Opinião Pessoal LXXV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  11 junho 2025

SOBRE REDUÇÃO DA MORTALIDADE INFANTIL

Retomo a reflexão sobre os dados que o INE recentemente publicou sobre a mortalidade infantil, em 2024.

Nesse ano, morreram 252 crianças sem terem completado um ano de vida, o que motivou a subida, em meio ponto, da taxa de mortalidade infantil (TMI) para 3,0 por mil nados-vivos (em 2023, era de 2.5 por mil).

Antes de mais, é preciso reconhecer que o valor de 3,0 por mil indica que a taxa permanece baixa, incluindo no contexto internacional, apesar de ter revelado, em 2024, um aumento que não pode passar despercebido. Impõe, portanto, uma análise pormenorizada. É preciso, para tal, tudo fazer para perceber as circunstâncias em que ocorreu cada óbito: verificar a respetiva causa, através não só do acesso ao dossier clínico, implicando, também, o resultado da autópsia realizada, bem como, complementarmente, conduzir entrevistas criteriosas aos pais. É um exercício indispensável, a ser orientado pela DGS, na perspetiva de poderem ser planeadas medidas preventivas, extraídas das conclusões, a serem implementadas a curto prazo. Para evitar demoras, seria até aconselhável, desde já, fixar uma meta para apresentação do relatório final, mas para breve, sublinho.

Ora, em Portugal, no âmbito do processo de redução da mortalidade infantil, a componente pós-neonatal (depois do 28º dia de vida) foi a primeira a ser alcançada. Um sucesso que foi conquistado pela melhoria dos programas de saúde infantil (incluindo a vacinação) e das condições do nível de vida, em resultado do desenvolvimento social e económico verificado, a partir de 1980, em especial em consequência das grandes obras públicas nas áreas da eletrificação, das comunicações, bem como de saneamento básico e qualidade ambiental. A mudança no sentido da prosperidade, desde então imparável, foi indiscutível. Aconteceu tanto nas zonas urbanas, suburbanas ou rurais, abrangendo o Litoral, o Interior e as regiões autónomas.

Mais lenta foi a redução da mortalidade neonatal, que corresponde aos óbitos ocorridos no decurso dos primeiros 28 dias de vida, mas que está relacionada com a acessibilidade e qualidade de cuidados pré-natais, de assistência ao parto e de unidades pediátricas de neonatologia.

Surpreendentemente, nos últimos 10 anos, epidemiologistas e pediatras têm criado cenários de redução da taxa de mortalidade infantil para a aproximar do ZERO. Admitem que essa hipótese é plausível e que depende, sobretudo, da definição de políticas de saúde pública, financiadas e desenvolvidas pelo Estado, desde que socialmente aceites. Baseiam-se no princípio que a morte de uma criança pode e deve ser evitada, à luz dos conhecimentos científicos atuais.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  4 junho 2025

SOBRE TAXA DE MORTALIDADE INFANTIL

Uma vez que antes referi o conceito de mortalidade infantil, dedicar-me-ei, hoje, a clarificar o significado da TAXA, que traduz o risco de uma criança morrer antes de completar o primeiro ano de vida.

A Taxa de Mortalidade Infantil (aqui designada TMI) é calculada como uma proporção que relaciona o número de mortes de crianças com menos de doze meses, apurado em determinada região ou país, durante um ano civil, por cada 1000 nado-vivos ocorridos na mesma população, no decurso desse ano.

Assim definida, em rigor matemático, não é considerada uma taxa porque há crianças que morrem em determinado ano, mas que nasceram no ano anterior e, por outro lado, porque há nascimentos de crianças em certo ano civil que poderão morrer no ano seguinte, antes de completarem doze meses. Apesar desta subtileza, a designação de Taxa é, habitualmente, usada para indicar o risco de morte infantil (como probabilidade).

Desde o século XIX, a TMI é um indicador considerado útil para medir a evolução do risco de morte durantes os primeiros 364 dias depois do parto, tanto a nível nacional como internacional.

