Opinião Pessoal (XXIV)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 22 maio 2024

Já aqui escrevi sobre o panorama do envelhecimento da população residente em Portugal. O fenómeno da atual transição demográfica era esperado, desde há muito. Todos sabiam que iria acontecer. Por outras palavras, a população portuguesa não envelheceu de forma súbita. Ano após ano a proporção de pessoas idosas aumentou de forma imparável, em comparação com o ano anterior. Assim, em termos percentuais, o país passou a ser habitado por mais idosos. Situação com tendência para se acentuar no final da década.

O aumento da esperança de vida verificado em Portugal traduz, naturalmente, os imensos avanços socioeconómicos e de saúde pública que foram alcançados desde 1974.

Já manifestei a minha convicção de ser possível prolongar, ainda mais, a esperança de vivermos, apesar do notável aumento da longevidade que foi conseguido, até agora: entre a população com 65 ou mais anos de idade, 30% são pessoas com idade superior a 80 anos.

Para ser possível prolongar o tempo de viver, há que implementar medidas que visam, também, elevar a qualidade de vida das pessoas. Isto é, com mais autonomia. Com mais atividade produtiva. Com mais energia. Com mais saúde. Com mais prosperidade.

Para tal, é preciso desenhar e implementar políticas setoriais, concretas, destinadas a incentivar a promoção da saúde e a prevenção das doenças. Essas ações, desde que cientificamente fundamentadas, serão contempladas em políticas públicas conduzidas pelos diferentes departamentos do Estado e, em particular, pelo Ministério da Saúde. O sucesso dessas políticas preventivas depende, antes de tudo, da respetiva aceitação social e do grau de participação da população.

Em resumo, sou da opinião que é oportuno impulsionar a componente de prevenção no Sistema de Saúde, na perspetiva do envelhecimento saudável.

É preciso tudo fazer nesse sentido. Não adiar.

É o caso da introdução de novas vacinas para adultos que são eficazes para evitar complicações de certas infeções respiratórias, tanto de natureza viral como bacteriana. Pesquisas científicas recentes comprovam os seus efeitos positivos que não podem ser ignorados. Refiro-me à vacina contra a gripe de “alta dose” que tem uma carga antigénica quatro vezes maior do que a vacina sazonal standard e que é especialmente indicada para prevenir as complicações respiratórias em idosos (por exemplo, a partir dos 80 anos) durantes as semanas frias.

Com o mesmo propósito, estão, igualmente, aconselhadas, a partir dos 65 anos de idade, as vacinas inovadoras contra as doenças provocadas pelo pneumococo que visam evitar os efeitos associados à pneumonia, meningite e otites.

No mesmo sentido, as vacinas contra as infeções originadas pelo vírus sincicial respiratório (VSR) estão indicadas para adultos com idade igual ou superior a 60 anos, mas, igualmente, para serem administradas, em dose única, a mulheres grávidas entre as 24 e 36 semanas de gravidez, a fim de prevenir infeções do recém-nascido.

Conclusão: Estudos de custo-benefício demonstram que os investimentos necessários para aquisição e administração das vacinas são compensados pelas poupanças decorrentes da redução das despesas que estariam relacionadas com a hospitalização de doentes, incluindo os tratamentos em unidades de cuidados intensivos (em doentes sem vacinação contra estas doenças).

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XXIII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 15 maio 2024

A crónica de hoje tem como tema a vida e o modo de viver da população mais idosa no nosso país. Para tal, proponho, primeiramente, que olhemos para a atual dimensão do envelhecimento dos residentes em Portugal.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística há dois milhões e meio de habitantes (incluindo imigrantes) com 65 ou mais anos de idade.

Ora, concentremos a nossa atenção apenas nestes 2,5 milhões de pessoas e façamos as questões seguintes:

1) Em Portugal, uma pessoa com 65 anos de idade quantos anos tem de esperança de viver?

2) Dentro desse grupo com 65 e mais anos, quantas pessoas têm mais de 80 anos e mais de 100 anos?

