Opinião Pessoal CI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
7 janeiro 2026

SOBRE BISSAU TROPICAL NOS ANOS 80

Uma vez Presidente, a partir de 14 de novembro de 1980, Nino Viera depressa conseguiu a separação da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Com etnias, culturas e religiões distintas, os povos dos dois países apenas admitiam identidades partilhadas através da figura de Amílcar Cabral, o fundador do partido comum: PAIGC.

O país estava confrontado com a pobreza extrema da população, a par da fragilidade das infraestruturas em todos os setores. Ora, no seguimento da Independência da Guiné-Bissau, a saída das Forças Armadas Portuguesas demonstrou a imensa exiguidade de recursos essenciais em todas as áreas, incluindo da organização do Estado, já que, no tempo colonial, quase toda a Administração Pública dependia do apoio dos militares.

Ao contrário do que aconteceu em outras colónias, os investimentos portugueses tinham sido insignificantes em todos os domínios. Só por meio de doações e empréstimos (Banco Mundial) provenientes da cooperação (bilateral e multilateral) foi possível assegurar o funcionamento do sistema de saúde, a educação, mas também ampliar as instalações portuárias, construir nova aerogare, alcatroar estradas, modernizar as comunicações, desenvolver as pescas, o comércio, o parque hoteleiro, etc. Até o antigo Hospital Militar ficou rapidamente inativado porque se afundou nos terrenos pantanosos onde fora construído…

Estou em crer que a insignificância do património edificado durante séculos de ocupação portuguesa estaria associada à diminuta colonização (em termos da pouca expressão de colonos). A emigração para Angola ou Moçambique teria sido mais atrativa do que para a Guiné. A este propósito, um diplomata da nossa Embaixada disse-me que os portugueses residentes a seguir à Independência não chegariam a 200.

Em Bissau, nos anos 80, muitas mercadorias de primeira necessidade não eram alcançáveis, mesmo por cooperantes ou diplomatas. A moeda nacional (o Peso) não tinha valor. Quase tudo faltava.  Tudo, incluindo a energia elétrica fornecida pelo velho gerador da cidade. Os cortes que aconteciam todos os dias, sem exceção, eram motivados por repetidas avarias ou por falta de combustível.

Apesar das inúmeras dificuldades, a vida era tranquila. Pacata. Belíssima.

A descoberta do processo de construção ex novo de um Estado que tinha conquistado a Independência há poucos anos, representou, para os cooperantes que ali trabalhavam, um fascínio. Um tempo único.

Em Bissau, as rotinas do dia a dia tinham encantos: convívios e jantares em casa de uns e outros, a música, as danças, os sabores das ostras e dos camarões ou dos frutos tropicais. Inesquecíveis.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal C

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
31 dezembro 2025

SOBRE UMA REVOLUÇÃO TROPICAL

Em outubro de 1980, aterrei no antigo aeroporto de Bissau. Antes, tinha estado em Brazzaville (Congo), onde iniciei a minha carreira de funcionário da Organização Mundial de Saúde, que viria a durar 12 anos consecutivos.

Bissau era uma cidade única. Aprazível. Pairava no ar um perfume especial. Palmeiras, elegantíssimas, erguiam-se de entre a vegetação pintada por múltiplos tons de verdes, que quase escondia a cor vermelha das terras da região da capital guineense.

Era, ainda, o tempo do presidente Luís Cabral e do líder do PAIGC, Aristides Pereira (presidente de Cabo Verde, mas que de quando em vez ia a Bissau).

Rapidamente integrei-me na comunidade. À noite, havia o costume dos cooperantes portugueses frequentarem o Hotel 24 de Setembro. A beleza tropical e a tranquilidade da esplanada ao ar livre eram muito atrativas. Apesar de não estar ali hospedado, logo adquiri o hábito de participar nos convívios à mesa do café para trocar notícias sobre as políticas, tanto da Guiné-Bissau como de Portugal. Estas conversas noturnas eram fontes informativas imprescindíveis. Na altura, as novidades internacionais eram apenas acessíveis através das emissoras captadas em banda curta, uma vez que não havia televisão (muito menos internet) e que a rádio nacional só emitia em FM.

