Férias de Agosto

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 7 julho 2022

Esta coluna de opinião, regularmente publicada nas páginas do “Diário de Notícias”, todas as quartas feiras, vai estar ausente em Agosto por motivo de férias. Regressará em Setembro.

Entretanto, apontam-se algumas recomendações e conselhos, nomeadamente sobre higiene geral, saúde e bem-estar, na perspetiva da necessária recarga de ânimo e de energia que as férias proporcionam.

O foco terá que estar centrado na redução do stress. Para tal, é preciso dispensar o relógio, incluindo o despertador e utilizar menos vezes o telemóvel. É um bom princípio. Todos reconhecerão que andar a correr atrás das horas para chegar a tempo aos transportes públicos ou viver o infernal pára-arranca do tráfego automóvel citadino, em horas de ponta, são fatores de stress que, agora, em férias não fazem qualquer sentido. São, da mesma forma, de evitar as longas filas de automóveis a caminho das praias.

Em matéria de preservação da saúde para todos os membros da família a principal medida, quase obrigatória, é a proteção da exposição aos raios solares. Na praia ou no campo, a utilização de uma camisa de tipo T-shirt é altamente aconselhável, mesmo durante os mergulhos no mar ou piscina[1]. A aplicação de cremes protetores é tanto mais importante quanto mais clara é a pele (em crianças muito em especial)[2]. É preciso saber que os chamados “escaldões”, devidos à excessiva exposição solar, são indesejáveis porque, mais tarde, podem estar na origem de um cancro cutâneo (melanoma). Chapéu de abas largas e óculos escuros, são igualmente indispensáveis. É preciso saber que à hora de almoço, pelo menos entre as 12H30 e as 16H00, a exposição ao sol é especialmente nociva. Decididamente, as melhores horas para frequentar a praia são quer de manhã cedo quer ao final da tarde.

A moderação do consumo de bebidas alcoólicas é a grande regra que deve ser observada por condutores de automóveis, motos ou bicicletas e também pelos peões que andam à beira das estradas. As bebidas alcoólicas, mesmo em pequenas quantidades, dilatam as artérias e, por isso, interferem com a regulação da temperatura corporal que tem uma margem pequena de variação à volta de 36,5 graus centígrados. Já a temperatura ambiental, ao longo das 24 horas do dia, pode oscilar entre 15 e 40 graus, motivo que explica a necessidade da não interferência com os mecanismos normais que mantêm a temperatura do corpo estável (vaso dilação, vaso constrição, circulação, suor).

As refeições devem ser ligeiras, ricas em saladas e frutas. Fora das refeições há que ter em atenção as elevadas calorias dos gelados (que em excesso são sempre prejudiciais à saúde). Para a sede, a água, em lugar de refrigerantes.

Apesar da dificuldade é imperioso reduzir o tempo à frente dos écrans dos telemóveis e computadores, em especial de crianças e jovens. O risco de dependência é real. Um novo e inesperado problema de Saúde Pública que urge resolver. Muito preocupante.

Incutir o gosto pela leitura.

Moral da história: garantir proteção criteriosa da exposição ao sol. Fazer exercícios ao ar livre. Caminhadas. Aproveitar para pôr as conversas em dia com os amigos e vizinhos de verão. Esquecer o telemóvel. Evitar riscos desnecessários. Mais frutas. Menos doces.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Atenção às piscinas públicas sem sombras de proteção da exposição ao sol.

[2] A aplicação generosa e frequente de protetores é essencial.

O Universo de Crentes e Agnósticos

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 20 julho 2022

Um ensaio, escrito por Paulo Crawford, intitulado “O Universo – do Big Bang aos Buracos Negros”, publicado, em Maio de 2022, pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, é muito interessante. É uma obra estimulante para todos os que se interessam pelos segredos do Universo, quer para crentes em Deus quer para agnósticos.

A grande questão é compreender a origem do próprio Universo. O seu princípio. A sua composição. A sua estabilidade. A expansão da matéria. A energia. O tempo de existência prevista para o Sol ou para cada um dos seus planetas (como a Terra) e muitas outras respostas a perguntas formuladas com indiscutível inteligência.

Antes de tudo, duas questões principais:

O Universo terá sempre existido? Ou, terá havido um momento correspondente ao seu início?

