de um e de outro foram estimulantes. Pela primeira vez, as bases científicas dos seus trabalhos inauguraram um novo ciclo na História da Medicina. Desde então, os avanços científicos e tecnológicos foram decisivos para a preparação e afinação de novas vacinas destinadas a prevenirem, em segurança, muitas doenças infeciosas quer de origem bacteriana quer viral. Um imenso progresso.

2. Vacinas preparadas por inativação ou atenuação dos micróbios patogénicos.

Nesta fase, a essência das investigações sobre novas vacinas tinha, sempre, por objetivo descobrir a forma de enganar o sistema imunitário do corpo humano, levando-o a criar anticorpos contra os próprios micróbios presentes na vacina, mas sem provocarem doença. Para tal, era necessário transformar os micróbios de maneira a serem inofensivos, mas com a capacidade de induzirem respostas imunitária como se verdadeiros fossem.

Assim aconteceu com sucesso. Os principais agentes microbianos patogénicos causadores de doença humana foram atenuados ou inativados através de métodos laboratoriais inovadores. Assim, essas vacinas, depois de administradas, conseguem despertar a formação de anticorpos protetores pelo sistema imunitário, como se os agentes inoculados fossem patogénicos.

Os trabalhos experimentais conduzidos por Louis Pasteur e por Robert Koch, depois seguidos por muitos outros, foram determinantes para a obtenção e colocação no mercado de vacinas contra a raiva, tuberculose, difteria, tétano, tosse convulsa, poliomielite e gripe.

A descoberta da vacina antirrábica por Pasteur (1885) marca o início desta época, marcada pela interligação virtuosa entre a Microbiologia e a Medicina. A eficácia da vacina contra a raiva humana (viva atenuada) antecedeu a criação do famoso Instituto Pasteur de Paris. Em Portugal, logo em 1892, foi criado o Real Instituto Bacteriológico (mais tarde chamado de Câmara Pestana) para proteger as pessoas mordidas por animais raivosos.

Todas as vacinas, passaram a ser fabricadas a partir do agente microbiano que causa a respetiva doença, quer pela inativação (vacinas mortas) quer por atenuação (vacinas vivas atenuadas), a partir de culturas dos próprios agentes das doenças, tanto de natureza viral como bacteriana.

Se bem que tenham níveis de eficácia diferentes, foram introduzidas em programas de vacinação com resultados positivos indiscutíveis.

Realce-se que as vacinas contra a difteria, o tétano e a tosse convulsa são fabricadas, desde 1926, a partir das respetivas bactérias inativadas (mortas)

3. Vacinas fabricadas por recombinação do ADN

Incluem-se neste grupo as vacinas contra a hepatite B e contra a infeção pelo vírus do papiloma humano. Ambas, são fabricadas por métodos de engenharia genética que modificam os vírus originais, que deixam de ser patogénicos, mantendo a competência de formarem anticorpos. Como estas infeções virais podem evoluir para cancro, as vacinas são anticancerosas! A primeira contra o cancro do fígado e a segunda contra o cancro do útero.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

A Era das Vacinas (I)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 6 setembro 2023

Em artigo anterior focaram-se tópicos sobre as vacinas que evitaram doenças e mortes de milhões de pessoas. Retoma-se o tema, mas agora centrado na evolução histórica.

Muitos especialistas consideram que apenas a cloração dos sistemas de abastecimento de água para consumo humano terá alcançado efeitos comparáveis em termos de prevenção de doenças.

Vacinação e potabilidade da água são, assim, pilares principais da Saúde Pública. A primeira deve-se ao médico inglês Edward Jenner quando, em 1796, comprovou o efeito protetor da inoculação da vaccinia em relação à varíola; já a desinfeção da água pelo cloro, introduzida desde 1918, preveniu doenças de transmissão hídrica como a poliomielite, hepatite A, diarreias, a cólera…

A Era das Vacinas tem ciclos que são balizados pelo tempo e pela natureza do seu fabrico, em função dos avanços científicos e tecnológicos. Como denominador comum têm que ser seguras. Não faria sentido que uma vacina para prevenir determinada doença viesse a estar na origem de um problema que antes não existia. Por isso, a primeira regra é a segurança.

