Três Passarões

Há 100 atrás, o Jardim da Parada, em Campo de Ourique, foi palco para prolongadas conversas entre três jovens estudantes do Liceu Pedro Nunes: Eduardo, José e Carlos. Inseparáveis, desde então, aí encontraram o ambiente propício para afinarem convergências de pensamento e planos de vida para o futuro.

Até 1926, durante a adolescência, gozaram a liberdade da I República e depois resistiram ao Estado Novo de Salazar e da Igreja Católica, que o apoiava. Regozijavam-se por terem reconhecido Bernardino Machado a beber chá na “Tentadora”, à Rua Ferreira Borges.

Eduardo viria a ser engenheiro civil na Câmara Municipal; José e Carlos foram ambos médicos dos Hospitais Civis de Lisboa.

Casados, respetivamente, com Helena, Deolinda e Isabel, os filhos dos três casais, curiosamente, viriam a ter todos os mesmos nomes, por igual ordem de nacimento.

Cultivavam a amizade em todas as ocasiões. Promoviam convívios ao ar livre no pinhal de Oitavos, ou em encontros festivos organizados em casa de uns e outros. Tudo constituía motivo para se juntarem, incluindo o sucesso do foguetão Sputnik com a cadela Laika a bordo ou para celebrarem o Santo António no exíguo pátio da casa de Eduardo, à Rua Santana à Lapa, que era exímio a lançar foguetes de fogo de artifício.

No início dos anos 50, reclamaram para eles a designação de “Passarões”, muito provavelmente para assinalar os voos livres que todos ambicionavam praticar.

Em férias, Eduardo preferia Oeiras e os amigos José e Carlos, a linha da Praia da Maçãs e Azenhas do Mar.

Para as filhas e filhos foi a época da praia, do creme Nívea, de nadar nas águas salgadas das piscinas, das bicicletas pasteleiras, do cinema ambulante e, também, dos primeiros bailes de garagem ao som do gira-discos. Era outro tempo. Diferente. Bom.

Novembro, 2025
Francisco George

 

Opinião Pessoal XCII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
5 novembro 2025

SOBRE A SEGURANÇA DA VACINAÇÃO

Também para festejar os 60 anos comemorativos do início do Programa Nacional de Vacinação, consagro a prosa de hoje à segurança das vacinas na perspetiva de poder contribuir para a desmistificação da propaganda negacionista.

Ainda como estudante, na Faculdade de Medicina de Lisboa, percebi a importância social que representa a tendência das pessoas para elaborarem perceções, em termos de pensamento, sobre as causas relacionadas com o aparecimento de uma doença aguda, em si mesmo ou em membro da família. Essa ideia é, quase sempre, baseada na relação temporal: essas pessoas são levadas a encontrar uma explicação mental relacionada com o que sucedeu pouco tempo antes.

Já este ano, a esse propósito, encontrei o pai de uma jovem, a quem tinha sido diagnosticada a síndrome de Guillain-Barré (polinevrite periférica sensitiva e motora), três semanas depois de ter sido vacinada contra a infeção do vírus do papiloma humano. Insistiu comigo que tinha sido a vacina a causar a doença da filha. Para ele, a relação causa-efeito era claríssima. Pacientemente, respondi-lhe que não tinha razão, uma vez que a determinação da causa de uma doença impunha a demostração do mecanismo fisiopatológico capaz de a provocar. Disse-lhe que era necessária a comprovação científica do processo causal, muito para além da mera relação temporal. Só assim seria possível afirmar o nexo de causalidade. A seguir, mencionei que a referida doença existia, em níveis de frequência idênticos, muito antes do começo da vacinação e que, portanto, a relação com a vacina não seria estatisticamente admissível.

Como se sabe, relatos de episódios semelhantes são, frequentemente, reproduzidos nas redes sociais na tentativa de “alertarem” pais e mães para os “riscos” da vacinação dos filhos.

