Pobreza – Doença – Pobreza

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 28 setembro 2022

É preciso falar sobre pobreza. Pois, são muitos portugueses que estão em risco de pobreza ou de ficarem na condição de socialmente excluídos. Estimativas já de 2022, calculam que são mais de 2,3 milhões de pessoas. O equivalente 22% da população. Uma dimensão incompreensível em regime democrático. Inadmissível. Intolerável. Quase 50 anos depois da Aclamação da Democracia, ninguém pode aceitar tal magnitude da pobreza. Nem concordar com a sua persistência. Nem ser indiferente a tanta desigualdade.

Reveja-se a História.

A relação da pobreza com a doença é, há muito, conhecida. É geradora de um círculo vicioso, traduzido por um processo infernal: os pobres adoecem mais vezes e uma vez doentes, mais pobres ficam. Por outras palavras: a pobreza é causa de doença e a doença é causa de pobreza.

Aliás, o próprio conceito de saúde pública nasceu, em meados do século XIX, durante a Grande Fome que ocorreu na Irlanda, no seguimento do aparecimento, inesperado, de uma praga que destruiu as plantações de batatas. Como as batatas eram a fonte alimentar principal dos trabalhadores irlandeses, a sua falta provocou uma imensa tragédia, traduzida por doenças, pela elevada mortalidade e pela emigração massiva. Na altura, um milhão de pobres morreram e mais de um milhão emigraram, muitos deles para a longínqua América.[i] Um quarto dos habitantes da Irlanda ou morreram ou fugiram da fome.

Na mesma época, a Oriente da Irlanda, do outro lado do Canal que separa as ilhas, a situação de saúde das classes trabalhadoras de Inglaterra, sem a gravidade da Crise da Fome, assumia proporções impressionantes.

Friedrich Engels, que com Karl Marx viria a escrever muitas obras, publicou, em 1845, o célebre livro sobre “A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra”, baseado nas observações que fez durante a sua demorada permanência em Manchester. No tempo da rainha Vitória, exemplo de cidade altamente industrial, no auge da energia a vapor e das máquinas destinadas a processar o algodão nas unidades têxteis. Mas, cidade marcada pela miséria.

A consciência pública das deploráveis condições de vida do operariado inglês, marcou, historicamente, o nascimento da Saúde Pública como importante sector do Estado. A primeira Lei de Saúde Pública foi aprovada em 1848 (Public Health Act). Estipula, entre outras normas inovadoras, que nas localidades com taxa de mortalidade geral acima de 23 por mil, deviam ser criadas entidades para superentender em matéria de saúde pública, em articulação com o organismo central que foi instituído, igualmente.

Também em Inglaterra, mas já no Século XXI, o especialista em saúde pública, Michael Marmot, demonstrou a existência de um gradiente social, gerador de um fosso (GAP) que separa ricos e pobres. Verificou que os primeiros sinais de Alzheimer aparecem 15 anos antes em pobres quando se compara uma amostra representativa de pessoas com rendimentos altos, por um lado, com uma amostra, também representativa, de pessoas de baixos rendimentos, por outro.

Moral:

Ninguém pode ficar em sossego. É preciso falar de pobreza. Mas, antes de tudo, fazer mais para a combater. Uma questão de responsabilidade.

Francisco George
www.spsp.pt


[i] O mais célebre dos emigrantes terá sido Patrick Kennedy que nasceu na Irlanda em 1823 e viria a morrer nos Estados Unidos da América, em Boston, em 1858. O presidente John F. Kennedy era seu bisneto.

Elevação da Promoção da Saúde

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 21 setembro 2022

No plano histórico, os assuntos da Saúde no tempo da Monarquia dos Braganças estavam, a nível do Estado, entregues ao Ministério do Reino que, no fundo, tratava de todas as pastas da governação e não apenas do sector da Saúde.