Uma dessas noites viria, para mim, a ser memorável. Eram 21 horas, do dia 14 de novembro (1980). Lá estava eu sentado à mesa em tertúlia usual com guineenses e portugueses. Repentinamente, ouvem-se burburinhos, algazarras, correrias, tentativas de alguns telefonarem na receção do Hotel… Uma enorme confusão instalada em poucos segundos e que interrompeu a típica serenidade do local. Então, surgiram guerrilheiros de camuflado que no centro da esplanada montaram um tripé com uma metralhadora pesada. Outros revoltosos, com espingardas apontadas para nós, deram ordens para estarmos de pé com as mãos bem levantadas para cima. Assim aconteceu. Todos nós obedecemos imediatamente. Assustados, estávamos à espera de novas instruções.  Eis senão quando, inesperadamente, aparece o empregado do Hotel “chefe de mesa” a perguntar ao líder da brigada revolucionária:
– Ó camarada, quem paga as contas?

Em resposta, ordenou em tom firme:
– Baixem os braços, paguem as contas e voltem a pôr os braços para cima!

Passados uns minutos, voltou a mandar:
– Vão todos para os quartos, já! Ninguém sai!

Ora, como eu não estava aí alojado, pedi a um português que, aliás, não conhecia, se poderia partilhar o quarto comigo.

No dia seguinte, ficámos a saber que os tumultos correspondiam ao golpe de Nino Vieira que destituiu Luís Cabral.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XCIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
24 dezembro 2025

SOBRE VETORES & ONE HEALTH

Atrás, defendi a tese que os mosquitos anofelinos existentes em Portugal (espécie Anopheles atroparvus) não têm, nas condições atuais, risco de transmitirem os agentes do paludismo, incluindo os parasitas que circulam nas zonas tropicais, uma vez que estes são geneticamente diferentes dos que aqui existiam e que foram eliminados no final dos anos 60 (erradicados). Isto é, são as mesmas espécies de mosquitos, tal e qual como antigamente, mas, hoje, não transmitem o paludismo. Por outras palavras, as fêmeas dos mosquitos picam as pessoas durante os repastos sanguíneos que fazem, mas sem qualquer perigo em relação ao paludismo. Também salientei que, entre nós, a eliminação do paludismo resultou da ação conduzida por Francisco Cambournac, a quem devemos esta conquista.

As doenças de transmissão vetorial não se limitam ao paludismo. São muito mais vastas, quer em seres humanos quer em animais, envolvendo múltiplos vetores: mosquitos, carraças, mosca da areia (flebótomos), pulgas, piolhos, culicoides…

Ora, estes vetores, quando infetados, podem transmitir doenças provocadas por determinados vírus, parasitas e por certas bactérias. A nível mundial, por ano, estima-se que os óbitos causados por estas infeções serão, aproximadamente, 700 mil. Por isso, são considerados “serial killers” à solta no ambiente que nos rodeia.

Por outro lado, muitos vetores estão, igualmente, implicados na transmissão de doenças a animais, motivando problemas na cadeia alimentar e na economia. A título de exemplo, menciono a situação identificada no Baixo Alentejo, que está confrontado com a propagação da “língua azul” em ovinos e caprinos.

Ora, a “língua azul” constitui uma epizootia (expressão equivalente a epidemia, mas em animais), que, desde há um ano, adquiriu uma dimensão preocupante na Europa, designadamente em Portugal. É causada pelo vírus da Febre Catarral Ovina transmitido por vetores artrópodes do género Culicoides, que, assim, acarreta problemas nos rebanhos, nomeadamente a baixa produção de leite (produção de queijo). Tal como outras doenças de transmissão vetorial, a “língua azul” não é contagiosa entre animais (ruminantes) e, confirmadamente, não se transmite nem infeta seres humanos.

Mas, os culicoides podem constituir um problema de saúde pública humana, devido à transmissão de outras infeções virais, como acontece em países da América Central e do Sul.