Com os primeiros telescópios, terrestres, apesar de munidos de poderosas lentes que permitiram observar o Sistema Solar, não era possível encontrar respostas seguras. São instrumentos quase “cegos” em comparação com o alcance conseguido pelos telescópios montados em estações no espaço, lançados por potentes foguetões.

Ora bem, em resposta às duas questões acima colocadas, sublinha-se que todos os cientistas estão de acordo que o começo, comummente designado como BIG BANG, ocorreu há cerca de 14 mil milhões de anos.[1] Foi o momento que, pela primeira vez, não só criou matéria (estrelas, planetas, galáxias…) como também os conceitos de tempo e de espaço. Antes, nada havia. Absolutamente nada. Depois, percebeu-se que os corpos celestes e as galáxias tinham dinamismo acentuado.

Assim comprovam os estudos apoiados pelas observações conseguidas pelos telescópios espaciais, primeiro o Hubble (lançado em 1990) e, agora, o supertelescópio James Webb.[2]

O inovador Webb, dotado de ferramentas mais sofisticadas que o Hubble, começou a produzir imagens, tal como previsto a partir de Julho, tão nítidas como surpreendentes, ao fim de 20 anos de desenvolvimento de um projeto, ímpar, que juntou especialistas norte-americanos da NASA, também do Canadá (CSA) e da Agência Espacial Europeia (ESA), incluindo de Portugal.

Nesta parceria, destacam-se os contributos da astrónoma portuguesa Catarina Alves de Oliveira que considerou o telescópio James Webb “100 vezes mais sensível do que o Hubble”.

Essas novas imagens, verdadeiramente revolucionárias, retratam fenómenos captados a distâncias imensas, designadamente a muitos anos-luz, que possibilitam extrair novos dados e conhecimentos científicos, bem como demonstrar eventos até hoje ignorados: exoplanetas em órbita em torno de “outro Sol”, morte de estrelas, presença de água, movimentos cósmicos, dinamismo de galáxias, corpos celestes, energia negra, etc.

Por outro lado, se bem que sem unanimidade da comunidade científica, há especialistas em astrofísica que admitem a criação de novos universos a partir do nada.

Moral da história: Antes do Big Bang nada havia.

Com o Big Bang, há 13 770 000 000 anos, surgiu a noção de tempo e de espaço.

O Universo é dinâmico. Expande-se a diferentes velocidades ao longo do tempo.

Os crentes atribuem a criação do Universo a Deus.

Os agnósticos admitem que o Universo foi criado a partir do nada.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Mais precisamente há 13,7 mil milhões de anos.

[2] Sem ignorar os contributos da missão espacial não tripulada WMAP que esteve operacional entre 2001-2010.

Uso Racional de Medicamentos (II)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 13 julho 2022

Tratar e curar doenças terá sido, desde sempre, uma preocupação principal em todas as comunidades humanas, mesmo nas chamadas sociedades primitivas.

Porém, são recentes os efeitos positivos dos medicamentos, traduzidos pela redução da morte associada à doença e pelo prolongamento da esperança em viver.

Sobre o tema, a Escola Superior de Saúde do Politécnico da Guarda organizou um seminário científico sobre o uso racional de medicamentos. Encontro muito oportuno. Debateu-se a importância da preservação dos antibióticos. Considerou-se indispensável promover a literacia sobre o assunto, nomeadamente nos programas escolares de todos os níveis. Uma exigência, em nome do interesse público.

Foram as grandes descobertas da farmacologia do Século XX que impulsionaram decisivos avanços da Medicina quer em terapêutica quer em prevenção. A vida de crianças, mulheres e homens, em todas as idades, passou a ser diferente. Antes de tudo, muito mais longa. Mais saudável. Mais produtiva. Mais próspera. Mais segura. Mais confiante, também.

Além dos antibióticos, dois exemplos permitem imaginar a insegurança anterior ao ano indicado:

1921, ano da descoberta da insulina.  Tudo se passou na Universidade de Toronto. O Serviço Universitário tinha como professor titular, John Macleod (1876-1935), que promoveu a constituição de uma pequena equipa em ambiente que viria a ser mirabolante (mas com final feliz). Macleod decidiu atribuir um espaço e recursos ao cirurgião Frederick Banting (1891-1941), a fim de poder conduzir pesquisas sobre o funcionamento do pâncreas. Para tal, também autorizou que o jovem recém-bacharel, Charles Best (1899-1978)[1], fosse apoiar Banting. Permitiu, ainda, a cedência de cães para experimentação.

