Opinião Pessoal CXIX

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
13 maio 2026

SOBRE A CRISE DO SURTO DE HANTAVÍRUS

A propósito da epidemia de infeção respiratória grave provocada pelo Hantavírus, que foi identificada em passageiros do navio “Hondius”, é preciso reconhecer a oportuna intervenção das autoridades do Ministério da Saúde de Espanha. Um modelo de indiscutível eficácia, desde a conceção das operações necessárias de resposta à emergência de saúde pública, à rápida mobilização de meios e, também, à adoção das medidas adequadas destinadas a controlar o surto. Tudo foi bem feito. Um exemplo. As diversas ações conduzidas pelos especialistas espanhóis, baseadas em princípios científicos, mas logo apoiadas pelos políticos, foram criteriosamente aplicadas com êxito e seguidas de perto pelo Diretor-Geral Organização Mundial da Saúde.

Porém, a ter acontecido em Portugal essas atividades teriam sido bem diferentes. Tudo mais complicado. Mais difícil. Mais confuso, tanto no plano político como da organização do Estado.

Antes de tudo o mais, há que reconhecer que adoção das ações que visam o isolamento obrigatório ou a quarentena, tal como o internamento compulsivo, mesmo perante o risco iminente de contágio de doença grave, continua a não ter enquadramento legal, em Portugal. O maior obstáculo para aprovar uma nova Lei de Emergência Sanitária é o artigo 27º da Constituição da República que impõe, como regra, apenas a possibilidade do internamento obrigatório de “portador de anomalia psíquica em estabelecimento terapêutico adequado, decretado ou confirmado por autoridade judicial competente”. Ou, dito de outra maneira: a eventualidade de internamento compulsivo está constitucionalmente limitada a doentes psiquiátricos, visto que não inclui doentes com infeções contagiosas, segundo estipula, rigidamente, a alínea h), do número 3, do citado artigo.

Por esta razão não houve qualquer sucesso com as anteriores tentativas em aprovar uma lei capaz de garantir a implementação de ações de proteção da população perante ameaças de Saúde Pública. Primeiramente, há que proceder à revisão da Constituição.

Ninguém percebe as constantes hesitações dos deputados em decidirem nada fazer nesse sentido. Ainda por cima, é o artigo 284º da própria Constituição que determina: “1. A Assembleia da República pode rever a Constituição decorridos cinco anos sobre a data da publicação da última lei de revisão ordinária. 2. A Assembleia da República pode, contudo, assumir em qualquer momento poderes de revisão extraordinária por maioria de quatro quintos dos Deputados em efetividade de funções”.

Ora, assim sendo, por que esperam os 230 deputados dos diferentes partidos com assento na Assembleia da República?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXVIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
6 maio 2026

SOBRE OS MORCEGOS (II)

A propósito das frondosas mangueiras que rodeavam a minha casa de Bissau, que eram povoadas por centenas de morcegos, já aqui realcei que as fezes que eliminam, tal como a urina e a saliva, podem transmitir infeções a outros animais e a pessoas suscetíveis. Por isso, em epidemiologia, os morcegos são considerados reservatórios, uma vez que armazenam, na natureza, os agentes patogénicos, nomeadamente uma multiplicidade de vírus.

São grandes as diferenças da envergadura e corpulência de morcegos pertencentes às várias espécies existentes nos cinco continentes, mas estou certo que não serão animais especialmente simpáticos, nem atraentes, nem “fofinhos”. É verdade. Mas, o pior é a ameaça que podem representar para a nossa própria saúde pelo papel que desempenham como reservatório natural de infeções emergentes de origem zoonótica.

Preciso.

Ora, é fácil admitirmos que os frutos daquelas árvores habitadas por morcegos possam ficar contaminados, durante o dia, pelas suas secreções e excreções. Suponhamos que esses mesmos frutos são, a seguir, comidos, por exemplo, nas zonas tropicais, por macacos e outros animais ou, consumidos por pessoas, mas sem serem previamente lavados nem descascados. Imaginemos que esses animais, depois de terem ingerido frutos contaminados, contactam diretamente ou são fonte alimentar de seres humanos… Ou, dito de outra maneira: nessas hipotéticas situações, há doenças infeciosas que poderão ser transmitidas, por via indireta, a partir de morcegos. Esta é, muitas vezes, a génese de certas doenças virais: infeções respiratórias provocadas pelos coronavírus, gripe, Ébola, Marburgo, encefalites, etc.

O conhecimento destes assuntos interessa a turistas, particularmente para os países asiáticos, sobretudo em regiões rurais e exóticas, na perspetiva de poderem evitar comportamentos de risco. São situações reais, que devem ser faladas, visto que não há vacinas para estas doenças.

Recentemente, investigações científicas conduzidas por virologistas confirmaram que os morcegos continuam a representar ameaças preocupantes para a Saúde Pública a nível global. Há sinais de alerta que exigem vigilância e medidas de prevenção, visto que podem originar doenças graves e a ocorrência de epidemias (incluindo de expressão pandémica).

Eis uma questão que importa a viajantes. Na Índia e no Bangladesh, partir de 2001, verificaram-se sucessivas epidemias de encefalite humana provocadas pelo vírus Nipah transmitido pelo consumo de frutos contaminados pelos excrementos de morcegos. Ainda por cima, suspeita-se da possibilidade da formação de cadeias de transmissão pessoa a pessoa.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXVII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
29 abril 2026

SOBRE OS MORCEGOS. UMA AMEAÇA INESPERADA.

As enormes árvores frondosas da rua onde eu residia em Bissau eram fantásticas, não só pelo porte gigantesco, pelo tom verde permanente, mas, sobretudo, porque protegiam a minha casa dos intensos raios solares tropicais. A sombra fresca era quase permanente ao longo do dia. Mas, mais do que isso, os seus frutos eram magníficos: deliciosas mangas da Índia. Havia, porém, um senão! Ao anoitecer, quando os morcegos que as povoavam acordavam, ouvia-se uma algazarra, perturbadora, provocada pela disputa dos frutos. Era uma gritaria que incomodava quem por ali passava por perto. Depois, repentinamente, começavam a esvoaçar e saíam em bandos pelo céu escuro. Era o início da vida noturna dos morcegos.

Aos meus filhos ensinava, então, que eram animais pacíficos, mamíferos com asas e que nada havia a temer pela proximidade deles.