3) Quais as principais doenças que afetam estas pessoas?

4) Há doenças evitáveis, mesmo neste grupo etário?

5) É possível prolongar ainda mais a longevidade e assegurar, simultaneamente, mais qualidade à vida?

Eis as respostas às cinco questões acima formuladas:

1) Em média, em termos de probabilidade, quem tem 65 anos de idade tem a esperança de viver mais 20 anos. Esta estimativa traduz o desenvolvimento da Saúde Publica, desde 1974. Foi resultado do progresso socioeconómico, do Serviço Nacional de Saúde, das prestações sociais e das novas infraestruturas de saneamento básico. O país foi ficando diferente e melhor e as pessoas passaram a viver mais tempo (a morrer mais tarde).

2) Os mais idosos com 80 anos ou mais anos de idade são 750 mil pessoas, das quais três mil têm 100 ou mais anos. Estes dados refletem o conceito de longevidade (30 % dos 2,5 milhões de habitantes têm 80 ou mais anos) e o processo imparável de envelhecimento demográfico. É uma questão que não deverá ser dramatizada, mas que exige preparação, adaptação e planeamento.

3) As doenças cérebro-cardiovasculares, oncológicas e as doenças respiratórias de evolução crónica representam a maior carga de doença, uma vez que provocam morte e incapacidade. Porém, as doenças agudas, nomeadamente de natureza infeciosa têm expressão significativa, mesmo no período pós-pandémico.

4) Sim. É possível evitar determinadas doenças transmissíveis, quer de origem viral quer bacteriana, uma vez que há vacinas seguras. Assumem indiscutível oportunidade, visto que evitam os casos mais graves de doença e, portanto, reduzem a necessidade de hospitalização e a admissão em unidades de cuidados intensivos. É o caso das novas vacinas para a gripe (alta dose), para as pneumonias e outras infeções respiratórias.

5) É verdade. É possível diferir o final da vida. Isto é, prolongar a longevidade e com mais qualidade de vida no âmbito da implementação de políticas públicas para o envelhecimento ativo em que a idade biológica deixa de ser o fator principal para decidir se cada pessoa pode ou não continuar a produzir.   Tão importante como saber prevenir e tratar a diabetes ou a hipertensão arterial, ou qualquer outra doença, é garantir o acesso a novas vacinas que adicionam mais tempo de vida à própria vida. Além disso, os investimentos necessários para a aquisição de vacinas são compensados com os benefícios a que dão origem. Isto é, têm um custo-benefício compensador, já cientificamente demonstrado.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XXII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 8 maio 2024

O tema que escolhi para a crónica de hoje relaciona-se com a progressiva expansão das atividades desenvolvidas pelas farmácias comunitárias em Portugal. Começo por sublinhar a importância dos serviços que prestam às pessoas. Indispensáveis. Muito mais do que mera atividade comercial de venda ou dispensa de medicamentos, desempenham um papel social de imenso relevo, particularmente no âmbito da Saúde Pública.

Em termos históricos, a evolução das farmácias está bem documentada no excelente espaço museológico da Associação Nacional das Farmácias, em Lisboa, ao bairro de Santa Catarina (visita obrigatória).

Eis o meu testemunho.

Em 1936, o meu Pai estava a preparar os exames para iniciar a carreira de Médico Interno nos Hospitais Civis de Lisboa. Na altura, logo a seguir a ter acabado o curso na Faculdade ao Campo de Santana, começou a fazer consultas num gabinete de uma Farmácia em Campo de Ourique, situada na Rua Silva Carvalho nº 1, junto ao famoso “quarteirão inglês”. Curiosamente, essa farmácia era propriedade da família da professora Odete Ferreira (1925-2018) que viria a distinguir-se como farmacêutica e investigadora em virologia, designadamente sobre a SIDA. Ora, foi aí que o jovem médico Carlos George (1913-1986) iniciou o exercício da sua profissão, recebendo as primeiras remunerações pelas consultas que prestava a quem o procurava.

