A Era dos Antibióticos (I)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 28 junho 2023

Desde há muitos anos os especialistas em Saúde Pública, tanto em Portugal como a nível mundial, chamam a atenção para a necessidade em preservar os antibióticos e clamam pela adoção de medidas para evitar o desastre, que se avizinha, devido à crescente propagação da resistência das bactérias. Um imenso desafio para a Humanidade.

Hoje, aqui, procurar-se-á resumir a história da descoberta dos antibióticos e dos problemas que, pouco depois, foram identificados com a sua utilização.

O novo tempo teve início em 1928 com as pesquisas do cientista Alexandre Fleming.

Fleming nascera na Escócia, em 1881, e viria a concluir Medicina na Universidade de Londres aos 25 anos de idade. Serviu na I Guerra Mundial nas frentes em França, como médico militar, onde presenciou a elevada mortalidade devida à falta de tratamento para as infeções adquiridas pelos soldados feridos durante os combates. Na altura, estava bem longe de pensar que seria ele mesmo a descobrir o primeiro antibiótico.

Mas, assim aconteceu. Um dia, em Londres, ao regressar ao seu laboratório do Hospital de St Mary, observou, acidentalmente, que os bolores que espontaneamente tinham crescido na placa onde ele, dias antes, tinha cultivado bactérias de tipo estafilococos, impediam o desenvolvimento das mesmas bactérias ao seu redor. Logo deduziu que nos bolores estaria uma substância com propriedades que eliminavam as colónias bacterianas. Assim foi. Trabalhou muito desde então. Comparou culturas. Fez ensaios. Investigou essas propriedades bactericidas. Como os bolores eram fungos da espécie Penicillium notatum designou essa substância com o nome de PENICILINA. No ano seguinte, em 1929, publicou os seus estudos com os resultados da ação antibacteriana do líquido obtido a partir dos bolores do género Penicillium.

Entretanto, a substância isolada por Fleming foi purificada e sintetizada por especialistas em bioquímica na perspetiva da sua utilização como medicamento antibiótico. Passaram 10 anos até ao início da produção industrial de Penicilina nos Estados Unidos da América. Um sucesso a partir de 1941.

Em 1945, Fleming recebeu o Prémio Nobel da Medicina, juntamente com o farmacêutico australiano Howard Florey e com o bioquímico alemão Ernest Boris Chain que conduziram o processo de preparação da penicilina destinada a ser utilizada como o primeiro antibiótico. A Penicilina, antibiótico natural, passou a ser produzida a nível mundial como Benzilpenicilina (Fleming não patenteou a sua descoberta). Como o ácido clorídrico do estômago inativa a Penicilina, inicialmente, era apenas administrada através de injeções endovenosas ou intramusculares. A seguir, os cientistas das grandes empresas farmacêuticas conseguiram preparar derivados da Penicilina para prolongar a sua ação e alargar o espetro. Foi, igualmente, possível preparar a sua administração por via oral.

Sir Alexandre Fleming é justamente considerado uma das 100 mais importantes personalidades do Século XX. Viria a morrer em 1955. Antes, porém, ainda assistiu ao aparecimento de bactérias que resistiam à sua Penicilina.

Moral:

É difícil conceber a vida sem antibióticos. Imaginem-se doenças sem terapêutica: sífilis, gonorreia, escarlatina, amigdalite, glomerulonefrite, endocardite, pneumonia, difteria, meningite bacteriana…

É obrigatório tudo fazer para evitar andar para trás!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Portugal, 1974 (III)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 21 junho 2023

No princípio de Maio, os primeiros passos de convivência coletiva em democracia foram surpreendentes. Naturalmente, com alguns excessos, mas sempre admiráveis.

Sintetizam-se, a seguir, dois temas, de melindre indiscutível. Ambos foram alvo de acesos debates ao longo do mês: um com grande repercussão “na rua” refletida nos meios da Imprensa e o outro no interior dos gabinetes da Junta de Salvação Nacional, da Comissão Coordenadora do MFA e nos conselhos de ministros do I Governo Provisório.

Precisem-se.