Foi durante o imenso sobressalto que a Epidemia de Peste provocou, que a Corte e o Governo decidem instituir a Direção-Geral da Saúde e Beneficência. Medida imediatamente concretizada, em Outubro de 1899, ainda antes da epidemia ter acabado. Na altura, o primeiro caso de Peste aconteceu na Rua da Fonte Taurina, junto à Ribeira, no Porto, em pleno Verão desse ano. O médico municipal, Ricardo Jorge, como delegado de saúde do Porto, liderou, com assinalável sucesso, todas as ações de controlo do surto. Insistiu na importância da higiene individual, familiar e comunitária. Para ele, a falta de limpeza urbana e o estado insalubre dos bairros e das casas habitadas por trabalhadores pobres, explicavam o regresso da Peste Medieval. Ricardo Jorge tudo faz para controlar a epidemia e impedir a sua propagação a outras cidades. Porém, os comerciantes portuenses não gostam das medidas, por ele, implementadas, nem do seu rigor preventivo. Receiam quebras nos negócios. Chegaram a espalhar a ideia que a epidemia era inventada. Ameaçaram Ricardo Jorge, obrigando-o a fugir da sua cidade natal. Lisboa acolheu-o. Aqui começou a trabalhar no sentido de promover a saúde de todos os Portugueses. Trabalhou muito. Derrubou barreiras. Apontou o rumo da Higiene e da Prevenção, que não conseguira no Porto. Abriu a mente a muitos políticos, deputados e governantes, quer da Monarquia Constitucional, quer da República. Logo em 1911, o ministro do Governo Provisório, António José de Almeida, nomeou-o Diretor-Geral de Saúde. Depois, também, no Estado Novo, continuou a batalhar por mais reformas, pela maior ênfase da Saúde Pública nas políticas de saúde. Nem sempre terá sido compreendido.  Infatigável até ao limite de idade dos 70 anos, Ricardo Jorge era uma figura estimável.

Oliveira Salazar manteve, por longos anos, a Direção-Geral de Saúde (DGS) integrada no Ministério do Interior. Sublinhe-se este aspeto político, caricato: a DGS inserida no Ministério do Interior na Ditadura.

Pela primeira vez na História Portuguesa, só no ano de 1958, foi decidida a criação do Ministério da Saúde e Assistência que, naturalmente, passou a englobar a DGS.

Mais tarde, a seguir à Revolução de Abril, o Ministério da Saúde passa a ser designado como Ministério dos Assuntos Sociais. Tem à sua frente um ministro que tutela, cumulativamente, os dois setores da saúde e da segurança social que ficam a cargo, cada um, de um secretário de Estado. Mas, em 1983, a estrutura orgânica do Governo volta a instituir o Ministério da Saúde com a missão de definir a política de saúde e assegurar a gestão de todo o Sistema, separando-o da Segurança Social.

Moral da História:

Acabou, para sempre, a era da DGS no Ministério do Interior.

Reconhece-se que a Promoção da Saúde assume uma importância prioritária que exige novas condições. Novos investimentos.

Hoje, no âmbito da Equipa do Ministério da Saúde, a recente nomeação da médica, Margarida Tavares, como membro do Governo para tutelar a pasta da PROMOÇÃO DA SAÚDE é muito mais do que simbólica. Representa um novo paradigma. Um novo tempo, gerador de mais confiança e mais entusiamo.

Francisco George
www.spsp.pt

Os Tamanhos de Portugal

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 14 setembro 2022

A Norte e Leste com Espanha; a Sul e Oeste com o imenso Oceano Atlântico, as fronteiras retangulares de Portugal são as mesmas há muitos séculos. As mesmas, sublinhe-se. Fenómeno que representa uma raridade na Europa. São 1214 km terrestres e 943 km de extensão de orla marítima.

O território do Continente tem uma superfície de quase de 89 mil km2. São 218 quilómetros de largura e 561 km de comprimento. A esta área, é preciso acrescentar as regiões autónomas da Madeira e dos Açores para perfazer o total de 91 831 km2.

É certo que as dimensões terão sido sempre as mesmas, com a ressalva do inesperado acrescento motivado pela erupção do Vulcão dos Capelinhos, na Ilha do Faial que, entre Setembro de 1957 e Outubro do ano seguinte, ampliou 2,4 Km2 à superfície inicial.[1]

Não acontecerá, pela certa, qualquer outra mudança ao tamanho físico de Portugal.

Bem diferentes, porém, são as sucessivas variações do tamanho da população residente. Tal como evidenciam os censos regulares, organizados pelo INE, Portugal ora cresce, ora diminui, para voltar a crescer e depois a diminuir.

Então, e no futuro? A população de Portugal, irá crescer? Diminuir? Ficar no patamar atual de 10,3 milhões de habitantes?

É importante, em termos de cidadania, perceber o perfil demográfico e as suas tendências. Para isso, há que equacionar os fatores que influenciam o crescimento populacional, e, também, pelo contrário, os que fazem diminuir a população.

Precisem-se, então, as informações.

