Opinião Pessoal CXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
29 abril 2026

SOBRE OS MORCEGOS. UMA AMEAÇA INESPERADA.

As enormes árvores frondosas da rua onde eu residia em Bissau eram fantásticas, não só pelo porte gigantesco, pelo tom verde permanente, mas, sobretudo, porque protegiam a minha casa dos intensos raios solares tropicais. A sombra fresca era quase permanente ao longo do dia. Mas, mais do que isso, os seus frutos eram magníficos: deliciosas mangas da Índia. Havia, porém, um senão! Ao anoitecer, quando os morcegos que as povoavam acordavam, ouvia-se uma algazarra, perturbadora, provocada pela disputa dos frutos. Era uma gritaria que incomodava quem por ali passava por perto. Depois, repentinamente, começavam a esvoaçar e saíam em bandos pelo céu escuro. Era o início da vida noturna dos morcegos.

Aos meus filhos ensinava, então, que eram animais pacíficos, mamíferos com asas e que nada havia a temer pela proximidade deles.

Ora, como a verdade não é bem a que relatava nessa época, resolvi escrever, hoje, sobre morcegos à luz dos atuais conhecimentos. Nos últimos anos, no âmbito de pesquisas conduzidas por especialistas em biologia, virologia e epidemiologia sucederam-se descobertas, cientificamente comprovadas, que motivam, afinal, justificado desassossego.

Antes de tudo, lembremos que os morcegos são os únicos mamíferos verdadeiramente voadores. Vivem em todos os continentes. Pertencem à ordem dos quirópteros, designação com origem no grego antigo: cheir (mão) e pteron (asa), indicando que as mãos têm asas (membranas alares).  Os quirópteros subdividem-se em 21 famílias, 237 géneros e em centenas de espécies diferentes (quase 1500). Distinguem-se pela corpulência que apresentam, pelos locais que habitam e pelo tipo de alimentação. Há espécies que se alimentam de insetos (cerca de 70%) e outras de frutos (como no caso da minha casa de Bissau). Apenas três por cento são hematófagas.

A este propósito, os biólogos e os ambientalistas realçam a ação benéfica dos morcegos, uma vez que assumem em diversos ecossistemas uma importância principal na dispersão de sementes, na polinização e na redução da densidade populacional de insetos noturnos (pela respetiva atividade predadora).

Mas, em sentido contrário, os virologistas apontam graves riscos para a saúde humana associada aos morcegos porque podem ser o reservatório de numerosos agentes patogénicos, nomeadamente dos vírus da gripe, entre muitos outros. Como reservatório de vírus, além de permitirem a sua sobrevivência na natureza, também os transmitem a outros hospedeiros suscetíveis, através da eliminação das fezes. Os cenários reias que protagonizam, já demonstrados, constituem motivo de preocupação.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com