1. Nesta fase inicial da nova Era, a História era assinalada a quase a todas as horas. Acontecimentos marcantes, muitas vezes, ocorriam de manhã e outros, igualmente importantes, à tarde ou à noite. Era preciso estar sempre a ouvir notícias. Na altura, dias havia que dormir era difícil, sobretudo se coincidiam com reuniões do MFA ou da Junta de Salvação Nacional. Nesses tempos, as noites eram diferentes. Em regra, encurtadas por sobressaltos inesperados (umas vezes eram apenas rumores outras eram eventos com relevo).

A este propósito, o então primeiro-ministro, Adelino da Palma Carlos, contou durante uma entrevista que chegara a receber telefonemas às 3 horas da manhã de António Spínola que começava por perguntar “se já estaria a dormir” …

Portugal era, na época, governado por “homens sem sono”, como se dizia nas redações dos jornais. Os dias eram longos e as noites de descanso demasiado curtas. Um reboliço permanente.

Logo na primeira semana de Maio começaram as ocupações das casas devolutas ou subaproveitadas. Neste sentido, o frenesim da agitação popular, eminentemente urbano, teve lugar em Chelas, no famoso Bairro da Boavista, onde vinte e três blocos de habitações foram ocupados por gente pobre. Antes do final do mês, verificou-se no Porto a ocupação de casas no Bairro São João de Deus. Os “capitães” viam as ocupações com surpreendente simpatia. Algumas semanas depois, eram os próprios militares do COPCON que intervinham nas disputas que se multiplicavam por todo o lado. Mas, invariavelmente, colocavam-se do lado dos ocupantes com espantosa genuinidade. As forças da Polícia de Segurança Pública (PSP) e da Guarda Nacional Republicana (GNR) eram dispensadas destas intervenções, atendendo à manifesta cumplicidade, ainda recente, com o regime deposto. Repetiram-se cenas semelhantes que tinham grande cobertura mediática. A simpatia pelos ocupantes era generalizada.

2. O outro assunto principal referia-se à indecisão sobre o reconhecimento da Independência da Guiné-Bissau que tinha sido proclamada, unilateralmente, em 24 de Setembro de 1973 nas matas das colinas do Boé pelos dirigentes do PAIGC, herdeiros de Amílcar Cabral.

As pressões para o Governo Português reconhecer a nova República eram imensas. Entidades de credibilidade insuspeita como o Conselho Mundial das Igrejas e as Nações Unidas (ONU) e, a nível bilateral, os países aliados de Portugal, incluindo a Inglaterra, insistiam na necessidade premente em ser reconhecida a Independência da Guiné-Bissau e em iniciar a descolonização.  Ninguém ignorava que a ligação emocional de Spínola à Guiné iria representar um obstáculo.

No dia 25, em Londres, têm lugar as conversações formais com o PAIGC. Logo depois os conflitos armados terminaram.

Moral:

O mês de Maio, inaugurado pelas magníficas festas do seu primeiro dia, foi histórico.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Portugal, 1974 (II)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 14 junho 2023

Logo em Maio e Junho, os assuntos relacionados com as então colónias portuguesas eram os temas centrais nas discussões havidas durante as sessões do conselho de ministros, desde o I Governo Provisório. Aliás, compreende-se que assim tivesse acontecido, uma vez que a Guerra Colonial esteve na génese do Movimento das Forças Armadas (MFA). Cedo os “capitães” compreenderam que para acabar a Guerra em África impunha-se derrubar pela força o Governo de Marcelo Caetano. Por outro lado, depois da Revolução, concluíram que para terminar a Guerra era preciso descolonizar.

O reconhecimento da Independência de cada colónia seria, portanto, inevitável. Era o tópico principal em debate nas Forças Armadas e no Governo Provisório. As notas pessoais que Adelino Palma Carlos registava no seu caderno pessoal, (1) durante cada reunião do Conselho de Ministros, espelham essa imensa preocupação com as situações políticas e militares relacionadas com as colónias portuguesas, designadamente Guiné, Angola e Moçambique.

Ainda em 1974, devido a inconciliáveis discordâncias com o rumo político decidido no sentido da descolonização, tanto Adelino da Palma Carlos, como António Spínola renunciaram aos cargos que desempenhavam de Primeiro-ministro e de Presidente da República.