Moral da história: é preciso refletirmos mais sobre as questões associadas aos riscos que os vetores significam, mas na perspetiva One Health porque a saúde humana, a saúde animal e o ambiente permanecem em constante interação.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XCVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
17 dezembro 2025

SOBRE PALUDISMO EM PORTUGAL

Tal como atrás mencionei, o paludismo constituía um grave problema de saúde pública até à sua completa erradicação no terceiro quartel do século XX. Afetava, principalmente, as populações das zonas dos arrozais das bacias dos rios Mondego, Tejo e Sado, uma vez que estavam mais expostas às picadas dos mosquitos. Nessas regiões, o paludismo (também conhecido, entre nós, por sezões) persistia, desde há muito, como doença endémica. Por outras palavras, a presença da doença era aí constante ao longo do ano.

Em 1939, foi inaugurado o Instituto de Malariologia, em Águas de Moura, com o apoio da Fundação Rockefeller (Estados Unidos da América). Nesse contexto, foram construídos os postos anti-sezonáticos nas zonas de orizicultura (nomeadamente no Vale do Sado). Na altura (anos 40), registavam-se cerca de 70 mil novos casos de paludismo, por ano. Todas as crianças (índice de 100%) residentes nessas áreas tinham o baço aumentado (em consequência da doença). Panorama muito preocupante. Era urgente organizar o combate.

Para esse fim, Francisco Cambournac aplicou todos os meios de luta possíveis na época, tanto para combater o mosquito, como para tratar a totalidade dos doentes.

A globalidade das medidas de prevenção e controlo foram, por ele, concebidas, desenvolvidas, geridas e, mais tarde, avaliadas. A sua ideia estratégica visava acabar com a transmissão dos parasitas (plasmódios), na dupla perspetiva de reduzir o risco da picada e de tratar todos os doentes. Cambournac conhecia a situação epidemiológica que antes investigara, quer na dimensão dos vetores quer dos parasitas que provocavam a doença. Introduziu, nos canais dos arrozais, peixes que se alimentavam de larvas dos mosquitos (peixes do género Gambusia) e promovia a utilização de redes mosquiteiras. Todas as pessoas com sinais de terem adquirido o agente da doença eram tratados com quinina.

Foi assim que, em 1958, o paludismo endémico foi eliminado em Portugal.  Um sucesso. Os mosquitos permaneceram, mas a transmissão do paludismo terminou porque os plasmódios “portugueses” deixaram de existir.

Havendo tantas pessoas que chegam ao nosso país com parasitas no sangue adquiridos, por exemplo, em África, qual o risco de o paludismo voltar?

Resposta: quase zero porque as espécies de mosquitos em Portugal, antes, responsáveis pela transmissão do paludismo, apesar de continuarem a existir, não estão adaptadas aos plasmódios tropicais. Isto é, os mosquitos “portugueses” transmitiam os plasmódios que aqui circulavam, mas, agora, não têm a mesma capacidade para transmitirem os parasitas importados das zonas tropicais.

(continua)  

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XCVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
10 dezembro 2025

SOBRE PALUDISMO OU MALÁRIA

Hoje, continuo com o tema sobre o paludismo, que tem, também, a denominação de malária. Este último nome deriva da língua italiana porque, antigamente, a doença era atribuída ao “mal aria” (mau ar) que existia nas zonas pantanosas. Curiosamente, pela mesma razão, a expressão de paludismo tem origem no latim: palus (pântano).  Os ingleses referem-se à malária e os franceses ao paludismo para designarem a mesma doença. Nós utilizamos, indiferentemente, uma e outra expressão, visto que são sinónimas.

Como antes mencionei, são os mosquitos do género Anopheles (anofelinos) que transmitem os parasitas causadores do paludismo, através da picada das fêmeas, uma vez que se alimentam de sangue. Esses agentes são protozoários do género Plasmodium, que têm a particularidade de se reproduzirem no próprio mosquito (ao contrário, por exemplo, do vírus da febre de dengue que é apenas transportado).