1. A Primeira Vacina. A mãe de todas as vacinas.

A Era das Vacinas começou com a imunização em relação à varíola. Jenner observou que as pessoas que adquiriam lesões benignas na pele (erupção e vesículas localizadas), por mugirem vacas doentes, não adoeciam com varíola, mesmo durante os períodos epidémicos. Atribuiu essa proteção à presença das lesões cutâneas que as pessoas adquiriam por terem estado, antes, em contacto direto com vacas doentes. A constatação da relação entre a existências sinais das erupções cutâneas localizadas e a prevenção da varíola foi, na época, absolutamente genial.  Como não podia levar as vacas doentes para Londres, imaginou que a extração do líquido das vesiculas das vacas para ser, depois, inoculado na pele das pessoas, iria provocar a tal lesão que evitava a varíola. O método expandiu-se por todo o mundo. Em Lisboa, logo durante os primeiros anos do século XIX as vacas doentes estavam em estábulos a fim de facilitar a obtenção da preparação do material extraído das vesículas para depois ser inoculado em pessoas. Curiosamente, é a única vacina obtida a partir de um agente diferente do causador da doença-alvo que se pretende evitar. Isto é, a vacina que viria a erradicar a varíola, em 1980, foi conseguida de um vírus da doença das vacas e não da varíola. Aliás, a própria expressão VACINA refere-se à doença das VACAS (vacas doentes com vaccinia) que era propositadamente transmitida por escarificação a seres humanos na perspetiva de os proteger para a varíola.  Este processo, ao ter eliminado a circulação do vírus da varíola no Planeta, constituiu o maior êxito da História Medicina. Mas, só muitos anos depois da administração maciça da vacina antivariólica foi, cientificamente, demonstrado que o mecanismo de proteção induzido pelos anticorpos específicos contra a vaccinia previnem a varíola devido à imunidade cruzada assim gerada. Por outras palavras, as pessoas eram vacinadas contra a varíola através da administração do vírus causador de uma doença das vacas (vaccinia).

Por proposta de Pasteur, em homenagem a Jenner, qualquer imunização para prevenir uma doença passou a ser designada como vacinação, apesar de não recorrer à vaccinia.

Francisco George

A Era dos Antibióticos (V)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 26 julho 2023

Em quatro capítulos anteriores tentou-se esclarecer o preocupante problema que a crescente ineficácia de alguns antibióticos e outros antimicrobianos representa atualmente.

Essa ineficácia é devida ao aparecimento de resistências das bactérias, vírus, protozoários e dos fungos aos respetivos medicamentos que, assim, deixam de ter efeito terapêutico. A dimensão que assume à escala global constitui um dos principais desafios em Saúde Pública. Uma pandemia.

Esta situação, se não for rapidamente controlada, poderá fazer regressar a ERA ATUAL até aos anos antes de 1941, altura do lançamento no mercado mundial da penicilina como primeiro antibiótico. Isto é, voltar-se-ia à época anterior aos antibióticos, onde as infeções não tinham tratamento eficaz (seria de novo o tempo antigo da Medicina sem antimicrobianos).

O assunto, compreende-se, é muito sério e exige a mobilização de todos. Mas, mesmo todos, sem qualquer exceção, a começar pelos titulares dos órgãos de soberania que têm que assumir as respetivas responsabilidades na adoção de medidas de controlo. Deles, espera-se ação. Determinação. Firmeza. Vigor.

Por exemplo, durante as audiências de quinta-feira do PM em Belém, o Presidente poderia pedir o ponto da situação sobre o assunto, até porque todos os chefes de Estado estarão envolvidos no tema agendado para a Assembleia Geral das Nações Unidas de 2024.

Os deputados ocupam-se da legislação sobre o tema e em fiscalizar a condução dos programas governamentais.