Ora, como a verdade não é bem a que relatava nessa época, resolvi escrever, hoje, sobre morcegos à luz dos atuais conhecimentos. Nos últimos anos, no âmbito de pesquisas conduzidas por especialistas em biologia, virologia e epidemiologia sucederam-se descobertas, cientificamente comprovadas, que motivam, afinal, justificado desassossego.

Antes de tudo, lembremos que os morcegos são os únicos mamíferos verdadeiramente voadores. Vivem em todos os continentes. Pertencem à ordem dos quirópteros, designação com origem no grego antigo: cheir (mão) e pteron (asa), indicando que as mãos têm asas (membranas alares).  Os quirópteros subdividem-se em 21 famílias, 237 géneros e em centenas de espécies diferentes (quase 1500). Distinguem-se pela corpulência que apresentam, pelos locais que habitam e pelo tipo de alimentação. Há espécies que se alimentam de insetos (cerca de 70%) e outras de frutos (como no caso da minha casa de Bissau). Apenas três por cento são hematófagas.

A este propósito, os biólogos e os ambientalistas realçam a ação benéfica dos morcegos, uma vez que assumem em diversos ecossistemas uma importância principal na dispersão de sementes, na polinização e na redução da densidade populacional de insetos noturnos (pela respetiva atividade predadora).

Mas, em sentido contrário, os virologistas apontam graves riscos para a saúde humana associada aos morcegos porque podem ser o reservatório de numerosos agentes patogénicos, nomeadamente dos vírus da gripe, entre muitos outros. Como reservatório de vírus, além de permitirem a sua sobrevivência na natureza, também os transmitem a outros hospedeiros suscetíveis, através da eliminação das fezes. Os cenários reias que protagonizam, já demonstrados, constituem motivo de preocupação.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Construir Bases (1)

A Saúde Escolar, como área principal em Saúde Pública, está associada aos trabalhos desenvolvidos por Fernanda Navarro. Era o tempo da Direção-Geral da Saúde de Arnaldo Sampaio, mas também de Lopes Dias, Manuela Santos Pardal, Celsa Carvalho, Purificação Araújo, Emílio Imperatori e Amélia Leitão. Construiriam alicerces robustos, que ainda resistem. Têm que resistir.

As normas que então fabricaram implicavam a intervenção de equipas constituídas por médicos, enfermeiros e técnicos de saúde ambiental. Planeavam e concretizavam ações de prevenção primária e secundária em ambiente escolar com envolvimento de alunos, professores, mães e pais. Todos comprometidos.

Fernanda Navarro nasceu em Bragança, em 1932, antes de terminar o curso de Medicina na Faculdade do Porto foi professora primária. Apesar de especialista em Anestesiologia, optou pela Saúde Escolar, que viria a marcar a sua vida de médica, tanto na Direção-Geral da Saúde como na Escola Nacional de Saúde Pública. Nesse sentido, desenhou planos de intervenção que previam a participação dos setores da Saúde e da Educação. No domínio estratégico, considerava que a concertação de políticas públicas dos dois ministérios era primordial. A Saúde Escolar ergueu-se como um processo incessante destinado a elevar os níveis de literacia e de educação para a saúde de toda a população.

Fernanda Navarro liderou equipas. Ensinou gerações. Uma vez jubilada, regressou a Trás-os-Montes. Vive em Vila Real.

Lisboa, Primavera de 2026
Francisco George


(1) Texto escrito no âmbito das celebrações dos 125 anos da Saúde Escolar em Portugal (DGS).

(2) O autor do testemunho, ora publicado, frequentou, em 1977, a Escola Nacional de Saúde Pública.

O Outro Portugal Antes da Constituição de 1976 (1)

Antes de 1974, Portugal era outro. Um país muito diferente.

Apenas as coordenadas da latitude e longitude eram as mesmas e as fronteiras iguais, tal como as inalteráveis características próprias da geografia física. Tudo o resto era desigual. A cor cinzenta predominava. As pessoas não tinham motivos para sorrir. A falta de confiança no futuro era geradora de um estranho sentimento de insegurança que imperava na grande maioria das famílias.

A ruralidade da população, associada ao elevado analfabetismo, a par das altas taxas de pobreza, de mortalidade infantil e de desemprego traduziam o resultado das políticas autoritárias e retrógradas de António Oliveira Salazar.

Os portugueses viviam ostracizados no seu próprio País. Não tinham acesso à informação livre devido à censura imposta pelos serviços governamentais. Emissões de rádio, televisão, edições de livros e a publicação de jornais, tal como o cinema e o teatro, tudo era previamente censurado em nome de uma moral oficial.

Era o tempo da emigração a “salto” para França e Alemanha à procura de uma vida melhor.

Ora, é o depoimento de testemunhos dessa época que agora se divulga ao estilo de relatos de episódios então vividos. Nestes termos, Francisco descreve retratos sociais e políticos focados nos acontecimentos que ele mesmo testemunhou entre 1957 e 1974.

Francisco, filho de Isabel e Carlos, nasceu em Lisboa, a 21 de Outubro de 1947, cinco minutos depois de seu irmão gémeo. Isabel era filha de um comerciante republicano que tinha, em 1910, combatido na Rotunda e Carlos, descendente de ingleses, era médico do Hospital de Santa Marta, com ligações à Oposição e, por isso, considerado “desafeto ao regime”. (2)

Para Francisco, Campo de Ourique (Lisboa) era uma referência.  Aí tinham raízes os avós (maternos e paternos), o pai, a mãe, os tios, os irmãos e os primos. Todos vizinhos uns dos outros, moravam entre a Rua a Coelho da Rocha e a Rua 4 de Infantaria. Cultivavam o bairrismo centrado no Jardim da Parada. Francisco viveu aqui a sua infância com o gémeo e outros dois irmãos mais velhos e uma irmã mais nova.

Na dimensão política, as suas recordações começam aos 11 anos de idade com a campanha de Humberto Delgado nas eleições presidenciais de 1958. Na altura, ele e o irmão mais velho percorriam, à noite, as ruas do bairro para colarem pequenas tarjetas com a fotografia do General nas paredes e nas vitrinas das montras das lojas. Eram cartazes em miniatura, de papel tipo jornal, que mediam aproximadamente 11 por 6 cm. Tinham grandes vantagens pela facilidade em serem escondidos, transportados e colados e, também, porque os efeitos obtidos eram espetaculares pela grande visibilidade conseguida depois de expostos. Foi desta maneira que Humberto Delgado ocupou, desde então, um lugar de destaque e até de inspiração orientadora na mente e nas ações que Francisco desenvolveu na altura. Representou, para ele, uma espécie de primeiro sentimento de adesão às lutas democráticas.