Se bem que a forma típica seja devida à picada de anofelinos, uma transfusão de sangue pode transmitir os parasitas desde que o sangue transfundido contenha esses protozoários. A este propósito, na DGS, em 2004, vivi dias de grande inquietação quando recebi uma notificação da causa de um óbito que era atribuída a paludismo cerebral. Referia-se a uma cidadã (que tinha 60 anos de idade), residente em Leiria. A situação tinha que ser averiguada com rigor. Era imperioso perceber onde e como tinha adquirido paludismo. Chamei a mim mesmo essa investigação. Pelas entrevistas que conduzi junto dos familiares mais próximos fiquei com a certeza que a doente em causa nunca tinha saído do Continente, mas que, dias antes de morrer, fora submetida a uma intervenção cirúrgica que necessitara de transfusão de sangue. Logo depois, a meu pedido, a diretora clínica do hospital comunicou-me o lote do sangue transfundido e através do Instituto de Sangue verifiquei que o dador tinha sido um trabalhador guineense recém-regressado de Bissau. Foi assim que consegui localiza-lo e conversar com ele pelo telefone (os meus conhecimentos da língua crioulo ajudaram). Percebi, pelo relato que fez, que escondera a sua condição de ter estado febril no momento da doação…

Regresso à transmissão vetorial. Insisto que os mosquitos que vivem em Portugal, apesar de pertencerem ao género Anopheles, já não têm capacidade de transmitirem os parasitas do paludismo, tal como tinha acontecido na primeira metade do século passado. São da mesma espécie (Anopheles artroparvus), mas sem capacidade de transmitirem os agentes do paludismo (plamódios) que circulam nas regiões tropicais.

Então, como explicar este fenómeno?

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XCVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
3 dezembro 2025

SOBRE MOSQUITOS VETORES DO PALUDISMO

Ao contrário das infeções por Dengue, Zika ou Chikungunya, que podem adquirir expressão epidémica, começo por atestar que o risco de o Paludismo regressar a Portugal é praticamente nulo, apesar de ser uma doença transmitida por mosquitos existentes entre nós.

Tentarei esclarecer esta questão, em linguagem simples, baseado na minha experiência de ter vivido em África, entre 1980 e 1991, onde trabalhei como médico especialista em saúde pública.

Em contraste com Angola ou Moçambique, a Guiné-Bissau nunca atraiu colonos, em consequência das reconhecidas condições adversas do clima e pela elevada prevalência de doenças endémicas tropicais, nomeadamente o paludismo (a mais mortífera das grandes endemias). Mesmo assim, não hesitei em residir em Bissau, juntamente com a minha família. Tinha imensa confiança na eficácia das medidas preventivas, que observava com meticuloso rigor.

Na altura, recebi muitos ensinamentos de Francisco Cambournac (1903-1994), um eminente médico, professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical que, regularmente, fazia missões como consultor no âmbito da cooperação portuguesa. Acompanhava-o durante esses trabalhos, desenvolvidos junto das tabancas e moranças em pleno mato. Cambournac era um sábio que dominava vastos conhecimentos de medicina, de biologia e antropologia. As suas conversas eram sempre cativantes. Um dia, depois do almoço em minha casa, em Bissau, iniciou um espantoso diálogo:

–  Ó George já reparei que tem as portas e janelas completamente protegidas com redes, mas você já verificou, lá fora no pátio, o local onde dormem os mosquitos?

– Não, Professor. Por que razão?

– Porque os mosquitos dormem durante o dia sempre no mesmo sítio, uma vez que só ao anoitecer entram em atividade. Depois regressam ao mesmo local. Repare que têm hábitos que não mudam e, ainda por cima, estas mesmas rotinas são automaticamente transmitidas às gerações seguintes. Por outras palavras, os futuros mosquitos adultos que começarem a voar depois da postura dos ovos pelas fêmeas irão dormir nos mesmos locais!

– Não sabia. Mas se é assim, vamos lá ver onde estão a dormir.

Lá fomos analisar possíveis dormitórios. Ao fim de 10 minutos, com tom de regozijo indisfarçável, disse-me:

–  Estão aqui nesta parede da garagem!

Fui ver a mancha escura que os mosquitos formavam. Dormiam nas paredes na posição oblíqua, característica dos mosquitos Anopheles (vetores do paludismo).

A seguir, aplicámos um inseticida com efeito residual nessa parede. Pouco tempo depois acabaram os mosquitos nas redondezas. Um sossego!