O ministro da Educação nas escolas de todos os níveis de ensino introduz programas pedagógicos adequados, naturalmente, à idade das crianças, dos adolescentes e dos jovens.

O Ministério Pública também deve estar atento ao, eventual, não cumprimento das leis destinadas à preservação dos antimicrobianos.

No fundo, o importante é proteger antibióticos e antimicrobianos. Por todos os meios. Só devem ser utilizados quando são mesmo necessários e apenas por prescrição médica ou de médicos veterinários.

Quer para tratar doenças das pessoas ou dos animais a indisciplina no uso de antimicrobianos favorece o contacto destes com os micróbios patogénicos e, assim, proporciona a indução de resistências que geneticamente são transmitidas a futuras gerações desses mesmos micróbios (transmissão que não teria lugar se os antimicrobianos não tivessem sido utilizados abusivamente).

PS: O autor das crónicas de quarta-feira estará de férias em Agosto, motivo pelo qual só voltará às páginas do DN a partir do dia 6 de Setembro. Durante esses dias irá, alternadamente, para as Azenhas do Mar e para Vila Real de Santo António. O microclima das Azenhas funciona como um imenso ar condicionado natural, visto que aí raramente faz calor. É um ambiente próprio para leituras e passeios refrescantes. No Algarve, terá sempre em atenção os riscos de exposição aos raios solares e não ir à praia entre as 12 e as 16 horas. Usará chapéu com abas largas, óculos escuros, T shirt e protetores solares.

Para além de estar com a família, encontrar-se-á com amigos em jantares já, aliás, aprazados e com mesas reservadas nos restaurantes habituais. Então, terão lugar discussões e trocas de pontos de vista sobre livros e filmes. A Guerra, a Paz e as crises políticas na Europa e em Portugal não escaparão às conversas. O desempenho dos diferentes governantes será, também, revisto.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

A Era dos Antibióticos (IV)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 19 julho 2023

Em continuação dos três artigos já escritos sobre o mesmo assunto, acentuam-se hoje os aspetos essenciais de proteção dos antibióticos e de outros medicamentos antimicrobianos, que estão agora em risco de perderem eficácia.

Antes de tudo, sublinhe-se que a ocorrência de resistência não é exclusiva de bactérias em relação aos antibióticos. Igualmente, os vírus, tal como os protozoários ou os fungos podem desenvolver resistências, respetivamente, aos antivirais, ou a antipalúdicos (no caso do paludismo) ou a antifúngicos. Por isso, é mais correto falar de resistência dos agentes microbianos patogénicos aos ANTIMICROBIANOS, uma vez a expressão antibiótico refere-se só a bactérias (antibacteriano).

Ora, os medicamentos antimicrobianos são utilizados no tratamento de doenças, tanto provocadas por bactérias, por vírus, protozoários ou por fungos.

A nível internacional, este problema da RESISTÊNCIA é designado pela sigla AMR que em inglês significa antimicrobial resistance.

Remonta a 2008 a confirmação de casos de resistência do vírus da gripe ao antiviral oseltamivir. Por outro lado, também desde há muito, foram identificados protozoários, agentes do paludismo, resistentes a antipalúdicos como a cloroquina, por exemplo. Reconhece-se, do mesmo modo, um problema com fungos patogénicos que provocam doenças (como as candidíases) que apresentam resistências aos medicamentos clássicos.

A atual comprovação que as taxas dos micróbios resistentes aos antimicrobianos são cada vez mais elevadas é motivo de grande preocupação.

Estão em causa os medicamentos para a prevenção e tratamento de doenças de natureza bacteriana, ou viral, ou devidas a protozoários ou, também a fungos. A apreensão a nível nacional e global é justificada, visto que são fenómenos que constituem desafios para a Humanidade.

Naturalmente, a aplicação de medidas preventivas das Resistências aos Antimicrobianos (RAM) impõe prévio conhecimento da sua génese. Ver-se-á que a luta contra as resistências envolve cidadãos e governantes, bem como todos os setores relacionados com a Saúde Humana, Animal, com a Agricultura e o Ambiente. Implica, pois, a abordagem ONE HEALTH.  