Mas, recentemente, a comunidade negacionista foi abalada pela publicação dos resultados de um estudo científico que demonstra a segurança, inequívoca, das vacinas. Cientistas dinamarqueses, liderados pelo médico Niklas Worm Andersson (facilmente acessível pelo Google), analisaram os registos correspondentes aos nascimentos de mais de 1,2 milhões de crianças, nascidas entre 1997 e 2018, na Dinamarca, que foram vacinadas durante os dois primeiros anos de vida. Depois dos registos terem sido cotejados com os dossiers clínicos respetivos de cada criança, concluíram que não havia sinais de toxicidade causada pela vacinação (vacinas adjuvadas pelo alumínio). Ficou, assim, comprovada a ausência de relação causal com 50 doenças neurológicas, alérgicas e autoimunes.

Nota final: Que diria Donald Trump das conclusões do estudo dinamarquês?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal XCI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
29 outubro 2025

SOBRE VACINAÇÃO DE PESSOAS ADULTAS

Tal como antes sublinhei, a vacinação não se limita ao calendário oficial para crianças proposto pela Direção-Geral da Saúde (DGS), uma vez que todas as pessoas em idade adulta (incluindo, as muito idosas) podem ser protegidas de doenças transmissíveis evitáveis pelas novas vacinas, recentemente licenciadas. Refiro-me a infeções respiratórias, quer de natureza viral quer bacteriana, bem como a outras doenças infeciosas como o herpes zoster.

Naturalmente, cabe ao Estado tudo fazer para assegurar o acesso universal a estas vacinas, na perspetiva em garantir o princípio da equidade. Como se compreenderá, a prevenção de doenças não pode ficar dependente dos rendimentos familiares de cada pessoa: ricos e pobres devem ser protegidos em condições de igualdade.

Se é verdade que apenas a gratuitidade da vacinação assegura o respeito absoluto por esse princípio, já o regime de comparticipação no preço pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), possibilitando a aquisição da vacina, na farmácia, é uma forma de atenuar iniquidades, ao baixar o custo no momento da compra.

A imunização para determinadas infeções, adiante discriminadas, conduzirá a maior longevidade individual associada a melhor qualidade de vida, conseguidas pela redução da incidência de doenças e do risco de morte prematura. Por outro lado, o Estado conseguirá a obtenção de lucros através da diminuição de gastos pela redução de internamentos hospitalares, de admissões em cuidados intensivos e em despesas inerentes aos tratamentos medicamentosos. Lucros esses que terão, necessariamente, reflexos positivos nas contas públicas e no crescimento da economia (PIB).

Assim sendo, todos ganham. Mais prosperidade. Inquestionável.

Em adultos, para além da atualização regular da vacina antitetânica e das vacinas sazonais contra a gripe e COVID-19 (ambas anuais), administradas gratuitamente aos inscritos no SNS, há outras vacinas inovadoras consideradas indispensáveis e especialmente indicadas para quem pretenda viver mais tempo e com qualidade.

Em outras palavras, diferir o final da vida é, agora, mais do que nunca, um objetivo alcançável através da imunização ativa que previne infeções provocadas por certos agentes patogénicos (alguns dos quais tidos como autênticos serial killers): vírus da gripe (sazonal ou zoonótica do subtipo H5); coronavírus da COVID-19; vírus sincicial respiratório (bronquiolites) e pneumococos (pneumonia, otite, sinusite e doença invasiva pneumocócica como a septicémia e a meningite). Está, também, disponível uma nova vacina para o vírus do herpes zoster (zona).

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal XC

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
22 outubro 2025

Como antes sublinhei, as vacinas evitam infeções. Comprovadamente.

Se é verdade que o Programa Nacional de Vacinação começou por ser aplicado com o objetivo de reduzir a morbilidade e mortalidade em crianças, atualmente as suas metas são mais vastas e ambiciosas. As vacinas previnem, para além de doenças infetocontagiosas, quer em crianças quer em pessoas adultas, certos cancros associados a infeções virais.

Em Portugal, o calendário oficial recomendado pela Direção-Geral da Saúde (DGS) contempla vacinas contra as seguintes infeções: hepatite B, tuberculose, difteria, tétano, tosse convulsa, poliomielite, sarampo, rubéola, papeira, vírus do papiloma humano, meningites (provocadas por dois agentes distintos), pneumonia (pneumocócica), vírus sincicial respiratório, gripe e COVID-19.

