Relatos Incompletos dos Anos 60 (III)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 30 novembro 2022

É nos sixties que acontece a grande libertação da Mulher na sequência da introdução no mercado das primeiras pílulas anticoncecionais. Fez toda a diferença. Marcou, historicamente, o antes e depois. Desde então, a sexualidade das mulheres mudou para sempre. O lançamento da pílula contracetiva oral é, justamente, considerado um marco que indicou uma imensa mudança da Condição da Mulher, até mesmo no sentido “revolucionário”. Passou a ser possível planear o nascimento de filhos desejados, ao mesmo tempo que permitiu assumir a sexualidade feminina por inteiro. Curiosamente, a descoberta da PÍLULA deve-se ao cientista Gregory Pincus (1903-1967) que, na altura, conduziu as pesquisas que foram financiadas pela milionária norte-americana Katharine Dexter McCormick (1875-1967). Além de bióloga, Katharine distinguiu-se como lutadora pelos direitos das mulheres. Para lá de sufragista foi reconhecida como benemérita, depois de ter herdado parte da fortuna da família McCormick, a seguir à morte de seu marido. A pílula, começou a ser comercializada nos Estados Unidos da América em 1960, mas só três anos depois entra no mercado português com a designação de Anovlar. Foi socialmente aceite, tendo representado um imenso sucesso, apesar da oposição da Igreja Católica.

Foi, também, em 1963, que Salazar mandou encerrar as casas de prostituição e acabar com a atividade de prostitutas em público. Medida que, naturalmente, não iria terminar com a existência da profissão…

A década dos 60 é, igualmente, assinalada pela moda das saias de 30 cm. Foi uma grande novidade! Ficaram célebres essas minissaias, idealizadas pela estilista inglesa Mary Quant. Na época, a top model, Lesley Lawson, mais conhecida como Twiggy, assumiu grande destaque no marketing das minissaias que mereceu grande cobertura pelos órgãos de comunicação social de todo o mundo. O êxito foi tal que, em 1966, a rainha Elizabeth II decidiu atribuir a condecoração da Ordem do Império Britânico à estilista Mary Quant que, rapidamente, passou do anonimato a principal designer de moda dos sixties.

No domínio da política internacional, este período é dominado pela longa Guerra do Vietnam (1955-1975) entre os exércitos de Hó Chí Minh e as tropas norte-americanas às ordens dos sucessivos presidentes: John Kennedy, Lyndon Johnson, Richard Nixon e Gerald Ford. Foram 20 anos de constantes crueldades, transmitidas pelas televisões de todos os países. Um horror. No final, a derrota dos Estados Unidos da América, simbolizada, a 30 de abril de 1975, pelos helicópteros lançados ao mar pela borda do porta-aviões, à saída de Saigão, possibilitou, logo no ano seguinte, a reunificação do Vietnam, antes dividido em Norte e Sul.

Por outro lado, a Guerra Fria, em resultado da separação do mundo em dois blocos, tem o seu auge em outubro de 1962, durante a “Crise das Caraíbas” dos mísseis nucleares soviéticos a caminho de Havana. O acordo de última hora, conseguido in extremis entre a União Soviética de Nikita Khrushchev, a América de John Kennedy e Cuba de Fidel Castro e Che Guevara, evitou um conflito de proporções impensáveis.

Moral da história:

Como terá sido a vida de uma família portuguesa antes da pílula, em 1963?

Francisco George
Ex-Diretor-Geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

Relatos Incompletos dos Anos 60 (II)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 23 novembro 2022

Como, aqui, já se viu, António Oliveira Salazar começou os anos 60 atormentado.  Mesmo muito amargurado. As suas angústias intensificam-se ao ter sabido, no dia 19 de dezembro de 1961, que o governador Vassalo e Silva assinou a rendição incondicional das Forças Armadas Portuguesas, desobedecendo às suas ordens. Seguiu-se, imediatamente, a reintegração dos territórios de Goa, Damão e Diu na Índia. Nos meios políticos e diplomáticos internacionais houve manifestações de aprovação e simpatia a Nehru, quase unânimes, incluindo por parte dos chamados “aliados ocidentais” de Portugal. Nehru, colocou, assim, fim a 450 anos de presença de Portugal na Índia e conseguiu isolar Salazar.

Passados apenas 13 dias, acontece o assalto ao Quartel de Infantaria 3, de Beja, realizado por Humberto Delgado e Varela Gomes. Foi outro imenso abalo para o regime logo às primeiras horas do Ano Novo de 1962. Delgado fica em Vila de Frades, escondido pelo seu amigo José Luís Conceição Silva, à espera de informações provenientes de Beja. Ao mesmo tempo, Varela Gomes, à frente de um grupo de civis, assalta o Regimento. No final da troca de tiros, Varela cai ferido e a operação fracassa. Insucesso para a Oposição, só compensado pela propaganda internacional dos acontecimentos mencionados pela Imprensa de todo o mundo.

