Opinião Pessoal LIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 19 fevereiro 2025

Volto aos episódios guardados nas minhas memórias associadas a Campo de Ourique, onde vivi o terceiro quartel do seculo XX.

Os liceus mais frequentados pelos filhos dos residentes no Bairro eram, antes de mais, o Pedro Nunes e depois o Passos Manuel. O primeiro ficava a uma distância acessível, sem necessidade de transportes públicos e o Passos Manuel era servido pelo número 28 dos carros elétricos da Carris que saía do largo fronteiriço ao Cemitério dos Prazeres e fazia o itinerário até à rua da Conceição. Ou pagando o bilhete amarelo de 8 tostões ou pendurado atrás, os alunos liceais rapidamente faziam o percurso desde o bairro até à Calçada do Combro e de regresso, daqui para casa.

Ambos os liceus tinham sido inaugurados logo no início da República. Eram instalações modelares para a época.

Eu, aos 10 anos de idade, tinha sido colocado no Pedro Nunes e meu irmão gémeo no Passos Manuel.

Analisemos os patronos desses estabelecimentos de ensino secundário.

1. Sobre Pedro Nunes a unanimidade pelo reconhecimento da sua imensa grandeza como cientista e matemático eminente explica a decisão tomada para aplicar o seu nome ao liceu. Pedro Nunes nasceu em Alcácer do Sal, em 1502, e morreu em Coimbra aos 76 anos de idade. Foi cosmógrafo-mor e catedrático de matemática. Além de outros tratados, nomeadamente sobre navegação, em 1567, publicou a obra prima “Libro de Álgebra, Aritmética e Geometria” para ensinar a outros as suas descobertas.

2. Passos Manuel (1801- 1862) marcou a política nacional no período da Monarquia Liberal que se seguiu à aprovação da Constituição de 1822. Compreende-se que o seu nome tenha sido destinado ao liceu, uma vez que a sua ação política fora determinante na Reforma da Educação que criou o ensino liceal e que estabelecera a criação de um liceu em cada sede de distrito e dois em Lisboa (1836).

Porém, eu, ao estudar a personagem considerei muito curiosa a bizarria sobre o seu nome de batismo. Ora, ele mesmo, por sua autorrecreação, trocou o seu verdadeiro nome de Manuel Passos para “Passos Manuel”. Quando descobri o trocadilho adivinhei que iria ganhar o QUIZ a meu Pai. Assim aconteceu. No tal Sábado pela manhã meu Pai chamou os gémeos para perguntar se já sabíamos quem eram os patronos dos nossos liceus.

Foi então que perguntei:

– Ó Pai, sabe que “Passos Manuel” afinal não existiu?

– Fiquem a saber que foi um ministro do Liberalismo que reformou o nosso ensino ao estilo francês.

– Ó Pai, repare que, na altura, o seu irmão José era também deputado e acontecia uma confusão quando o Presidente do Parlamento dava a palavra ao deputado Passos. Para evitar irem os dois à tribuna, o Manuel resolveu dar a volta ao seu nome!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 12 fevereiro 2025

Nasci e vivi em Campo de Ourique. No terceiro quartel do Século XX era um bairro lisboeta extraordinário pela capacidade de produzir, em quem aí residia, um sentimento de elevada satisfação. Gerava um entusiasmo singular associado a uma profunda sensação de pertença. Habitar aí era diferente. Único.

Morávamos no número 105 da Rua Coelho da Rocha. Hoje seria um andar classificado como T9, amplamente iluminado por outras tantas janelas, além de uma varanda na dobra da esquina com a Rua Azedo Gneco. Meus pais tinham quatro filhos e uma filha. Vivíamos com alegria.

Já as anteriores gerações da família residiram no Bairro, tanto do lado paterno como materno. Meu Pai nascera no 75, também da Coelho da Rocha e minha Mãe no número 10 da Rua 4 de Infantaria, mesmo junto ao entroncamento inicial.

O Bairro tinha sido planeado ainda durante a Monarquia, mas a construção da maioria dos arruamentos, das infraestruturas e dos respetivos edifícios entraram pelo tempo da República.

