Opinião Pessoal XLVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 27 novembro 2024

Ainda sobre os desafios principais para a Saúde Pública que, pela certa, enfrentaremos no futuro, retomo, hoje, o tópico da prevenção focada nas vacinas destinadas a prolongar a nossa própria vida, mas, simultaneamente, assegurar mais energia e mais saúde. Por outras palavras, realço as ações que visam não sé retardar o fim da vida, como, também, reduzir a probabilidade de surgirem doenças e incapacidades evitáveis.

É um assunto que está a ser alvo de debates entre médicos e cientistas, incluindo em Portugal. Ainda recentemente (novembro, 2024), em duas reuniões magnas, ambas ocorridas em Lisboa, este tema foi amplamente discutido. Refiro-me ao 40º Congresso de Pneumologia (que juntou 800 especialistas) e à Conferência da Associação Europeia de Saúde Pública (EUPHA) que congregou 3000 participantes.

Durante as sessões científicas que aí tiveram lugar, os congressistas identificaram como ameaça preocupante uma preocupante Tríade composta pela Gripe, pela Covid-19 e pelas Infeções provocadas pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR). Na ocasião, todos reconheceram a oportunidade em implementar programas preventivos com recurso às vacinas comprovadamente eficazes e seguras que estão disponíveis no mercado em Portugal. Sublinharam que para os adultos acima dos 65 anos de idade a nova vacina de alta dose contra a Gripe está indicada sobretudo para que tem fatores de risco (doenças crónicas, em particular). Para a Covid-19, a vigilância laboratorial genómica é essencial para reconhecer mutações e, em consequência, adaptar, se necessário, as vacinas a eventuais novas variantes. Para as infeções pelo VSR recomendam a vacina quer destinada a adultos quer uma outra indicada para grávidas, na perspetiva de proteger as crianças das bronquiolites.

Há, igualmente, outras vacinas para prevenir infeções respiratórias de origem bacteriana (como as provocadas por pneumococos) e o herpes zoster (Zona).

Como tenho insistido, é o Estado que tem a responsabilidade em garantir a equidade para que as pessoas tenham acesso às medidas preventivas, independentemente dos respetivos rendimentos familiares.

Realço que os investimentos necessários à aquisição de vacinas são, logo, compensados por menos mortes, menos doenças, menos incapacidade para o trabalho, menos dias de hospitalização, menos admissões em cuidados intensivos, menos tratamentos. Ganham as pessoas e o Estado

Conclusões:

Mais longevidade e menor carga de doença estão ao nosso alcance, à distância de observarmos quatro conselhos (como resumiu a pneumologista Paula Pinto):

1. Vacinar adultos;

2. Manter alimentação equilibrada com menos sal e menos açúcar;

3. Promover o exercício físico;

4. Dormir bem.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XLVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 20 novembro 2024

Os dez desafios enumerados no artigo anterior, não incluem aquele que é, muito certamente, o maior, uma vez que é transversal a todos os riscos que iremos defrontar no futuro. Refiro-me à pobreza que teima em persistir e até, em muitas situações a agravar-se.

Este problema da pobreza e da relação que apresenta com a doença tem sido demonstrada e descrita, cientificamente, a partir de meados do século XIX. Foram muitas as investigações exatas que clarificaram essa associação. A principal foi do médico alemão Rudolf Virchow (1821-1902) que, no seguimento do pedido do Governo, foi enviado à região da Alta Salésia (atualmente território polaco) a fim de estudar a forma de controlar a epidemia de tifo que se propagava de forma preocupante entre os mineiros de carvão. Depois de ter diagnosticado a doença e a forma como se transmitia, elaborou um relatório com propostas concretas. Para surpresa de governantes e patrões, a mais importante das medidas que Rudolf Virchow apresentou era simples: aumento imediato dos salários!