No entanto, pouco depois, ainda nos anos 30, a sua atividade clínica foi interrompida porque deixou de ser legal fazer consultas médicas aos doentes em consultório junto a farmácias. Percebe-se a justeza da medida, então adotada, devido a razões de natureza ética, baseadas na reconhecida adequação em separar os locais, por um lado, onde é receitada a terapêutica e, por outro, a venda dos medicamentos aí prescritos pelo médico. O princípio da separação do médico que receita e do farmacêutico que dispensa foi socialmente compreendido e aceite.

Já longe da farmácia, Carlos George instalou-se, com sucesso, na Policlínica da Estrela, à rua Domingos Sequeira.

Considero que este meu relato tem agora oportunidade, uma vez que as funções do farmacêutico estão cada vez mais valorizadas, nomeadamente em termos de competências e responsabilidades. Ainda bem que assim acontece. A nível nacional, a oferta de formação universitária em ciências farmacêuticas é muito expressiva. Como resultado natural o atendimento nas farmácias tornou-se cada vez mais apoiado por técnicos dotados de formação superior (bacharelatos, licenciaturas e mestrados) e com comprovada aptidão para exercerem funções no âmbito da dimensão saúde. Acentuo a componente saúde, visto que há novas perspetivas para ampliar ações de aconselhamento a utentes, sobretudo destinadas à promoção da saúde e prevenção de doenças crónicas.

A proximidade com os utentes e a confiança que estes depositam no atendimento farmacêutico constituem um património precioso. Razão pela qual estão criadas condições para alargar atuações nos domínios da vacinação, proteção das radiações solares, alimentação equilibrada (calorias adequadas, menos sal e açúcar) e estilos de vida, bem como aconselhamento em doenças crónicas (diabetes, por exemplo) e em casos de doença aguda ligeira, desde que em regime de absoluta harmonia de princípios éticos a acordar entre a Ordem dos Médicos e a Ordem dos Farmacêuticos.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XXI)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 1 maio 2024

Nos últimos 50 anos ocorreram grandes transformações no nosso país. Portugal é, agora, diferente. Mais europeu. Essas mudanças são bem visíveis, bastando comparar os dados oficiais publicados pelo Instituto Nacional de Estatística de 1974 com os atuais. Neste sentido, realço:  a população cresceu 1.5 milhões de habitantes; presentemente, cerca de 2.3 milhões de pessoas são pensionistas dos sistemas de Segurança Social; a taxa de mortalidade infantil desceu de 45 para 2.6 por cada 1000 nascimentos vivos.

Os exemplos multiplicar-se-iam em todos os setores da vida económica, social e cultural do país. Porém, escolhi esclarecer uma das transformações mais marcantes em saúde pública, mas, menos conhecida. Refiro-me à doença, antigamente comum e hoje rara, conhecida vulgarmente por “icterícia”, que é provocada pela infeção do vírus da hepatite A.

Atualmente, se uma família portuguesa viajar a África ou Ásia, só os jovens abaixo dos 35 anos precisam de ser vacinados contra a hepatite A. Os mais velhos, como são do tempo de Portugal sem higiene pública, lidaram de perto com o vírus e, por isso, geraram anticorpos. Isto é, os mais novos devem ser imunizados pela vacina, mas os mais velhos já estavam imunizados mesmo sem terem sido vacinados e, portanto, não necessitam de vacina!

Preciso.

A hepatite A pode ser adquirida por uma pessoa ao beber água contaminada por fezes (transmissão fecal-oral), visto que os vírus das pessoas infetadas são eliminados por via intestinal que, na ausência de esgotos, contaminam a água que a seguir será consumida. No início, tem como quadro clínico a falta de apetite, náuseas, a coloração amarela dos olhos e a pigmentação escura da urina. Esta situação, antes de 1974, estava relacionada com a circulação descontrolada dos vírus, porque as condições infraestruturais de saneamento básico eram muito débeis. Na altura, era quase constante o contacto das pessoas com o vírus porque a água estava frequentemente contaminada por fezes em consequência da ausência de infraestruturas de saneamento. Sublinho que, na época, apenas 25% da população era servida por bons sistemas de abastecimento de água potável ao domicílio e que só 17% dispunha de sistemas de esgotos e 14% de recolha organizada de lixo.