No ano seguinte, em 1959, Francisco e o irmão gémeo, pela mão da mãe, foram visitar o tio Rui, que estava preso em Caxias. Foram de comboio até à estação e depois percorreram a pé um trilho que acabava junto à entrada principal da prisão. As conversas havidas no parlatório e no regresso constituíram uma lição prática sobre pessoas boas e más. A grande preocupação de Isabel era explicar a seus filhos que o seu irmão Rui era bom e que Salazar era mau.

Mais tarde, a preocupação manifestada por Isabel sobre o binómio bom/mau viria a ser melhor compreendida quando Francisco leu Antero de Quental, nomeadamente as equações descritas na célebre carta de 30 de Junho de 1871 endereçada ao Chefe do Governo. Para Antero, tanto a consciência individual, como o senso comum, distinguem o comportamento moral do imoral, do mesmo modo que caracterizam as diferenças:  certo/errado; bem/mal; bom/mau.

No seguimento da visita a Caxias, Francisco, aos 12 anos de idade, começou a perceber que Portugal era dominado por uma Ditadura e que estava social e economicamente atrasado em relação a outros países europeus. Não demorou, no plano ideológico, a colocar-se ao lado da Oposição, apesar de adolescente. Concluiu que era necessário mudar o rumo do País e que, para tal, a mudança de governação era necessária. Para ele era um dever dedicar tempo e ações ao interesse público, nesse sentido.

Continuaria a receber sucessivos esclarecimentos sobre o conceito e a construção da democracia.

Carlos, pai de Francisco, costumava dar como exemplo o sistema inglês, onde o chefe da Oposição tinha direitos oficiais, em termos de protocolo de Estado, e era remunerado para criticar o Governo no Parlamento. Dizia, referindo-se aos membros da House of Commons:

– Em Inglaterra, os membros da Oposição recebem salários para serem deputados e cá são perseguidos e presos!

Mas, curiosamente, Carlos ora mencionava o exemplo inglês que conhecia bem, uma vez que a sua família era inglesa, ora defendia a política da então URSS que, igualmente, admirava. Citava com frequência a vitória do Exército Vermelho em Berlim, em Maio de 1945 e a conquista do espaço protagonizada primeiro pela entrada em órbita da cadela Leika, a bordo do Sputnik 2 (1957) e depois por Iuri Gagarin, no Vostok 1 (1961).

Carlos, era, sobretudo, um adversário de Salazar que acusava de impedir o progresso do país e de oprimir os povos africanos nas colónias. Juntava sempre as duas componentes. Estudou na Faculdade de Medicina, ao Campo de Santana, onde conhecera Álvaro Cunhal que frequentava, ali mesmo ao lado, Direito. Tinham exatamente a mesma idade, ambos nasceram em 1913. Ambos foram representaram os estudantes no Senado Universitário e participaram ativamente no movimento associativo estudantil.

No dia 28 de Abril de 1931, estudantes de medicina (nomeadamente Carlos e o seu amigo Vasco Urpina) hastearam uma bandeira vermelha no mastro da varanda principal do imponente edifício das Ciências Médicas, ao Campo dos Mártires da Pátria, em manifestação de solidariedade à Proclamação da República em Espanha. Esta ação da bandeira vermelha deu origem a grandes polémicas.  Nos meios conservadores (incluindo no seio da Academia) o evento era considerado como mais um sinal da indisciplina que reinava no país e da iminente catástrofe que se avizinhava.

Era o tempo das pesquisas científicas de Egas Moniz que, simultaneamente, desempenhava as funções de Presidente do Conselho da Faculdade. Foi assim que a 30 de Abril desse ano (1931, Egas acabaria por ser detido na cadeia do Limoeiro na sequência da bandeira vermelha ter sido içada e das manifestações estudantis que tiveram lugar na sua Faculdade. Essa detenção, embora por pouco tempo, terá sido associada à firme recusa em obedecer ao ministro da Instrução Pública para que a polícia fosse chamada a intervir. Apesar disso, as forças policiais entraram brutalmente ma Faculdade. Carlos contava a seu filho Francisco o episódio da bandeira com visível satisfação. Para ele era um exemplo de audácia e irreverência, mas também de coragem, que são próprias das lutas estudantis. Não escondia o orgulho em ter participado na sua organização.

A carreira médica de Carlos, centrada em Lisboa e a ida de Álvaro Cunhal para a Guerra Civil de Espanha e para a luta clandestina explicam a separação dos dois. Só em 1975 voltariam a conversar por iniciativa de Agostinho Neto que os convidou para a festa da Independência, em Luanda. Conversaram longamente no “Hotel Presidente” da capital angolana. Mas, Álvaro, ao contrário de Carlos, não gostava de reviver o passado. Manteve uma postura mais “fria” durante o reencontro dos dois.

Voltando aos anos 1950 / 1960.

Francisco, recorda-se da impressão deixada pelas primeiras imagens emitidas pela RTP a preto e branco que têm lugar em 1958. Nesse ano ocorreram as explosões da erupção do Vulcão dos Capelinhos no Faial que foram captadas pela televisão, então recém-inaugurada.

Nesse ano, Humberto Delgado, General da Força Aérea, reuniu o consenso das diferentes alas oposicionistas para disputar a eleição presidencial com Américo Tomás. Aconteceu, porém, que os resultados oficiais não terão refletido a verdade das urnas. Delgado, muito justamente, sempre reclamou a vitória eleitoral. Optou, a seguir, por conduzir a luta contra Salazar de forma mais radical na clandestinidade.

Pouco tempo passado, depois da “vitória” de Américo Tomás, o Estado Novo de Oliveira Salazar seria abalado por sucessivas crises que marcam a História de Portugal dos anos 60, da segunda metade do século XX. Apesar dos sucessivos insucessos, as iniciativas para derrubar Salazar foram amplamente difundidas pela Imprensa mundial, aumentando o repúdio internacional em relação à Ditadura Portuguesa e à política repressiva do regime de Salazar, tanto a nível doméstico como colonial.

Logo no início de Janeiro de 1960, a fuga de Álvaro Cunhal do Forte de Peniche representou uma dura derrota para o regime. Cunhal, que estava preso há mais de 10 anos, conseguiu fugir de forma espetacular ao princípio da noite de Domingo, 3 de Janeiro, juntamente com outros nove dirigentes do PCP. Só voltaria a Portugal a 30 de Abril de 1974.

