Opinião Pessoal LXVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”  9 abril 2025

SOBRE AVELINO CUNHAL

Como já sublinhei, Avelino Cunhal (1887-1966) distinguiu-se como jurista, advogado, professor, escritor e pintor. Nascera na Beira Alta, em Seia, implantada na vertente ocidental da Serra da Estrela, “perdida nas abas de uma grande serra no coração do país” como o próprio Cunhal escreveria sobre a localização da “sua” vila imaginária que batizou de “Senalonga”.

É precisamente esse o nome do livro que viria a publicar, em 1965. Li-o logo.

Desenho de Álvaro Cunhal

Inesquecível. Aí, Avelino descreve episódios da política local passados, ainda, durante a Monarquia, na viragem do século XIX para o XX, na época em que os governos se sucediam em invariável rotativismo. Então, alternadamente, o sistema colocava no poder, ora representantes do Partido Regenerador (liderado por Ernesto Hintze Ribeiro) ora do Partido Progressista, chefiado por José Luciano de Castro. O primeiro, com tendência mais conservadora do que o outro.

A nível municipal, em Senalonga, essa alternância repetia-se. Espelhava-se na composição da Câmara. Atingia, muitas vezes, aspetos caricatos que refletiam o imenso atraso social da vida mundana provinciana. A democracia era apenas aparente, uma vez que estava circunscrita ao rodopio de protagonistas que ocupavam, revezadamente, as cadeiras de vereadores em função das ações de propaganda conduzidas por galopins e caciques locais. Até podia acontecer que melhoramentos públicos inaugurados por uma vereação fossem derrubados pela seguinte devido à coloração política diferente…

No mesmo ano (1965), também fiquei encantado com o outro livro que Avelino editou: uma coletânea de três peças para teatro que escrevera, vinte anos antes, sob o pseudónimo de Pedro Serôdio.  Recordo-me que leitura de cada peça gerava intensa emoção até momento do cair do pano. Com surpresa, para mim mesmo, aprendi a gostar de ler teatro.

Como escrevi em crónica anterior, Afonso Costa nasceu, igualmente, em Seia. Conterrâneo e contemporâneo de Avelino Cunhal (apesar de pertencerem a gerações distintas) o carismático estadista da República é, desde agora, o patrono do Centro de Interpretação que foi recentemente inaugurado.

Além de Afonso Costa e de Avelino Cunhal, foi, também, no concelho de Seia que viria a nascer António Almeida Santos (1926-2016). Em 1974, como se sabe, integrou o I Governo Provisório juntamente com Álvaro Cunhal.  Sentados lado a lado, trocavam conversas e desenhos que faziam durante os conselhos de ministros. No final de uma dessas longas reuniões, Cunhal ofereceu a Almeida Santos o desenho de uma mulher de capucho na cabeça que aqui é divulgado.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 2 abril 2025

SOBRE AVELINO CUNHAL

No terceiro ano do ensino liceal fui aluno de Avelino Cunhal no Colégio Valsassina. Foi o professor que mais marcou a minha formação cívica por razões que tentarei esclarecer. Na altura, eu era ainda um adolescente de 13 anos de idade. Nas suas aulas comecei a perceber a importância da História e da Filosofia no processo de aprendizagem geral. Conhecer as teorias filosóficas ajudava-me a organizar a inteligência.

Um dia, durante o intervalo, procurei Avelino Cunhal no gabinete dos professores para dizer-lhe que tinha sabido, pelo meu Pai, que o seu filho conseguira, com êxito, fugir da prisão de Peniche, onde estava há mais de 10 anos. A conversa havida foi, para mim, uma emoção inesquecível.  Ao toque da campainha iniciámos, eu a seu lado, o regresso pela escada de acesso à sala de aula. Com a mão por cima do meu ombro, subimos juntos. Pressenti a sua satisfação pela minha ação solidária.

Até ao sétimo ano, véspera da minha entrada na Faculdade, acompanhei-o sempre que possível. Fora das aulas Avelino falava pouco, mas era um gosto estar perto a ele.