Ora, foram os dois, Banting e Best, que, pela primeira vez, descobriram que os extratos da substância que isolaram dos ilhéus do pâncreas, depois de injetada, fazia baixar o açúcar no sangue de um cão diabético. Pouco depois, foi o jovem diabético, Leonard (14 anos), o primeiro doente a receber insulina[2]. Que vitória!

Logo a seguir, contaram com a colaboração de James Collip (1892-1965), especialista em bioquímica, para melhorar o processo de obtenção da insulina.

Em 1923, a atribuição do Prémio Nobel, apenas a Macleod e Banting, viria a aumentar a disputa de protagonismo entre eles devido à exclusão de Best e Collip.

1960 fica na história como o ano da aprovação da pílula anticoncecional que foi preparada, entre outros, pelo biólogo norte-americano Gregory Pincus (1903-1967). O novo método, baseado na inibição hormonal da ovulação, mas com manutenção da menstruação, foi um êxito. Um bem para a Humanidade, ao separar o sexo e a conceção. Libertação. Revolução.

A primeira pílula, autorizada nos EUA, foi a “Enovid”. Assinale-se, como bom exemplo de filantropia, que as investigações médicas foram financiadas pela milionária Katharine McCormick (1875-1967). Depois multiplicaram-se outras pílulas de composição ainda mais segura. Apesar da resistência da Igreja Católica a grande maioria das mulheres em idade fértil aderiu com entusiamo à pílula como método racional de planeamento da família.

Moral: usar, sempre, todos os medicamentos de forma racional.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Charles Best foi escolhido ao acaso entre três candidatos…

[2] Assim batizada porque é proveniente dos ilhéus do pâncreas.

Uso Racional de Medicamentos[I]

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 06 julho 2022

Em Medicina, a utilização eficaz, cientificamente comprovada, de medicamentos para tratamento ou prevenção de doenças é relativamente recente.

Com exceção da vacina antivariólica, a preparação do primeiro medicamento, ainda hoje com indicações para ser receitado, foi a morfina (1805).

Já a história da famosa “Aspirina”, se bem que mais recente, é muito interessante. Começou a ser utilizada há 125 anos com composição idêntica à atual. A sua síntese remonta a 1897[2] e desde então foi comercializada pela Bayer com o apoio de uma inovadora campanha de marketing, para a época. A par de ser um excelente fármaco, a “Aspirina” é o medicamento mais consumido em todo o mundo. A descoberta do seu mecanismo de ação deve-se ao farmacêutico inglês John Vane (1927-2004) que, em 1982, recebeu o Prémio Nobel da Medicina por ter contribuído para a compreensão dos seus efeitos analgésico e anti-inflamatórios, incluindo os benefícios obtidos pelo seu uso regular na prevenção de enfartes do coração e de acidentes vasculares cerebrais.

Tanto a simples “Aspirina” como todos os medicamentos impõem uso racional. Criterioso. Se assim não suceder podem sobrevir danos colaterais, não só para o próprio consumidor, como para a comunidade.

Precise-se.

Antes de tudo, o exemplo dos antibióticos.

Como se sabe, a penicilina foi descoberta pelo médico escocês Alexander Fleming (1881-1955)[3] em 1928. Mas, só foi introduzida no mercado a partir de 1941 para a terapêutica de determinadas doenças de natureza bacteriana. Logo depois surgiram os seus derivados como a ampicilina, entre outros. A Indústria Farmacêutica conquistara novas fronteiras. Um sucesso. Acreditou-se em futuro livre de infeções provocadas por bactérias.

Um sonho de curta duração.

Curta duração porque, inesperadamente e depressa, verificou-se que os antibióticos deixariam de ser eficazes à medida que as bactérias passavam a adquirir alterações do respetivo património genético. Transformavam-se, assim, em bactérias, agentes das mesmas doenças, mas resistentes aos antibióticos. Intratáveis. Surgem dificuldades preocupantes no tratamento da tuberculose e de doenças antes curáveis. Infeções hospitalares e outras também associadas aos cuidados de saúde, resistentes aos antibióticos.

Ainda, os medicamentos antivirais, introduzidos mais recentemente para tratamento de doenças provocadas por vírus, enfrentam problemas de resistência, como ocorreu com a gripe em relação ao oseltamivir, por exemplo.