Naquele ano, em 1960, Francisco era aluno do terceiro ano do ensino liceal no Colégio Valsassina, dirigido por Frederico Valsassina Heitor. Avelino Cunhal era seu professor de História e Filosofia. Uma figura distinta, então com 73 anos de idade. Um dia, durante o intervalo das aulas, Francisco conversou com o seu professor sobre o sucesso da fuga de Peniche do seu filho Álvaro. Disse-lhe que sabia o significado em estar preso por razões de opinião política. As conversas de Avelino com o seu aluno multiplicaram-se, daí em diante. Para Francisco foram diálogos inesquecíveis que influenciaram a sua formação cívica para o futuro.

Avelino Cunhal morreu a 19 de Fevereiro de 1966. Francisco esteve presente na última homenagem ao seu professor que foi enterrado, a seu pedido, sem acompanhamento religioso e em simples cova aberta na terra, em zona quase inacessível do Cemitério do Alto de São João. Poucos minutos depois da urna ter chegado ao terreiro interior da entrada principal, uma grande camioneta que transportava uma grua entrou no Cemitério para descarregar uma gigantesca coroa de flores que tinha uma fita vermelha com a inscrição “DO TEU FILHO ÁLVARO”. Os acompanhantes, debaixo da chuva que caía copiosa e interruptamente, seriam poucas dezenas. Entre os presentes, Francisco lembra-se de ter reconhecido o médico neurologista Orlando de Carvalho e o arquiteto João Simões.

Avelino Cunhal era uma personalidade reconhecida na cultura portuguesa. Nascera em Seia, no ano de 1887. Conterrâneo e contemporâneo de Afonso Costa (1871-1937), durante a I República exerceu funções de Governador Civil da Guarda (1922). Mudou-se para Lisboa em 1924, onde exerceu advocacia, antes de ser professor. Avelino Cunhal foi Jurista, advogado, pintor e escritor. Tanto na literatura como na pintura integrou o Movimento Neorrealista. Escreveu e publicou livros de contos e para o teatro. Seguramente teria tido um palco ainda mais relevante se não tivesse sido encoberto pela figura de seu filho Álvaro (1913-2005).

Foi o professor que mais marcou a formação cívica de Francisco.  Apesar de ser, ainda, um adolescente de 13 anos de idade. Nas suas aulas começou a perceber a importância da História e da Filosofia no processo de aprendizagem geral. Conhecer as teorias filosóficas ajudava a organizar a inteligência, segundo viria a reconhecer.

Um dia, durante o intervalo, Francisco procurou Avelino Cunhal no gabinete dos professores para dizer-lhe que tinha sabido, em casa, que o seu filho conseguira, com êxito, fugir da prisão de Peniche, onde estava há mais de 10 anos. A conversa havida foi uma emoção inesquecível.  Ao toque da campainha, Francisco e o professor regressaram, juntos, pela escada de acesso à sala de aula. Com a mão por cima do ombro do aluno, subiram lado a lado.

Até ao sétimo ano, véspera da entrada na Faculdade, Francisco acompanhou-o sempre que possível. Fora das aulas, Avelino falava pouco, mas Francisco gostava de estar perto a ele.

Avelino era uma figura distinta que tinha, naquele tempo, 73 anos.  Nascera em Seia, em 1887. Conterrâneo de Afonso Costa (1871-1937), durante a I República foi governador civil da Guarda (1922). Em 1924, mudou-se para Lisboa onde fez advocacia, antes de ser professor.

Como escritor e pintor, Avelino viria a destacar-se no meio cultural. As suas obras, quer literárias quer de pintura, que retratam a vida de trabalhadores são profundamente humanitárias. Em 1965, Avelino Cunhal publicou dois livros: “Senalonga – pequenas histórias de uma vila em 1900” e uma peça para teatro. Francisco leu-os de uma assentada. O primeiro, era uma coletânea de contos no final da Monarquia e o outro sobre uma empregada doméstica que é acusada de ter roubado a dona da casa.

Em 2005, Francisco voltou ao Alto S. João para acompanhar o cortejo fúnebre de Álvaro Cunhal. Uma jornalista da RTP que cobria a marcha fúnebre, ao ter identificado Francisco no meio da imensa multidão, admirada, perguntou-lhe:

– Por cá, também?

– Olhe, estive aqui há 40 anos pelo pai e agora estou pelo filho! Respondeu Francisco.

Avelino Cunhal (1887-1966) nascera na Beira Alta, em Seia, implantada na vertente ocidental da Serra da Estrela, “perdida nas abas de uma grande serra no coração do país” como o próprio Cunhal escreveria sobre a localização da “sua” vila imaginária que batizou de “Senalonga”. Foi precisamente esse o título do livro que viria a publicar, em 1965. Foi aí, que Avelino descreveu episódios da política local passados, ainda, durante a Monarquia, na viragem do século XIX para o XX, na época em que os governos se sucediam em invariável rotativismo. O sistema colocava no poder, alternadamente, ora representantes do Partido Regenerador (liderado por Ernesto Hintze Ribeiro) ora do Partido Progressista, chefiado por José Luciano de Castro. O primeiro, com tendência mais conservadora do que o outro. A nível municipal, em “Senalonga”, essa alternância repetia-se. Espelhava-se na composição da Câmara. Atingia, muitas vezes, aspetos caricatos que refletiam o imenso atraso social da vida mundana na província. A democracia era apenas aparente, uma vez que estava circunscrita ao rodopio de protagonistas que ocupavam, revezadamente, as cadeiras de vereadores em função das ações de propaganda conduzidas por galopins e caciques locais. Até podia acontecer que melhoramentos públicos inaugurados por uma vereação fossem derrubados pela seguinte devido à coloração política diferente…

No mesmo ano (1965), Francisco também leu o outro livro que Avelino publicou: uma coletânea de três peças para teatro que escrevera, vinte anos antes, sob o pseudónimo de Pedro Serôdio. Aliás, para Francisco a leitura de cada peça gerava intensa emoção até momento do cair do pano. Com surpresa, para ele mesmo, aprendeu a gostar de ler teatro. Para tal, terão contribuído as conversas com seu Tio Rui Moura que era, igualmente o editor dos livros de Avelino Cunhal.

Tal como Avelino Cunhal, Afonso Costa nasceu em Seia. Contemporâneo de Avelino Cunhal (apesar de pertencerem a gerações distintas), o carismático estadista da República é patrono do Centro de Interpretação que foi inaugurado em 2025.