Precise-se.

A utilização inapropriada de antimicrobianos em medicina ou veterinária ou, ainda, na agricultura favorece, comprovadamente, o aparecimento de resistências devido a mecanismos de seleção, já mencionados. São exemplos de indevida utilização: o consumo excessivo (por tudo e por nada tomar um antibiótico…); o não cumprimento da prescrição médica (acabar a toma antes de tempo); o uso de antibióticos para infeções virais, quer de seres humanos ou animais…

O panorama na pecuária e agricultura não é tranquilo porque muitos dos agentes microbianos patogénicos são comuns a seres humanos e animais. Se esses micróbios forem resistentes, assim continuarão sempre a ser.

Repita-se. Se o micróbio patogénico adquirir resistência, as futuras gerações do mesmo micróbio serão resistentes aos respetivos antimicrobianos quer em seres humanos quer animais. A sua propagação é pandémica.

É urgente mudar de comportamentos no que respeita ao consumo de antimicrobianos. Mesmo admitindo que outros antimicrobianos inovadores sejam produzidos pela Indústria Farmacêutica, se os comportamentos não mudarem as resistências continuarão depois a ocorrer novamente.

Continua no capítulo V  

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

A Era dos Antibióticos (III)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 12 julho 2023

Em continuação de artigos anteriores sobre o mesmo tema, procurar-se-á, hoje, esclarecer a génese do aparecimento de resistências de bactérias aos antibióticos.

Antes de tudo, note-se que as bactérias patogénicas (isto é, que provocam doenças) são seres vivos, microscópicos, que se multiplicam por cisão binária: uma bactéria divide-se em duas, depois quatro, oito, dezasseis…

Há múltiplas espécies de bactérias que para efeitos de classificação taxonómica são agrupadas em géneros. Apresentam morfologia e dimensões variadas. Tanto podem assumir a forma esférica ou de bastonete ou de espiral. As primeiras são designadas como cocos, as segundas de bacilos e as últimas de espiroquetas.

Em geral, as bactérias medem entre 0,5 a 5 micrómetros (o micrómetro é a unidade do sistema métrico mil vezes mais pequena que o milímetro). Assim sendo, só são visíveis com lentes do microscópio ótico e por isso, têm a designação de microrganismo.

O efeito patogénico das bactérias resulta da sua multiplicação que é a causa da infeção (traduzida por febre e outros sintomas e sinais).

Como já exposto, a penicilina impede a multiplicação das bactérias (daí a designação de antibiótico).

Porém, pouco depois da sua introdução no mercado, identificaram-se certas bactérias (como os estafilococos, por exemplo) que passaram a produzir uma enzima capaz de inativar a penicilina, razão pela qual recebeu o nome de penicilinase. Nesta situação, a penicilina deixa de ter efeito antibiótico quando a bactéria segrega penicilinase. Ora, esta propriedade, uma vez adquirida, passa a ser “comandada” pelos próprios genes, integrados no património genético da bactéria. É, portanto, transmitida às sucessivas gerações de bactérias no âmbito do processo normal de multiplicação. Quase sempre, essa característica da resistência surge por um mecanismo biológico de pressão seletiva natural como resultado do contacto da bactéria com a penicilina. Nestes termos, as resistências ocorrem devido a mutações espontâneas ou, por outro lado, através da incorporação de material genético sob a forma de plasmídeos.

Repare-se que os plasmídeos são fragmentos ínfimos de material genético das bactérias, mas que se separaram do genoma bacteriano; têm a capacidade de se multiplicarem por si e de invadirem outras bactérias, mesmo de espécies diferentes (são cadeias circulares de ADN, independentes, que circulam livremente). Como os plasmídeos transportam genes das resistências aos antibióticos, a sua propagação no ambiente representa um problema, incluindo nos sistemas de abastecimento de água para consumo humano. Deste modo, os plasmídeos são poluentes ambientais que colocam em risco a saúde pública ao impedirem o efeito dos antibióticos.