Em 1815, estima-se que os portugueses eram 2,9 milhões. Em 1864, o primeiro recenseamento realizado, revelou 3,8 milhões de habitantes. Em 1878, já eram 4,1 milhões de residentes. Em 1890, mais 500 mil habitantes. Em 1900, atingiu o patamar de 5 milhões. A partir de 2001, a população mantém-se acima da linha simbólica de 10 milhões. Desde este ano, tem estado próxima do mesmo nível: 10,3 milhões em 2001; dez anos depois são 10,5 milhões de habitantes e agora diminuiu para 10,3 milhões de residentes, o que equivale a uma redução de 2% em comparação com 2011.

No horizonte, com os indicadores de agora e com as tendências que apresentam, há sinais de diminuição acentuada do crescimento da população que, poderá representar um risco pela falta de mão de obra e consequente problema de sustentabilidade de pensões.

Há menos filhos nascidos de mulheres, em idade fértil, e menos nascimentos todos os anos. Isto é, há acentuada baixa da fecundidade e baixa natalidade.

Repare-se nas variações registadas.

Em 2021, cada grupo de 10 mulheres em idade fértil, tem, em média, apenas, 13 filhos que não são suficientes para assegurar a continuação das gerações, visto que seria necessário, 21 filhos por cada 10 mulheres.

Em 2021, nasceram 79 mil crianças e no ano 2000, nasceram 120 mil.

Como se sabe, os filhos resultam da fecundação do óvulo da mulher por um espermatozoide presente no sémen do homem. Sem dúvida. Na natureza sempre assim acontece. É um processo a dois, entre Homem e Mulher. Mas, quer a gravidez que dura 9 meses, quer o parto, estão a cargo de mulheres em idade fértil…

Moral da história:

Para Portugal conseguir reduzir o ritmo de decréscimo da sua população precisa: níveis de fecundidade mais elevados; mais crianças; mais imigrantes e menos emigrantes.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Esta área de 2,4 km2 reduziu-se depois para 0,8 km2 devido à erosão do mar e do vento.

Desafios

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 7 setembro 2022

Desde o aparecimento da pandemia da SIDA, em 1980 e do reconhecimento da propagação da resistência aos antimicrobianos, designadamente das bactérias aos antibióticos; dos vírus aos medicamentos antivirais; dos parasitas aos antipalúdicos e até dos mosquitos vetores aos inseticidas (como o DDT), os cientistas perceberam que as crises de Saúde Pública iriam continuar a ocorrer. Admitiram que outras situações poderiam surgir. Recomendaram, desde logo, mais reforço das unidades de resposta a emergências, mais investigação e mais investimento por parte do Estado em Saúde.

Tinham razão. Aconteceram novas crises. Antes e depois da viragem para o Século XXI foram identificados outros problemas, inquietantes, que fizeram reacender preocupações que iriam abalar a segurança das populações e exigir a mobilização de cada vez mais recursos.

Antigos problemas voltaram a reaparecer (como a tuberculose resistente aos medicamentos, doenças transmitidas por vetores), ao lado de outros novos que iriam surgir sem terem sido previstos (como as pandemias provocadas por coronavírus ou a doença do vírus Ébola).

As infeções respiratórias que começaram na Ásia são devidas ao coronavírus que é comum em animais exóticos. Já a epidemia da doença do Ébola, em 2014, que teve início na Costa Ocidental de África, é provocada por um vírus diferente associado aos macacos. Ambas são de origem animal.

Porém, uma multiplicidade de causas poderá explicar o aparecimento de novas crises.

Comece-se pela poluição. Basta comparar uma fotografia[1] de uma cidade e das suas áreas suburbanas, hoje, com outro retrato da mesma cidade há cem anos. São muitas as diferenças: antes de tudo, a imensidão de veículos movidos a combustíveis fosseis; a aglomeração de edificações, resultantes de especulação imobiliária; industrialização desordenada; níveis crescentes de poluição do solo, dos rios, dos oceanos e da atmosfera. Tudo isto agravado pela desflorestação frenética do território; concentração urbana da população; o perfil demográfico envelhecido e a desmedida ligação aérea permanente que une todas as cidades do mundo.