Além de Afonso Costa e de Avelino Cunhal, foi, também, no concelho de Seia que viria a nascer António Almeida Santos (1926-2016), que, em 1974, integrou o I Governo Provisório juntamente com Álvaro Cunhal.  Sentados lado a lado, trocavam conversas e desenhos que faziam durante os conselhos de ministros de 1974 e 1975. No final das prolongadas reuniões, Cunhal tinha o hábito de oferecer a Almeida Santos os seus desenhos. Francisco descreve esses desenhos que Álvaro Cunhal fazia como traços simples a esferográfica, em pequenas folhas de papel, que representavam figuras humanas, mas que Cunhal não inutilizava na limpeza final do seu lugar, talvez por considerar que estavam bem conseguidos.

Curiosamente, um e outro tinham intensas ligações familiares a Seia. Eram praticamente conterrâneos, uma vez que o pai de Álvaro era senense e Almeida Santos nascera na aldeia de Cabeça, naquele mesmo concelho, em 1926. Os dois juristas, separados por 13 anos de diferença de idades, tinham sido nomeados para integrarem o I Governo Provisório, liderado por Adelino Palma Carlos, a 16 de Maio de 1974. Terão, certamente, tido conversas sobre as respetivas origens associadas à Serra da Estrela, além dos pequenos desenhos que trocavam. Mas, o primordial interesse comum que os ligava era a solução política justa e rápida para o problema da Guerra Colonial e a descolonização, mesmo antes do termo do mandato da Assembleia Constituinte. Desígnio partilhado pelos dois. Trabalharam juntos nesse sentido, durante o tempo de Costa Gomes e Vasco Gonçalves.

Na altura, no período dos sucessivos governos provisórios, foi importante terem sido cumpridos os principais objetivos estratégicos do Programa do Movimento das Forças Armadas.

Nesse tempo, sucederam-se acontecimentos que pareciam contraditórios, mas que afinal acabariam por ser conciliáveis e indispensáveis no processo de construção democrática. Em poucos meses, Portugal registou dois presidentes da República, três primeiros-ministros, seis governos provisórios, duas eleições gerais (Constituinte e Legislativas) e o reconhecimento da Independência das antigas colónias.

Agora, ao olhar para trás, Francisco costuma insistir que, apesar de imensas dificuldades, o fim da Guerra Colonial e a proclamação de novos Estados livres, eram inadiáveis. Mais de 150 anos depois do Brasil, era preciso substituir o antigo Império pela Cooperação entre países. Tal como aconteceu.

A linha temporal marcada pelo 25 de abril de 1974 e o início de funções do I Governo Constitucional, em 23 de julho de 1976, foi assinalada por justificadas intranquilidades e incertezas, mas houve construção. Construiu-se um outro país. Melhor.

Em 1961, o assalto ao paquete “Santa Maria” por Henrique Galvão obteve uma repercussão de imensa visibilidade internacional de denúncia da ditadura em Portugal.

No final do mesmo ano, a invasão de Goa, Damão e Dio pelo Exército da Índia dá início ao fim do Império (após a Independência do Brasil em 1822). Salazar dá ordens expressas aos soldados do contingente português em Goa para combaterem até à morte, mas, ao contrário do pretendido pelo Governo, o general Manuel Vassalo e Silva decide render-se.

Na madrugada de 1 de Janeiro de 1962, o capitão Varela Gomes tenta atacar o Regimento de Infantaria de Beja. Humberto Delgado instala-se na aldeia vizinha de Vila de Frades, em casa de Justina Raminhos, para acompanhar de perto a evolução das operações. O plano seria a partir de Beja derrubar Salazar. Mas, quando Varela Gomes caiu baleado, os seus camaradas decidiram abortar a revolta. Logo depois das primeiras informações transmitidas a Lisboa, Salazar mandou o seu subsecretário de Estado do Exército deslocar-se a Beja, que ao chegar ao Regimento foi morto a tiro em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas. Devido à fragilidade dos recursos em Beja, o médico Sérgio Sabido Ferreira, cirurgião do Banco do Hospital de São José foi, oficialmente, enviado de urgência a fim de operar Varela. Porém, em pleno hospital de Beja houve uma acesa discussão entre agentes da PIDE e o médico que se preparava para iniciar a cirurgia de emergência. A PIDE pretendia interrogar Varela Gomes antes da anestesia no sentido da obtenção rápida de informações sobre a revolta, mas Sérgio Sabido Ferreira com grande determinação impediu a ação policial e iniciou a anestesia para a intervenção cirúrgica que viria a ser um sucesso.

Em 1962, Francisco iniciou a sua participação ativa no movimento estudantil do ensino liceal no âmbito da Pró-Associação dos Liceus. Lembra-se do envolvimento de Fernando Rosas, Daniel Sampaio, João Paulo Amorim e José Pinto Nogueira, entre muitos outros.  O objetivo comum do Movimento “Liceus Unidos” era a democratização do ensino que implicaria o derrube do Estado Novo.

Nesse ano, a proibição das comemorações do Dia do Estudante, a 24 de Março, desencadeou a Crise Académica liderada por Jorge Sampaio. Na altura, o reitor da Universidade, Marcelo Caetano, inteligentemente, demitiu-se. Iria reaparecer par substituir Salazar em 1968.

Mais tarde, a 13 de Fevereiro de 1965 agentes da PIDE, em território espanhol, em Villanueva Del Fresno, assassinam Humberto Delgado e a sua companheira brasileira Arajaryr Campos perto da fronteira em Badajoz. O duplo homicídio premeditado só viria a ser julgado depois de Abril de 1974, que identificou e condenou os agentes envolvidos nos assassinatos.

Já em plena “primavera” Marcelista, em 1969, a Oposição reúne-se em Congresso na cidade de Aveiro no quadro da tímida abertura política provisória que sempre acontecia por altura das eleições para a Assembleia Nacional. Eram consentidas a criação de comissões eleitorais em cada distrito. Em 1969, foi reconhecida a oportunidade de participação nas urnas na perspetiva da possibilidade da difusão dos ideais democráticos. Sucedem-se reuniões que juntam oposicionistas nos jardins do Palácio do Marquês de Fronteira a Benfica. Fernando Mascarenhas era descendente em linha direta do célebre Marquês de Fronteira, José Trasimundo. Fernando Mascarenhas apoiava a Oposição de forma muito destemida. Várias incursões da Polícia de Choque da PSP, chefiada pelo capitão Maltês, tentavam impedir as reuniões do Palácio. Em 1973, novamente em Aveiro, teve lugar outro Congresso com o mesmo propósito. Na liderança da Oposição destacam-se Francisco Pereira de Moura, José Manuel Tengarrinha, Mário Cardia, Mário Soares, Salgado Zenha e Jorge Sampaio.