Estão, também, disponíveis, gratuitamente, vacinas para a prevenção e controlo de doenças (incluindo surtos) causadas pelos vírus da hepatite A e mpox.

O êxito do Programa Nacional de Vacinação é medido pelas elevadas taxas de cobertura: 99% de crianças vacinadas até aos 12 meses de idade e 96% contra o sarampo até aos seis anos.

Em resultado deste indiscutível sucesso, ganhámos, na dimensão social, a eliminação de seis doenças infeciosas, além de outras sete já consideradas como controladas.

Por outro lado, no plano científico, está demonstrado que inflamações causadas por infeções de natureza viral podem originar o desenvolvimento de células cancerosas em tecidos de determinados órgãos, nomeadamente provocadas pelo vírus da hepatite B e pelo vírus do papiloma humano. Assim sendo, as vacinas contra estas duas infeções são preventivas, respetivamente, em relação ao cancro do fígado (hepatoma) e ao cancro do colo do útero (bem como do cancro oral e de órgãos genitais, em ambos os sexos).

Em Portugal, é bom reconhecer que quase 100% das crianças recém-nascidas estão protegidas da infeção da hepatite B e que mais de 90% dos adolescentes já estão imunizados para a infeção do vírus do papiloma humano. Uma conquista na luta contra o cancro, visto que, na próxima geração, o risco de adoecer com estes cancros será praticamente inexistente. Um orgulho.

Este fascinante mundo das vacinas está claramente descrito na recente publicação que a Direção-Geral da Saúde promoveu e que é facilmente acessível no respetivo SITE ou através do motor de busca em Livro Azul de Vacinas: Programa Nacional de Vacinação e outras estratégias de imunização.

É um guia, estruturado em capítulos, em constante atualização, indispensável a quem necessita de informações sobre doenças evitáveis pela vacinação.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal LXXXIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
15 outubro 2025

SOBRE VACINAÇÃO

Já aqui escrevi sobre a descoberta da primeira vacina pelo médico inglês Edward Jenner (1749-1823): a inoculação de pessoas com o líquido obtido a partir das vesículas de vacas doentes com vaccinia iria protege-las da varíola (1796).

Em homenagem a Jenner, o cientista francês Louis Pasteur (1822-1895) passou a utilizar a designação de vacinação (alusiva a vaccinia) para todas as inoculações administradas com o fim para evitar doenças infeciosas. Pasteur, na altura, não imaginaria que o método de Jenner iria erradicar a varíola, mas sabia que a sua descoberta era uma conquista extraordinária para a Humanidade. Assim aconteceu, a partir de 1980, a varíola passou a ser uma infeção que existiu no passado. O vírus nunca mais voltou a circular. Nunca mais voltou a provocar epidemias. Nunca mais voltou a provocar doença. Nunca mais voltou a matar.

A libertação do risco que a varíola antes constituía (conhecida, entre nós, por bexigas) explicaria a determinação em desenvolver ações preventivas para outras infeções, virais ou bacterianas, através de programas devidamente planeados, geridos e avaliados.

Nesse contexto, percebe-se que a Direção-Geral da Saúde (DGS) tenha promovido uma sessão pública para assinalar os 60 anos do Programa Nacional de Vacinação, a fim de divulgar novos sucessos, comprovadamente, já alcançados.

Começo pelo princípio.

Em 1965, a médica Maria Luísa Van Zeller (1906-1983), então Diretora-Geral da Saúde, lançou a vacinação das crianças que, desde logo, contou com o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Cedo, a DGS definiu como princípios estratégicos fundamentais: facilidade de acesso, universalidade e gratuitidade, na perspetiva em garantir equidade absoluta, sem qualquer discriminação. Nesse ano (1965), as vacinas do calendário oficial destinavam-se à prevenção da tuberculose, tétano, difteria, tosse convulsa e poliomielite, além da varíola.