Essas condições são causadoras de maior vulnerabilidade das populações, sem ignorar as desigualdades da qualidade de vida, a persistência da pobreza, as consequentes dificuldades alimentares, o constante agravamento das diferenças sociais entre famílias de altos e baixos rendimentos, bem como os efeitos na saúde provocados pelas alterações climáticas que agravam essa vulnerabilidade, em todo o Planeta. Entre outros efeitos causados pela aceleração das alterações climáticas, o aquecimento global favorece, comprovadamente, a multiplicação de vetores, para além de provocar maior frequência de fenómenos climáticos extremos como secas, inundações, ciclones e ondas de calor.

Assim sendo, como no horizonte não há sinais de melhoria nem remédios milagrosos, há que admitir que irão continuar a acontecer novas crises, novas epidemias e pandemias. Suceder-se-ão.

Moral da história:

É tempo para os governantes prepararem os países para responderem a futuros desafios como epidemias inesperadas e imprevisíveis. É tempo para reforçarem os sistemas de vigilância. É tempo para dedicarem mais investimento à investigação. É tempo para a Saúde Pública ser uma prioridade.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Ver as diferenças entre retratos de hoje e há cem anos, no mesmo ângulo.

Férias de Agosto

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 7 julho 2022

Esta coluna de opinião, regularmente publicada nas páginas do “Diário de Notícias”, todas as quartas feiras, vai estar ausente em Agosto por motivo de férias. Regressará em Setembro.

Entretanto, apontam-se algumas recomendações e conselhos, nomeadamente sobre higiene geral, saúde e bem-estar, na perspetiva da necessária recarga de ânimo e de energia que as férias proporcionam.

O foco terá que estar centrado na redução do stress. Para tal, é preciso dispensar o relógio, incluindo o despertador e utilizar menos vezes o telemóvel. É um bom princípio. Todos reconhecerão que andar a correr atrás das horas para chegar a tempo aos transportes públicos ou viver o infernal pára-arranca do tráfego automóvel citadino, em horas de ponta, são fatores de stress que, agora, em férias não fazem qualquer sentido. São, da mesma forma, de evitar as longas filas de automóveis a caminho das praias.

Em matéria de preservação da saúde para todos os membros da família a principal medida, quase obrigatória, é a proteção da exposição aos raios solares. Na praia ou no campo, a utilização de uma camisa de tipo T-shirt é altamente aconselhável, mesmo durante os mergulhos no mar ou piscina[1]. A aplicação de cremes protetores é tanto mais importante quanto mais clara é a pele (em crianças muito em especial)[2]. É preciso saber que os chamados “escaldões”, devidos à excessiva exposição solar, são indesejáveis porque, mais tarde, podem estar na origem de um cancro cutâneo (melanoma). Chapéu de abas largas e óculos escuros, são igualmente indispensáveis. É preciso saber que à hora de almoço, pelo menos entre as 12H30 e as 16H00, a exposição ao sol é especialmente nociva. Decididamente, as melhores horas para frequentar a praia são quer de manhã cedo quer ao final da tarde.

A moderação do consumo de bebidas alcoólicas é a grande regra que deve ser observada por condutores de automóveis, motos ou bicicletas e também pelos peões que andam à beira das estradas. As bebidas alcoólicas, mesmo em pequenas quantidades, dilatam as artérias e, por isso, interferem com a regulação da temperatura corporal que tem uma margem pequena de variação à volta de 36,5 graus centígrados. Já a temperatura ambiental, ao longo das 24 horas do dia, pode oscilar entre 15 e 40 graus, motivo que explica a necessidade da não interferência com os mecanismos normais que mantêm a temperatura do corpo estável (vaso dilação, vaso constrição, circulação, suor).

As refeições devem ser ligeiras, ricas em saladas e frutas. Fora das refeições há que ter em atenção as elevadas calorias dos gelados (que em excesso são sempre prejudiciais à saúde). Para a sede, a água, em lugar de refrigerantes.

Apesar da dificuldade é imperioso reduzir o tempo à frente dos écrans dos telemóveis e computadores, em especial de crianças e jovens. O risco de dependência é real. Um novo e inesperado problema de Saúde Pública que urge resolver. Muito preocupante.

Incutir o gosto pela leitura.

Moral da história: garantir proteção criteriosa da exposição ao sol. Fazer exercícios ao ar livre. Caminhadas. Aproveitar para pôr as conversas em dia com os amigos e vizinhos de verão. Esquecer o telemóvel. Evitar riscos desnecessários. Mais frutas. Menos doces.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Atenção às piscinas públicas sem sombras de proteção da exposição ao sol.

[2] A aplicação generosa e frequente de protetores é essencial.