Nesse tempo, Carlos Brito desenvolvia trabalho organizativo clandestino no setor intelectual do PCP e sua companheira, Zita Seabra, junto dos estudantes.

Nessa fase, os órgãos de comunicação social eram controlados pelos serviços de Censura. A Emissora Nacional emitia, constantemente, programas de propaganda governamental. Um dos mais bizarros era intitulado “Rádio Moscovo Não Fala Verdade” de Ferreira da Costa que acabaria, por mera curiosidade dos ouvintes, por aumentar as audiências da “Rádio Moscovo”, em língua portuguesa, captada em onda curta.

Era, também, a época da “Rádio Portugal Livre”, ouvida com dificuldade devida a interferências.

Literatura, pintura, teatro, música e cinema eram sistematicamente censurados em nome dos interesses da moral e da política vigentes. As obras literárias de muitos autores portugueses eram, à partida, duplamente censuradas: primeiro, pelos próprios no ato da escrita já com o receio de serem a seguir censuradas e, depois, pelos verdadeiros censores do Governo. Na literatura distinguiram-se, entre outros, Alves Redol, José Rodrigues Migueis, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade, Sofia de Melo Breyner Andresen, José Carlos Ary dos Santos e José Saramago, na pintura e escultura Júlio Pomar e João Cutileiro, no teatro Luís Sttau Monteiro e no cinema Fernando Lopes. Era o tempo do neorrealismo.

As sessões de cinema eram, na época, antecedidas de curtas metragens com notícias. As mais famosas eram as “Atualidades Francesas/Assim Vai o Mundo”, com destaque para a locução do jornalista oposicionista, exilado em Paris, Jorge Reis, que viria, como romancista, a publicar, em 1961, a obra premiada “Matai-Vos Uns Aos Outros” com magnífico prefácio de Aquilino Ribeiro.

Fernando Lopes Graça ocupava um lugar ímpar na cultura portuguesa. As suas “Canções Heroicas” elevavam-se, em termos de qualidade, no panorama musical daquele período. Os concertos do Coro da Academia de Amadores de Música, por ele dirigidos eram muito requisitados em sessões promovidas pelo Movimento Estudantil. Com frequência as festas universitárias eram animadas pelo Coro de Lopes Graça ou por Ary dos Santos participava a declamar poesia. As suas aparições eram sempre muito aplaudidas. Vibrantes.

Por outro lado, paralelamente, sobressaíram autores e intérpretes de canções de protesto como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília. Nesse tempo, Amália era considerada próxima de Salazar.

Portugal era pobre e, mais que tudo muito atrasado em todos os domínios sociais, económicos e culturais.

O analfabetismo atingia níveis impróprios de um país da Europa. A elevada mortalidade infantil traduzia a situação de atraso. Em 1950, a respetiva taxa era de 94,1 por mil nascimentos vivos, correspondente a 19308 óbitos infantis. Isto é, quase uma em cada 10 crianças nascidas naquele ano não completava 12 meses de vida.

País governado por políticas conservadoras, influenciadas pela Igreja Católica, insistia em não progredir, sem perceber a evolução democrática da Europa depois da vitória dos Aliados em 1945.

A Guerra Colonial assinala este período da História de Portugal.

Ao contrário dos governantes franceses, ingleses e holandeses, Salazar e Marcelo Caetano não perceberam a importância da descolonização. Não reconheceram o Novo Tempo da História. Preferiram fazer Guerra que, todos sabiam, estaria inevitavelmente perdida. Nesses anos, as reportagens televisivas das partidas e chegadas de soldados nos paquetes no porto de Lisboa eram, sistematicamente, acompanhadas por locutores que exaltavam as tropas que combatiam os movimentos de libertação das colónias. Glorificavam o Império “aquém e além-mar, uno e indivisível”. Esqueciam-se sempre do exemplo do Brasil.

A Guerra foi devastadora, especialmente na Guiné, Moçambique e Angola. Combatentes e apoiantes do PAIGC, FRELIMO e MPLA foram alvo de desumanas perseguições. Muitos milhares de homens, mulheres e crianças foram mortos nas suas moranças nas matas e savanas africanas nas três frentes da Guerra. Muitos milhares.

Já no final do regime, depois do Levantamento Militar das Caldas, na madrugada de 16 de Março de 1974, três oficias generais recusaram, corajosamente, comparecer na cerimónia do “beija-mão” a Marcelo Caetano: general António Spínola, general Costa Gomes e o almirante Tierno Bagulho. Os dois primeiros vieram a ser presidentes da República.

Francisco, filho de Carlos e de Isabel, autor deste testemunho, hoje com 78 anos de idade, viveu, intensamente, os acontecimentos aqui apontados e muito em particular a madrugada de 25 de Abril. Esteve no Carmo a aclamar Salgueiro Maia, depois em Santa Apolónia na chegada de Mário Soares e a seguir no aeroporto a aplaudir Álvaro Cunhal. Foram os dias mais luminosos da sua vida.

Passados todos esses anos, Francisco continua a considerar que, em termos históricos, Portugal deve aos capitães do MFA a Liberdade e a Costa Gomes a evolução pacífica para o regime democrático e a rapidez da descolonização. Por estas razões, para ele, os grandes heróis de 50 anos 25 Abril são, justamente, Salgueiro Maio e Costa Gomes.

Lisboa, Primavera de 2026
Francisco George


(1) Texto baseado no ensaio que o autor enviou à Comissão Comemorativa 50 Anos 25 Abril (escrito em Abril de 2023) e, agora revisto com o propósito de enquadrar o presente trabalho ao estilo de “quase um autorretrato”, pelos 50 anos da aprovação da Constituição da República.

(2) Expressão usada na vasta documentação sobre Carlos H. George nos Arquivos da PIDE (Torre do Tombo).

Opinião Pessoal CXVI

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
22 abril 2026

SOBRE AÇÃO HUMANITÁRIA (II)

Tal como antes contei, em 1859, o suíço Henry Dunant testemunhou, casualmente, a desumanidade da Batalha de Solferino. Perante os horrores que observou decidiu promover o recrutamento de voluntários civis nas aldeias vizinhas com o objetivo de prestarem socorro aos muitos milhares de feridos prostrados nos campos ensanguentados. Organizou o auxílio de emergência, indiferentemente das respetivas nacionalidades e patentes militares, tanto para vencedores ou vencidos. Para tal, conseguiu constituir equipas improvisadas para transportar os feridos até aos abrigos na perspetiva de receberem água, alimentos e tratamentos. A única preocupação era a redução de sofrimento.