Igualmente, os medicamentos contra o paludismo, como a cloroquina (aprovada para terapêutica e profilaxia desde 1947) antes do final do Século já não tinha indicação devido à vasta propagação da resistência desenvolvida pelos protozoários causadores do paludismo.

Moral:

As bactérias mudam, uma vez resistentes irão transmitir a resistência a novas gerações de bactérias. As pessoas que adquirirem uma infeção provocada por bactéria resistente a certo antibiótico, mesmo que nunca tenham tomado esse antibiótico, o tratamento será ineficaz.

Os antibióticos devem ter uso racional em clínica, veterinária ou zootecnia!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Tema do Encontro recente promovido pelo Instituto Politécnico da Guarda.

[2] Foi o químico alemão Hoffmann (1868-1946) que sintetizou a “Aspirina” que viria a ser o primeiro medicamento apresentado sob a forma de comprimido.

[3] Recebeu o Premio Nobel em 1945.

“A Guerra é a Morte…”

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 29 junho 2022

Visitar as praias da Normandia para reviver o Desembarque é um exercício que todos deviam, agora, fazer. Uma “vacina” para todos, incluindo jovens em idade escolar, sublinha-se. Exercício facilmente praticável através da leitura de textos, consulta de livros ou, ainda melhor, da observação de imagens de fotografias e de filmes da época, disponíveis na internet e canais da televisão (para além, naturalmente, de deslocação à Normandia).

Fez este mês 78 anos que as divisões das forças armadas Aliadas atravessaram o Canal da Mancha para libertarem a França ocupada pelos alemães. Muitos milhares de soldados, sob o comando dos generais Dwight Eisenhower (1890-1969) e Bernard Montgomery (1887-1976), iniciaram nas praias da Normandia a Libertação da França e, também, da Europa e do Mundo. Em 1944, na manhã de 6 de Junho, entre tropas terrestres e paraquedistas, mais de 150 mil militares dos contingentes americanos, ingleses e canadianos desembarcaram nas célebres praias, então designadas com os nomes de código de Omaha Beach, Utah Beach, Gold Beach, Sword Beach e Juno Beach. Muitos morreram nas primeiras horas.

A estes jovens heróis que participaram na Libertação, há que juntar os soldados do Exército Soviético, chefiado pelo general Gueorgui Júkov (1886-1974), que entraram em Berlim a 2 Maio do ano seguinte, assinalando a derrota alemã do Terceiro Reich de Adolf Hitler. Seguiram-se a Itália e o Japão.

E, igualmente, é preciso destacar os partizans da Resistência Francesa (quase 20 mil morreram em combate ao lado dos Aliados).

No total, entre militares e civis, a II Guerra Mundial de 1939-1945 matou 60 milhões de pessoas.[1]

Quem poderia ignorar esta enorme tragédia, este imenso sacrifício?

Foram muitos. A realidade viria a revelar uma insensibilidade incompreensível. Estranhamente, as bandeiras da Guerra regressaram pouco depois e subsistem até hoje. Ininteligível. Coreia. Vietnam. Palestina. Balcãs. Irão. Iraque. Síria. Afeganistão…

O horror em matar e morrer parece não ter fim. Imparável.

Já em 2022, com a ilegítima invasão da Ucrânia pelas tropas da Rússia voltaram os discursos e as ações belicistas. É muito provável que o conflito tivesse sido evitado com mais diálogo e ponderação de cada parte. Tudo falhou. Tudo horrível. Atroz. Impiedoso.

Líderes europeus e da NATO em perigosa sintonia de alto risco. As habituais sanções aplicadas ao invasor, mas a refletirem-se negativamente a nível global. A questão do trigo. Fome. Pobreza a aumentar. A Presidente da Comissão Europeia a advogar a implementação de medidas que desequilibram a estabilidade económica e financeira da União que originam descontrolo da inflação.

O Secretário-Geral da NATO a não dar tréguas à guerra. O Conselho de Segurança da ONU, mais uma vez, inoperante. Praticamente ausente. São poucos os que optam por promover a Paz. Quase ninguém.

Cada vez mais armamento, mais tanques, mais artilharia e mais misseis. Mais morte.

Conclusão: Tudo mau. Todos a perder. Apenas a indústria de armamento a ganhar.

Moral: Está resumida na placa de mármore que o Canada colocou no Memorial de Caen, na Normandia, próximo do Cemitério Militar, onde estão mais de 2000 sepulturas com os seus soldados que desembarcaram em Juno Beach:

A guerra é a morte
 A paz, a vida
 A liberdade, a esperança”.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Dos 60 milhões de mortos, um terço eram russos (URSS).