O Universo de Crentes e Agnósticos

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 20 julho 2022

Um ensaio, escrito por Paulo Crawford, intitulado “O Universo – do Big Bang aos Buracos Negros”, publicado, em Maio de 2022, pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, é muito interessante. É uma obra estimulante para todos os que se interessam pelos segredos do Universo, quer para crentes em Deus quer para agnósticos.

A grande questão é compreender a origem do próprio Universo. O seu princípio. A sua composição. A sua estabilidade. A expansão da matéria. A energia. O tempo de existência prevista para o Sol ou para cada um dos seus planetas (como a Terra) e muitas outras respostas a perguntas formuladas com indiscutível inteligência.

Antes de tudo, duas questões principais:

O Universo terá sempre existido? Ou, terá havido um momento correspondente ao seu início?

Com os primeiros telescópios, terrestres, apesar de munidos de poderosas lentes que permitiram observar o Sistema Solar, não era possível encontrar respostas seguras. São instrumentos quase “cegos” em comparação com o alcance conseguido pelos telescópios montados em estações no espaço, lançados por potentes foguetões.

Ora bem, em resposta às duas questões acima colocadas, sublinha-se que todos os cientistas estão de acordo que o começo, comummente designado como BIG BANG, ocorreu há cerca de 14 mil milhões de anos.[1] Foi o momento que, pela primeira vez, não só criou matéria (estrelas, planetas, galáxias…) como também os conceitos de tempo e de espaço. Antes, nada havia. Absolutamente nada. Depois, percebeu-se que os corpos celestes e as galáxias tinham dinamismo acentuado.

Assim comprovam os estudos apoiados pelas observações conseguidas pelos telescópios espaciais, primeiro o Hubble (lançado em 1990) e, agora, o supertelescópio James Webb.[2]

O inovador Webb, dotado de ferramentas mais sofisticadas que o Hubble, começou a produzir imagens, tal como previsto a partir de Julho, tão nítidas como surpreendentes, ao fim de 20 anos de desenvolvimento de um projeto, ímpar, que juntou especialistas norte-americanos da NASA, também do Canadá (CSA) e da Agência Espacial Europeia (ESA), incluindo de Portugal.

Nesta parceria, destacam-se os contributos da astrónoma portuguesa Catarina Alves de Oliveira que considerou o telescópio James Webb “100 vezes mais sensível do que o Hubble”.

Essas novas imagens, verdadeiramente revolucionárias, retratam fenómenos captados a distâncias imensas, designadamente a muitos anos-luz, que possibilitam extrair novos dados e conhecimentos científicos, bem como demonstrar eventos até hoje ignorados: exoplanetas em órbita em torno de “outro Sol”, morte de estrelas, presença de água, movimentos cósmicos, dinamismo de galáxias, corpos celestes, energia negra, etc.

Por outro lado, se bem que sem unanimidade da comunidade científica, há especialistas em astrofísica que admitem a criação de novos universos a partir do nada.

Moral da história: Antes do Big Bang nada havia.

Com o Big Bang, há 13 770 000 000 anos, surgiu a noção de tempo e de espaço.

O Universo é dinâmico. Expande-se a diferentes velocidades ao longo do tempo.

Os crentes atribuem a criação do Universo a Deus.

Os agnósticos admitem que o Universo foi criado a partir do nada.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Mais precisamente há 13,7 mil milhões de anos.

[2] Sem ignorar os contributos da missão espacial não tripulada WMAP que esteve operacional entre 2001-2010.

Uso Racional de Medicamentos (II)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 13 julho 2022

Tratar e curar doenças terá sido, desde sempre, uma preocupação principal em todas as comunidades humanas, mesmo nas chamadas sociedades primitivas.

Porém, são recentes os efeitos positivos dos medicamentos, traduzidos pela redução da morte associada à doença e pelo prolongamento da esperança em viver.

Sobre o tema, a Escola Superior de Saúde do Politécnico da Guarda organizou um seminário científico sobre o uso racional de medicamentos. Encontro muito oportuno. Debateu-se a importância da preservação dos antibióticos. Considerou-se indispensável promover a literacia sobre o assunto, nomeadamente nos programas escolares de todos os níveis. Uma exigência, em nome do interesse público.

Foram as grandes descobertas da farmacologia do Século XX que impulsionaram decisivos avanços da Medicina quer em terapêutica quer em prevenção. A vida de crianças, mulheres e homens, em todas as idades, passou a ser diferente. Antes de tudo, muito mais longa. Mais saudável. Mais produtiva. Mais próspera. Mais segura. Mais confiante, também.