Como se sabe, o processo de descolonização prosseguiu com determinação e de forma rápida. Mário Soares nos Negócios Estrangeiros, António Almeida Santos no antigo Ministério do Ultramar (que passou a designar-se Coordenação Interterritorial), Vasco Gonçalves (a partir do II Governo Provisório) e Melo Antunes (membro da Comissão Coordenadora do MFA) cumpriram papeis primordiais.

Os conselhos de ministros eram muito longos. Por vezes, começavam pela manhã e prolongavam-se até à noite. Demoravam muitas essas horas. À mesa do Conselho, Álvaro Cunhal, ministro sem-pasta, tinha o costume de desenhar. A seu lado, sentava-se António Almeida Santos que observava com estupefação a facilidade e o prazer, bem visíveis, de Cunhal ao retratar figuras populares ao estilo neorrealista.

Um desses retratos, oferecido a Almeida Santos, é agora publicado pela primeira vez. (2)

Moral da história:

O desenho que Álvaro Cunhal fez, em 1974, durante o Conselho de Ministros e que no final ofereceu a António Almeida Santos, poderá representar uma camponesa serrana de Seia, onde os dois nasceram, respetivamente em 1913 e 1926.

A questão que se coloca é saber se desenhar ajuda a passar o tempo ou se, também, estimula o pensamento?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


(1) Notas publicadas por Helena Sanches Osório, em1988.
(2) Coleção particular do autor.

Portugal, 1974 (I)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 7 junho 2023

A História da República, em 1974, aclama acontecimentos exaltantes e de tamanha grandeza que a prosa não consegue descrever com a necessária atração.

Sem prejuízo de outros retratos objetivos, baseados em rigorosa análise histórica, relatam-se aqui episódios dispersos que podem alcançar alguma satisfação à curiosidade de leitores interessados pelas narrações e testemunhos da época.

Em Maio, as primeiras escolhas políticas recaem em democratas conservadores.  Foi o caso da nomeação de Adelino Palma Carlos para Primeiro-ministro por proposta insistente do Presidente António Spínola. Adelino era um conhecido professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, contemporâneo e amigo de Marcelo Caetano (ambos com idades próximas). Desde cedo aderiu à Maçonaria Portuguesa, tendo mesmo sido grão-mestre do Grande Oriente Lusitano. Aliás, foram os dirigentes maçónicos que logo sugeriram o seu nome a Spínola. Tinha sido Diretor da Faculdade e Bastonário da Ordem dos Advogados. Nos tribunais, Palma Carlos não hesitava em defender os políticos opositores à Ditadura do Estado Novo, perseguidos pela PIDE.

Foi primeiro-ministro do I Governo Provisório durante dois meses, a partir de 16 de maio. Como se sabe, o ambiente político da altura era muito especial. Sempre quente. Instável. Complexo, sem dúvida, mas exaltante.

A antiga amizade que unia Marcelo e Adelino facilitou a comunicação entre eles, mesmo depois da inesperada substituição ocorrida. Trocam cartas para combinarem o destino de documentação existente em São Bento, incluindo associada a livros de cheques que tinham ficado por resolver. Com a posterior publicação dessa correspondência ficou a saber-se que o Presidente do Conselho dispunha de uma conta no Banco Espírito Santo destinada a fins assistenciais de ações de benemerência (como pequenos donativos). Curiosamente, essa conta era abastecida regularmente pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Ora, imediatamente antes da entrada em funções de Adelino Palma Carlos, na véspera, foi publicado o Decreto-lei 203/1974 de 15 de Maio que transforma o Programa do Movimento das Forças Armadas (MFA) em Lei, publicada no então “Diário do Governo”. No capítulo da política social prevê “o lançamento das bases para a criação de um serviço nacional de saúde ao qual tenham acesso todos os cidadãos”. Melo Antunes e os outros membros da Comissão Coordenadora do MFA, conheciam a precariedade da situação de Saúde Pública. Sabiam do atraso de Portugal em relação à Europa. O país ainda vivia o tempo das epidemias de cólera. A mortalidade infantil era 4 vezes superior à da Suécia. A esperança de vida ao nascer era inferior em 7 anos quando comparada com a da Suécia. Em 1974, 1 em cada 4 portugueses não atingia 55 anos de idade.

Em resumo, em Portugal, os cidadãos morriam cedo e tinham esperança de viver mais curta em comparação com outros países europeus. Viviam com pouca qualidade e morriam prematuramente devido a causas evitáveis.