Além disso, parte da população vivia em barracas. Só em Lisboa, 90 mil pessoas residiam nas 18 500 barracas.

Assim sendo, é fácil admitir que os vírus eliminados por pessoas infetadas fossem depois, inadvertidamente, ingeridos através de ingestão de água não tratada (nem pelo cloro nem pela fervura).

Por isso, a população portuguesa convivia com os vírus e, como resultado, criava anticorpos protetores.

Acontece, porém, que essa proteção deixou de existir à medida que, no país, avançavam as grandes obras públicas de construção de infraestruturas de saneamento básico. Foi, então, que os vírus da hepatite A deixaram de ser ingeridos pela água, uma vez que passou a ter qualidade (potável).

Ora, como a entrada dos vírus no organismo cria anticorpos, verifica-se o seguinte fenómeno: quem tem mais de 35 anos possui anticorpos protetores naturais porque é do tempo do Portugal sem saneamento e, por outro lado, quem nasceu depois das grandes obras de abastecimento de água e esgotos já não tem essa proteção.

Conclusão: Só os mais velhos são do tempo do Portugal da conspurcação generalizada.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XX)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 24 abril 2024

Aconteceu há 50 anos. Um tempo inesquecível.

Na quarta-feira, dia 24 de Abril de 1974, interrompi o jantar para abrir a porta. Então, ao ter espreitado pelo óculo, vi um soldado com farda verde e boina na cabeça. Apesar de ter estranhado e de não ter reconhecido o visitante, abri a porta. O militar que, sem hesitar, entrou disse-me com determinação:

– Sei quem tu és! Venho requisitar uma linha de telefone que hoje é precisa!

Perante aquela demonstração de autoridade respondi que sim, sem ter percebido para que seria e sem ter formulado mais perguntas.  Sabia que nessa altura era difícil ter telefone e que a Companhia dava prioridade aos médicos e, além disso, como eu tinha duas linhas, uma em casa e outra no Atelier do R/C, não fiquei admirado. Por isso, respondi com naturalidade:

– Então, puxe a linha de baixo que faz menos falta!

Acabei de jantar e depois fui ao quarto onde minha Mulher estava a amamentar a nossa filha Catarina que nascera no mês anterior, e disse-lhe:

– Olha, Maria João, um militar veio aqui a casa para requisitar o telefone do Atelier!

Tal como eu, ingenuamente, não atribuiu qualquer importância especial. À hora habitual fomos dormir. Pelas 4 horas da madrugada, acordei com o toque do telefone que atendi estremunhado. Era meu Pai, diretor do Hospital de Santa Marta, onde eu estava colocado como médico interno. Com voz visivelmente emocionada disse-me que tinha começado uma revolução e que o Posto de Comando estava a mandar os médicos para os hospitais. Disse-me que tinha acabado de ouvir o Comunicado do Movimento das Forças Armadas emitido pelo Rádio Clube Português. Fora avisado pelo telefonema de um seu colega que sabia do Movimento. Num instante telefonei ao meu Colega José Manuel Jara para se juntar a nós no Serviço. Curiosamente, antes de ir para Santa Marta, ele pôs o rádio na varanda, sintonizado no Radio Clube Português, com o som no máximo na perspetiva de acordar a vizinhança.

Uma vez em Santa Marta, todos nós, à volta da mesma mesa, estávamos a ouvir pela rádio os avisos do Posto de Comando que eram intervalados por marchas militares empolgantes. Era um serviço que concentrava cerca de 30 médicos, quase todos oposicionistas, democratas, incluindo antigos presos políticos. Muitos choravam de alegria, outros pelo PBX ligavam incessantemente às famílias. Uma emoção coletiva difícil de descrever.