Naturalmente, o Programa Nacional de Vacinação iria evoluir em função das mudanças ocorridas no padrão epidemiológico (morbilidade e mortalidade) e, ainda, das novas possibilidades proporcionadas pelos imensos avanços dos conhecimentos científicos e em tecnologia, que afinaram o fabrico de vacinas. A este propósito, sublinho que, hoje, todas as vacinas licenciadas são seguras. Aliás, não faria sentido que assim não fosse.

Em Portugal, a prevenção das infeções contemplada no Programa Nacional de Vacinação, aprovado pela DGS, baseia-se na produção de anticorpos protetores para prevenir a ocorrência de doenças infectocontagiosas e, igualmente, para evitar determinados cancros.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com  
(escreve à quarta-feira)

APIFARMA

APIFARMA
1939-2024

Em 1939, Portugal era diferente.

Na Península, a Guerra Civil de Espanha terminara nesse ano, em Abril. Cinco meses depois, teve início a II Guerra Mundial que iria ser devastadora até terminar, em 1945, no seguimento de duas bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Salazar manteve Portugal neutral. Mas, o país, na época, refletia dimensões bem distintas das atuais. Os indicadores sociais, económicos e culturais espelhavam as imensas dificuldades que os portugueses então viviam. Em comparação com a Europa, Portugal era um país atrasado.

Foi neste ambiente, em pleno Estado Novo que surgiu, em 1939, o Grémio Nacional dos Industriais de Especialidades Farmacêuticas que daria, mais tarde, origem à Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA), a partir de 1975.

Antes da fundação do Grémio, o começo da atividade industrial para o fabrico de medicamentos é marcado pela criação da Companhia Portuguesa de Higiene, em 1891, como primeira empresa farmacêutica a nível nacional. A iniciativa deveu-se ao dinamismo de Emílio Estácio (1854-1919), farmacêutico pela Universidade de Coimbra e formado em química pelo Instituto Industrial de Lisboa. Emílio Estácio fundara, oito anos antes, a Farmácia Estácio ao Rossio, em Lisboa.

Em 1892, o Laboratório J. Neves & Cª, em Lisboa, inicia a produção de medicamentos.

Nos anos que se seguiram, surgiram outras unidades farmacêuticas. Mas o grande salto da Indústria deveu-se à empresa Cortês Pinto & Pimental, Lda, ao abrir o Laboratório Sanitas que rapidamente passou a ocupar um lugar de destaque no panorama da produção farmacêutica, em Portugal. Cinco anos depois, além do mercado nacional que fornecia regularmente, impulsionou a exportação de diversas especialidades farmacêuticas, incluindo para o Brasil. O médico Francisco Cortês Pinto (1885-1974), criador do Laboratório Sanitas, viria, em 1939, a presidir à primeira Direção do Grémio Nacional dos Industriais de Especialidades Farmacêuticas.

O ano de 1939, para além de assinalar o princípio do conflito entre Aliados e o Eixo, coincide, temporalmente, com o grande progresso das Ciências Farmacêuticas, associado ao desenvolvimento da Indústria na Europa e nos Estados Unidos da América, que iria colocar no mercado novas moléculas e vacinas com segurança e eficácia cientificamente comprovadas. Foi o tempo da comercialização da penicilina e da descoberta de novos medicamentos e da imunização para doenças de natureza infeciosa. E, também, da era da microscopia eletrónica.

O regime democrático, definido pela Constituição da República de 1976, iria acelerar o desenvolvimento socioeconómico e o reconhecimento da necessidade da Regulação da atividade industrial, distribuição e comercialização de medicamentos. Função que foi, primeiramente, competência da Direção-Geral da Saúde e da Comissão Técnica dos Novos Medicamentos e, depois, em 1984, da Direção-Geral dos Assuntos Farmacêuticos e por fim, desde 1993, do INFARMED.

Seguiram-se anos de construção e de progresso.

Em 2024, Portugal é diferente. Muito diferente. Já não é um país atrasado e está mesmo, em muitas áreas, na vanguarda a nível europeu.

A evolução da Indústria Farmacêutica, ao longo dos 85 anos de história da APIFARMA, para isso contribuiu, indubitavelmente.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
8 outubro 2025

SOBRE A LIBERDADE DOS PAIS

O tema de hoje interpela questões relacionadas com a liberdade individual. Procurarei demonstrar que a liberdade de cada pessoa não pode prejudicar ninguém, incluindo, naturalmente, os filhos. Lógico.