Moral

A construção do Serviço Nacional de Saúde foi prevista pelo MFA e inscrita como prioridade no Programa apresentado em 25 de Abril. Os capitães sabiam que era inadiável. Agora, na preparação das celebrações dos 50 anos, o Serviço Nacional de Saúde deve continuar a ser prioridade, ao lado da Escola Pública e da Justiça. Era essa a ambição do MFA.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Duelos

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 31 maio 2023

É preciso falar sobre os desafios para a Saúde Pública porque representam motivos de preocupação para todos. É necessário conhece-los a fim de serem eliminados a tempo. É indispensável a mobilização geral para estas lides inadiáveis. Só assim, o futuro poderá ser vivido com confiança. Prevenir é, também, uma questão de inteligência. Firmeza. Ainda mais quando são as gerações seguintes que devem ser protegidas através de medidas tomadas hoje. Agora.

Por isso mesmo, desafios e sustentabilidade estão interligados. São convergentes, visto que o que acontece hoje reflete-se necessariamente amanhã.

Eis três principais ameaças para o futuro:

1. As atuais alterações climáticas têm consequências para a Saúde Pública relacionadas com o aquecimento global. Têm que ser enfrentadas. Um confronto que não pode ser adiado.

Ora, está demonstrado que o efeito de estufa provocado pela libertação de gases poluentes, associados, sobretudo, à produção de energia, traduz-se pelo aumento da frequência de fenómenos climáticos extremos: ondas de calor, secas prolongadas, ciclones, cheias, etc.

Por outro lado, o aumento da temperatura ambiente cria condições favoráveis à multiplicação de vetores (artrópodes) que podem transmitir doenças como o zika, febre de dengue, febre amarela, paludismo, além de outras infeções.

Para desacelerar este processo de transição climática é urgente a adoção de medidas exigentes, em especial no que se refere à utilização de energias. Para tal, cabe ao Estado, em conjunto com a população, promover o desenvolvimento de estratégias baseadas no binómio: libertar menos carbono & capturar o carbono libertado.

2. A crescente resistência dos microrganismos patogénicos aos antimicrobianos, designadamente de bactérias em relação a antibióticos, de vírus a antivirais e de protozoários aos antipalúdicos, estão a gerar dificuldades de tratamento das doenças infeciosas.

O uso indevido de antibióticos em Medicina Humana ou Animal e Agropecuária está na origem deste fenómeno. Sabe-se que os plasmídeos que provocam a resistência aos antibióticos são fragmentos soltos de material genético (ADN) que se transmitem a novas gerações das bactérias e outras espécies de bactérias e que se encontram no ambiente (como a água).

3. As doenças crónicas têm na sua génese os comportamentos como denominador comum. Os cenários relativos à transição epidemiológica e as suas relações com o envelhecimento da população acentuam a oportunidade em promover ações de redução da magnitude destas doenças. Cancro, doenças cérebro-cardiovasculares, diabetes, obesidade e doenças respiratórias retratam esses problemas. É importante fomentar a adoção de comportamentos promotores de saúde ao longo do ciclo de vida e atender às determinantes básicas: ALIMENTAÇÃO que tem que ser equilibrada no plano quantitativo de calorias ingeridas e na composição (menos açúcares, menos sal, menos gorduras); EXERCÍCIO FÍSICO, combatendo hábitos sedentários desde a infância (os pais devem impedir os filhos de ficarem horas à frente de monitores de TV ou de computador e voltarem aos parques para andarem de triciclo, trotineta ou bicicleta); TABAGISMO, reduzindo o consumo convencional ou de tabaco aquecido.

Moral

No futuro, a redução dos riscos de saúde irá depender das ações concretas que hoje são tomadas. Depois será tarde proteger filhos e netos. Agora ou nunca!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

O Estado Social

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 24 maio 2023

Como se sabe, a ideia de um Estado mais justo, com menos diferenças entre ricos e pobres, ganhou grande expressão popular na Europa, sobretudo em Inglaterra, depois da Vitória dos Aliados, em Maio de 1945. Na altura, uma vez ganha a Guerra, a prioridade era melhorar as condições de vida das populações.