Perante a manifesta ausência de casos urgentes, resolvi ir para o Carmo pela hora de almoço. Aí comecei por circular no passeio do lado contrário ao Convento, onde estavam deitados no chão, em fila, uns ao lado de outros, soldados com espingardas apontadas ao Convento. Os blindados do Regimento de Santarém cercavam Marcelo Caetano, refugiado no quartel da GNR desde cedo.

Pelo transístor portátil continuava a ouvir as emissões do Posto de Comando, mas também captava a banda das comunicações entre as forças do Governo, da GNR e da PSP. Percebia-se pelas mensagens que recusavam obedecer às ordens das respetivas chefias. Estou convencido que a multidão na rua, a apoiar a Revolução, funcionou como “escudo humano” que evitou derramamento de sangue e que, assim, protegeu as tropas dos capitães do MFA.

PS: Amanhã irei descer a Avenida e depois visitar o Carmo para reviver Salgueiro Maia, certamente o maior dos nossos heróis.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XIX)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 17 abril 2024

A proximidade ao dia 25 de Abril faz-me reviver lembranças com emoção. Essas memórias interpretam eventos passados que agora originam sentimentos mistos de alegria e amargura.

Então, aconteceram muitos triunfos, mas, também, alguns fracassos. Mas, no conjunto, foi excelente.

A verdade inquestionável traduz-se no imenso júbilo que a Liberdade espontaneamente despertou. Uma enorme explosão nacional de contentamento a refletir a esperança de uma vida melhor. Mais prosperidade coletiva.

Por outro lado, passado tanto tempo, olhar para trás para recordar os últimos 50 anos, produz a ideia que o resultado final podia ter sido mais perfeito, uma vez que a esperança erguida em 1974 não foi inteiramente concretizada.

Na minha visão pessoal, tentarei explicitar algumas reflexões a esse propósito.

Em primeiro lugar, reconheço como positiva a forma como foram alcançadas tantas metas pelos sucessivos governos provisórios que, afinal, cumpriram o Programa do MFA. Apesar da instabilidade política vivida nos dois primeiros anos, espelhada pela nomeação de dois presidentes, três primeiros-ministros e seis governos provisórios, foi possível construir o regime democrático, promover a Independência das colónias Africanas, eleger livremente deputados à Assembleia Constituinte e assegurar a entrada em vigor de nova Constituição de 1976, logo seguida pela eleição de novo Presidente da República por sufrágio direto e universal.

Foram apenas dois anos. Um período curto, mas simultaneamente fascinante que exigia estar sempre a ouvir os noticiários pelos transístores portáteis. Os acontecimentos que se sucediam de hora a hora eram, muitas vezes, quase tão quentes como brasas (11 de Março e Verão de 1975), mas a entrada no regime constitucional foi pacífica.

Desde a aprovação da Constituição e até hoje, multiplicaram-se 24 governos constitucionais, quase sempre formados ou pelo Partido Socialista ou pelo Partido Social Democrata. É certo que o país mudou. Portugal é outro. Mais moderno. Mais europeu.

Mas, apesar dos avanços económicos e políticos indiscutíveis, persistem problemas por resolver na dimensão social. O mais importante e ao mesmo tempo o mais intolerável é a pobreza. Porém, há outros setores que, em 2024, continuam a apresentar circunstâncias preocupantes.

Refiro-me à Saúde, à Escola Pública, à Habitação e à Justiça.

Preciso.

A agudização da crise do Serviço Nacional de Saúde no período pós-pandemia.

A Educação a viver tempos difíceis, incluindo a falta de professores e a interrogação sobre a qualidade do ensino.

A reconhecida dificuldade que grande parte da população tem em pagar rendas de casa ou as prestações referentes a empréstimos bancários, sem esquecer a situação das famílias mais pobres retratada pela impossibilidade de consumirem a energia necessária.

As demoras inexplicáveis da Justiça que parece estar concebida em dois sistemas: um para ricos e outro para pobres.

Como é possível explicar tantas falhas?