Epidemias

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 22 junho 2022

Todos reconhecem que Hipócrates (460 aC – 377 aC) é a figura mais importante da Medicina. Adquiriu elevado prestígio na Antiguidade Grega.  Foi ele o primeiro a atribuir causas naturais às doenças, ao contrário do que até então se julgava. As doenças deixariam de estar associadas a crenças religiosas, à magia ou a teorias filosóficas. Criou, na ilha de Cós, a lendária Escola para médicos que passou a separar a Medicina da Filosofia. Curiosamente, pouco se sabe sobre a vida de Hipócrates e daquilo que terá escrito. Admite-se que a sua obra, compilada e traduzida na Biblioteca de Alexandria, terá tido muitos dos seus discípulos como autores e não apenas Hipócrates. Ora bem, dois dos famosos livros, editados na época, foram dedicados às EPIDEMIAS.

Na altura, o historiador grego Tucídides (460 aC – 400 aC), contemporâneo de Hipócrates, presenciou e descreveu a onda epidémica da doença que devastou Atenas durante a Guerra contra Esparta, no Seculo V antes de Cristo. Estranhamente, apesar de

contemporâneos, Hipócrates ignorou os minuciosos relatos que Tucídides fez sobre a epidemia de Atenas.[1]

Muito bem documentada foi, também, na época, a epidemia de papeira (mencionada como inchaço atrás das orelhas por vezes acompanhado de inflamação dos testículos), ocorrida na ilha grega de Thassos, no mar Egeu.

Vocabulário prático popular para leitores de jornais

Cluster: aglomerado de casos de uma mesma infeção com relação temporal e espacial entre eles. O elemento temporal impõe que os casos sejam diagnosticados dentro do período de incubação da doença e a componente espacial refere-se ao local de contágio. É a situação, por exemplo, correspondente à identificação de Covid-19 em membros da mesma família, em dias sucessivos, que convivem no mesmo espaço sem medidas de proteção.   

Epidemia (do grego epi = sobre; demos = povo): tal como resulta da origem grega da palavra, uma epidemia refere-se unicamente a seres humanos quando uma doença surge em determinada região em excesso ao habitualmente esperado. Nestes termos, um só caso de raiva humana, em Portugal, poderia constituir uma epidemia.

Pandemia: uma epidemia que se propaga, rápida e simultaneamente, a nível mundial. Apontam-se, como exemplos, a gripe pneumónica de 1918, a gripe asiática de 1957, a SIDA a partir de 1980 ou, nos tempos de hoje, a Covid-19.

Endemia: refere-se à presença habitual de um agente infecioso ou de doença em determinada região e população (paludismo na Guiné-Bissau).

Epizootia (do grego zoon= animal): doença que atinge animais da mesma espécie e na mesma região. Como, por exemplo, a Doença de Newcastle das aves.

Enzootia: doença de animais que é habitual na mesma região como Monkeypox em macacos em África, tendo roedores como reservatório.

Epifitia (do grego phyton = planta): doença vegetal com carater infecioso que se propaga em plantas de uma mesma área.  Como referência, a título de exemplo, na Irlanda, na década de 1840, as plantações de batatas foram dizimadas por um fungo (míldio da batateira ou também designada como praga da batata).

Zoonose: doença comum a animais e seres humanos.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Ainda hoje ignora-se a origem da epidemia. Porém, é provável que as descrições correspondam a uma epidemia de gripe. A obra de Tucídides “História da Guerra do Peloponeso” está disponível em português, publicada pelas Edições Sílabo, em 2008.

Contágios

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 15 junho 2022

Saber como se transmitem as doenças constituiu, desde sempre, motivo de interesse na perspetiva da prevenção do contágio.

Até ao fim da Idade Média pouco mais se fez além do confinamento das pessoas que apresentavam sinais de uma doença contagiosa. Assim sucedeu com a lepra ou a peste, por exemplo. Na altura, não se conhecia a natureza das doenças e ignorava-se como se transmitiam. A sua identificação era geradora de pânico entre familiares e comunidade.

Foram as pesquisas do cientista francês Louis Pasteur (1822-1895) e do médico alemão Robert Koch (1843-1910) que demonstraram, pela primeira vez, a relação causa efeito entre agentes microbianos e doenças (só em 1876 foi comprovado que o bacilo anthracis[1] causava o carbúnculo).