No tempo de Salazar, a Oposição Democrática denunciava a circunstância de Portugal ser o pior país no ranking da Europa, na perspetiva de chamar a atenção para as condições degradantes da área materno-infantil: em 1950, a taxa elevava-se a 94,1 por mil nados-vivos que revelava 19308 óbitos infantis. Ou, dito de outra forma, a probabilidade de uma criança morrer antes de completar o primeiro ano de vida era quase uma em cada 10 que nasciam em Portugal, nesse ano.

Compreende-se, pois, que durante o Estado Novo o risco de morte de crianças representava um dos vexames nacionais mais lamentáveis porque as causas eram, principalmente, evitáveis.

Em 1973, a TMI ainda ascendia a 44,8 que correspondia a 7726 óbitos infantis ocorridos em 172324 nascimentos vivos. Uma humilhação.

No ano seguinte, depois da Revolução, o médico Albino Aroso, obstetra e professor, que viria a integrar o VI Governo Provisório, concebeu, iniciou e desenvolveu um vasto programa para proteger mães e crianças. A rapidez e a simetria da descida da mortalidade infantil, em resultado das medidas implementadas, foram um sucesso. Já em 2002, os óbitos infantis tinham descido para 580 em relação aos 114539 nados-vivos (TMI de 5,1 por mil). No ano seguinte, ainda baixou para 4.1 por mil.

Agora, em 2024, foram registadas 252 mortes infantis (mais 42 do que no ano anterior), colocando a TMI em 3,0 (superior em 0,5 por mil em relação à TMI de 2023). Subida que não pode ser ignorada e que impõe, pela DGS, análise pormenorizada de cada óbito, em tempo curto.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  28 maio 2025

SOBRE MORTALIDADE INFANTIL

Ultrapassado o ambiente de campanha eleitoral, vivido durante a semana que coincidiu com a publicação dos resultados referentes à mortalidade de 2024 pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), considero oportuno clarificar conceitos sobre os dados alusivos à mortalidade infantil.

Começo pelas noções básicas que mais interessam para facilitar o entendimento relativo às informações agora divulgadas.

No ano de 2024, registaram-se 118374 óbitos de pessoas residentes em Portugal (mortalidade geral). Destes, 252 eram crianças que não completaram doze meses. Por outras palavras, que morreram sem terem festejado o dia do primeiro ano de vida. Ora, como se compreende, as circunstâncias e as causas da morte de cada criança são, inevitavelmente, distintas.

Mas, antes de tudo, há que esclarecer o tempo que cada criança viveu a seguir ao parto. Esse tempo de vida, só por si, assume um significado importante em Saúde Pública.

Preciso.

Em relação à idade da morte ocorrida durante os primeiros doze meses é preciso apurar se aconteceu antes ou depois do 28º dia após o nascimento. A primeira situação (durante os primeiros 28 dias de vida), marca o período neonatal. A segunda, balizada entre o 28º dia e até antes do 364º, assinala a mortalidade pós-neonatal. Ou, dito de outra forma, a mortalidade infantil é subdividida em duas componentes separadas pelo 28º dia a seguir ao parto: neonatal e pós-neonatal.

Além disso, o período neonatal pode, ainda, separar-se em dois segmentos: mortes verificadas ao longo da primeira semana de vida (mortalidade neonatal precoce), e óbitos verificados nas semanas seguintes até ao 28º dia (neonatal tardio).

Pediatras e epidemiologistas admitem, a título presumível, que a mortalidade neonatal terá como causas hipotéticas mais prováveis: doenças da gravidez, problemas hereditários, anomalias congénitas, prematuridade e baixo-peso à nascença (por vezes relacionado com doenças dos pais ou comportamentos de risco durante a gravidez, incluindo associados ao álcool, tabaco ou drogas), além da idade da mãe, bem como das condições de assistência pré-natal e do parto.

Já a mortalidade pós-neonatal tem como relação causal, em termos de probabilidade, as explicações seguintes: baixo nível de desenvolvimento social e económico e da qualidade da habitação e das infraestruturas ambientais de saneamento, tal como os contextos de vida do agregado familiar, nomeadamente grau de instrução dos pais, rendimentos, emprego, acesso a cuidados de saúde infantil (vacinação, por exemplo).

É, assim, indispensável conhecer a situação de cada um e de todos os 252 óbitos para perceber a essência da questão em 2024.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  21 maio 2025

SOBRE A SIDA

Ainda sobre a SIDA, hoje, prossigo a reprodução de excertos da conversa que tive com Almeida Santos, em 1989, à margem da visita oficial que fez a Bissau.