No início do ensino liceal, aos 10 anos de idade, recordo que um dia, perguntei, inocentemente, a meu Pai qual era a razão da nossa rua ser chamada Coelho da Rocha, respondeu:

– Essa, Francisco, é uma boa pergunta. Todos nós devemos saber quem é o patrono que dá o nome à rua onde moramos, ou à nossa Escola ou a determinada instituição. Ora, a rua é assim chamada porque Manuel António Coelho da Rocha, que morreu há muito tempo, há mais de 100 anos, era um grande especialista em história e em legislação que a Câmara Municipal de Lisboa decidiu assim homenagear.

– Então, quem era Pedro Nunes que dá o nome ao meu liceu? E logo depois, insisti com nova questão:

– E Passos Manuel, onde anda o meu irmão João?

– São perguntas importantes, comentou meu Pai, para a seguir acrescentar:

– Estuda os dois. Vê quem foram Pedro Nunes e Passos Manuel até sábado. Pede ajuda ao teu irmão. Se acertarem podem ir sozinhos ao cinema Europa.

Ficámos encantados. Era uma boa promessa. O cinema Europa era bem perto de nossa casa. Se bem que fosse ainda o primeiro “Europa”, estava implantado no mesmo local, na esquina da Rua Francisco Metrass com a Almeida e Sousa.

Foi aqui que vimos, vezes sem conta, a primeira versão da “Música do Coração” que, na altura, se chamava “A Família Trapp” de Wolfgang Liebeneiner (1956), sobre as perseguições nazis na Áustria e o “Rio Bravo”, de Howard Hawks (1959), um Western com a lindíssima Angie Dickinson que se apaixona pelo xerife.

A verdade é que o bilhete era muito acessível e para minha Mãe representava um sossego ter lá os gémeos sentados durante duas horas. Chegava a perguntar-nos se não queríamos ir ver outra vez, apesar do filme ser o mesmo …

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 5 fevereiro 2025

Com orgulho, costumo exibir a minha condição de cidadão de nacionalidade portuguesa. Nasci, estudei e resido em Lisboa. Gosto de ser europeu, ainda por cima integrado na União Europeia, desde 1986. Festejei a adesão à moeda única, Euro, em 2002.  Sou, portanto, uma das muitas pessoas que está inserida, no plano geográfico, no chamado “Mundo Ocidental”. Identifico-me com o modo de viver no Ocidente. Mas, sublinho, respeito o culto de todas as religiões, bem como os respetivos costumes. Sou contra todas as formas de discriminação quer baseadas no género, na nacionalidade, na cor da pele, no estatuto social ou na fé. Humanista, antes de tudo. Simpatizo com imigrantes e emigrantes. Desde novo, ainda adolescente, cultivo todas as dimensões da Liberdade. A Revolução de Abril foi uma enorme alegria. Aplaudi a aprovação da Constituição de 1976, apesar de reconhecer que ainda há espaço para melhorar a qualidade do nosso sistema democrático.

Nestes termos, considero-me um regozijado.

Estou feliz por estar onde estou, mas, ao mesmo tempo, mantenho um estranho sentimento de preocupação sobre o futuro das próximas gerações. Os nossos filhos e netos poderão ser confrontados com a exposição a riscos indesejáveis. Avizinham-se tempos cinzentos. Sinto, por isso, um misto de incerteza e inquietude. Um desassossego que não me larga. Um certo devir difícil.

Vem isto a propósito da insegurança gerada não só por guerras, mas também pelo reconhecimento da fragilidade de governos e, sobretudo, pela ausência de líderes com credibilidade inquestionável.

Reparemos.

A atual situação política internacional é assinalada pela insensatez de muitos governantes. A imprudência tornou-se comum. Acentuou-se depois dos recentes resultados de eleições em países democráticos.  São, agora, constantes os prenúncios bélicos, cada vez mais devastadores. Voltou a guerrilha das tarifas alfandegárias a fazer lembrar as antigas contendas entre franceses e ingleses no tempo napoleónico (que, aliás, tão bem conhecemos na época da corte no Brasil).