Desde então e até hoje, foram muitos os avanços da Medicina que iriam elucidar as diferentes origens das infeções, como se transmitem e como se evitam. São, agora, cada vez menos os segredos por desvendar…

Em linhas gerais, no processo de propagação das infeções (causadas quer por vírus, bactérias ou por protozoários) consideram-se dois modos de transmissão: direta e indireta.

Precise-se, então.

  1. 1. A transmissão direta ocorre através do contato próximo entre um doente e uma pessoa que, estando saudável nesse momento e sem proteção, irá adquirir essa mesma doença no final do período de incubação. Cada infeção tem a sua forma própria para se transmitir. No caso da gripe ou da Covid-19, por exemplo, acontece quando as gotículas expelidas pelo doente são inaladas por uma pessoa não protegida a uma distância curta (cerca de 1 metro). A transmissão direta pode, ainda, verificar-se, no contexto de contatos íntimos entre pessoas ou por via sexual (como a gonorreia, a sífilis, a SIDA…).

É indispensável falar, abertamente, das doenças de transmissão sexual, porque, desde sempre, constituem motivo de vergonha e discriminação injustificadas. Aliás, o silêncio em redor destas infeções, a par do não tratamento medicamentoso adequado, tem contribuído para contagiar cônjuges ou outros parceiros. Igualmente, é necessário entender que o sexo esporádico ou com múltiplos parceiros, se praticado sem utilização de preservativo, representa um risco que, sublinhe-se, poderia ser facilmente evitável.

A questão do risco de transmissão de infeções através de relações sexuais não pode continuar a ser tabu até porque é possível eliminá-lo, incluindo no “dia seguinte”.

  1. 2. Por outro lado, a transmissão indireta pode ocorrer (como Covid-19) através do contato com as mãos em objetos inanimados quando estão contaminados, como sucede em superfícies lisas, nomeadamente maçanetas das portas, corrimãos, botões de elevadores, teclados, mesas, etc.

A transmissão por via hídrica acontecia antes da introdução da desinfeção pelo cloro dos sistemas de abastecimento de água destinados a consumo humano. Nesse tempo, beber água era arriscado porque podia estar contaminada pelos agentes da poliomielite, cólera, hepatite A ou diarreias agudas.

Há a citar, também, a via por alimentos contaminados (causa de diarreia e febre tifoide). E, ainda, quando a infeção é transmitida pela picada de mosca ou mosquito (via vetorial) como acontece com o paludismo, dengue, febre amarela, Zika…

Moral da história: conheça-se o contágio para o evitar.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Nome devido à cor antracite da bactéria identificada (com a forma de bacilo).

Canábis

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 8 junho 2022

É tempo de falar da canábis. A este propósito há que aplaudir a iniciativa de João Taborda da Gama que escreveu um atraente ensaio intitulado “Regular e proteger: por uma nova política de drogas”, publicado pela Universidade Católica. Trabalho oportuno que devia merecer a atenção de titulares de órgãos de soberania, incluindo os deputados do Parlamento.

Precise-se o tema da canábis.

Ora, o haxixe, à semelhança de tantas substâncias naturais, extraídas a partir de outras espécies vegetais[1], tem indicação médica em certas situações. É obtido a partir de plantas das variedades Cannabis sativa e da Cannabis indica. A preparação para ser consumida é artesanal e muito simples (por maceração). Pode ser inalado (fumo), ingerido ou aplicado em creme.

São muitas as substâncias químicas encontradas na canábis. Umas são psicoativas, outras têm ação anti-inflamatória e analgésica. Os derivados da canábis têm, comprovadamente, as seguintes indicações terapêuticas: dores em doentes do foro oncológico, tratamento da epilepsia refratária em crianças e da esclerose múltipla (serão 6000 portugueses com esta doença).

No Portugal de hoje, a utilização de derivados da Cannabis coloca questões que necessitam de regulamentação na perspetiva da comercialização legal e regulada, visto que tem indicações específicas em terapêutica médica e, por isso, terá que ser rápida a forma legal para ser receitada a doentes.

No que se refere ao uso recreativo os problemas não podem ser ignorados, até por razões de Saúde Pública. O consumo de canábis pode desencadear o aparecimento de psicose (como esquizofrenia) sobretudo em jovens com antecedentes familiares da doença.