Virchow logo percebeu que miséria das condições de vida e a falta de higiene eram consequência da pobreza e das condições de exploração impostas aos mineiros. Concluiu que sem rendimentos familiares não era possível assegurar higiene familiar. Ora, o tifo é transmitido por piolhos…

Desde as investigações conduzidas por Virchow e do célebre relatório que apresentou em 1847, foi o próprio patronato que compreendeu essa relação entre pobreza e doença. Por outras palavras, pagando mais, os mineiros teriam mais saúde e, portanto, estariam aptos para produzirem a extração de carvão com normalidade sem interrupções por doenças evitáveis.

Conclusão social: Os rendimentos familiares dos trabalhadores, mesmo em situação de incapacidade, desemprego ou de velhice, têm que ser assegurados em nome de princípios de Justiça Social.

Conclusão moral: a pobreza não pode ser politicamente aceitável. Em Portugal, depois dos 50 anos da Proclamação da Liberdade, o regime não é, ainda, inteiramente democrático, atendendo à existência de um largo fosso social (gap) que impede o acesso igualitário à saúde e à prevenção das doenças, incluindo no que respeita ao acesso a certas vacinas que evitam infeções e as suas complicações graves. Reparemos a diferença entre dois adultos, ambos com 65 anos de idade, os dois diabéticos, mas um é rico e o outro pobre. O primeiro, compra, sem dificuldade, a nova vacina de alta dose contra a gripe e a vacina contra o herpes zoster, mas o segundo, não tem meios para as comprar. Um fica protegido e o outro desprotegido (portanto, com maior probabilidade de adoecer por doença evitável).

Inaceitável!

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XLV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 13 novembro 2024

Terminada, por agora, a série sobre a gestão da água destinada a consumo humano, começo, hoje, um conjunto de artigos dedicados a assuntos relacionados com a identificação dos principais riscos que representam ameaças para a Saúde Pública, tanto a nível nacional como global.

Acompanho de perto as políticas definidas no âmbito da Organização Mundial da Saúde (OMS), desde há 50 anos, quer como consultor e funcionário quer, a seguir, por ter sido um dos representantes de Portugal junto dos seus órgãos, entre 2001 e 2017. Estou, assim, em condições de olhar para trás, ao estilo de relance pessoal, a fim de testemunhar e interpretar a evolução de sucessivos desafios que constituíram justificados motivos de alerta internacional.

Nos anos 70 do nosso grande século XX, a OMS centrava a atenção em questões associadas aos programas materno-infantis e ao planeamento familiar, ao mesmo tempo que propunha a erradicação do paludismo e a promoção da organização dos sistemas de cuidados primários, sem ignorar a importância decisiva do desenvolvimento socioeconómico, incluindo o saneamento básico (água, esgotos e lixo). Na década seguinte, surgiu, inesperadamente, a primeira pandemia depois da Pneumónica de 1918. Refiro-me ao VIH/SIDA. Preocupação imensa que impôs a mobilização adicional de recursos.

Mais recentemente, a seguir à viragem do Millennium, a gripe aviária, a SARS, a gripe A, Ébola e COVID-19, convocaram muitas energias e meios na perspetiva da prevenção e controlo de novas epidemias emergentes. A partir de então, reconheceu-se, finalmente, a importância que as infraestruturas de Saúde Pública constituem, em termos de segurança nacional e mundial, apoiadas pela imparável inovação nas dimensões científicas e tecnológicas (nomeadamente traduzidas em novos medicamentos antivirais e vacinas).

Agora, a OMS aponta dez tópicos como desafios (riscos iminentes) que exigem medidas preventivas imediatas:

1. Efeitos provocados pela aceleração das alterações climáticas e da poluição ambiental (fenómenos climáticos extremos);

2. Doenças crónicas como a obesidade, a diabetes tipo 2, o cancro, as doenças cérebrocardiovasculares e doenças respiratórias;

3. Pandemia de gripe;

4. Fragilidade e vulnerabilidade das localidades habitacionais e de alojamento;

5. Infeções provocadas por agentes patogénicos resistentes a antimicrobianos;

6. Epidemias de Ébola ou por outos agentes virais emergentes de natureza zoonótica;

7. Debilidade dos sistemas de saúde, particularmente de cuidados primários;

8. Hesitação vacinal em crianças ou em adultos;

9. Dengue e outras epidemias devidas a infeções de transmissão vetorial como o Zika, Chikungunya e outas;

10. VIH/SIDA.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XLIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 6 novembro 2024

Regresso ao tema da água para consumo humano. Proponho dois apontamentos: um olhar para trás e outro para diante.