Prosseguem as guerras no Leste Europeu e no Médio Oriente, ambas marcadas por graves violações do Direito Internacional.

Chegou-se a um cenário que até há poucas semanas atrás era inacreditável: dois países aliados, fundadores da NATO (1949), não se entendem com o principal membro da mesma Aliança, também fundador, que anuncia, desmesuradamente, pretender expandir as suas fronteiras para territórios daqueles aliados. A confirmar-se, será que a aplicação de eventuais sanções irá obedecer a critérios uniformes?

E, finalmente, como interpretar o atual poder exercido por oligarcas tanto na área de influência Ocidental, como na “outra”?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 29 janeiro 2025

Pela televisão, acompanhei a posse do 47º Presidente dos Estados Unidos da América, no dia 20 de Janeiro. Agora, a frio, sem o frenesim próprio da ocasião, resolvi escrever alguns tópicos que surgiram no meu pensamento sobre as mudanças já anunciadas.

Mas, em primeiro lugar, pretendo manifestar as minhas dúvidas sobre a justeza do sistema eleitoral americano, uma vez que está concebido para fazer ganhar apenas o candidato de um de dois partidos, quer para a presidência quer para o Congresso e Senado. Um bizarro sistema bipartidário, sublinho. O espanto é ainda maior quando, como já aconteceu, o presidente eleito poder ter menos votos do que o seu adversário. Ainda por cima, não se compreende a desmesurada concentração de poderes que detém que gera um domínio quase absoluto. Chega ao ponto de o regime permitir que o Presidente possa decretar, por sua decisão, indiscriminadamente, o perdão a criminosos e até a perdoar a hipótese de um seu familiar poder ser condenado no futuro, antes mesmo do julgamento. Uma governação a lembrar o estilo Luís XIV, “Rei Sol”, investido de influência divina.

O espalhafato da assinatura pública dos decretos terá ofuscado a gravidade de algumas das medidas que tomou. Refiro-me, entre outras, à decisão dos Estados Unidos saírem da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Reparemos no resumo histórico que apresento.

Na sequência da II Guerra Mundial, a OMS foi criada no âmbito das deliberações da Conferência de São Francisco, em 1945 e, no ano seguinte, da Conferência de Nova Iorque. Os respetivos estatutos, como agência especializada da ONU, entraram em vigor em 1948. Portugal aderiu ainda no mesmo ano (1948).

Dois médicos portugueses destacaram-se no começo das ações desenvolvidas pela OMS: Francisco Cambournac (1903-1994) e José Cutileiro (1911-1956). O primeiro foi eleito para dois mandatos como Diretor da Região de África (1954-1964) e o segundo ensinou Saúde Publica em Cabul (Afeganistão).

O mais importante sucesso da OMS foi a eliminação da varíola, a nível global, através da vacinação. A erradicação da doença foi declarada em 1980. Um imenso êxito. Em Portugal, o último caso de varíola ocorreu em 1952. Hoje, o vírus só existe armazenado nos frigoríficos de Atlanta (EUA) e na Sibéria (Rússia), onde ainda permanece à espera de ser tomada a decisão de o destruir.

A intervenção da OMS não se limita à vacinação ou ao controlo de pandemias (como tuberculose, SIDA ou Covid-19), visto que desenvolve ações em saúde materno-infantil e na prevenção de riscos: doenças crónicas, resistência dos agentes microbianos a medicamentos ou alterações climáticas. Riscos que interessam a todos países, incluindo os EUA.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 22 janeiro 2025

Um certo dia, em 1973, eu e um colega da Faculdade, fizemos uma visita a um conhecido alfarrabista na Rua do Alecrim, ao Chiado. Passados alguns minutos, o gerente apercebeu-se que nós éramos médicos porque estávamos a folhear uma velha farmacopeia e a fazer comentários de índole técnica sobre o respetivo conteúdo. Por isso, fomos interrompidos, por ele, nos termos seguintes:

– Pelos vistos são médicos. Certo?