Para Cambournac a ciência envolvia ação.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XCV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
26 novembro 2025

SOBRE MOSQUITOS INVASORES

Ainda sobre os riscos que os mosquitos representam para a saúde pública e para a economia, dedico a prosa de hoje à recente invasão de Portugal Continental pelo “tigre asiático”.

Interessa saber mais sobre os desafios que temos pela frente, até porque podem ser, em boa parte, evitados pela nossa própria atuação.

O mosquito é assim chamado por ser originário da Ásia e, em termos de imagem, por ter riscas brancas que fazem lembrar o aspeto dos tigres daquele continente. Para além dessa semelhança morfológica, só a perigosidade de um e outro pode ser evocada para explicar a designação de mosquito-tigre-asiático.

A respetiva denominação científica é Aedes albopictus. A expressão que indica o género deriva do grego: Aedes (desagradável, odioso). Já o nome da espécie tem origem no latim: albus (branco) e pictures (imagem, pinturas).

Ora, tal como aconteceu na Madeira com o Aedes aegypti, a espécie Aedes albopictus pode transmitir a febre de dengue, além de outras infeções (Zika, por exemplo).

Realço, antes de mais, que as infeções não são contagiosas, uma vez que apenas são adquiridas pela picada de mosquitos (desde que infetados). Por outras palavras, são doenças só transmitidas por mosquitos, sem haver o perigo de contágio de um doente para outra pessoa.

Estas espécies de mosquitos são classificadas como invasoras porque têm a capacidade de se instalarem e multiplicarem em regiões onde antes não existiam, muito provavelmente relacionada com as atuais alterações climáticas (aquecimento global).

A confirmação da invasão recente de vastas regiões europeias pelo mosquito-tigre-asiático é preocupante. Em Portugal, a Rede de Vigilância de Vetores, gerida pelo Instituto Ricardo Jorge e pela DGS, registou, até Outubro de 2025, a introdução de populações de mosquitos desta espécie em 29 concelhos, dispersos por todas as regiões do país.

Por esta razão, é essencial informar (alertar) as pessoas residentes nas áreas com mosquitos invasores para a necessidade de adotarem medidas individuais de proteção das picadas: redes mosquiteiras nas janelas e portas; utilização criteriosa de inseticidas domésticos; aplicação de repelentes; uso de chapéu e roupa com calças compridas e mangas de camisa; eliminação dos pratos dos vasos de flores para não reterem a água da rega.

A nível municipal, a colaboração Câmara-Unidade de Saúde Pública é decisiva para reduzir criadouros de mosquitos: drenagem de águas estagnadas, limpeza dos espaços urbanos e periurbanos para banir a acumulação de resíduos capazes de armazenarem água das chuvas (pneus, latas, vidros…).

Ações de controlo imprescindíveis.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XCIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
19 novembro 2025

SOBRE RISCOS ASSOCIADOS A MOSQUITOS

Retomo o tema das doenças transmitidas por mosquitos por episódios que resumem a sucessão de acontecimentos que explicaram o início e o fim da epidemia de dengue, que ocorreu no Funchal, em 2012-2013. Pretendo, assim, suscitar a reflexão sobre riscos do eventual aparecimento de uma epidemia semelhante no Continente.

Episódio 1:  Em 2005, os especialistas do Instituto de Higiene e Medicina Tropical identificaram, pela primeira vez, a instalação de mosquitos da espécie Aedes aegypti no Funchal (Região Autónoma da Madeira). A esse propósito, realço que o clima quente e húmido da capital madeirense (classificado como subtropical), caraterizado pelas temperaturas médias de 26º C no verão e de 20º C no inverno, constituiu um fator determinante, que facilitou a criação do ecossistema ideal (muito hospitaleiro) à invasão dos mosquitos.

Episódio 2: Passados sete anos (2012), as colónias de mosquitos cresceram, naturalmente, uma vez que encontraram condições perfeitas à reprodução. São mosquitos com atividade diurna, que começa cerca de duas horas depois do nascer do sol e termina antes do crepúsculo. Ora, é durante este período de tempo que as fêmeas picam as pessoas para fazerem as respetivas refeições sanguíneas.