Primeiro, para trás.

No século XVIII, perante o crescimento progressivo de Lisboa era necessário aumentar o abastecimento de água. Constituía um problema porque os elevados teores de poluição e salinidade do Tejo (devido às marés do Atlântico), tornavam impossível a utilização de água fluvial. Exigiam-se outras soluções para superar a escassez de água. Havia , por isso, que procurar alternativas para levar água aos bairros da cidade. Surgiu, então, a ideia de um aqueduto. Foi isso mesmo que aconteceu. Em 1748, no final do reinado de João V de Bragança, terminaram os complexos trabalhos de construção do grande sistema que começava por captar água na nascente das Águas Livres, em Belas (também chamada ribeira de Carenque) para a conduzir, por gravidade, até à capital. Obra excelente, o Aqueduto, erguido em blocos de cantaria que formatam sucessivos arcos, ficou intacto depois do Terramoto de 1755. Um orgulho para os seus arquitetos e engenheiros!

Mesmo assim, as acesas discussões pelo acesso à água não pararam. Nesse tempo, eram comuns processos para arbitrar direitos de serventia em disputa. Em 1778, também o próprio Marquês de Pombal foi denunciado pelo “Coxo das Águas Livres” como tendo desviado abusivamente, em proveito próprio, as águas de dois chafarizes públicos: às Janelas Verdes e à Rua Formosa (atual Rua do Século). Processo que interpreta a desgraça que viveu após a morte do Rei José de Bragança (1777).

Olhemos o futuro.

Antes de mais, há que reconhecer, de forma positiva, a crescente tomada de consciência da população para as questões ambientais, particularmente sobre a reivindicação da garantia da qualidade da água.

Em termos de sustentabilidade, há desafios que, pela certa, teremos daqui em diante, relacionados com a quantidade e com a qualidade da água destinada a consumo das populações. As múltiplas dimensões da sua utilização poderão estar em risco: redes prediais, agricultura (rega e agropecuária), indústria, produção de energia elétrica (barragens), atividades desportivas aquáticas, lazer e turismo. Representam desafios que não podem ser ignorados, atendendo ao contexto dos efeitos previsíveis que decorrem das alterações climáticas (aquecimento global) associadas à poluição dos recursos hídricos, nomeadamente por microplásticos.

Conclusão: É crucial gerir a água na perspetiva de a poupar e de não desbaratar um só litro.

O binómio não desperdiçar & armazenar continuará a ser cada vez mais importante para todos nós e, sobretudo, para as gerações seguintes.

É uma questão de responsabilidade e de inteligência.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XLIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 30 outubro 2024

Regresso, hoje, aos testemunhos pessoais sobre as primeiras epidemias de cólera que vivi já como médico.

As descrições das ações que desenvolvi, entre 1976-1977, sob a orientação de António Lobato Faria (1933-2001), engenheiro sanitário da Direção-Geral da Saúde, são, agora, praticamente inacreditáveis. Ao olhar para trás, há certas iniciativas que parecem episódios quase medievais.

Ver-se-á que Portugal rural, na época, era outro.

A seguir, descrevo a cena (verídica, incluindo os nomes dos protagonistas) passada em dia solarengo de Outono, de 1976, às 9 horas, no Centro de Saúde do concelho de Cuba, no Baixo Alentejo.

Amílcar, recém-regressado de Angola (com o estatuto de Retornado), apresenta-se ao Delegado de Saúde para iniciar funções de agente sanitário, a nível municipal. Nessa manhã, ele acabara de fazer a estrada Beja-Cuba a guiar uma motoreta de 50 CC de marca Zundapp que no guarda lama traseiro ostentava um dístico oval, sinalizando ser propriedade do Estado.