– Sim. Somos internos do Hospital de Santa Marta.

– Olhem, tenho guardada uma primeira edição do “Tratado da Conservação da Saúde dos Povos” que Ribeiro Sanches escreveu em 1756. Estão interessados?

– Claro, respondemos nós, surpreendidos pela desfaçatez do gerente.

Já com o livro na minha mão, confirmei a minha decisão de o comprar.

Li o Tratado com elevada curiosidade e de uma assentada, apesar da imensa dificuldade originada pelo tipo de letra da impressão da época. A leitura parecia interminável, tal era a complicação para descodificar cada palavra e o sentido da frase. A pontuação e ortografia, na altura, não tinham as regras que hoje conhecemos. Mas, logo percebi que Ribeiro Sanches ao escrever e a publicar o seu pensamento, estava a criar, pela primeira vez, uma visão abrangente, inovadora, sobre a promoção da saúde e a prevenção das doenças. Absolutamente brilhante, atendendo ao ano correspondente à publicação do Tratado: 1756. Portanto, muito antes das fantásticas descobertas do século XIX por Virchow, Pasteur e Robert Koch; antes da energia elétrica; antes das comunicações; antes dos caminhos de ferro e da ligeireza de mobilidade de hoje… O Tratado de Ribeiro Sanches é, assim, uma admirável antecipação em relação às descobertas científicas que aconteceram mais de cem anos depois. Surpreende.

Desde então, pensei que era necessário divulgar a Obra. Para tal, a prosa teria que ser, primeiramente, transposta para a ortografia atual. Ideia que nunca abandonei.

Reparemos que António Nunes Ribeiro Sanches nascera em Penamacor, em 1699. Terminou o curso de medicina em Salamanca e exerceu em Benavente a partir de 1724.

Dois anos depois, por denúncias de práticas de judaísmo, fugiu à Inquisição. Nunca mais voltou. Percorreu os principais centros europeus. Na Corte Imperial da Rússia, foi médico da czarina Catarina, a Grande. A partir de 1747 passou a residir em Paris onde morreu em 1783. Entre muitas obras que publicou, o Tratado que escreveu em português foi aí editado, em 1756.

Passaram 300 anos sobre o início da atividade médica do sábio português. Motivo que levou a Sociedade Portuguesa de Saúde Pública a promover a divulgação do “Tratado da Conservação da Saúde dos Povos” em reedição da Almedina, agora disponível nas livrarias.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 15 janeiro 2025

O Novo Ano será marcado, na dimensão política, pelo habitual frenesim associado às sucessivas campanhas eleitorais que começam pelas legislativas na Madeira, seguidas pelas eleições para as autarquias locais (municípios e freguesias) e, logo depois, para substituir Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República. Será um 2025 agitado por disputas exaltadas.

É, portanto, oportuno apontar duas características principais comuns às três eleições:

1. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que, em Portugal, existe total garantia de liberdade, em condições de igualdade para todas as candidaturas, desde que formalizadas nos termos da Lei e da Constituição.

2. Ao contrário do que acontece em muitos outros países, a contagem dos votos apura os resultados depositados nas urnas que são, imediatamente a seguir, publicados com verdade absoluta, desde 1975. A contagem final é inquestionável. Naturalmente, as noites correspondentes aos dias da contagem de votos são emocionantes pelo relativo stress que provocam, mas animadas pelos sucessivos telefonemas, feitos e recebidos entre amigos na perspetiva da antecipação de resultados.

A última eleição acima referida será destinada a escolher o novo Presidente da República para o quinquénio que se inicia a 9 de março de 2026. Sublinho que respeita os princípios democráticos mais exigentes, ao impor que o candidato seja declarado vencedor quando tem mais de metade dos votos expressos.

Além das exigências constitucionais, exige-se que o Presidente da República seja uma pessoa gentil e com reconhecida capacidade de dialogar quer com outros titulares de órgãos de soberania quer com homólogos estrangeiros.