Além dos antibióticos, dois exemplos permitem imaginar a insegurança anterior ao ano indicado:

1921, ano da descoberta da insulina.  Tudo se passou na Universidade de Toronto. O Serviço Universitário tinha como professor titular, John Macleod (1876-1935), que promoveu a constituição de uma pequena equipa em ambiente que viria a ser mirabolante (mas com final feliz). Macleod decidiu atribuir um espaço e recursos ao cirurgião Frederick Banting (1891-1941), a fim de poder conduzir pesquisas sobre o funcionamento do pâncreas. Para tal, também autorizou que o jovem recém-bacharel, Charles Best (1899-1978)[1], fosse apoiar Banting. Permitiu, ainda, a cedência de cães para experimentação.

Ora, foram os dois, Banting e Best, que, pela primeira vez, descobriram que os extratos da substância que isolaram dos ilhéus do pâncreas, depois de injetada, fazia baixar o açúcar no sangue de um cão diabético. Pouco depois, foi o jovem diabético, Leonard (14 anos), o primeiro doente a receber insulina[2]. Que vitória!

Logo a seguir, contaram com a colaboração de James Collip (1892-1965), especialista em bioquímica, para melhorar o processo de obtenção da insulina.

Em 1923, a atribuição do Prémio Nobel, apenas a Macleod e Banting, viria a aumentar a disputa de protagonismo entre eles devido à exclusão de Best e Collip.

1960 fica na história como o ano da aprovação da pílula anticoncecional que foi preparada, entre outros, pelo biólogo norte-americano Gregory Pincus (1903-1967). O novo método, baseado na inibição hormonal da ovulação, mas com manutenção da menstruação, foi um êxito. Um bem para a Humanidade, ao separar o sexo e a conceção. Libertação. Revolução.

A primeira pílula, autorizada nos EUA, foi a “Enovid”. Assinale-se, como bom exemplo de filantropia, que as investigações médicas foram financiadas pela milionária Katharine McCormick (1875-1967). Depois multiplicaram-se outras pílulas de composição ainda mais segura. Apesar da resistência da Igreja Católica a grande maioria das mulheres em idade fértil aderiu com entusiamo à pílula como método racional de planeamento da família.

Moral: usar, sempre, todos os medicamentos de forma racional.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Charles Best foi escolhido ao acaso entre três candidatos…

[2] Assim batizada porque é proveniente dos ilhéus do pâncreas.

Uso Racional de Medicamentos[I]

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 06 julho 2022

Em Medicina, a utilização eficaz, cientificamente comprovada, de medicamentos para tratamento ou prevenção de doenças é relativamente recente.

Com exceção da vacina antivariólica, a preparação do primeiro medicamento, ainda hoje com indicações para ser receitado, foi a morfina (1805).

Já a história da famosa “Aspirina”, se bem que mais recente, é muito interessante. Começou a ser utilizada há 125 anos com composição idêntica à atual. A sua síntese remonta a 1897[2] e desde então foi comercializada pela Bayer com o apoio de uma inovadora campanha de marketing, para a época. A par de ser um excelente fármaco, a “Aspirina” é o medicamento mais consumido em todo o mundo. A descoberta do seu mecanismo de ação deve-se ao farmacêutico inglês John Vane (1927-2004) que, em 1982, recebeu o Prémio Nobel da Medicina por ter contribuído para a compreensão dos seus efeitos analgésico e anti-inflamatórios, incluindo os benefícios obtidos pelo seu uso regular na prevenção de enfartes do coração e de acidentes vasculares cerebrais.

Tanto a simples “Aspirina” como todos os medicamentos impõem uso racional. Criterioso. Se assim não suceder podem sobrevir danos colaterais, não só para o próprio consumidor, como para a comunidade.

Precise-se.

Antes de tudo, o exemplo dos antibióticos.

Como se sabe, a penicilina foi descoberta pelo médico escocês Alexander Fleming (1881-1955)[3] em 1928. Mas, só foi introduzida no mercado a partir de 1941 para a terapêutica de determinadas doenças de natureza bacteriana. Logo depois surgiram os seus derivados como a ampicilina, entre outros. A Indústria Farmacêutica conquistara novas fronteiras. Um sucesso. Acreditou-se em futuro livre de infeções provocadas por bactérias.

Um sonho de curta duração.