Amílcar tinha recebido instruções e uma rápida formação facultada pelo Senhor Marques que, então, desempenhava funções de coordenador distrital dos agentes sanitários de Beja. Era um homem que aparentava ter menos de 40 anos de idade, magro, muito delicado, afável e humilde.

Recomendei que começasse por se instalar e que, para tal, pedisse apoio à Dona Augusta (secretária administrativa), para negociar um bom preço mensal de um quarto na Pensão do Jacinto.

Pouco tempo depois, voltou ao meu Gabinete para, assim, propor o seu trabalho:

– Senhor Doutor, tenho ordens para começar pela desinfeção dos poços que abastecem as localidades mais afastadas, porque estamos ameaçados pelo risco de cólera e não podemos perder tempo, exclamou em tom cordato.

Respondi-lhe, com voz igualmente amável:

– Meu caro Senhor Amílcar, concordo inteiramente, mas repare que aqui quem dá ordens somos nós na Cuba e não o pessoal de Beja!

– Muito bem, Senhor Doutor.

– Olhe, comecemos por ir à sala onde estão afixados na parede os mapas do concelho à escala militar.

Já junto às cartas geográficas, Amílcar concluiu que a pequena aldeia de Albergaria dos Fusos seria visitada no dia seguinte, na perspetiva de pôr um pote difusor de cloro mergulhado no poço.

Assim sucedeu.

Todavia, uma vez colocado no fundo do poço o pote de barro cheio com cloreto das lavadeiras, o sabor da água deixou de ter a frescura habitual para passar a possuir o paladar próprio do desinfetante. Desde então, Amílcar insistia em explicar aos moradores que “o bom sabor é mau e que o mau sabor é bom” …

A seguir à lengalenga que apregoava com zelo, explicava os riscos do consumo da água sem ser previamente desinfetada.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XLII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 23 outubro 2024

Retomo, hoje, o tema dos problemas relacionados com o abastecimento de água para consumo humano.

Trago aqui testemunhos pessoais que vivi no início da minha carreira, primeiro como interno no Hospital Curry Cabral e depois como delegado de saúde colocado no distrito de Beja.

Recuemos a 1974. Ao mesmo tempo que o Movimento das Forças Armadas nomeava os sucessivos seis governos provisórios, ocorriam epidemias de cólera em Lisboa e no Porto. Sublinho, cólera na capital do “Império” como resultado da herança recebida do Estado Novo que foi marcada pela precariedade de infraestruturas de saneamento.

O então Diretor-Geral da Saúde, Arnaldo Sampaio (1908-1984), esteve na linha da frente da luta contra a epidemia. Na altura, pela primeira vez, os meios de comunicação social (RTP, em particular) foram chamados para divulgarem as recomendações do Diretor-Geral da Saúde, na perspetiva de serem observadas pelas populações, no sentido de participarem na implementação de medidas de prevenção e controlo. Naturalmente, foram os bairros mais pobres da periferia de Lisboa os mais afetados pela epidemia. Sampaio confirmou que a cólera era provocada pelo vibrião El Tor do serotipo Inaba, que circulava, como endémico, em Angola. Era, portanto, uma epidemia importada.

Ora, como se sabe, a bactéria da cólera é eliminada pelas fezes dos doentes, sendo transmitida por via hídrica. Isto é, uma pessoa adquire a doença ao beber água contaminada com o vibrião colérico!

No total, foram registados mais de 2500 casos (incluindo dezenas de óbitos).