Pouco tempo depois, em 1864, a ação humanitária conduzida por Henry Dunant viria a servir de base à Convenção para a Melhoria da Condição dos Feridos dos Exércitos em Campanha, que foi subscrita, inicialmente, pelos representantes oficiais de 12 países, expressamente credenciados para o efeito. A referida Convenção destinada a proteger os soldados feridos durante os combates logo passaria a ser designada como Primeira Convenção de Genebra.

Curiosamente, Portugal foi um dos primeiros signatários, uma vez que o rei Luís de Bragança transmitiu plenos poderes ao seu delegado para participar ativamente nas discussões que, então, decorreram em Genebra. Nestes termos, no final dos trabalhos, a Convenção foi assinada, a 22 de agosto de 1864, pelo médico militar José António Marques. O texto aprovado incluía apenas 10 artigos que visavam, antes de mais, assegurar o reconhecimento de neutralidade aos hospitais militares e de campanha, que os beligerantes deviam reconhecer e respeitar.

José António Marques (1822-1884), a seguir, viria a fundar a Cruz Vermelha Portuguesa e ser o seu primeiro dirigente. Contribuiu decisivamente para elevar a aplicação dos sete princípios que fundamentam a Cruz Vermelha, desde o início até à atualidade: humanidade, imparcialidade, independência, neutralidade, voluntariado, unidade e universalidade.

A Batalha de Solferino, para além de ter marcado a vida de Dunant, esteve na génese da aprovação das convenções de Genebra.

Em 1901, Henry Dunant viria a ser laureado com o primeiro Prémio Nobel da Paz, criado a partir desse ano.

De certa forma, a nível das relações multilaterais entre países, podemos considerar que o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) está para a Guerra, tal como o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) estaria para o tempo da Paz. Porém, os frequentes e incompreensíveis vetos dos respetivos membros permanentes perturbem, em lugar de construírem.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
15 abril 2026

SOBRE AÇÃO HUMANITÁRIA (I)

Uma vez que estamos a viver um tempo de guerras, mais do que nunca, precisamos de falar dos princípios humanitários universais, que devem ser respeitados durante os conflitos armados. Ou, dito de outra maneira: aos horrores e às atrocidades que diariamente assistimos, através das imagens transmitidas pelos canais televisivos, necessitamos de contrapor e defender o Direito Humanitário Internacional. Ninguém pode aceitar que sejam lançadas bombas sobre civis, escolas, hospitais, pontes, linhas férreas, barragens ou infraestruturas destinadas à produção energética de toda a população. Ninguém pode aceitar que sejam cometidos crimes de guerra. Há regras que têm que ser observadas pelas partes em confronto. Há limites que não podem ser ultrapassados. As localidades, urbanas ou rurais, não podem ser atacadas indiscriminadamente. As civilizações não podem ser incineradas à bomba. Inquestionável.

Compreende-se, por isso, que todas as pessoas se interessem pela atividade humanitária, que terá, inevitavelmente, de ocupar uma importância principal no pensamento. É uma questão de humanismo e inteligência.

Muitos leitores lembrar-se-ão que, em 2017, ao ter atingido o limite de idade, aos 70 anos, terminei as funções que desempenhava na Direção-Geral da Saúde e que, logo a seguir, cumpri o mandato de Presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, com o estatuto de voluntário, entre 2017-2021. Tenho, assim, redobrada razão para poder intervir no debate sobre os fundamentos da ação humanitária.

Começo pelo princípio.

A Itália estava dividida em diversos estados até à unificação alcançada em 1861. A Independência, proclamada nesse ano, resultou de uma longa sequência guerras, designadamente contra o Império Austríaco.  Neste processo, a 24 de junho de 1859, as tropas italianas do rei da Sardenha, Vítor Emanuel II, derrotaram as forças da Áustria, em Solferino. No final do dia, os mais de 300 mil soldados dos dois exércitos envolvidos no confronto deixaram no terreno, ensanguentado pela carnificina, cerca de 40 mil feridos e seis mil mortos. Um horror testemunhado por Henry Dunant (1828-1910), que aí se encontrava por mero acaso e que, depois, viria a relatar nos termos seguintes: “batalhões inteiros ficaram sem comida; companhias, que haviam recebido ordens para largar as suas mochilas, não tinham absolutamente nada. Em alguns locais não havia água e a sede era tão intensa que os oficiais e soldados bebiam, das poças lamacentas, água imunda e cheia de sangue. Os cavalos fugiam em todas as direções, entre choros de medo e gritos de raiva. Que tamanha agonia e desmesurado sofrimento!”  

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXIV

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
8 abril 2026

SOBRE FILANTROPIA ESTRATÉGICA

Já aqui mencionei que a descoberta da pílula anticoncecional foi resultado da ação filantrópica conduzida pela milionária norte-americana Katharine Dexter McCormick que, por morte de seu marido, herdou uma imensa fortuna que utilizou, criteriosamente, a favor da emancipação das mulheres em múltiplas dimensões: liberdade da própria vida sexual e reprodutiva, mas, igualmente, independência política em relação aos homens, traduzida pelo direito de voto e pela igualdade na promoção educacional e cultural. Lutas que mereceram o aplauso e reconhecimento universal.

Sem retirar relevo à participação ativa de Katharine no Movimento Sufragista dos Estados Unidos da América, reconheçamos que o “grande salto” para a Libertação das Mulheres foi a contracepção oral, alcançada em consequência do financiamento persistente das pesquisas científicas desenvolvidas por Gregory Pincus, em Massachusetts. No total, os donativos de Katharine ascenderam a mais de 19 milhões de dólares (equivalente atual dos montantes doados na época). Em 1960, as autoridades federais norte-americanas autorizaram a colocação no mercado da primeira pílula. No ano seguinte, a pílula foi comercializada na Europa com a designação comercial de “Anovlar”, com a finalidade de estar associada à ideia de não haver ovulação! Um triunfo.