Senti, então, uma espécie de temor, atendendo à sua dimensão de líder político e governante do meu país. Pairava no ar algum stress. Mas, por outro lado, eu estava seguro dos conhecimentos sobre o tema e da minha capacidade de comunicação sobre a evolução da pandemia.

O nosso diálogo parecia ser uma entrevista ao estilo de um exame.

Com firmeza, Almeida Santos interroga:

– Ó Francisco, para vocês, médicos, qual foi o receio principal? Como foram descobertas as formas de transmissão e o agente?

– Olhe, primeiro foi preciso conhecer os modos de transmissão da infeção, mesmo antes do cientista francês Luc Montagnier ter identificado o vírus, em 1983. Cedo verificou-se que os líquidos orgânicos infetados podiam transmitir o agente, incluindo por via sexual e da mãe infetada ao filho na gravidez e parto. O grande medo era saber se a infeção poderia ser transmitida por picada de mosquitos, como acontece com tantas doenças tropicais.

Almeida Santos, comentou, em tom assertivo:

– Sim, porque se isso fosse possível, a transmissão da SIDA seria inevitável, visto que ninguém consegue defender-se de uma picada de mosquito ao longo da vida!

– Claro. Se, por hipótese, assim acontecesse, todos estaríamos expostos. O cenário teria sido outro. Foi essa a razão dos médicos guineenses terem escolhido como slogan para os cartazes que a “SIDA É EVITÁVEL”, na ideia da promoção do uso da “camisinha”.

–  Percebe-se que nada tem de semelhante ao paludismo! Teria sido uma tragédia!

– Mas, note que o paludismo pode ser prevenido e curado com medicamentos, ao contrário da SIDA. Curiosamente, os parasitas do paludismo destroem os glóbulos vermelhos do sangue e, agora, os vírus da SIDA penetram nos glóbulos brancos. As partículas virais destroem os glóbulos que asseguram as defesas, o que explica a fragilidade do sistema imunitário a seguir à infeção que foi adquirida. Não esqueçamos que os glóbulos brancos produzem anticorpos protetores.

– Então, é isso! Mas, Francisco, há já um medicamento! Vamos ter uma vacina?

– É verdade. O AZT foi introduzido, desde 1987. Alcançou rapidamente licença como medicamento para a SIDA.  É comprovadamente eficaz. Mas, realço que o vírus não é eliminado do organismo que infetou. Porém, a vida do doente é prolongada, desde que seja tratado com esse medicamento. Já a vacina não será fácil. Não está no horizonte.

PS: Em Lisboa, 20 anos depois, voltaria a reencontrar Almeida Santos, mas em ambiente privado. Disse-me, então, que se lembrava das nossas conversas de Bissau.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXXI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  14 maio 2025

SOBRE O COMEÇO DA SIDA

Em Bissau, o diálogo com Almeida Santos prosseguiu. Estávamos em 1989 e continuávamos no hotel, em dia de sol e calor de Novembro.

A curiosidade de Almeida Santos em saber pormenores sobre o início da SIDA, mantinha-se. Sabia que eu era a pessoa certa para relatar a evolução dos acontecimentos, visto que tinha testemunhado o aparecimento do “furacão”. Na altura, ninguém antecipou que o inesperado fenómeno alcançasse a intensidade de categoria máxima, em termos de escala, a nível global. Então, o pensamento científico dominante não admitia a possibilidade da ocorrência de eventos imprevistos.

Almeida Santos ouvia tudo com atenção. Formulava perguntas até ficar esclarecido. Fiquei satisfeito pelo seu interesse tão genuíno. Com sorriso, mas estupefacto, não percebera a trapalhada do telegrama de alerta enviado pela OMS de Bissau para Genebra que não acentuava a estranheza dos óbitos terem surgido em pessoas, adultas, que antes eram robustas e aparentemente saudáveis e adoeceram com diarreia crónica e emagrecimento.

– Ó Francisco, como foi isso possível?