Ora, como todos reconhecerão, a mãe e o pai têm deveres, inquestionáveis, sobre a proteção da saúde das respetivas crianças. Por outras palavras, têm a obrigação de tudo fazer para evitar doenças dos filhos, tal como para os proteger em relação ao frio, ao calor ou à malnutrição.

Aliás, o Estado, desde 1976, consagra o direito à Liberdade na Constituição da República, mas a sua interpretação tem fronteiras: o Capítulo dedicado aos “direitos, liberdades e garantias pessoais” estipula que “os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos” (número 5, do artigo 36º). Sublinho: direitos e deveres.

Nestes termos, os pais não têm liberdade para recusar a frequência da escola, do mesmo modo que não devem negar a vacinação de seus filhos. Deveres.

Se bem que, em Portugal, o assunto não represente um problema social, há países onde surgem sinais preocupantes ligados a grupos que insistem na propagação de ideias erradas sobre riscos da vacinação, que são geradoras de hesitações, comportamentos e estilos de vida negacionista. Essas opiniões, propagandeadas sem qualquer fundamentação científica, colocam em perigo não só a saúde dos pais, como, também, de seus filhos e da comunidade. Refiro-me, por exemplo, aos Estados Unidos da América, onde a irracionalidade da argumentação até é defendida por membros da governação atual.

Considero que um adulto tem o direito de recusar a ser vacinado, mas esse direito é apenas aceitável para si mesmo. Não pode impor essa negação a ninguém, incluindo aos filhos. O direito à liberdade é apenas para si, uma vez que tem o dever de proteção dos filhos em relação a doenças que são, comprovadamente, evitáveis pela imunização. Não tem o direito em negar a prevenção de doenças aos filhos.

Preciso.

Como norma, a seguir ao parto, ainda na maternidade, ao recém-nascido é administrada a primeira dose da vacina contra a infeção da hepatite B, que integra o Programa Nacional de Vacinação. É, por isso, universal e gratuita. Na idade adulta, essa criança ficará, depois de completado o esquema vacinal, protegida em relação ao cancro do fígado. Agora, admitamos, como cenário hipotético, que a mãe ou o pai não tinham autorizado a imunização e que a mesma criança irá adoecer com cancro do fígado, que teria sido evitado pelo cumprimento do calendário vacinal.

Dever de proteger os filhos ou direito à negação?

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal LXXXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
1 outubro 2025

SOBRE O OCIDENTE

Como sabemos, a bússola indica os pontos cardeais à superfície do Globo: norte, sul, este e oeste. Foi inventada na China, há 1000 anos, como instrumento para ser utilizado em náutica, uma vez que a agulha magnética aponta o sentido dos pólos norte e sul.

Por isso, na época de Colombo e Vasco da Gama, foi uma ferramenta de orientação indispensável para a expansão marítima. A famosa “rosa-dos-ventos”, em forma de estrela, então já introduzida, resultou da integração dos pontos colaterais: nordeste, sudeste, sudoeste e noroeste. Ainda hoje, é utilizada na navegação oceânica e aérea, bem como na leitura de mapas.

Mas, se é certo que, em termos geográficos, a expressão Ocidente é clara ao representar o lado onde o Sol se põe (Poente), em oposição ao Oriente, correspondente à posição onde nasce (Nascente), já o mesmo não acontece no âmbito da geopolítica.

Nos dias difíceis que agora vivemos, o Ocidente assume um significado muito mais complicado. A sua compreensão não é fácil. Na ausência da exatidão da agulha magnética, a bússola de base política tem, atualmente, interpretação duvidosa e até preocupante: situação associada à perceção do risco iminente de guerra nuclear. Uma angústia.

Preciso.