Em Portugal, os membros dos órgãos de soberania não têm assumido este desafio com a necessária energia. Ainda há muito trabalho preventivo pela frente.

Em sentido contrário, há que aplaudir os que mais se destacam na proteção de antibióticos. A começar, no plano científico, as ações conduzidas pela equipa de José Artur Paiva do Hospital de São João e, na dimensão política, as atividades lideradas por António Correia de Campos para procurar envolver o Governo atual na solução do problema à escala global.

O duelo contra as resistências é para ganhar!

Nota
O artigo IV é dedicado a outros antimicrobianos & ONE HEALTH.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

A Era dos Antibióticos (II)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 5 julho 2023

Já aqui foi resumida, em artigo anterior, a história da descoberta da penicilina, em 1928, pelo médico escocês Sir Alexandre Fleming. A este propósito, sublinhou-se que a penicilina foi colocada no mercado pela Indústria Farmacêutica, apenas em 1941.

Viria, desde então, a tratar, curar e salvar muitos milhões de doentes, em todo o mundo, diagnosticados com problemas de infeções bacterianas que anteriormente não dispunham de tratamento específico.

Cedo, porém, foram identificadas certas estirpes de bactérias que tinham adquirido resistência à penicilina, fenómeno que ainda foi observado por Fleming antes da sua morte, ocorrida em 1955.

Para compreender o aparecimento, inicialmente inesperado, de bactérias resistentes é preciso, antes de tudo, destacar que a característica da resistência reside na própria bactéria e não no doente. É, assim, inteiramente errada a ideia que alguns doentes poderão ainda ter no sentido de julgarem que devido ao facto de quase nunca tomarem antibióticos, quando os tomam eles fazem rapidamente efeito…

Opinião errada, saliente-se novamente. Ora, o efeito ou a eficácia de determinado medicamento antibiótico não tem qualquer relação com os hábitos anteriores do doente que é medicado para combater uma infeção de origem bacteriana.

A ação do antibiótico está unicamente relacionada com a bactéria que provoca a infeção que precisa de ser devidamente tratada e curada. É o agente bacteriano que pode ser sensível ou resistente ao antibiótico. Se for sensível a cura da infeção será certa. Se a bactéria for resistente ao antibiótico não fará qualquer efeito terapêutico. Neste caso a infeção pode agravar-se, ou complicar-se e evoluir para a cronicidade ou, mesmo, levar à morte do doente.

Imagine-se, o seguinte cenário, aliás muito provável: um cidadão de 40 anos de idade, em plena saúde aparente, sai do seu local de trabalho em Lisboa e ao final do dia regressa a sua casa no Seixal, onde reside com mulher e dois filhos, um deles recém-nascido. Ao entrar no barco, no Cais do Sodré, para atravessar o Tejo, à hora de “ponta” inala passivamente as gotículas da tosse de um passageiro que estava a seu lado, apertado, na mesma fila. Imagine-se, também, que essas gotículas continham bactérias de tipo estreptococos, resistentes à penicilina, que o tal que passageiro tinha alojadas na sua orofaringe e que as transmitiu ao outro que estava junto de si…

São incidentes de situações, análogas à agora descrita, que devem estar presentes no pensamento de todos os cidadãos. Mas, mais do que isso, devem guiar os comportamentos, de molde a prevenir riscos facilmente evitáveis. Nesta circunstância, o passageiro a caminho de casa devia estar protegido ou ter evitado as horas com mais aglomerações de pessoas e o outro, ao tossir, teria que ter observado as normas de etiqueta respiratória aconselhadas pela Direção-Geral da Saúde.

Por outo lado, os serviços de saúde pública têm que continuar a insistir na difusão de conselhos destinados à prevenção e controlo de infeções respiratórias.

A seguir, em artigo próximo, procurar-se-á esclarecer a génese do aparecimento da resistência de bactérias aos antibióticos, bem como as principais medidas que visam reduzir o problema na perspetiva ONE HEALTH que envolve, necessariamente, a saúde humana, animal e a agricultura.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com