É importante enfatizar que a boa relação que deve prevalecer entre chefes de Estado é absolutamente indispensável, visto que vai muito para além das relações pessoais. É necessário não colocar em causa o cerimonial protocolar em todas as ocasiões. Representar o Estado não tem equivalência à representação individual. Mesmo perante as maiores adversidades, os compromissos de Estado devem ser respeitados. Só assim se compreende que o rei Manuel II, no dia 3 de Outubro de 1910, tenha recebido, com elevada pompa, Hermes da Fonseca, Presidente eleito do Brasil. A poucas horas do fim da Monarquia, Manuel II homenageou o visitante do Brasil com um banquete de gala no Palácio Real. Faltavam poucas horas para o rei fugir pela praia da Ericeira e para Relvas ir à varanda da Câmara de Lisboa proclamar a República. Mesmo no meio do imenso rebuliço provocado pela Revolução que mudou, para sempre, o regime, as relações ente Portugal e Brasil foram inteiramente protegidas. Um exemplo que foi ignorado em 2023. Lamentável.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 8 janeiro 2025

Recentemente, reli dois magníficos livros que estavam, desde há muito, guardados na estante. Tinham sido comprados por minha Mãe para a biblioteca que organizei em jovem. Refiro-me à “História da Eletricidade Estática” (1954) e à “História do Átomo” (1955), ambos escritos por Rómulo de Carvalho e publicados pela Atlântida, no âmbito da coleção ciência para gente nova.

Foi uma boa ideia que tive para gozar os dias festivos que agora terminaram. Gostei de refrescar a memória relacionada com os alicerces do conhecimento científico daquelas áreas básicas. Prazer tanto maior porque conheci de perto Rómulo de Carvalho (1906-1997). Foi uma personalidade ímpar da Cultura. Professor eminente. Escritor. Poeta. Assinava os textos científicos com o seu nome e os outros como António Gedeão. Na altura, muitas pessoas, certamente, não associavam o poeta que fabricou a “Pedra Filosofal” ao professor de química.

Rómulo e António Gedeão eram muito considerados, o primeiro como pedagogo e o segundo como poeta.

A dedicação de Rómulo de Carvalho ao ensino marcou muitas gerações de alunos, tendo contribuído para elevar a imagem de qualidade adquirida, então, pelo Liceu Pedro Nunes, mesmo para além da sua aposentação.

Morreu aos 90 anos, a 19 de Fevereiro de 1997. No dia seguinte, estive presente nas cerimónias fúnebres que tiveram lugar na Basílica da Estrela. Em última despedida, participei, no meio de imensa multidão, no cortejo a pé que faria uma paragem simbólica na Avenida Álvares Cabral, mesmo em frente ao Liceu. Alunos, colegas e funcionários públicos acenaram com visível comoção. Tributo público genuíno apenas reservado aos nossos melhores.

Rómulo residia em Campo de Ourique, na Rua Sampaio Bruno, à distância de 15 minutos do Liceu, em andamento normal. Via-o muitas vezes. Ao sair de sua casa dobrava a esquina para a Rua Coelho da Rocha que percorria sem parar. Passava em frente da casa onde vivera Fernando Pessoa e logo depois alcançava o Pedro Nunes, rebordando o muro do Cemitério Inglês.

Ensinava muito. Não só os alunos que frequentavam as aulas, mas também através da prosa que escrevia ao alcance de todos. Um exemplo.

Rómulo e Natália Nunes, juntamente com a filha Cristina, moravam no 3º direito do número 18 da Rua Sampaio Bruno. Era uma casa típica da classe média de Lisboa que algumas vezes frequentei. Lembro-me de espreitar com curiosidade a sala, virada para as traseiras, onde Rómulo escrevia, especialmente depois do jantar. Ao contrário de Natália Nunes, mais divertida, Rómulo não comunicava com os jovens que visitavam Cristina. A sua presença impunha um certo temor reverencial (aborrecimento que seria gerado pela minha mente, claro).

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 1 janeiro 2025

Hoje, 1 de Janeiro, para além de ser o primeiro dos próximos 365 dias, marca o Novo Ano de 2025. Por isso, constitui uma oportunidade, simbólica, para tomar decisões e mobilizar as próprias energias endógenas.