Reconstruir. Ir para a frente. Trabalhar. Era necessário reerguer infraestruturas e edificações urbanas devastadas pelas bombas alemãs do Blitz. Mas, ao mesmo tempo, era preciso transformar as políticas públicas. A população exigia mudanças. Impunha-se construir o Estado Social. Era importante garantir a todas as pessoas o acesso à Saúde, à Escola, à Justiça, à Segurança Social e à Habitação, mas sem discriminações. Emergiu a atração pelo Labour como sinónimo de eliminação de iniquidades.

Só assim se compreende que o famoso líder conservador Winston Churchill, mesmo depois da glória que justamente alcançou, tenha, logo a seguir, poucos dias depois, perdido as eleições gerais. As classes mais pobres, os trabalhadores e sindicalistas, animados por um entusiasmo contagiante, votaram por vida nova.

O trabalhista Clement Attlee, ao derrotar nas urnas Churchill, foi eleito primeiro-ministro em Julho de 1945. Surpreendeu. Quase parecia uma heresia dos eleitores que não votaram no seu herói maior. Os eleitores escolheram mudar.

Reconheceram que a essência do regime democrático impõe a absoluta igualdade de direitos. Os privilégios antigos da aristocracia abastada tinham que terminar.

Iria começar uma nova era, em tempo de paz. As políticas democráticas passaram para a Linha da Frente. O liberalismo perdeu.

Surge então o National Health Service (Serviço Nacional de Saúde), a Segurança Social para todos, a Educação gratuita e o desenvolvimento do audacioso programa de habitação.

Em Portugal, 30 anos depois, foi esse o ESPÍRITO da Constituição da República de 1976.

Todas as pessoas passariam a ter a mesma possibilidade em utilizar os serviços de natureza pública, tanto para cuidados médicos preventivos e curativos como de reabilitação ou, também, no que se refere ao acesso à Escola e à Justiça. Sem barreiras, nem qualquer marginalização associada ao estatuto social, etnia ou religião.

Era a ideia do Estado Social.

Por isso, desde a criação do Serviço Nacional de Saúde, em 1979, as redes de hospitais, de centros de saúde e de outras unidades, são financiadas pelo Orçamento de Estado (cujas receitas resultam da cobrança de impostos e taxas).

Como os ricos pagam mais impostos diretos do que os pobres (em sede de IRS, nomeadamente), no ato correspondente à prestação de cuidados de saúde não haveria lugar a mais pagamentos extra. Foi esta a conceção que fundamentou, no início, o processo de construção do Serviço Nacional de Saúde. Todas as pessoas teriam as mesmas oportunidades no acesso e, portanto, no ponto de contato com o Serviço não ocorreriam diferenças de pagamento. As contas estavam feitas antes, relacionadas com a carga de impostos de cada contribuinte.

Moral da história:

É altamente recomendável ver o filme “The Spirit of 45”, realizado pelo cineasta inglês Ken Loach. Trata-se de uma obra que retrata a força do entusiasmo pela construção do Serviço Nacional de Saúde que, por si só, foi capaz de derrotar políticas liberais, mesmo quando são protagonizadas por líderes da dimensão de Churchill.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Nova Lei do Tabaco

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 17 maio 2023

Recentemente, assistiu-se em diversos órgãos de Imprensa à publicação de sucessivos artigos de opinião que expressaram ideias baseadas em argumentos voláteis contra as novas propostas legislativas que visam proporcionar às futuras gerações um ambiente mais livre dos riscos de tabaco. Os jovens são preocupação principal. Muito justamente. Por isso, a meta é 2040.

Estranhamente, alguns dos autores dessas crónicas parecem ignorar o futuro. Muitos deles limitam-se a apresentar uma fundamentação meramente política associada às velhas teorias neoliberais que colocam as liberdades individuais à frente de tudo. Poucos conhecerão os resultados das pesquisas científicas que comprovam os riscos para a saúde provocados pelo fumo do tabaco, ativo ou passivo, aquecido ou convencional. Naturalmente, todas as opiniões são legitimas, apesar de não serem interessantes na perspetiva da promoção da saúde. Legítimas, mas imperfeitas.