A reflexão séria sobre estas questões e a assunção de erros cometidos por determinados governantes seria um exercício de indiscutível oportunidade. Só assim será possível voltar a acreditar. Regressar à época da esperança e da confiança no nosso modelo político democrático.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XVIII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 10 abril 2024

A seguir às crónicas sobre as mais frequentes infeções transmitidas por via sexual, de natureza bacteriana, parece-me oportuno tecer algumas considerações sobre prostituição. Começo por esclarecer que as referidas infeções podem ocorrer no decurso de cadeias de transmissão sem qualquer ligação à atividade da compra e venda de relações sexuais.

Pretendo, apenas, lançar ideias para reflexão posterior sobre uma realidade que existe desde há muitos séculos e que não pode ser ignorada.

Ora, como se sabe, o mercado de trabalho relacionado com o sexo é muito antigo. Está bem documentado por escritores e pelos cronistas. A este propósito, é curioso assinalar que aconteceram episódios na Idade Média, descritos por Fernão Lopes (1385-1460), durante o Cerco de Lisboa, em 1384, que, já na época, traduziam preocupações das autoridades em relação à prostituição. É verdade. As forças populares leais ao Mestre de Avis colocaram as prostitutas fora das linhas do cerco, a fim de serem poupadas as reservas de alimentos que escasseavam dentro das muralhas. Uma vez levadas para o exterior, na zona ocidental de Lisboa, foi criada uma nova área urbana que reservava uma rua dedicada à prática da prostituição. Foi uma medida, socialmente aceite, tomada em plena crise dinástica com Castela, durante a Revolução de 1383-1385.

Muito mais tarde, como se sabe, na capital, a prostituição passou a estar concentrada nas zonas antigas da cidade: Bairro Alto, Alfama e Mouraria.

Até 1963, as prostitutas mantinham a respetiva atividade de forma absolutamente legal, na condição de estarem matriculadas. Como tal, eram sujeitas a inspeções sanitárias regulares e a vigilância policial.

Mas, a partir desse ano (1963), o Governo de Salazar proibiu o exercício da prostituição e passou a equiparar as prostitutas aos vadios.

Atualmente, depois das alterações ao Código Penal, em 1982, a prostituição de rua não constitui crime nem para quem a pratica, nem para os utilizadores. Porém, a Lei criminaliza os promotores e organizadores da prática de prostituição por outra pessoa (crime de lenocínio).

Por outro lado, parece haver a perceção geral que a crise social e a pobreza podem estar associadas ao aumento da atividade de pessoas que recorrem à prostituição como fonte complementar de rendimento.

Os países da União Europeia não têm uma política comum para lidar, no plano jurídico ou regulamentar, com as realidades da prostituição (feminina ou masculina, hétero ou homossexual).

Há situações chocantes que são quase incompreensíveis. É o caso do Bairro Vermelho na zona antiga de Amsterdão onde as prostitutas se exibem atrás de montras de vidro para atraírem os transeuntes; uma vez as condições aceites (já com cortinados fechados) e concretizada a relação sexual com o cliente, segue-se a respetiva faturação dos serviços prestados na perspetiva do pagamento de impostos pela prestação de serviços ocorrida.

Entre nós, estou convencido que a prostituição continuará a existir em diferentes modalidades, quer em modelo outdoor quer indoor. Tal como no passado, será tolerada no plano social e justamente considerada legal.

Não tenho certezas sobre a oportunidade para a sua eventual regulamentação no futuro. Mas, não tenho dúvidas que seria bom discutir abertamente o tema.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XVII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 3 abril 2024

No âmbito das infeções bacterianas transmitidas por via sexual já aqui esclareci que a sífilis é a mais grave e, ao mesmo tempo, a mais fácil de curar (com a penicilina prescrita pelo médico).

Confirmo que, em Portugal, há uma tendência de aumento de casos novos dessas infeções que constitui justificada preocupação em Saúde Pública.

Os dados publicados, referentes ao ano de 2022, indicam 2200 infeções gonocócicas; 1500 por Clamídia e 1500 novas infeções de sífilis (números redondos) que traduzem uma elevação expressiva das respetivas incidências em relação a anos anteriores.