É certo que a legalização implica diversas dimensões, desde a plantação até ao consumo, que necessitam de ser revisitadas pelos legisladores. Não é aceitável continuar a adiar decisões. O consumo ilegal e desregulado tem, claramente, riscos mais elevados do que a utilização controlada por Lei.

Ora, a principal substância psicoactiva do haxixe é o tetrahidrocanabinol (conhecido pela sigla THC) que tem níveis de concentração muito inconstantes nas substâncias ilícitas, não controladas, para uso recreativo. Recentemente, um estudo desenvolvido em Itália demonstrou que os THC podem variar de 0,5% a 20%, motivo pelo qual os efeitos no organismo são, do mesmo modo, imprevisíveis, uma vez que o consumidor não sabe a qualidade do haxixe ilegal que ilicitamente adquiriu.

O modelo regulatório do acesso às drogas ilícitas, como a canábis, devia ser inspirado na venda de drogas lícitas, como o álcool e o tabaco.

Quantos seriam os portugueses que imaginariam o seu país sem venda legal de tabaco ou de bebidas alcoólicas?  Não será um assunto sobre o exercício de liberdades individuais garantidas pela Constituição da República?

Afinal, a quem serve a política proibicionista?

A continuação do tráfico ilícito, escondido em underground, apenas seduz os traficantes.

Já a legalização interessaria aos consumidores que passariam a saber da qualidade da substância que pretendem adquirir e, para mais, a preços regulados. Interessaria, também, ao Estado pela tributação que iria originar, tal como à economia agrícola. A sociedade ganharia pela segurança dos cidadãos.

Seria a presença do Estado em lugar de redes criminosas. Questão de bom senso.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Digitalina, atropina, quinina, artemisinina, etc.

Lembrete sobre Varíola e Monkeypox (II)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 1 junho 2022

A varíola era uma doença que existiu, mas que já não existe. Em 1980, foi erradicada pela vacinação.

Era uma doença com manifestações cutâneas, quase sempre, muito exuberantes que permitiam o diagnóstico rápido, sobretudo em contexto epidémico. Nem sempre tinha a mesma gravidade, visto que, por vezes, o quadro clínico era mais ligeiro. Em Portugal, esta forma minor foi designada de “alastrim”, enquanto que a erupção intensa era conhecida, em linguagem popular, como “bexigas”.

No tempo antes de 1980, as epidemias de varíola eram devastadoras como causa de morte e de doença, em especial de cegueira, quando as lesões atingiam os tecidos oculares. A par da peste, da cólera e da tuberculose, a varíola integrava o grupo das doenças consideradas como major killers.

A varíola era uma infeção exclusiva de seres humanos, sublinhe-se. Nunca houve varíola em animais, nem sequer em macacos. As próprias pessoas doentes eram o reservatório do vírus. Eram elas que transmitiam a infeção por via respiratória, à distância ou por contacto direto com as lesões.

No mundo de hoje, não há varíola. Persiste, no entanto, em África, uma OUTRA doença, mas animal, em macacos e em roedores que é provocada por um vírus aparentado, do mesmo género, mas com genoma diferente: o vírus da monkeypox ou também designado pela sigla VMPX. Há duas estirpes distintas deste vírus: uma descoberta nos roedores e símios da África Ocidental e outra nas florestas do Congo (ex-Zaire). A primeira é menos agressiva. As estirpes do vírus da monkeypox, bem como a doença animal que causam, ainda permanecem porque, naturalmente, nunca houve vacinação de macacos…

Porém, o vírus da monkeypox pode, em situações raras, transmitir-se a seres humanos em consequência de contacto próximo com animais infetados, sobretudo em pessoas sem a vacina contra a varíola. Uma vez adquirida, a infeção humana por VMPX pode gerar cadeias de transmissão, nomeadamente em pessoas não protegidas pela vacina antivariólica.

Isto é, nesses casos, a infeção animal foi adquirida por seres humanos.[1] Por isso, é errado designar que determinada pessoa tem “varíola dos macacos”. O vírus monkeypox quando provoca uma infeção humana deve ser designada como DOENÇA DO VIRUS MONKEYPOX (e não “varíola dos macacos” porque nem é varíola nem em macacos). Aliás, por analogia, este é o método seguido para designar a infeção humana do Ébola que é uma zoonose: doença do vírus Ébola, porque Ébola é o nome do vírus e não da doença…

Agora, como noticiado, há um surto da doença do vírus monkeypox que foi recentemente confirmado, em pessoas sem a vacina contra a varíola, em Portugal e, também, no Reino Unido, Espanha, Suécia, Bélgica e Estados Unidos da América, entre outros países.