Como médico interno dos Hospitais Civis de Lisboa, participei diretamente no atendimento a doentes suspeitos que eram encaminhados para uma consulta especialmente dedicada a esses doentes que tinha sido instalada para o efeito no Hospital Curry Cabral. Apesar da imensa pressão que o volume de doentes originava, as consultas decorriam sem problemas. Todos eram consultados sem espera. Eu, como médico de plantão a esse serviço, começava por entrevistar o doente sobre o quadro clínico e a seguir observava se exisistiam sinais de desidratação. Invariavelmente, media a pressão arterial, antes da fase de aconselhamento e da prescrição. Quase sempre receitava sais de reidratação e tetraciclina, para além de insistir na desinfeção da água pela fervura ou pela adição de gotas de solução de hipoclorito (distribuído gratuitamente). A situação de debilidade das condições de abastecimento de água e de sistemas de esgotos, representava, para mim, um sentimento de revolta. Como era possível uma pessoa beber água contaminada com fezes de doentes?

Julgo que esse tempo viria a explicar o meu interesse futuro pela Saúde Pública.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XLI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 16 outubro 2024

Todos os especialistas em Saúde Pública são unânimes ao reconhecer que o aumento progressivo da esperança de vida à nascença, verificado a partir do segundo quartel do século XX, tem duas grandes explicações:

1. A desinfeção da água de abastecimento para consumo humano;

2. O desenvolvimento de programas de vacinação.

Ora, como as vacinas, com frequência, têm atenção por parte dos órgãos de comunicação social, para além de abundantes campanhas de marketing (como as que visam promover a vacinação contra a gripe e covid-19), decidi, hoje, dar mais ênfase à importância da potabilidade da água para a saúde das populações, na perspetiva preventiva.

Começo por recordar que a água captada em poços, nos rios ou em lagos, só começou a ser filtrada e desinfetada há relativamente pouco tempo. Neste processo, Portugal atrasou-se antes de 1974. A situação era triste. Imagine-se que, segundo dados oficiais da época, em 1970, apenas 40% das habitações eram abastecidas de água ao domicílio e destas, somente 25% tinham boas condições. Uma vergonha indesculpável, até porque já se sabia que a água não desinfetada transmitia aos consumidores numerosas doenças, tanto de natureza bacteriana, como viral ou parasitária: gastroenterites agudas, diarreias, cólera, disenteria, hepatite A, infeções por rotavírus e adenovírus, etc, etc.

Vamos à História:

A transmissão da cólera pela água foi demonstrada pelo médico inglês John Snow (1813-1858), durante as devastadoras epidemias, então ocorridas, em Londres (1855). Neste âmbito, Snow escreveu o célebre artigo com as suas observações e conclusões intitulado: On the Mode  Communication of Cholera.

Porém, 100 anos antes, o médico português, Duarte Lopes, que exercia em Buarcos (Coimbra), controlou uma grave epidemia, ali verificada, com origem em fonte contaminada que mandou encerrar para, logo depois, ter terminado a epidemia. Ribeiro Sanches (1699-1783) enalteceu a ação de Duarte Lopes no Tratado que editou em Paris (1756).

Foi preciso esperar pela aurora do século XX para ter sido introduzido o cloro na água para abastecimento público (1902). A partir de 1905, desenvolveu-se o método da cloragem contínua dos sistemas de aprovisionamento de água através do hipoclorito de sódio (lixívia).

Testemunho pessoal:

Iniciei a minha carreira de delgado de saúde, em 1977, no distrito de Beja. Como, na altura, a maioria das povoações ainda não dispunha de abastecimento de água, era preciso desinfetar a água dos poços. Para tal, usávamos potes de barro com cloreto das lavadeiras que eram mergulhados no fundo do poço por uma corda, na ideia do cloro sair pelos poros do barro (método da DGS,  proposto por Lobato Faria).

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XL

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 9 outubro 2024

Comemorámos, há poucos dias, duas datas importantes para todos nós, se bem que uma e outra tenham significados diferentes. Ambas representam, para mim, um entusiasmo interior de emoções agradáveis, mas difíceis de explicitar.

Por ordem cronológica, referir-me-ei a 4 de Outubro de 1899 e ao 5 de Outubro de 1910. A primeira data, corresponde à criação da Direção-Geral da Saúde (DGS), há 125 anos e a segunda, à proclamação da República há 114 anos.