São retrocessos que não podem ser ignorados. Antes de tudo têm que ser compreendidos. É preciso perceber as razões que explicam esses aumentos para serem aplicadas medidas de controlo, necessariamente baseadas em comprovação científica.

Será que os preservativos são menos utilizados em comparação com anos anteriores?

Para responder à questão formulada terão que ser convocados os especialistas em psicologia e ciências sociais para analisarem as causas da aparente menor adesão ao uso de preservativos. Será devido ao excesso de confiança porque a SIDA já não é uma doença fatal? Ou serão dificuldades de acesso a preservativos nos locais e nos momentos que antecedem as relações sexuais? Ou serão outras as explicações?

Só depois de respostas, devidamente fundamentadas, será possível desenhar um plano de prevenção, especialmente dirigido aos motivos das falhas identificadas pelas investigações sociológicas.

Na minha opinião, o aumento de casos novos de infeções transmitidas por via sexual não está relacionado com o anonimato da pessoa infetada. Reparemos que a confirmação da doença é sempre competência do médico que diagnostica e trata a pessoa infetada. Ora, é esse mesmo médico que terá que aconselhar e prescrever a terapêutica a todos os contatos do seu doente que fica, ele mesmo, desde logo, incumbido de colaborar nesse sentido. Na dimensão ética não seria aceitável que o médico que declara o caso transmitisse a outras equipas o nome, a morada e a natureza da doença diagnosticada. Aliás, é fundamental que os doentes portadores destas infeções tenham confiança no “seu” médico, sabendo que o assunto é segredo profissional.

Para reduzir o problema, proponho as seguintes seis medidas: 1 Solicitar às faculdades de sociologia e de psicologia a análise dos comportamentos de risco de jovens e adultos; 2 Melhorar o desempenho da Educação Sexual nas escolas como parte da estratégia de educação para a saúde e para a cidadania; 3 Introduzir a distribuição gratuita de preservativos em todas as farmácias do país; 4 Alargar a rede de máquinas de venda de preservativos, a baixo custo, em todos os locais de diversão noturna; 5 Organizar centros de testagem com marcação online;  6 Garantir o acesso às pessoas que o solicitem de consulta médica em regime “via verde”, assegurando o atendimento no mesmo dia, em todas as unidades de ambulatório (setores público, privado ou social).

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XVI)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 27 março 2024

A partir de 1940, a introdução no mercado farmacêutico da Penicilina marcou a diferença com os antigos tratamentos para a sífilis (como o Salvarsan). O novo antibiótico foi muito eficaz para tratar e curar a infeção, sem efeitos secundários. O seu agente bacteriano (Treponema pallidum) ainda hoje é sensível à penicilina. Por esta razão, compreende-se que todos os doentes devam ser diagnosticados precocemente para, logo depois, sem esperas, cumprirem o tratamento médico a fim de ficarem curados. Sublinho, que a penicilina cura a sífilis. Assim sendo, a propagação em cadeias de transmissão deixa de acontecer. Para tal, é indispensável que a terapêutica antibiótica seja, rapidamente, administrada a todos os parceiros, mesmo a todas as pessoas que mantêm ou tiveram relações sexuais sem preservativo nos últimos três meses.

O motivo desta regra é simples de perceber.

Preciso.

A bactéria da sífilis é adquirida por qualquer pessoa durante o contacto sexual direto com outra pessoa que tenha lesões infetadas (pequenas feridas ou úlceras nas mucosas). Essa transmissão pode ocorrer em consequência de relações sexuais vaginais, anais ou orais. Aliás, pode até suceder que o portador da doença ignore a sua condição de estar infetado pela sífilis devido à frequente ausência de sintomas e de sinais. Nada sente e nada vê de anormal. Mas, mesmo assim, pode transmitir a infeção a outra pessoa, anteriormente saudável, que ficará com sífilis, por sua vez também contagiosa a seguir ao período de incubação (entre 10 dias e 3 meses, sendo em média de 3 semanas). Nesta situação, se não tomar medidas de precaução, começará a propagar a sífilis durante relações sexuais seguintes. Habitualmente, nem sequer se apercebe dessa infeção porque as manifestações clínicas são ligeiras (por isso, muitas vezes, passam despercebidas).