Curta duração porque, inesperadamente e depressa, verificou-se que os antibióticos deixariam de ser eficazes à medida que as bactérias passavam a adquirir alterações do respetivo património genético. Transformavam-se, assim, em bactérias, agentes das mesmas doenças, mas resistentes aos antibióticos. Intratáveis. Surgem dificuldades preocupantes no tratamento da tuberculose e de doenças antes curáveis. Infeções hospitalares e outras também associadas aos cuidados de saúde, resistentes aos antibióticos.

Ainda, os medicamentos antivirais, introduzidos mais recentemente para tratamento de doenças provocadas por vírus, enfrentam problemas de resistência, como ocorreu com a gripe em relação ao oseltamivir, por exemplo.

Igualmente, os medicamentos contra o paludismo, como a cloroquina (aprovada para terapêutica e profilaxia desde 1947) antes do final do Século já não tinha indicação devido à vasta propagação da resistência desenvolvida pelos protozoários causadores do paludismo.

Moral:

As bactérias mudam, uma vez resistentes irão transmitir a resistência a novas gerações de bactérias. As pessoas que adquirirem uma infeção provocada por bactéria resistente a certo antibiótico, mesmo que nunca tenham tomado esse antibiótico, o tratamento será ineficaz.

Os antibióticos devem ter uso racional em clínica, veterinária ou zootecnia!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Tema do Encontro recente promovido pelo Instituto Politécnico da Guarda.

[2] Foi o químico alemão Hoffmann (1868-1946) que sintetizou a “Aspirina” que viria a ser o primeiro medicamento apresentado sob a forma de comprimido.

[3] Recebeu o Premio Nobel em 1945.

“A Guerra é a Morte…”

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 29 junho 2022

Visitar as praias da Normandia para reviver o Desembarque é um exercício que todos deviam, agora, fazer. Uma “vacina” para todos, incluindo jovens em idade escolar, sublinha-se. Exercício facilmente praticável através da leitura de textos, consulta de livros ou, ainda melhor, da observação de imagens de fotografias e de filmes da época, disponíveis na internet e canais da televisão (para além, naturalmente, de deslocação à Normandia).

Fez este mês 78 anos que as divisões das forças armadas Aliadas atravessaram o Canal da Mancha para libertarem a França ocupada pelos alemães. Muitos milhares de soldados, sob o comando dos generais Dwight Eisenhower (1890-1969) e Bernard Montgomery (1887-1976), iniciaram nas praias da Normandia a Libertação da França e, também, da Europa e do Mundo. Em 1944, na manhã de 6 de Junho, entre tropas terrestres e paraquedistas, mais de 150 mil militares dos contingentes americanos, ingleses e canadianos desembarcaram nas célebres praias, então designadas com os nomes de código de Omaha Beach, Utah Beach, Gold Beach, Sword Beach e Juno Beach. Muitos morreram nas primeiras horas.

A estes jovens heróis que participaram na Libertação, há que juntar os soldados do Exército Soviético, chefiado pelo general Gueorgui Júkov (1886-1974), que entraram em Berlim a 2 Maio do ano seguinte, assinalando a derrota alemã do Terceiro Reich de Adolf Hitler. Seguiram-se a Itália e o Japão.

E, igualmente, é preciso destacar os partizans da Resistência Francesa (quase 20 mil morreram em combate ao lado dos Aliados).

No total, entre militares e civis, a II Guerra Mundial de 1939-1945 matou 60 milhões de pessoas.[1]

Quem poderia ignorar esta enorme tragédia, este imenso sacrifício?

Foram muitos. A realidade viria a revelar uma insensibilidade incompreensível. Estranhamente, as bandeiras da Guerra regressaram pouco depois e subsistem até hoje. Ininteligível. Coreia. Vietnam. Palestina. Balcãs. Irão. Iraque. Síria. Afeganistão…

O horror em matar e morrer parece não ter fim. Imparável.

Já em 2022, com a ilegítima invasão da Ucrânia pelas tropas da Rússia voltaram os discursos e as ações belicistas. É muito provável que o conflito tivesse sido evitado com mais diálogo e ponderação de cada parte. Tudo falhou. Tudo horrível. Atroz. Impiedoso.

Líderes europeus e da NATO em perigosa sintonia de alto risco. As habituais sanções aplicadas ao invasor, mas a refletirem-se negativamente a nível global. A questão do trigo. Fome. Pobreza a aumentar. A Presidente da Comissão Europeia a advogar a implementação de medidas que desequilibram a estabilidade económica e financeira da União que originam descontrolo da inflação.