– Olhe, as autoridades guineenses comunicaram a situação com precisão, mas estou em crer que os telegramas expedidos pela Representação da OMS terão sido demasiado curtos. “Comer” palavras nos telegramas que redigia era um dos caprichos de Garcia Morilla…

– Mas, Francisco, essa tal especialista que veio a Bissau, julgando que eram casos de diarreia em crianças, que fez ela?

– Olhe, lembro-me bem. Foi Colette Roure, uma médica francesa que logo abraçou o problema. Regressou a Genebra com a descrição completa da situação que, repito, afetava adultos em idade ativa.

– Qual a razão do Francisco tanto insistir na diferença entre crianças e adultos?

– Repare que o sistema imunitário dos adultos é incomparavelmente mais eficaz quando é comparado com as idades infantis. Está mais desenvolvido. Por isso, habitualmente, os adultos saudáveis não são afetados por doenças infeciosas devido às defesas que adquiriram ao longo dos anos. Isto é, têm anticorpos protetores, ao contrário do sistema das crianças que é ainda imaturo.

– Nesse caso, essas pessoas adultas apresentaram doenças que seriam comuns em crianças. É isso que pretende dizer-me?

– É isso mesmo. Os doentes adultos que morreram adquiriram uma fragilidade do respetivo sistema imunitário que explicaria a vulnerabilidade a que ficaram expostos. As suas defesas passaram a não poder evitar certas infeções que seriam facilmente debeladas se o sistema imunitário funcionasse normalmente.

– Agora entendo a designação SIDA ao indicar Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. Mas, se antes não existia, como foi contraída?

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  7 maio 2025

SOBRE O INÍCIO DA SIDA

Em Novembro de 1989, tal como combinado, retomei a conversa com Almeida Santos, em Bissau. Encontrei-o, como previsto, à beira da piscina do hotel a “banhar-se” ao Sol. Era um dia de calor, como é habitual nessa época de transição para a estação seca, mais amena.

As questões de Saúde Pública ocupariam o centro do nosso diálogo. Almeida Santos começou por querer saber a origem da SIDA que julgava ter tido como epicentro as savanas africanas. Sem rodeios, perguntou-me:

– Visto que está aqui desde 1980, como percebeu o início da SIDA?

– Olhe, ninguém admitia que um problema desta natureza pudesse surgir de forma tão inesperada. Bem pelo contrário. O tom dos discursos dos cientistas e académicos era no sentido contrário. Todos acreditavam no controlo iminente das doenças infeciosas. Houve até um governante americano que chegou a defender que as Universidades retirassem os tratados sobre doenças transmissíveis! Não era aceitável a hipótese de surgir um novo vírus, uma nova doença capaz de provocar uma pandemia, como aconteceu a partir de 1980.

– Mas, Francisco, aqui na Guiné-Bissau, o que aconteceu ao princípio? Se a doença antes não existia, como foi, então, identificada? Refiro-me aos primeiros casos.

– Tem razão em formular essas questões. Foi um tempo tão inesperado e difícil. Foram meses e anos inesquecíveis. Posso dizer-lhe que aterrei em Bissau, em Outubro, de 1980, logo a seguir a ter participado em reuniões de briefing na Sede da OMS de Genebra e depois em Brazzaville. Ninguém mencionou qualquer problema preocupante. Ninguém, sublinho.

– Mas, como se apercebeu do “furacão”? Foi mesmo imprevisível? Inesperado?

– Sim, tudo o que aconteceu não foi antecipado!

– Já percebi. Mas, quais foram os primeiros sinais?

– Ao longo de poucas semanas, em 1980, registaram-se seis óbitos em adultos com diarreia prolongada, no Hospital Simão Mendes de Bissau. Ora, habitualmente, como saberá, a diarreia é perigosa em crianças e não em adultos. Eram quadros clínicos de evolução imparável até à morte. Todos apresentavam sintomatologia grave, incluindo acentuada perda de peso. Esta situação foi imediatamente comunicada pelas autoridades guineenses ao Representante da OMS, em Bissau, que era o médico espanhol Garcia Morilla, com quem trabalhei.

– O que fez ele?

– Eu entendia-me bem com Morilla. Ele falava em castelhano e eu em francês! Escreveu, logo, um telegrama a alertar a Sede como primeira medida. Na época, as comunicações internacionais seguiam por telegrama porque os telefones funcionavam mal. Por lapso, talvez porque o texto era curto demais, os serviços centrais enviaram uma especialista em diarreias infantis!