Este é o grande problema!

Atualmente, em termos de senso comum, a prevenção da sífilis e a organização de cuidados para controlar a sua propagação impõem medidas ponderadas que devem ser observadas pelas pessoas com atividade sexual: 1 Uso sistemático de preservativo durante todas relações casuais, sem exceções; 2 Depois de relações sexuais sem proteção, em particular no cenário de múltiplos parceiros, essa pessoa deverá fazer um teste passadas três semanas e repetir aos três meses; 3 Quando o teste indicar que a infeção foi adquirida terá que procurar, imediatamente, o médico para confirmação e prescrição da terapêutica; 4 O mesmo tratamento será indicado para todos as pessoas com quem mantém ou manteve relações sexuais nos últimos três meses; 5 Se for mulher em idade fértil terá de fazer um teste de gravidez e, se o resultado for positivo, procurar uma consulta de vigilância pré-natal; 6 Ter confiança e tranquilidade, visto que há a certeza que a infeção sifilítica é curável, desde que seja diagnosticada e tratada por um médico.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XV)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 20 março 2024

Se bem que os resultados das eleições tenham ofuscado a recente polémica surgida em torno do anonimato das pessoas com infeções transmitidas por via sexual, considero ser oportuno retomar o assunto.

Assumo, desde já, ter tido responsabilidades na medida adotada, em 2015, que acabou com o envio dos nomes dos doentes para os delegados de saúde. O anonimato das pessoas com certas infeções sexualmente transmitidas passou a ser respeitado como regra geral. Foi uma decisão acertada.

Como o tema é vasto, será aqui resumido por partes.

Como se sabe, na Antiguidade, para os romanos, a deusa da beleza e do amor era Vénus. Por isso mesmo, as doenças associadas ao sexo são designadas como doenças venéreas. Neste sentido, a Medicina Moderna criou a disciplina de Venereologia que, como especialidade médica, ficou ligada à dermatologia. Ainda me lembro de tabuletas à porta das policlínicas anunciarem o nome do médico e a indicação de “especialista em doenças da pele e sífilis”.

No século XIX, a sífilis constituía a mais preocupante das doenças transmitidas por via sexual. Na altura, era muito temida porque não tinha tratamento eficaz e porque apresentava uma evolução crónica incurável depois de um período de silêncio que podia chegar a 20 anos. As manifestações finais sifilíticas incluem graves perturbações neurológicas e mentais. Calculava-se, então, que 20% dos doentes internados nos manicómios sofriam de demência de origem sifilítica.

Nessa época, a sífilis era uma imensa apreensão, de certa forma equivalente à SIDA nos anos 80 do século XX. A esse propósito, recordo-me da lição proferida por um professor meu da Faculdade ter dito que a sífilis era, por vezes, um “presente” de casamento na noite de núpcias quando um dos noivos estava infetado… Por outro lado, a sífilis durante a gravidez provoca lesões ósseas no feto: sífilis congénita do recém-nascido que ainda persiste atualmente, se bem que com menor frequência.

A primeira consulta especializada foi criada, em 1897, no Hospital do Desterro, em Lisboa, pelo médico Thomaz de Mello Breyner (1866-1933) que dedicou atenção especial ao controlo das doenças venéreas. Apesar de todas as ações por ele conduzidas nesse tempo, a inexistência de antibióticos explicava as elevadas incidência e prevalência de doenças por via sexual, bem como as manifestações tardias da sífilis.

Estranhamente, o médico austríaco Julius Wagner-Jauregg recebeu o Prémio Nobel, em 1927, pela “descoberta” que a inoculação do paludismo nos doentes melhorava as manifestações de demência sifilítica. Tratamento inaceitável na dimensão ética e de efeito terapêutico duvidoso no plano científico.

Só a partir de 1940, a penicilina iria modificar o panorama.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com