Avelino era uma figura distinta que tinha, naquele tempo, 73 anos.  Nascera em Seia, em 1887. Conterrâneo de Afonso Costa (1871-1937), durante a I República foi governador civil da Guarda (1922). Em 1924, mudou-se para Lisboa onde fez advocacia, antes de ser professor.

Como escritor e pintor, Avelino viria a destacar-se no Movimento Neorrealista que, desde cedo, integrou. As suas obras, quer literárias quer de pintura, retratam a vida de trabalhadores são profundamente humanitárias.

Em 1965, Avelino Cunhal publicou dois livros: “Senalonga – pequenas histórias de uma vila em 1900” e uma peça para teatro. Li-os de uma assentada. O primeiro, uma coletânea de contos no final da Monarquia e o outro sobre uma empregada doméstica que é acusada de ter roubado a dona da casa.

Avelino morreu em Fevereiro de 1966. Estive presente no Alto de S. João. Foi enterrado, sem acompanhamento religioso e em cova simples, em zona quase inacessível do cemitério. Minutos depois da urna ter chegado ao terreiro interior da entrada, uma camioneta com grua descarregou uma enorme coroa de flores enviada pelo seu filho Álvaro.

Seguramente, Avelino teria tido um palco ainda mais relevante se não tivesse sido encoberto pela exposição pública de seu filho Álvaro (1913-2005).

Em 2005, voltei ao Alto S. João para acompanhar o cortejo fúnebre de Álvaro Cunhal. Uma jornalista que cobria a marcha, ao reconhecer-me no meio da imensa multidão, perguntou-me:

– Por cá, também?

– Olhe, estive aqui há 40 anos pelo pai e agora estou pelo filho, respondi.

Julgo que não terá percebido a minha resposta.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 26 março 2025

A partir de agora, as crónicas das quartas-feiras passarão a narrar acontecimentos que testemunhei ou que me foram relatados por fontes credíveis que serão identificadas. Assim decidi porque guardo na minha memória episódios que considero terem um certo interesse público. Deixam de ser lembranças exclusivamente minhas para passarem a atingir uma dimensão mais vasta.

Hoje, descrevo as manifestações, em Lisboa, que tiveram início a 28 de Abril de 1931 que celebraram a proclamação da República de Espanha. Nesse tempo, meu Pai, Carlos George, estudava na Faculdade de Medicina, ao Campo de Santana. Juntamente com outros colegas da Associação de Estudantes participou na iniciativa de desfraldar uma bandeira vermelha no mastro da varanda principal do imponente edifício da Faculdade em sinal de solidariedade à República em Espanha que tinha sido proclamada a 14 de Abril, no seguimento da vitória eleitoral dos republicanos que levou à fuga do rei Afonso XIII de Bourbon. Ora, este gesto de hastear uma bandeira vermelha deu origem a grandes polémicas nos meios conservadores. O evento foi considerado como prova da indisciplina que reinava no país e que refletia uma iminente catástrofe que se avizinhava.

Portugal, na altura, era governado por Domingos de Oliveira (1873-1957) que enfrentava uma frágil situação política marcada por forte instabilidade, agravada por inúmeros problemas sociais (68% da população era analfabeta).

Mas, 1931, era a época das pesquisas científicas de Egas Moniz que, simultaneamente, desempenhava as funções de Presidente da Faculdade. A 30 de Abril desse ano, Egas acabaria por ser detido na cadeia do Limoeiro na sequência da “crise” da bandeira vermelha hasteada na sua faculdade e das manifestações que se seguiram. Essa detenção, embora por pouco tempo, foi resultado da firme recusa de Egas Moniz em obedecer ao ministro da Instrução Pública que pretendia que a polícia fosse chamada a intervir pelo próprio Presidente da Faculdade. Apesar da recusa de Egas, as forças policiais entraram brutalmente na Faculdade, provocando aparatosos alvoroços.

Carlos George contava o evento da bandeira com visível satisfação. Para ele, era exemplo de audácia e irreverência, mas também de coragem, características das lutas estudantis. Não escondia o orgulho em ter participado na sua organização. Costumava dizer que a Associação de Estudantes era um ambiente ímpar de democracia pura.