Está provado que fumar antecipa o final da vida, em média, 10 anos. Isto é, que a exposição ao fumo do tabaco encurta a vida em 10 anos. Causa e efeito com demonstração científica indiscutível. Esta conclusão está devidamente alicerçada nas pesquisas dos investigadores ingleses Richard Doll e Richard Peto. Ambos demostraram que o tabaco constitui o principal fator de risco de morte quer devido ao cancro do pulmão quer às doenças cardiovasculares. Para tal, seguiram durante 50 anos a evolução dos episódios de doença e de morte verificados em 36 mil médicos ingleses, desde 1950. Ao longo dos anos, analisaram as diferenças da incidência de doenças e a idade da morte entre fumadores e não fumadores, bem como em relação a antigos fumadores. Concluíram que quem não fumou tinha uma esperança de viver superior em 10 anos quando comparada com fumadores. Provaram, também, que a interrupção do hábito de fumar traduz-se sempre em prolongamento da vida.

Como muitos dos riscos de doença e de morte são evitáveis, compreende-se a necessidade de os prevenir. Lógico.

Acontece, contudo, que os defensores das liberdades quando se manifestam contra as novas restrições anunciadas, tanto na oferta como no consumo, deviam pensar, antes de tudo o mais, nos seus próprios filhos ou netos, visto que são medidas protetoras para o futuro. E é bom que assim seja. Pensar e agir sustentabilidade, a fim de garantir que as gerações que se seguirão estarão mais protegidas. Expostas a menos riscos. Riscos desnecessários, sublinhe-se.

É ao Estado que compete o dever de proteger a saúde dos cidadãos. Por isso, impõe o uso de cintos de segurança nos automóveis, regulamenta os limites de velocidade nas estradas, estipula os níveis proibidos de alcoolémia ao volante, impõe o uso de máscara quando necessário, estabelece cercas sanitárias, retira do mercado medicamentos com efeitos colaterais negativos, proíbe o uso de chumbo na canalização predial, assegura direitos ao consumidor, etc.

O tabagismo deve ser analisado como uma epidemia descontrolada. Cabe ao Estado desenvolver políticas de prevenção, mesmo contrariando valores de interesse individual.

Moral em 2 pontos:

1. O fumo do tabaco não pode ser considerado uma opção individual de cada pessoa, uma vez que tem expressão eminentemente social com reflexos na carga de doença do Sistema de Saúde.

2. Quem gosta de viver não deve fumar, como dizia Sir Richard Doll.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

O Dia 5 de Maio

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 10 maio 2023

Na dimensão da Saúde Pública, o dia 5 de Maio adquiriu indiscutível simbolismo sobretudo a nível global, mas também nacional.

Antes de tudo, foi o dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou o fim da emergência sanitária relacionada com a Pandemia covid-19 que tinha sido declarada em 11 de Março de 2020. Estima-se que a nova doença provocou a morte a mais de 7 milhões de pessoas em todo o mundo, dos quais quase 27 mil em Portugal. Há, no entanto, cálculos bem superiores para o cômputo geral, visto que nem todos os países notificaram os dados de mortalidade à OMS com igual rigor. Aliás, no especto da transparência da comunicação Portugal é um exemplo de qualidade indiscutível.

Como se sabe, foi no final de 2019 que surgiu um vírus que até então não tinha provocado infeção em seres humanos. Por esta razão, ninguém estava protegido com anticorpos, motivo pelo qual a nova infeção encontrou grande facilidade de propagação. Se é certo que os primeiros casos ocorreram na cidade de Wuhan na região central da China, também se adivinhava que, em pouco tempo, a propagação da infeção saltaria as muralhas chinesas. Assim aconteceu.

Em Portugal, desde o começo e até agora, foram diagnosticados, comprovadamente, 5 milhões e seis centos mil doentes (mais de metade da população residente, portanto). A oportuna intervenção de médicos, enfermeiros e pessoal das unidades de saúde pública e da rede hospitalar não só conseguiu interromper muitas cadeias de transmissão, como também obteve excelentes resultados na terapêutica logo instituída. Para tal, além da dedicação sem limites da maioria do pessoal de saúde, as novas vacinas e testes de diagnóstico, bem como os modernos equipamentos em cuidados hospitalares, em particular das unidades de cuidados intensivos, foram decisivos.

No conjunto, olhando para trás, há que constatar a competência das respostas dadas pelo Serviço Nacional de Saúde e pela sua liderança.