1. Sobre a DGS, realço que a sua institucionalização está associada à Peste do Porto que foi identificada por Ricardo Jorge (1858-1939) no Verão de 1899. Ricardo Jorge desempenhava, então, funções de delegado de saúde a nível municipal. O Governo do rei Carlos de Bragança temeu o pior cenário. Os seus conselheiros admitiam como possível a propagação da peste bubónica a todas as províncias do Reino. As notícias chegadas a Lisboa eram inquietantes. Cada vez mais agravadas por descrições de terror das antigas epidemias medievais de peste negra que alguns insistiam em relembrar. Na tentativa de ganhar tempo, a cidade do Porto foi isolada por um cordão sanitário, erguido a partir do dia 24 de agosto. Os soldados dos batalhões de Infantaria e Cavalaria, mobilizados para o efeito, impediam a entrada e saída de pessoas. A célebre cerca sanitária incluía, igualmente, a navegação e a pesca. A burguesia portuense (comerciantes), perante a progressiva redução dos respetivos negócios, forçou a saída de Ricardo Jorge do Porto. Ainda antes da Epidemia acabar, o Governo criou a DGS e nomeou João Ferraz de Macedo (1838-1907) como Diretor-Geral. Terá para tal, tido a colaboração de Ricardo Jorge.  Ferraz de Macedo era um eminente professor da Escola Médico Cirúrgica de Lisboa.

Mais tarde, por proposta de António José de Almeida, em 1911, Ricardo Jorge foi nomeado Diretor-Geral. Viria a reformar a Saúde Pública e a liderar o controlo da Pandemia de 1918 que designou de “Pneumónica”.

2. A segunda comemoração destinou-se a assinalar a implantação da República a 5 de Outubro de 1910. No plano pessoal, não poderei esquecer a forma como este dia era festejado em casa de meu Avô materno. Ele mesmo, contava-nos, com satisfação, que na madrugada do dia 4 de Outubro, apresentou-se, como voluntário, no Centro Escolar Democrático à Rua de Campo de Ourique, nº 93, para integrar o corpo de civis revolucionários.

Machado dos Santos, em tom de comando, dirige-se junto de meu Avô e diz-lhe:

– Ó Gil levas esta espingarda, vais à Rotunda e juntas-te à brigada que irá guardar a Casa da Moeda!

– Ó Comissário, eu nunca peguei em espingardas!

– Ó Gil, não faz mal, pões a espingarda ao ombro e andas para trás e para diante.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XXXIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 2 outubro 2024

Volto, hoje, mais uma vez, a escrever sobre a gripe, visto que é a mais importante e, inexplicavelmente, a menos temida das doenças infeciosas.

Muitos dos leitores poderão ignorar que a gripe é uma doença comum a animais e a seres humanos, motivo pelo qual é designada de zoonose. Sem qualquer dúvida, a gripe é a mais frequente e, simultaneamente, a mais grave das infeções humanas com origem zoonótica.

Sabe-se, com comprovação científica inquestionável, que os vírus da gripe são mantidos na natureza em aves silvestres migratórias, como os patos selvagens, que armazenam e transportam os vírus ao percorrerem rotas imensas, intercontinentais. Enquanto reservatório, as aves estão aparentemente saudáveis, apesar de eliminarem os vírus pelas fezes. Todavia, acontece que esses vírus podem, também, provocar doença em aves (gripe aviária). Quem não se lembra da célebre crise da gripe das galinhas de 1997, em Hong Kong e depois na China?

Nesta situação, as aves são hospedeiros dos vírus e, por isso, constituem um problema de Saúde Pública pela possibilidade de transmitirem a gripe entre várias espécies, incluindo a pessoas. Os vírus “saltam” sem barreiras de uma espécie para outras, dando origem à formação de cadeias de transmissão. Mas, sublinho que, para além de seres humanos, são muitos os animais pertencentes a diferentes classes e ordens que   podem adquirir a gripe: aves de capoeira, porcos, furões, morcegos, cavalos e até tigres como sucedeu, em 2004, quando os tigres de um jardim zoológico de Banguecoque foram alimentados com carcaças de galinhas provenientes de um foco de gripe aviária.