Salazar que era, então, ministro das Finanças de Domingos de Oliveira, no ano seguinte viria a substituí-lo como Presidente do Conselho. Ajudou Franco a fazer cair a República, com imenso sangue, oito anos depois do içar da bandeira vermelha na Faculdade.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 19 março 2025

Como se sabe, a coluna semanal que aqui assino só raramente examina assuntos de política nacional. Porém, hoje, já a frio, proponho uma reflexão sobre a essência dos acontecimentos ocorridos que precipitaram o fim da Legislatura, a 11 de Março. Mas, por decisão do Governo a rejeição da moção de confiança poderia ter sido evitada se, antes da sua votação, tivesse sido retirada.

Não irei comentar os argumentos, nem declarações, então, proferidas pelos protagonistas políticos tanto do Governo e como da Oposição. Também não escreverei sobre o conteúdo dos discursos pronunciados a quente.

Na minha opinião, muitas das posições assumidas são eticamente inaceitáveis.

Ora, é precisamente sobre a dimensão Ética da crise que irei sintetizar alguns elementos para a sua compreensão.

A esse respeito, sublinho que em termos etimológicos, Ética tem origem no grego: êthê, costumes. Estamos, assim, no domínio da maneira de viver de cada um de nós, tendo em atenção que cada pessoa distingue, pela razão, a maneira de viver como certa ou errada.

Realço que o conceito de Ética remonta à Grécia Antiga. Foi, primeiramente, apresentado por Aristóteles (384 aC – 322 aC) e depois estudado por muitos pensadores ao longo da História até à atualidade.

Como ensinou o nosso Antero de Quental (1842-1891) a política é o instrumento da justiça social, mas, mais que tudo, a política tem que ser julgada como moral pelo senso comum da generalidade dos cidadãos. Por outras palavras, é preciso que todos julguem a ação política como moral. Isto é, que as respetivas normas de conduta sejam socialmente aceites nos planos da honestidade, do respeito por outros e da responsabilidade.

A honestidade envolve a verdade como sendo oposta do falso, mas não do erro.

Já no que respeita à responsabilidade, o filósofo inglês Bertrand Russel (1872-1970) insistia que as pessoas, em geral, são mais exigentes em relação aos titulares que exercem cargos políticos eleitos do que, por exemplo, em comparação com aos operários. As ações conduzidas por um ministro ou por um operário não são classificadas da mesma maneira. A responsabilidade exigida a um e a outro é diferente. É, por isso, dever dos políticos a observação da Ética, entendida como “o modo certo de viver”.

Afinal, reconheçamos, que o juízo ético de cada pessoa sabe distinguir os modos de viver, identificando uma prática moral da imoral; a atuação certa e errada; o bem do mal; o bom do mau. Ou, dito de outra forma, mesmo na ausência de qualquer ilegalidade ou de não ter havido crime algum, nem sequer um ilícito contraordenacional, a população sanciona todos que faltam à Ética, sobretudo se for um governante. Inevitável.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LXII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 12 março 2025

Como se sabe, os sucessivos governos de Salazar e de Caetano tinham como marca comum a autocracia traduzida pela ausência de liberdades essenciais. Era a época do partido único, da repressão, da censura e da perseguição aos democratas.

Em 1974, depois de Proclamada a Liberdade, todos reconheciam que era preciso prevenir a repetição daquele tempo. Era absolutamente inimaginável que voltasse a acontecer. Nunca mais.

Ora, como a Constituição da República foi aprovada dois anos depois da queda do regime, compreende-se que os deputados à Constituinte tenham adotado mecanismos preventivos que foram explicitamente afirmados no articulado constitucional. Foi neste âmbito que foram aprovados amplos direitos, liberdades e garantias pessoais, aliás com aceitação social indiscutível. Sublinho, que foram medidas compreensíveis em 1976, mas, hoje, inaceitáveis, sobretudo porque impedem a concretização de operações de Saúde Pública que visam controlar a propagação de doenças transmissíveis. Refiro-me à imposição de quarentena, cerca sanitária, impedimento de circular em espaços públicos ou de internamento hospitalar obrigatório.

Preciso.

O número 2, do artigo 27º da Constituição estipula que “ninguém pode ser total ou parcialmente privado da liberdade”. Mas, a alínea h), do número 3, do mesmo artigo, determina como exceção a este princípio o “internamento de portador de anomalia psíquica em estabelecimento terapêutico adequado, decretado ou confirmado por autoridade judicial competente”.