Episódio 3: Um certo dia, chegou ao aeroporto do Funchal um viajante, oriundo de um país da América do Sul, que foi picado depois de ter aterrado. Acontece que estava infetado com dengue, na fase em que o vírus circulava no próprio sangue (virémia), se bem que quase assintomático. Poucos dias depois, esse mesmo mosquito, voltou a fazer nova refeição sanguínea …

Episódio 4: Entretanto, o Senhor X, pacato madeirense que, tranquilamente, estava em sua casa a almoçar, foi picado por esse mosquito, que, nesse momento, transmitiu a infeção.

Episódio 5: O Senhor X, até aí saudável, adoeceu, subitamente, uma semana depois da tal picada com febre, cefaleias e dores generalizadas nos músculos e articulações. Foi depressa à consulta do seu médico que, depois dos testes laboratoriais, confirmou o diagnóstico de dengue, tendo logo notificada a doença ao delegado de saúde.

Episódio 6: As respostas de prevenção e controlo foram rápidas e eficazes. No total foram registados 2168 casos de dengue (mas, zero óbitos), dos quais 11 no Continente, em pessoas regressadas da Madeira e 70 casos de doença em turistas de 13 países, que tinham estado no Funchal.

Episódio 7: Os efeitos negativos no Turismo representaram uma preocupação para a economia da Região.

Episódio 8: As autoridades regionais declararam a eliminação da epidemia no dia 12 de março de 2013.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal XCIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
12 novembro 2025

SOBRE DOENÇAS TRANSMITIDAS POR MOSQUITOS

Tão certo como considerar os cães os melhores amigos das pessoas, é julgar os mosquitos como os maiores inimigos, atendendo às doenças e mortes associadas aos efeitos das picadas (quase sempre inevitáveis).

É verdade que os riscos para a saúde humana (mas, também para a saúde animal) devidos à transmissão de micróbios patogénicos não podem ser ignorados pelos graves problemas de saúde pública que representam, incluindo o impacte negativo que provocam na dimensão económica.

Os mosquitos têm características e hábitos que devemos conhecer não só na mera perspetiva em elevar a própria literacia, mas, igualmente, para permitir a adoção de medidas preventivas das infeções que transmitem: virais, bacterianas ou parasitárias.

É o tema que passarei a desenvolver.

Começo por admitir que a atual aceleração das alterações climáticas, em consequência da emissão de gases com efeito de estufa, é geradora de condições ambientais que propiciam os sítios adequados à reprodução de mosquitos. Por outras palavras, o aquecimento global, ao transformar regiões de clima temperado em clima tropical (mais quente e húmido), origina ecossistemas favoráveis à invasão e multiplicação de mosquitos.

Reconheço que para um especialista em saúde pública a vida dos mosquitos constitui um fascínio. A este propósito, realço que os mais importantes como vetores de doenças são os culicíneos e os anofelinos. Os primeiros, agrupam espécies envolvidas na transmissão da dengue e da febre amarela; os segundos, transmitem o paludismo, por exemplo.

Curiosamente, apenas as fêmeas dos mosquitos precisam de alimentação rica, pela exigência do respetivo aparelho reprodutor relacionada com a postura de ovos, motivo pelo qual picam para poderem sugar sangue através da pele. Já os machos alimentam-se de sucos vegetais (refeições vegetarianas). Ora, no seguimento da cópula, as fêmeas põem os ovos em meio aquático, mesmo em pequenos recipientes com água das chuvas como latas de conserva, pratos de vasos de flores ou pneus ao ar livre. Aí tem lugar o processo de transformação (metamorfose): ovos, larvas, ninfas e, por fim, mosquitos adultos voadores. A duração do ciclo na fase imatura não é longa, variando em função da temperatura ambiente (pode ser de uma semana). Então, o mosquito sai da água e terá um tempo de vida variável de algumas semanas. Mas, se o sangue aspirado durante a refeição estiver infetado, no repasto seguinte (para saciar a fome ou a sede), o mesmo agente infecioso será transmitido a quem estiver a ser picado nesse momento. Assim acontecem as doenças de transmissão vetorial.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)