Curiosamente, mas por mero acaso, no mesmo dia 5 de maio, Graça Freitas estava de partida para férias que não tinha ainda tido oportunidade de gozar. Como sempre se faz nestas ocasiões, arrumou o gabinete e preparou a ausência temporária prevista para esses dias de descanso. Aliás, muitíssimo justos. Todavia, antes de terminar o dia 5 de Maio, convidou família e amigos de Catarina Sena para participarem na cerimónia da inauguração da Sala que passou a ter o nome da antiga subdiretora-geral que um cancro levara prematuramente antes de completar 50 anos de idade. Catarina era administradora hospitalar. Tinha uma enorme força. Uma entrega absoluta ao interesse coletivo. Um exemplo de funcionária e dirigente da Administração Pública pela sua alta mestria. Reconhecida, unanimemente, como muito responsável. Era um símbolo de integridade. Sublime.

Moral:

O 5 de Maio de 2023, ao assinalar o fim da Pandemia, representa para todos os países do mundo um marco de imenso significado. Uma vitória.

É preciso reconhecer que a qualidade dos cuidados prestados pelos serviços públicos, quer para prevenção e controlo da atividade epidémica, quer destinados ao tratamento de doentes, foi excelente. Magnífica.

É preciso reconhecer, igualmente, os avanços conseguidos pela Indústria Farmacêutica, traduzidos em novas vacinas e medicamentos e, também, pelos testes inovadores de confirmação rápida do diagnóstico.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.pt

A Carta

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 3 maio 2023

(conto baseado em acontecimentos verídicos)

Era uma vez, Pedro Silva que nascera em 1940, em Lisboa. Ao terminar o curso de Medicina, em 1963, Pedro resolveu não apresentar a tese final na Reitoria da Universidade na intenção de não concluir formalmente a licenciatura. Isto é, acabara o curso sem poder ser inscrito na Ordem dos Médicos. Era quase médico sem poder exercer medicina. Mas, era isso mesmo que ele pretendia porque os médicos logo que acabavam a Faculdade eram imediatamente mobilizados para a Guerra Colonial. Pedro não queria ir para África. Em vez disso, para não cumprir o serviço militar obrigatório, pensou que era preferível não ser incorporado e emigrar para o estrangeiro. Assim aconteceu. No seu automóvel atravessou a fronteira do Caia, em Elvas, tendo dito aos agentes que “ía comprar chocolates” a Badajoz… Claro que não regressaria. À semelhança de outros colegas seus, instalou-se em Genebra, na Suíça, onde não teve dificuldade em obter autorização de residência e de trabalho. Continuou a ler e dava aulas para poder viver o dia a dia.

Na altura, os portugueses aí residentes eram cada vez mais numerosos. Promoviam encontros e debates sobre política nacional e internacional. Era o tempo da intensa propaganda difundida pelos comunistas que exaltavam os feitos da URSS, mas também de outros que rejeitavam as teses ditadas por Moscovo. Porém, estavam todos unidos pelo envolvimento na luta contra o regime ditatorial de Salazar e, especialmente, contra a continuação da colonização. Consideravam urgente a criação de condições para a Independência das colónias, nos termos preconizados pela ONU.

Muitos dos membros do Grupo escreviam textos de reflexão e análise política. Para tal, fundaram a revista “Polémica”. Uns assinavam com o próprio nome, outros com pseudónimos. Carlos Almeida, Manuela Pinto Nogueira, Eurico Figueiredo, Maria Emília Brederode, António Barreto e Medeiros Ferreira, entre outros, destacavam-se. Os dois últimos viriam a ser ministros de governos do Partido Socialista, depois de 1974. Também Manuel Lucena, em Paris e José Cutileiro, em Londres, mantinham ligações próximas aos seus amigos da “Polémica”.

Entretanto, os serviços centrais da PIDE, à António Maria Cardoso, em Lisboa, tinham classificado Pedro Silva, não só como refratário, mas, também, como refugiado politicamente ativo no núcleo oposicionista de Genebra. Reforçaram a vigilância aos familiares mais próximos e até à namorada que era médica no Hospital Dona Estefânia.

Um dia, Pedro Silva alugou um apartamento com magnífica vista para o Lago na ideia de casar com Luísa, com quem namorava desde o terceiro ano da Faculdade. Por isso, escreveu-lhe uma carta de amor que terminava com o pedido de casamento. Prometia viverem felizes na nova casa que acabara de arrendar em Genebra.