Por outras palavras, à luz da Constituição é possível internar um doente do foro psiquiátrico, mesmo contra a sua própria vontade, mas, pelo contrário, um doente com uma doença transmissível grave apenas poderá ser tratado se assim quiser.

A título de exemplo, realço que uma pessoa infetada com tuberculose ativa multirresistente aos medicamentos, só será hospitalizada com o seu consentimento prévio. Voluntariamente. Até pode utilizar transportes públicos como o metropolitano sem qualquer proteção e, portanto, colocar em risco outros passageiros, sobretudo quando as carruagens estão repletas de gente nas horas de ponta.

Será que esta situação anacrónica não merece ser corrigida?

Visto que a Constituição só poderá ser revista pelos deputados da Assembleia da República são eles que terão de desfazer, rapidamente, este contrassenso porque outra pandemia poderá surgir, sendo certo que a prevenção do contágio da infeção poderá necessitar de ações de quarentena e internamento imposto.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

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Opinião Pessoal LXI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 5 março 2025

Volto aos cinco anos, agora passados, sobre o início da Pandemia Covid-19.

Como se sabe, as ações de controlo, a nível global, foram coordenadas pelo Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom e, em Portugal, pela ministra Marta Temido.

Entre nós, as decisões tomadas pelo Governo e as múltiplas atividades implementadas quer pelos setores público, social e privado quer pelos diferentes departamentos do Estado foram determinantes para reduzir e prevenir a propagação da epidemia. Neste âmbito, a participação ativa da população foi considerada absolutamente essencial. Mesmo extraordinária.

Sem a magnifica harmonia havida entre Estado e População as consequências teriam sido mais dramáticas, em todas as dimensões, incluindo no que se refere à mortalidade que, seguramente, teria ultrapassado, em muito, os  cerca de 29 mil óbitos verificados.

As medidas, então, adotadas para dominar as cadeias de transmissão da Covid-19 foram socialmente compreendidas e aceites pela generalidade das pessoas como resultado das adequadas ações de comunicação que foram marcadas pela rapidez da informação, pela verdade e pela consistência. Por isso, contribuíram para elevar a confiança na “seu” Ministério da Saúde. Neste processo, é preciso realçar a indiscutível qualidade dos jornalistas e dos órgãos de comunicação.

Por outro lado, durante as conferências do INFARMED, a presença conjunta de titulares de cargos políticos e de especialistas da DGS e do Instituto Ricardo Jorge reforçaram a credibilidade das ações preventivas aconselhadas em função da evolução semanal da situação epidemiológica. Como todos reconheceram, a organização da vacinação foi excelente e, por isso, quase unanimemente aplaudida.

Hoje, passado esse grande pesadelo, interessa olhar para trás e avaliar, com independência, a conveniência e a responsabilidade, tanto das ações desenvolvidas como das omissões verificadas ao longo da Pandemia.

É indispensável que assim seja.

Por mim, a pensar no futuro próximo, insisto na necessidade urgente da revisão da Constituição no sentido de passar a ser possível aprovar uma Lei para as emergências de Saúde Pública. Essa nova Lei terá que permitir conter a propagação das doenças transmissíveis através da adoção de medidas que incluam situações de quarentena e de internamento, mas sem contrariar o estipulado no número 2 do artigo 27º: “ninguém pode ser total ou parcialmente privado da liberdade…”.  (continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

ALERTA: Comunico que a minha imagem pública tem sido abusivamente utilizada em anúncios para vender medicamentos pela internet. Sublinho que os anúncios são fraudes e que já apresentei queixa às autoridades competentes.

Opinião Pessoal LX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 26 fevereiro 2025

Passam 5 anos sobre o início da Pandemia de Covid-19 que a todos abalou.

Relembro que a sua designação foi, em Portugal, decalcada, sem retoques, a partir da expressão inglesa: covid-19. Ora, notemos que esta palavra é construída pela junção das primeiras letras de corona virus disease (doença do coronavírus) e que o sufixo 19 assinala o ano da sua emergência em 2019.