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXVIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  30 abril 2025

SOBRE ALMEIDA SANTOS EM BISSAU

Em crónica anterior já mencionei a importância assumida por Almeida Santos no processo de descolonização, visto que tinha sido nomeado ministro da Coordenação Interterritorial, em Maio de 1974.

No nosso primeiro encontro, em 1989, quando o conheci, em Bissau, orientei o tema principal de conversa para o reconhecimento da Independência da Guiné-Bissau porque estávamos a falar sem qualquer assunto previamente agendado.

Cedo percebi que Almeida Santos gostava de relatar a evolução das reuniões havidas com os líderes do PAIGC, ao longo de três rondas negociais. A perspetiva era encontrar uma solução consensual para o reconhecimento de jure do novo Estado soberano. Recordava os pormenores das sucessivas conversações até à assinatura do Protocolo do Acordo, em Argel, a 26 de Agosto. Tinham passado, apenas, pouco mais de três meses sobre a tomada de posse do I Governo Provisório.

Mais tarde, em 2006, Almeida Santos viria a escrever e publicar em dois volumes os seus testemunhos a que chamou “Quase Memórias”, editados pela Casa das Letras/Editorial Notícias.

Mas, voltando aos nossos diálogos em Bissau.

A certa altura da conversa, Almeida Santos pergunta-me:

– Então, que faz por aqui?

– Olhe, como sou médico especialista em Saúde Pública, depois de ter estado como consultor em Xangai, no Verão de 1980, resolvi concorrer a um lugar permanente da OMS. Aqui estou eu a coordenar os programas de cooperação internacional financiados pela Região Africana de Brazzaville e, também, por Genebra, como acontece com a SIDA. A faina é difícil, mas gosto.

– Tem apoio de Portugal?

– Sim. Muito. A cooperação bilateral é importante e isso deve-se, em grande parte, ao seu trabalho como ministro. Tenho gosto em dizer-lho. A forma como Portugal reconheceu a soberania da Guiné-Bissau foi sábia. Aquilo que me contou já eu sabia pelos combatentes do PAIGC que agora governam este país.

– E os guineenses que dizem da sua condição de ser português?

– Acolhem-me com afeição. Nunca senti qualquer discriminação. Bem pelo contrário, tenho aqui amigos para a vida. Convivemos em almoços e jantares ao fim de semana. Viajamos para acamparmos nas praias de Varela ou nos Bijagós. Muitos deles estiveram a combater no mato e agora são ministros…

– Trabalham bem em conjunto?

– Trabalhar com guineenses é entusiasmante. A população das tabancas participa!

Ao fim de duas horas, visivelmente regozijado com as minhas respostas, marcámos novo encontro. Acertámos a hora. Prometi que contar-lhe-ia  como foi identificado o início da pandemia da SIDA.

– Ó Francisco, combinado. Falaremos amanhã à beira da piscina para sentirmos este magnífico Sol de África.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  23 abril 2025

SOBRE ALMEIDA SANTOS

Tal como escrevi em crónicas anteriores, os desenhos de Álvaro Cunhal, aqui publicados, foram oferecidos, por ele mesmo, ao seu conterrâneo António Almeida Santos (1926-2016), no final das reuniões do Governo que os dois integraram em 1974 e 1975. Mais do que o valor artístico que exibem, é o simbolismo que esses traços representam que justificou a sua divulgação. Foi a filha mais velha de Almeida Santos, cuidadora do património documental deixado por seu pai, que me fez chegar cópias digitalizadas dos originais que cuidadosamente preserva. Ainda bem que assim calhou pelo indiscutível interesse público em proporcionar a sua difusão mais ampla, nestas páginas.

Como se sabe, Almeida Santos marcou a política portuguesa, primeiro como democrata líder da Oposição em Moçambique e depois, já em Lisboa, a partir de Abril de 1974, como dirigente do Partido Socialista, governante e Presidente da Assembleia da República.