O Secretário-Geral da NATO a não dar tréguas à guerra. O Conselho de Segurança da ONU, mais uma vez, inoperante. Praticamente ausente. São poucos os que optam por promover a Paz. Quase ninguém.

Cada vez mais armamento, mais tanques, mais artilharia e mais misseis. Mais morte.

Conclusão: Tudo mau. Todos a perder. Apenas a indústria de armamento a ganhar.

Moral: Está resumida na placa de mármore que o Canada colocou no Memorial de Caen, na Normandia, próximo do Cemitério Militar, onde estão mais de 2000 sepulturas com os seus soldados que desembarcaram em Juno Beach:

A guerra é a morte
 A paz, a vida
 A liberdade, a esperança”.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Dos 60 milhões de mortos, um terço eram russos (URSS).

Epidemias

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 22 junho 2022

Todos reconhecem que Hipócrates (460 aC – 377 aC) é a figura mais importante da Medicina. Adquiriu elevado prestígio na Antiguidade Grega.  Foi ele o primeiro a atribuir causas naturais às doenças, ao contrário do que até então se julgava. As doenças deixariam de estar associadas a crenças religiosas, à magia ou a teorias filosóficas. Criou, na ilha de Cós, a lendária Escola para médicos que passou a separar a Medicina da Filosofia. Curiosamente, pouco se sabe sobre a vida de Hipócrates e daquilo que terá escrito. Admite-se que a sua obra, compilada e traduzida na Biblioteca de Alexandria, terá tido muitos dos seus discípulos como autores e não apenas Hipócrates. Ora bem, dois dos famosos livros, editados na época, foram dedicados às EPIDEMIAS.

Na altura, o historiador grego Tucídides (460 aC – 400 aC), contemporâneo de Hipócrates, presenciou e descreveu a onda epidémica da doença que devastou Atenas durante a Guerra contra Esparta, no Seculo V antes de Cristo. Estranhamente, apesar de

contemporâneos, Hipócrates ignorou os minuciosos relatos que Tucídides fez sobre a epidemia de Atenas.[1]

Muito bem documentada foi, também, na época, a epidemia de papeira (mencionada como inchaço atrás das orelhas por vezes acompanhado de inflamação dos testículos), ocorrida na ilha grega de Thassos, no mar Egeu.

Vocabulário prático popular para leitores de jornais

Cluster: aglomerado de casos de uma mesma infeção com relação temporal e espacial entre eles. O elemento temporal impõe que os casos sejam diagnosticados dentro do período de incubação da doença e a componente espacial refere-se ao local de contágio. É a situação, por exemplo, correspondente à identificação de Covid-19 em membros da mesma família, em dias sucessivos, que convivem no mesmo espaço sem medidas de proteção.   

Epidemia (do grego epi = sobre; demos = povo): tal como resulta da origem grega da palavra, uma epidemia refere-se unicamente a seres humanos quando uma doença surge em determinada região em excesso ao habitualmente esperado. Nestes termos, um só caso de raiva humana, em Portugal, poderia constituir uma epidemia.

Pandemia: uma epidemia que se propaga, rápida e simultaneamente, a nível mundial. Apontam-se, como exemplos, a gripe pneumónica de 1918, a gripe asiática de 1957, a SIDA a partir de 1980 ou, nos tempos de hoje, a Covid-19.

Endemia: refere-se à presença habitual de um agente infecioso ou de doença em determinada região e população (paludismo na Guiné-Bissau).

Epizootia (do grego zoon= animal): doença que atinge animais da mesma espécie e na mesma região. Como, por exemplo, a Doença de Newcastle das aves.

Enzootia: doença de animais que é habitual na mesma região como Monkeypox em macacos em África, tendo roedores como reservatório.

Epifitia (do grego phyton = planta): doença vegetal com carater infecioso que se propaga em plantas de uma mesma área.  Como referência, a título de exemplo, na Irlanda, na década de 1840, as plantações de batatas foram dizimadas por um fungo (míldio da batateira ou também designada como praga da batata).

Zoonose: doença comum a animais e seres humanos.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com


[1] Ainda hoje ignora-se a origem da epidemia. Porém, é provável que as descrições correspondam a uma epidemia de gripe. A obra de Tucídides “História da Guerra do Peloponeso” está disponível em português, publicada pelas Edições Sílabo, em 2008.