Ora, esta capacidade de a gripe poder incidir em tantas espécies diferentes, impossibilita, como se compreende, a sua eliminação (erradicação). Isto é, no futuro, pela certa, os habitantes do Planeta continuarão a ser confrontados com epidemias sazonais, alternadamente nos dois hemisférios, visto que o vírus da gripe dá a volta ao mundo em 180 dias à procura das estações do ano com climas frios.  Nestes termos, vamos ter, entre nós, a habitual pressão exercida no Serviço Nacional de Saúde devida à próxima época gripal. Protejamo-nos para tal, desde o final do Outono até ao começo da Primavera de 2025, tendo em atenção que os vírus desta estação serão diferentes da época anterior, visto que, entretanto, ocorreram múltiplas mutações.

Conclusão lógica: os vírus da gripe são mais camaleões do que os próprios camaleões porque além da “cor da pele” também mudam a composição genética.

Conclusão oficial: Uma vez que não há Inverno sem gripe e que este ano não será exceção, é preciso atender ao apelo da nossa Direção-Geral da Saúde: “Vá lá vacinar-se”.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XXXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 25 setembro 2024

Em Agosto, nos habituais alfarrabistas de fim-de-semana da feira de Colares, comprei um exemplar das “Crónicas de Fernão Lopes”, da Portugália Editora. Ao ter topado esta edição na banca, no meio de dezenas de outros livros usados, logo decidi pela compra. Ainda por cima, a prosa original de Fernão Lopes estava transposta para português moderno pelo historiador António José Saraiva (1917-1993) que assina, também, a introdução. Aliás, este texto introdutório, só por si, é imperdível, sublinho.

Fernão Lopes (1385-1460) foi Guarda-Mor da Torre do Tombo e por decisão de Dom Duarte acumulou este cargo com o de Cronista-Mor do Reino com a incumbência de escrever a história dos reis de Portugal.

Ora, vou relatar, de forma resumida, um dos episódios aí descritos por Fernão Lopes que foi passado no reinado de Dom Pedro (1320-1367) e que certifica a fama de justiceiro cruel e de déspota do nosso oitavo rei.

Centremo-nos na Idade Média e atentemos no rigor da sentença aplicada por iniciativa própria do rei, tal como é descrita no texto de Fernão Lopes:

“Como El-Rei mandou capar um seu escudeiro porque dormia com uma mulher casada”:  Dom Pedro, ao saber que o seu escudeiro Afonso Madeira seduziu Catarina  que era uma mulher “briosa, louçã, e muito elegante, de graciosas prendas e de boa sociedade”, mas que era casada com o corregedor Lourenço Gonçalves da corte do rei “mandou-o tomar na sua câmara e corta-lhe aqueles membros que os homens em maior apreço têm. Afonso Madeira foi pensado e curou-se, mas engrossou nas pernas e no corpo e viveu alguns anos com o rosto engelhado e sem barba. Morreu depois, de sua morte natural”.

Conclusão médica: a pena de castração aplicada pelo rei Dom Pedro a Afonso teve como consequência impedir a secreção fisiológica de testosterona que é a hormona masculina produzida pelas células de Leydig dos testículos. A descoberta da testosterona foi possível apenas em 1935. Como se sabe é a hormona responsável pelas características masculinas, incluindo o crescimento dos pelos e da barba. Compreende-se, assim, que o “pobre” do Afonso Madeira tenha perdido a barba.

Conclusão civilizacional: a crueldade do castigo imposto pelo rei Dom Pedro ao seu escudeiro Afonso Madeira fez-me lembrar, por associação de ideias, o atraso civilizacional que representaria a aprovação de penas semelhantes para determinados crimes de natureza sexual, ainda hoje defendidas por alguns políticos retrógrados. Por isso, é importante salientar que Fernão Lopes relata este episódio que aconteceu há mais de 660 anos, na Idade Média, portanto.

Conclusão moral: Pedro I, casado Constança, foi amante de Inês de Castro e de outras mais.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com