Naturalmente, surge um redobrado ânimo para introduzir acertos comportamentais. Todas as pessoas desejam viver mais anos e melhor. Identificam expectativas e necessidades para modificar estilos de vida no sentido positivo. Sempre assim acontece.

Começo, então, por propor uma reflexão sobre temas principais associados à saúde individual, familiar e coletiva, uma vez que viver mais tempo e com mais qualidade está ao nosso alcance.

Preciso.

1. Para quem tem o hábito de fumar tabaco, o Primeiro de Janeiro representa uma excelente ocasião para tomar a decisão sensata. Claro que para tal precisa de força de vontade e, muitas vezes, do apoio de uma consulta especializada em cessação tabágica. Mas, o certo é que ao conseguir vai melhorar a própria saúde, prolongar o tempo de viver e, ao mesmo tempo, aumentar os rendimentos pela poupança correspondente ao preço do tabaco. A este propósito, relembro que foi o médico inglês Sir Richard Doll (1912-2005) que demonstrou, cientificamente, a relação causa-efeito entre o tabagismo e cancro do pulmão (e de outras doenças crónicas). Sir Richard costumava afirmar: “quem gosta de viver não deverá fumar porque o tabagismo encurta dez anos a vida do fumador” (as investigações de Richard Doll estão acessíveis pelo Google).

2. Combater o sedentarismo e fazer exercício físico regular é essencial para conservar a saúde. O famoso médico português Fernando de Pádua (1927-2022) dizia que “andar 30 minutos a pé depois das refeições ou de bicicleta ou dançar eram boas práticas indispensáveis”.

3. É tempo para observar os princípios da alimentação equilibrada, especialmente evitar o excesso de calorias, gorduras de origem animal, de açúcares, de sal e de álcool. O antigo Diretor-Geral da Saúde, Arnaldo Sampaio (1908-1984) insistia, com inteira razão, que “como sobremesa é imprescindível comer fruta fresca da época e não bolos nem doces”.

4. Na primavera e no verão de 2025 há que passar a ter em conta as recomendações da Direção-Geral da Saúde referentes à proteção dos raios solares: uso de chapéu de abas largas, óculos escuros, T-shirt, evitar a exposição ao Sol, na praia ou no campo, entre as 12 e as 16 horas. Perante o aparecimento de alterações nos sinais da pele do corpo é necessário procurar o médico de família.

Conclusão: em 2025, irei escrever as crónicas habituais de quarta-feira, mas com matérias diferentes, focadas em múltiplos temas de interesse geral, incluindo de índole social ou política.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 25 dezembro 2024

Reconheçamos que os festejos de Natal vão muito para além das celebrações promovidas por cristãos.

Em casa de meus pais, na Rua Coelho da Rocha, a Campo de Ourique, a tradição dos presentes que desciam pela chaminé durante a noite de 24 de Dezembro constituía uma excitação para todos nós.

Meu Pai era médico, especialista em Medicina Interna, no Hospital de Santa Marta. Levava muito a sério o desempenho da sua atividade clínica naquele hospital público. Gostava do ambiente, apesar da pobreza das instalações. Comemorava, exuberantemente, os sucessos terapêuticos conseguidos em certos doentes. Apreciava a carreira que tivera que percorrer, incluindo os sucessivos exames. Primeiro como candidato e mais tarde como membro do júri. O entusiasmo em torno desses concursos era tal que se refletia nas conversas familiares à mesa do jantar. Vibrava com tudo o que dizia respeito aos Hospitais Civis de Lisboa.

Se a remuneração que meu Pai então recebia do Estado, correspondente aos serviços clínicos que prestava no hospital, fosse suficiente, estou certo que não teria tido necessidade de exercer clínica em regime privado. Mas, a absoluta necessidade em aumentar os rendimentos familiares levou-o a organizar a sua clínica para atender doentes fora do “seu” hospital.