A Pandemia teve início em Wuhan, na China, que, justamente, passou a ser considerada como seu epicentro.

Qual terá sido a fagulha que viria a incendiar o mundo?

Em resposta, tentarei esclarecer o que então se passou, recorrendo aos conhecimentos científicos atuais.

Preciso.

Na viragem do ano de 2019 para 2020 surgiu, inesperadamente, uma nova infeção respiratória viral, com expressão epidémica, que começou por afetar os habitantes de Wuhan. Os cientistas chineses, desde cedo, apontaram a causa ao consumo de mamíferos exóticos, vendidos nos mercados como alimento muito apreciado pela população local. Admitiu-se, assim, a natureza zoonótica da doença que rapidamente se propagou para fora de Wuhan devido à facilidade em criar cadeias de transmissão quase imparáveis.

Admite-se que o vírus que deu início à doença humana encontrava-se primeiramente armazenado em morcegos (reservatório) e que, a seguir, infetou mamíferos silvestres que foram expostos e vendidos nas bancadas dos mercados e, portanto, em contato próximo com vendedores e compradores. Entre a comunidade científica, apesar de numerosas pesquisas, não há, ainda, unanimidade na identificação desse animal selvagem intermediário entre morcegos e pessoas. Poderá ter sido o ouriço, o rato de bambu, o pangolim (mamífero coberto de escamas) ou outro. Não se tem a certeza absoluta.

O que se sabe pela certa é que a infeção viral “saltou” desses animais tropicais para as pessoas. Logo se percebeu a sua gravidade e adivinhou-se que iria galgar as muralhas da China através dos viajantes das linhas aéreas que ligam constantemente as cidades de todo o mundo.

Perante a gravidade da situação, em 11 de Março de 2020, a Organização Mundial da Saúde declarou, formalmente, o princípio da Pandemia Covid-19. Nessa altura, já a epidemia existia, simultaneamente, em todos os continentes. A ameaça era uma realidade a nível global.

Portugal organizou-se na perspetiva de conseguir ultrapassar obstáculos e fragilidades antigas das infraestruturas de Saúde Pública. O planeamento concebido para outras situações não tinha tradução na disponibilidade de recursos e meios necessários para serem mobilizados logo em Março. (continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

PS: Alerto os leitores para a utilização fraudulenta da minha imagem em anúncios a medicamente divulgados pela internet.

Opinião Pessoal LIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 19 fevereiro 2025

Volto aos episódios guardados nas minhas memórias associadas a Campo de Ourique, onde vivi o terceiro quartel do seculo XX.

Os liceus mais frequentados pelos filhos dos residentes no Bairro eram, antes de mais, o Pedro Nunes e depois o Passos Manuel. O primeiro ficava a uma distância acessível, sem necessidade de transportes públicos e o Passos Manuel era servido pelo número 28 dos carros elétricos da Carris que saía do largo fronteiriço ao Cemitério dos Prazeres e fazia o itinerário até à rua da Conceição. Ou pagando o bilhete amarelo de 8 tostões ou pendurado atrás, os alunos liceais rapidamente faziam o percurso desde o bairro até à Calçada do Combro e de regresso, daqui para casa.

Ambos os liceus tinham sido inaugurados logo no início da República. Eram instalações modelares para a época.

Eu, aos 10 anos de idade, tinha sido colocado no Pedro Nunes e meu irmão gémeo no Passos Manuel.

Analisemos os patronos desses estabelecimentos de ensino secundário.

1. Sobre Pedro Nunes a unanimidade pelo reconhecimento da sua imensa grandeza como cientista e matemático eminente explica a decisão tomada para aplicar o seu nome ao liceu. Pedro Nunes nasceu em Alcácer do Sal, em 1502, e morreu em Coimbra aos 76 anos de idade. Foi cosmógrafo-mor e catedrático de matemática. Além de outros tratados, nomeadamente sobre navegação, em 1567, publicou a obra prima “Libro de Álgebra, Aritmética e Geometria” para ensinar a outros as suas descobertas.