A sua vida assumiu aspetos cativantes que conheci, atendendo à proximidade que mantive com ele. Encontrei-o, pela primeira vez, em Bissau, em novembro de 1989. Na altura, eu residia na capital guineense, onde era médico da Organização Mundial da Saúde e Almeida Santos aí estava de visita oficial. No seu hotel, à margem da agenda protocolar, conversei com ele sobre temas que procurei orientar porque sabia do seu percurso no Governo. Forcei, por isso, como principal foco do nosso diálogo, assuntos relacionados com o processo de descolonização, visto que Almeida Santos tinha sido ministro com essa pasta durante os governos provisórios. Naturalmente, a minha atenção estava centrada nas etapas que envolveram a Guiné-Bissau. A Independência fora, unilateralmente, autoproclamada a 24 de Setembro de 1973, nas Colinas do Boé, ainda no tempo de Marcelo Caetano, mas logo reconhecida por 80 países. No plano jurídico, portanto, a questão assumia uma dimensão distinta das outras colónias. O meu interesse era compreensível porque sabia a versão dos dirigentes do PAIGC contada por eles próprios em repetidos convívios de amigos, havidos em minha casa, desde que eu chegara a Bissau, em Outubro de 1980. Porém, com Almeida Santos, seria possível perceber o outro lado. Aproveitei ao máximo a ocasião. Segui com imensa atenção os seus relatos. Notei a estima que tinha pelos líderes dos guerrilheiros, designadamente Aristides Pereira, Luís Cabral e Pedro Pires. Ao mesmo tempo, Almeida Santos reconhecia o imprescindível apoio do MFA. Disse-me que admirava Costa Gomes pelo equilíbrio inteligente como conduziu a descolonização e que discordava da forma como certos setores políticos, mesmo do seu Partido, o criticavam.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  16 abril 2025

SOBRE CONSTRUIR

Reproduzo aqui outros cinco desenhos que Álvaro Cunhal elaborou durante as prolongadas sessões do Conselho de Ministros de 1974 e 1975. Tal como já escrevi, na conclusão das reuniões, na hora de arrumar documentos e anotações de cima da mesa, Cunhal tinha o hábito de entregar a António Almeida Santos, que se sentava a seu lado, alguns dos desenhos que costumava fazer. Traços simples de esferogáfica, em pequenas folhas de papel, mas que Cunhal não inutilizava na limpeza final do seu lugar, talvez por considerar que estavam bem conseguidos. Oferecia por cortesia genuína? Por mera simpatia?

          

     

Curiosamente, ambos tinham intensas ligações familiares a Seia. Eram praticamente conterrâneos, uma vez que o pai de Álvaro era senense e Almeida Santos nascera na aldeia de Cabeça, naquele mesmo concelho, em 1926. Os dois juristas, separados por 13 anos de diferença de idades, tinham sido nomeados para integrarem o I Governo Provisório, liderado por Adelino Palma Carlos, a 16 de Maio de 1974. Terão, certamente, tido conversas sobre as respetivas origens associadas à Serra da Estrela, além dos pequenos desenhos que trocavam. Mas, o primordial interesse comum que os ligava era a solução política justa e rápida para o problema da Guerra Colonial e a descolonização, mesmo antes do termo do mandato da Assembleia Constituinte. Desígnio partilhado pelos dois, sublinho. Trabalharam juntos nesse sentido.

Na altura, no período dos sucessivos governos provisórios, foi importante terem sido cumpridos os principais objetivos estratégicos do Programa do Movimento das Forças Armadas.

Nesse tempo, sucederam-se acontecimentos que pareciam contraditórios, mas que afinal acabariam por ser conciliáveis e indispensáveis no processo de construção democrática. A este propósito, não esqueçamos que, em poucos meses, Portugal registou dois presidentes da República, três primeiros-ministros, seis governos provisórios, duas eleições gerais (Constituinte e Legislativa) e o reconhecimento da Independência das antigas colónias.

Agora, ao olhar para trás, admitamos que, apesar de imensas dificuldades, o fim da Guerra e a proclamação de novos Estados livres, eram inadiáveis. Mais de 150 anos depois do Brasil, era preciso substituir o antigo Império pela Cooperação entre países.

Considero, assim, que não podemos ignorar o sucesso das políticas públicas dessa época e dos respetivos protagonistas. Ao longo de linha temporal marcada por justificadas intranquilidades e incertezas, houve construção.  Sim, construiu-se um outro país. Melhor.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com