No entanto, Pedro não recebeu qualquer resposta de Luísa. Admitiu que era sinal de recusa para casarem. Não podia visitá-la pela sua condição de refratário, uma vez que, pela certa, seria detido à entrada.

Anos passados, depois de 1974, Pedro regressou a Portugal. Propositadamente não procurou Luísa. Ambos tinham reorganizado as suas vidas.

Um dia, por mera curiosidade, foi consultar a sua ficha da PIDE, na Torre do Tombo.  Encontrou aí a carta do pedido de casamento com carimbo vermelho de intercetada por segurança do Estado!

Como reagir?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.pt

Escola em Crise?

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 26 abril 2023

(conto baseado em eventos verídicos)

Era uma vez uma jovem, chamada Emília, de 12 anos de idade, que frequentava o 7º ano do 3º ciclo do ensino básico, em 2019/2020, na Escola oficial de Vila Real, bem perto da residência de seus pais.

Emília era muito feliz na Escola. Gostava das instalações e do ambiente. Tanto os professores como o pessoal auxiliar tinham elevado prestígio junto da população e, naturalmente, também dos alunos. As aulas eram animadas e a educação física era praticada em ginásio devidamente equipado. A organização escolar era regida por regras democráticas que todos apreciavam e aceitavam com confiança.

Emília, desde as primeiras aulas em Outubro constrói uma intensa amizade com a sua colega de turma Tânia. Ambas tinham a mesma idade e gostos convergentes. Conversavam constantemente durante os recreios, ao almoço e depois, já em casa, não resistiam em trocar mensagens de telemóvel. Muitas vezes passavam os fins de semana, alternadamente, ora em casa de uma, ora de outra. Sempre inseparáveis.

Eis senão quando, muito longe, na China, uma nova doença infeciosa emergira. Não demorou muito tempo a saltar a famosa Grande Muralha e a provocar epidemias em todos os continentes. Era uma infeção respiratória que podia evoluir gravemente. A pandemia gerou medo em todos os países do mundo, incluindo em Portugal.

Por esta razão, o Presidente da República e o Primeiro Ministro apressaram-se a decretar um conjunto de medidas de exceção no âmbito do Estado de Emergência.

As escolas foram encerradas, tal como os estabelecimentos de Atividades de Tempos Livres (ATL). O ensino normal foi interrompido.

Emília e Tânia prosseguiram a amizade entre elas, mesmo inevitavelmente afastadas.

Como previsto passaram de ano para o 8º. Agora, as duas frequentam o 9º ano do 3º Ciclo. Por esta razão, o ensino básico aproxima-se do final. Uma e outra têm boas notas, apesar das frequentes interrupções, primeiro devidas à pandemia e depois aos problemas resultantes das lutas sindicais dos professores, agravadas por diversas carências inexplicáveis.

Emília e Tânia irão, assim, terminar o 9º ano.  Seguir-se-á, portanto, o Ensino Secundário a fim de frequentarem os 10º, 11º e 12º anos, antes da Universidade.

Porém, inesperadamente, são confrontadas com uma situação que irá separa-las daí em diante. Os pais de Tânia resolveram inscrever a filha em colégio privado para a afastar da crise permanente das falhas pedagógicas, enquanto que, por falta de meios, os pais da Emília não têm a mesma possibilidade. Os rendimentos da famía de Tânia permitem essa mudança para a escola privada, mas os recursos dos pais de Emília não são suficientes para a transferir para o ensino privado.

Moral da história em 5 pontos à consideração de governantes e deputados:

1. As políticas sociais conduzidas pelo Governo não asseguram, comprovadamente, a qualidade do ensino público básico e secundário.

2. É urgente reconhecer que a paz social assume importância vital em toda a comunidade escolar e, por isso, é inaceitável prolongar as negociações com sindicatos.

3. O rendimento familiar não deve ser gerador de desigualdades entre o ensino oficial e privado. As oportunidades de aprendizagem têm que estar ao alcance de todos.

4. É inadiável o desenvolvimento de políticas para robustecer o Estado Social.

5. Antes de tudo, há que reduzir iniquidades.

Francisco George
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