Em 1947, no ano em que nasci, os vencedores da II Guerra Mundial, já tinham acordado os desenhos das linhas fronteiriças que separavam, na Europa, Ocidente e Oriente. Na altura, a demarcação do Ocidente estendia-se até às fronteiras orientais da Finlândia, da República Federal da Alemanha, da Áustria e da Itália. Com exceção da Grécia, a Europa do Oriente equivalia à União Soviética, República Democrática da Alemanha, Polónia, Checoslováquia, Hungria, Jugoslávia, Albânia, Bulgária e Roménia. Assim permaneceu, dividida em dois blocos, até ao final de 1991: Ocidental e Oriental. Era o tempo da “cortina de ferro” que opunha dois lados, dois sistemas económicos e políticos e, também, duas alianças militares, que viviam em permanente “guerra fria”. Era a fase dos espiões e contra-espiões.

O Oriente era comandado por Moscovo e o Ocidente por Washington. Nunca surgiu um líder Europeu para o Ocidente. Seguia-se uma política obediente aos interesses económicos, políticos e militares dos Estados Unidos da América, independentemente do presidente que ocupava a Casa Branca.

Depois, em 1992, tudo mudou. O fim da “cortina” conduziu à emergência de novos estados. As fronteiras deslocaram-se. O Ocidente cresceu. A Europa Oriental passou a ser apenas a Rússia. Porém, em 2025, estranhamente, o Ocidente continua sem liderança, apesar dos desvairos da Casa Branca. Incompreensível.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)

Opinião Pessoal LXXXVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
24 setembro 2025

SOBRE A ESCOLA “LAR DA CRIANÇA”

No princípio dos anos 50, a “Escola da Câmara”, à Rua Pereira e Sousa, em Campo de Ourique, apesar das suas razoáveis instalações e de estar próxima da nossa casa, não foi a escolha de meus pais para a educação dos filhos. Preferiram uma escola que observasse princípios de laicidade e de independência política em relação ao regime. Ora, isso não era possível nos estabelecimentos oficiais, visto que tinham em cada sala, pendurados na parede, por cima da ardósia, um crucifixo, ladeado por retratos de Salazar e de Carmona. Era essa a regra em todas as escolas públicas, no tempo do Estado Novo, que meus pais não aceitavam.

Por essa razão, inscreveram os filhos no “Lar da Criança”, uma escola nova, instalada numa vivenda da Rua Almeida Brandão, à Estrela. que tinha sido inaugurada para se dedicar ao ensino primário, em administração privada. Ao contrário do tal estabelecimento camarário que separava, em alas distintas, estanques, as alunas e os alunos, no “Lar da Criança” a distinção de género era pouco rígida. Os convívios eram frequentes e os almoços na cantina juntavam todas e todos.

O ensino era laico, marcado por modernos conceitos educativos, introduzidos pela pedagoga Berta Ávila de Melo (1920-2011).

Desde a primeira classe até ao exame da quarta, vivi tempos memoráveis. Aí aprendi a ler e escrever, mas muito mais. Também a compreender a importância da cultura, da literatura, da arte e da música. Relembro as magníficas sessões de canto e coral conduzidas por Francine Benoît (1894-1990), com quem comecei a cantar a “Portuguesa”, além de canções populares. Personalidade ímpar, Francine era muito respeitada nos meios da Oposição.

Gosto de reviver esses dias, incluindo lembranças apimentadas: comia, com gozo, as ginjas que conseguia alcançar ao trepar a árvore do pátio ou, à socapa, provava os queijos artesanais fabricados pelos próprios alunos nas aulas demonstrativas sobre lacticínios, deixando-os marcados pelo meu atrevimento…

Também recordo as lições de inglês e os exercícios com aguarelas em papel cavalinho, a par dos trabalhos manuais com barro que, depois de moldado e seco era pintado.

Aprendi os significados da Sentença de Salomão e da parábola da Espada de Dâmocles. Narrativas que viriam a marcar o meu pensamento para o futuro.

Na Sala do Médico, os exames periódicos pelo pediatra Farmhouse eram minuciosos. Um exemplo do valor da saúde escolar. Foi ele que orientou a vacinação contra a varíola, inoculada com a “caneta”, que iria erradicar a doença, em 1980.

Agora, a Escola irá festejar 75 anos de existência. Lá estarei.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com
(escreve à quarta-feira)