Antes de tudo, há a realçar a rapidez do diagnóstico clínico e laboratorial, incluindo, pela primeira vez, a sequenciação do genoma do vírus, alcançada pelos especialistas do Instituto Ricardo Jorge. Um sucesso.

Foram perfeitas as respostas conjuntas, em termos de qualidade e sem demoras, tanto de médicos, enfermeiros, gestores, como de cientistas. Um orgulho.

O ganho para toda a Sociedade é bem evidente quando há boa articulação entre as unidades do Serviço Nacional de Saúde, incluindo DGS e Instituto Ricardo Jorge.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Zoonose é a expressão dada a doenças comuns a animais e seres humanos.

Lembrete sobre a Varíola (I)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 25 maio 2022

A varíola era uma doença infetocontagiosa provocada um vírus. Já não existe e, por isso, é aqui relembrada em termos de passado. Era uma doença, mas já não é.

Há que relembrar que a varíola foi, em 1980, a primeira doença a ser eliminada do Globo, na sequência da vacinação em massa conduzida em todo o mundo. Antes da declaração oficial de erradicação, o último caso diagnosticado tinha ocorrido tês anos antes, em 1977, na Somália.[1]

A libertação do risco da varíola no Planeta representa, seguramente, o maior marco da Medicina que separa dois tempos históricos diferentes: antes e depois de 1980. Muitos consideram que foi a maior das conquistas que a Saúde Pública alcançou a nível mundial. O plano foi criteriosamente concebido, desenvolvido e avaliado pela Organização Mundial da Saúde. Não há palavras para enaltecer o sucesso que envolveu milhares de trabalhadores da saúde. O mundo ficou livre da varíola a um custo total estimado como inferior a um porta aviões…

Ao longo dos séculos surgia sob a forma de surtos que originavam mortalidade muito elevada (um terço dos doentes morreria). Foram epidemias terríveis que motivaram muitos milhões de mortes. Se bem que a incidência fosse mais elevada entre famílias pobres, a varíola não distinguia classes sociais. Em Portugal, o óbito mais famoso devido à varíola terá sido o príncipe José de Bragança, filho primogénito da rainha Maria I, que morreu aos 27 anos de idade, em 1788.

A varíola, hoje, não subsiste como doença. Porém, o vírus que está na sua origem ainda existe.

Esta equação é importante na perspetiva da clarificação da atual situação.

Ora bem, em 1980 e como o mundo estava dividido em dois blocos políticos distintos a Organização Mundial da Saúde decidiu armazenar o vírus em laboratórios de alta segurança nos Estados Unidos da América e na União Soviética, respetivamente em Atlanta e em Novosibirsk na Sibéria. A ideia inicial era destruir simultaneamente os stocks de vírus depois de terminados os estudos científicos sobre a sua composição genética. Acontece, todavia, que a destruição do vírus tem sido adiada. Ainda bem que assim acontece. Seria um risco para as futuras gerações se o vírus tivesse sido eliminado.

A partir de 1980, perante o cenário de ausência da doença, compreende-se que os governos de todos os países tenham abandonado a vacinação. Assim sendo, todos as pessoas que têm idade inferior a 50 anos não estão protegidas com anticorpos que a vacina teria assegurado. Um risco, portanto.

A varíola transmitia-se por via aérea e tinha um período de incubação que variava de 7 a 17 dias.

Roteiro:

  1. Pox: na língua inglesa refere-se à sífilis que tem como manifestações cutâneas manchas grandes.
  2. Smallpox: é a designação de varíola em inglês, assim chamada porque as manchas cutâneas eram pequenas (bexigas, em português vulgar).
  3. Cowpox: doença bovina provocada por um agente (vaccinia) diferente do vírus da varíola (o produto extraído a partir das lesões é a vacina que assegura proteção cruzada para a varíola).
  4. Monkeypox: palavra inglesa que se refere à infeção de macacos por um vírus parecido, mas diferente da varíola; admitiu-se, erradamente, que tinha como reservatório os macacos (mas tem origem em roedores de África).
  5. Chickenpox: varicela em inglês.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] O último caso de varíola, em Portugal, foi registado em 1952.