Em Portugal, à nossa escala, não são muitos os exemplos de filantropia comparáveis ao modelo seguido por Katharine McCormick em proporcionar financiamento estruturado com o objetivo de atingir metas definidas. No entanto, para sermos justos, não podemos ignorar a existência de atividades conduzidas por fundações criadas com esse fim. Entre as mais relevantes é preciso realçar as ações implementadas pelos herdeiros de Francisco Manuel dos Santos (1876-1953), designadamente por decisão de Alexandre Soares dos Santos (1935-2019), que constituem um padrão excecional de serviço público, que visa impulsionar o desenvolvimento social da população portuguesa, através de doações regulares de elevados montantes destinados à promoção da educação e da cultura. Fundos que permitem, de forma organizada e estratégica, contribuir para a resolução de problemas da nossa sociedade. Entre outras iniciativas, é o que acontece, por exemplo, com a base de dados, de fácil acesso, disponibilizada on line pela PORDATA, desde 2010, onde é possível consultar informações estatísticas ou, também, com a publicação abundante de livros de interesse inquestionável, vendidos a preços módicos. A Fundação Francisco Manuel dos Santos edifica, assim, obras que constroem mais conhecimento. Mais cultura. Mais democracia.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXIII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
1 abril 2026

SOBRE A HISTÓRIA DA MEDICINA (IV)

Uma vez chegados à fantástica segunda metade do “nosso” século XX, retomo a enumeração das principais descobertas que mudaram a vida das pessoas, no que se refere à prevenção das doenças, à conservação da saúde e à preparação de medicamentos inovadores.

Preciso.

Começo por assinalar a cidade universitária de Cambridge, em 1953, uma vez que foi aí que o cientista inglês Francis Crick (1916-2004) e o biólogo norte-americano James Watson (1928-2025) decifraram a estrutura helicoidal da molécula de ADN. A apresentação do famoso modelo da dupla hélice constituiu uma viragem principal no conhecimento científico porque o ADN engloba as instruções genéticas contidas nos núcleos das células. Marcou uma nova era. Por isso, a quem vai a Cambridge, recomendo uma visita ao pub “The Eagle”, próximo do King`s College, onde Crick e Watson costumavam ocupar uma mesa do canto para as refeições e convívio. A primeira vez que aí entrei e reparei na placa que assinala a habitual mesa deles, senti uma estranha satisfação. Conta-se que um certo dia viram cair um colega devido ao excesso de cerveja que bebera e que o movimento helicoidal antes da queda simbolizou um momento de inspiração… Verdade ou não, Watson, em 1967, escreveu no livro de memórias que publicou que tinha sido neste pub que Crick, em 1953, gritara para quem estava por perto poder ouvir: “descobrimos o segredo da vida”!

O ano de 1955 foi marcado pela introdução da vacina injetável contra a poliomielite (paralisia infantil), devida ao virologista norte-americano Jonas Salk (1914-1995). A pólio passaria, assim, a ser uma infeção evitável e ainda mais facilmente depois da introdução da vacina por via oral preparada pelo polaco Albert Sabin (1906-1993). Tal como aconteceu com a erradicação da varíola (1980), a poliomielite aguda, a nível mundial, passará a ser uma doença do passado. Em Portugal, o último caso foi diagnosticado em 1986, em consequência do sucesso do Programa Nacional de Vacinação.

Em 1960, nos Estados Unidos da América foi lançada a pílula anticoncecional, que foi desenvolvida pelo biólogo norte-americano Gregory Pincus (1903-1967). A este propósito é interessante salientar que as pesquisas foram financiadas pela milionária Katharine McCormick (1875-1967). Um magnífico exemplo de mecenato a favor do planeamento da família, na perspetiva de os filhos serem pretendidos. A pílula representou, assim, o fim das gravidezes acidentais, involuntárias e indesejadas. A Mulher passaria a engravidar por vontade própria. Ser ela a decidir da sua vida reprodutiva.  Uma revolução libertadora para a saúde sexual da Mulher.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal CXII

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”
25 março 2026

SOBRE A HISTÓRIA DA MEDICINA (III)

Prossigo as descrições, resumidas, sobre as descobertas principais que marcaram a evolução das ciências médicas durante a primeira metade do século XX.

Em 1933, o médico inglês Wilson Smith (1897-1965) foi o primeiro a demonstrar que a gripe é provocada por um vírus. As pesquisas que, então, conduziu em furões comprovaram que a gripe é uma doença infeciosa comum a animais e seres humanos e que o respetivo agente causal não era retido em filtros de porcelana, devido à sua reduzida dimensão. Ou, dito de outra maneira: o vírus da gripe atravessa os poros de porcelana em consequência do seu minúsculo diâmetro. Poucos anos depois, na era da microscopia eletrónica, desenvolvida a partir a partir do início da década de 40, verificou-se que o vírus da gripe mede, em média, 100 nanómetros (portanto, é dez mil vezes mais pequeno do que um milímetro).

Curiosamente, logo em 1937, o médico norte-americano Joseph Stokes, Jr. (1896-1972) preparou a primeira vacina contra a gripe e insistiu na importância em induzir a imunização sazonal, a fim de limitar as complicações da gripe durante a estação fria do ano.

Também em 1937, o cientista sul-africano Max Theiler (1899-1972) descobriu a vacina contra a febre amarela, tendo, por isso, recebido o Prémio Nobel. A vacina antiamarílica representou o fim do risco de viajantes adquirirem a febre amarela, assim designada pela cor da pele característica da icterícia.

Em 1939, o químico suíço Paul Muller (1899-1965) divulgou o uso do DDT como inseticida, motivo pelo qual viria a ser laureado com o Nobel da Medicina. O DDT foi, na altura, amplamente aplicado como pesticida, tanto para controlar pragas agrícolas como doenças infeciosas transmitidas por mosquitos, nomeadamente o paludismo e dengue.

Em 1943, o bioquímico ucraniano Selman Walksman (1888-1973) anunciou a descoberta do primeiro antibiótico realmente eficaz para o tratamento da tuberculose: a estreptomicina. Uma imensa diferença no controlo da tuberculose. Receberia, muito justamente, o Prémio Nobel da Medicina.

Ainda antes do fim da primeira metade do século, duas descobertas essenciais viriam a impulsionar o progresso da Saúde Pública, a nível mundial.

Preciso.

A partir de 1947, a utilização generalizada da cloroquina para prevenção e tratamento do paludismo, que tinha sido sintetizada, em 1934, pelo químico alemão Hans Andersag (1902-1955).

Em 1949, o cientista norte-americano John Enders (1897-1985) viria a cultivar no laboratório o vírus da poliomielite (paralisia infantil) e a tornar possível a futura preparação da respetiva vacina. Iniciou a época das vacinas modernas.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com