Vem este relato a propósito das minhas memórias da época do Natal, vividas lá em casa nos anos 50. Os presentes oferecidos pelos doentes, nas vésperas do Dia 25, eram tantos que acabariam por alterar a tranquilidade da rotina diária e, por isso, de marcar as festas. A campainha da porta não parava de tocar. Chegavam a casa as mais diferentes oferendas, mas as predominantes eram caixotes de madeira com garrafas de vinho, semeadas em palha protetora, convenientemente assinalados no exterior com a marca ou casta respetiva; e perus vivos que, muitas vezes, alcançavam a vintena. Perante esta aglomeração, os inconfundíveis glu glu geravam imenso ruído. Perturbação que Minha Mãe procurava resolver ao apressar a hora da decapitação de todos os perus, mas só depois de, à força, beberem água-ardente através de um funil metido pela goela (maldades então consentidas e hoje intoleráveis). Um deles seguia diretamente para o forno e os outros, devidamente despenados e preparados, eram distribuídos pelos amigos.

Conclusão: O filho que fosse, pela calada da noite, espreitar os presentes na chaminé da cozinha seria, inevitavelmente, assustado pela agitação dos perus de patas atadas que se encontravam na marquise contígua. Um castigo pela inusitada indiscrição.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal L

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 18 dezembro 2024

Uma vez que estamos próximos do Natal componho alguns apontamentos sobre o açúcar & açucarados, visto que são mais consumidos durante os dias que se avizinham. Veremos que os excessos representam riscos que devem ser evitados e que impõem prevenção. É uma questão de requinte, sublinho.

Começo por contar uma historieta que testemunhei há muito tempo. Minha Mãe, no Verão de 1954, arrendou uma casa rústica no Monte da Caparica, a fim de levar os filhos a respirarem iodo na praia. Ao lado da “nossa” casa morava a Senhora Maria que acabara de ter uma criança chamada Laura. Ora, quando a Laura chorava a Maria corria para silenciar a filha com a chucha envolvida em açúcar. Era uma rotina que se repetia dia e noite e que gerava um confortável silêncio, aliás muito apreciado por todos nós. Muitos anos depois, em 2014, Laura adoeceu gravemente, tendo sido admitida no Serviço de Urgência do Hospital Garcia de Orta com o diagnóstico de coma diabético. Tinha 60 anos e era obesa. Claro que Maria, naquele verão de 1954, ignorava que o açúcar na chucha iria colocar em risco a saúde da filha.

Precisemos.

Os açucares são hidratos de carbono que fornecem energia indispensável à vida através da penetração do açúcar que está no sangue (glicémia) nas células do corpo humano. Para tal, é necessária a presença de insulina. Mas, quanto maior for a ingestão de açúcar mais irá para o sangue e tanto maior será a produção de insulina e o risco de resistência à sua ação. Perante esta falha da insulina o açúcar não penetra nas células e, em consequência, aumenta no sangue (hiperglicémia): é a diabetes tipo 2.

Os hidratos de carbono estão presentes nos cereais, leguminosas, frutas, leite e derivados, bolos, doces e bebidas açucaradas (refrigerantes).

O açúcar refinado, utilizado nas cozinhas para preparação de sobremesas e, também, servido juntamente com o café, é a sacarose que é obtida a partir da cana-de-açúcar. A respetiva fórmula química é C12 H22 O11.

Como se sabe, a imensa maioria da sacarose consumida atualmente, é importada, uma vez que as plantações de cana sacarina na Madeira são, agora, diminutas, ao contrário do que acontecia no passado.

Conclusão lógica: a fórmula química da sacarose com a sequência de carbono, hidrogénio e oxigénio faz entender a designação de hidratos de carbono.

Conclusão médica: o açúcar pode ser considerado quase um “veneno” quando consumido em excesso.

Conclusão económica: É grande a quantidade desperdiçada nos pacotes servidos em cafetarias e restaurantes que, por não serem consumidos pelos clientes, vão para o lixo. Como o açúcar é importado, faria sentido precaver o seu  desperdício, servindo-o apenas a quem solicitar.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com