2. Passos Manuel (1801- 1862) marcou a política nacional no período da Monarquia Liberal que se seguiu à aprovação da Constituição de 1822. Compreende-se que o seu nome tenha sido destinado ao liceu, uma vez que a sua ação política fora determinante na Reforma da Educação que criou o ensino liceal e que estabelecera a criação de um liceu em cada sede de distrito e dois em Lisboa (1836).

Porém, eu, ao estudar a personagem considerei muito curiosa a bizarria sobre o seu nome de batismo. Ora, ele mesmo, por sua autorrecreação, trocou o seu verdadeiro nome de Manuel Passos para “Passos Manuel”. Quando descobri o trocadilho adivinhei que iria ganhar o QUIZ a meu Pai. Assim aconteceu. No tal Sábado pela manhã meu Pai chamou os gémeos para perguntar se já sabíamos quem eram os patronos dos nossos liceus.

Foi então que perguntei:

– Ó Pai, sabe que “Passos Manuel” afinal não existiu?

– Fiquem a saber que foi um ministro do Liberalismo que reformou o nosso ensino ao estilo francês.

– Ó Pai, repare que, na altura, o seu irmão José era também deputado e acontecia uma confusão quando o Presidente do Parlamento dava a palavra ao deputado Passos. Para evitar irem os dois à tribuna, o Manuel resolveu dar a volta ao seu nome!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal LVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 12 fevereiro 2025

Nasci e vivi em Campo de Ourique. No terceiro quartel do Século XX era um bairro lisboeta extraordinário pela capacidade de produzir, em quem aí residia, um sentimento de elevada satisfação. Gerava um entusiasmo singular associado a uma profunda sensação de pertença. Habitar aí era diferente. Único.

Morávamos no número 105 da Rua Coelho da Rocha. Hoje seria um andar classificado como T9, amplamente iluminado por outras tantas janelas, além de uma varanda na dobra da esquina com a Rua Azedo Gneco. Meus pais tinham quatro filhos e uma filha. Vivíamos com alegria.

Já as anteriores gerações da família residiram no Bairro, tanto do lado paterno como materno. Meu Pai nascera no 75, também da Coelho da Rocha e minha Mãe no número 10 da Rua 4 de Infantaria, mesmo junto ao entroncamento inicial.

O Bairro tinha sido planeado ainda durante a Monarquia, mas a construção da maioria dos arruamentos, das infraestruturas e dos respetivos edifícios entraram pelo tempo da República.

No início do ensino liceal, aos 10 anos de idade, recordo que um dia, perguntei, inocentemente, a meu Pai qual era a razão da nossa rua ser chamada Coelho da Rocha, respondeu:

– Essa, Francisco, é uma boa pergunta. Todos nós devemos saber quem é o patrono que dá o nome à rua onde moramos, ou à nossa Escola ou a determinada instituição. Ora, a rua é assim chamada porque Manuel António Coelho da Rocha, que morreu há muito tempo, há mais de 100 anos, era um grande especialista em história e em legislação que a Câmara Municipal de Lisboa decidiu assim homenagear.

– Então, quem era Pedro Nunes que dá o nome ao meu liceu? E logo depois, insisti com nova questão:

– E Passos Manuel, onde anda o meu irmão João?

– São perguntas importantes, comentou meu Pai, para a seguir acrescentar:

– Estuda os dois. Vê quem foram Pedro Nunes e Passos Manuel até sábado. Pede ajuda ao teu irmão. Se acertarem podem ir sozinhos ao cinema Europa.

Ficámos encantados. Era uma boa promessa. O cinema Europa era bem perto de nossa casa. Se bem que fosse ainda o primeiro “Europa”, estava implantado no mesmo local, na esquina da Rua Francisco Metrass com a Almeida e Sousa.

Foi aqui que vimos, vezes sem conta, a primeira versão da “Música do Coração” que, na altura, se chamava “A Família Trapp” de Wolfgang Liebeneiner (1956), sobre as perseguições nazis na Áustria e o “Rio Bravo”, de Howard Hawks (1959), um Western com a lindíssima Angie Dickinson que se apaixona pelo xerife.

A verdade é que o bilhete era muito acessível e para minha Mãe representava um sossego ter lá os gémeos sentados durante duas horas. Chegava a perguntar-nos se não queríamos ir ver outra vez, apesar do filme ser o mesmo …

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com