Nesse mesmo ano, surgem os movimentos de libertação em Angola, Moçambique e Guiné. Salazar promove a célebre resposta “para Angola, rapidamente e em força” para tentar manter o Império. Para tal, manda mobilizar tropas para as colónias. Cada vez mais solitário no plano internacional, insiste em enviar soldados portugueses lutarem contra a História. Testemunha, incomodado, a independências de novos estados africanos, quer anglófonos quer francófonos, nomeadamente: Gana logo em 1957; Guiné Francesa em 1958; Senegal em 1960; Mali em 1960; Congo em 1960; Gabão em 1960; Nigéria em 1960; Mauritânia em 1960; Níger em 1960; Costa do Marfim em 1960; Camarões em 1960; Togo em 1960; Benim em 1960; Tanzânia em 1961; Serra Leoa em 1961; Quénia em 1963; Zâmbia em 1964… Afinal, nessa época, a França era governada pelo presidente Charles de Gaulle e a Inglaterra pelo primeiro-ministro Macmillan, ambos conservadores, que conduziram a descolonização com tranquilidade. Que diferença!

Este cenário de sucessivas independências, em catadupa, conduz Salazar a procurar apoios nos regimes de apartheid de minoria branca da Rodésia e da Africa do Sul.

Para além da política, os anos 60 eram vividos, igualmente, com poesia, em especial pela juventude. Era o tempo das festas e bailes nas sociedades recreativas, nos salões dos bombeiros ou nas garagens das famílias abastadas. A música dominante era francesa com as vozes de Reggiani, Aznavour, Yves Montand, Brel, Françoise Hardy e Sylvie Vartan. Todavia, no mesmo período, irrompem com grande esplendor, sobretudo entre jovens, as bandas de rock britânicas dos Beatles, dos Rolling Stones e, depois, The Animals que interpretam a famosa adaptação House of the Rising Sun, que foi cantada ao vivo, em Lisboa, no Monumental, por iniciativa de Vasco Morgado.

Todos com enormes sucessos, traduzidos pelas vendas de discos, impulsionadas pelas constantes emissões das estações de rádio.

Moral da história:

Nem sempre, os países aliados apoiam políticas contra a História…

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Relatos Incompletos dos Anos 60 (I)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 16 novembro 2022

Quem nasceu na segunda metade dos anos 40 e na primeira metade dos anos 50, tem uma visão clara dos eventos da década de 60. Os sixties. Testemunhos e memórias desta época seguir-se-ão nas próximas semanas. Os relatos são baseados em acontecimentos reais, sem ficção, nem têm acrescentos ao estilo de pinturas.

Nesses anos, o ambiente em Lisboa, não espelhava o atraso social do País, se bem que a pobreza fosse visível. Abundavam bairros de lata, sobretudo na periferia de certos bairros centrais.

Era o tempo do “salto” para França, à procura de nova vida e melhor remuneração. Na altura, funcionavam redes clandestinas de passadores que, a troco de dinheiro, colocavam os emigrantes fora das fronteiras portuguesas. Uma vez chegados ao destino, eram, sistematicamente, confrontados com a dureza do novo começo. A ausência do paraíso, era desconcertante. Era preciso não desistir. Quase sempre, acabariam por encontrar trabalho ou em famílias francesas mais abastadas ou como porteiros de blocos de habitação ou operários de oficinas ou em grandes fábricas. As remessas dos emigrantes representavam uma das “riquezas” para as finanças públicas geridas pelo austero Salazar.

Mas, os anos 60 ainda mal tinham começado, quando a espetacular fuga de Álvaro Cunhal, que estava preso no Forte de Peniche, surpreende Salazar.

Poucos meses depois, o regime viria a sofrer muitos outros desaires.

Em 21-22 de janeiro de 1961, o paquete “Santa Maria” foi assaltado e desviado, em pleno oceano, por oposicionistas liderados pelo capitão Henrique Galvão, que o rebatizou de “Santa Liberdade”. Foi uma aparatosa operação de propaganda para chamar a atenção do mundo, através da Imprensa, para os regimes ditatoriais em Portugal e Espanha. Nesta perspetiva terá sido um sucesso para a Oposição.

Nesse período crítico, a 17 de dezembro do mesmo ano, outro imenso revés para o regime foi a invasão de Goa pela Índia, governada pelo primeiro-ministro Pandita Nehru. Em poucas horas, o Exército Indiano pôs fim à presença secular de Portugal em Goa, Damão e Diu. Então, a partir de Lisboa, Salazar envia um telegrama para a guarnição portuguesa de Goa a dar instruções para lutarem até à morte. Ora, a diferença numérica era assombrosa entre as forças armadas portuguesas que aí mantinham apenas 3300 soldados (e uma pequena força naval) e as indianas que mobilizaram um total de 45000 militares, para além da Armada de Guerra com 1 porta-aviões, 1 cruzador, 3 contra-torpedeiros e 4 fragatas e, também, a Força Aérea composta por 50 caças. Perante esta desigualdade das forças em confronto, o governador português, general Manuel Vassalo e Silva, rende-se ao compreender que a ordem de Salazar não faria qualquer sentido, até porque não era o ditador a morrer…

A perda do Estado da Índia representou o início do fim do Império Colonial. Foi tal o tamanho do abalo emocional para Salazar que o impediu de discursar sobre o assunto na sessão da Assembleia Nacional. Ao começar a falar, já com o microfone pela frente, perde subitamente a voz e em gesto que dramatiza passa os papeis da sua intervenção ao Presidente da Mesa. Cena inesquecível para quem acompanhou a emissão em direto pela Emissora Nacional.

Moral da história:

Mandar os outros morrer é fácil, quando são os outos. Teria Salazar dado a mesma ordem se estivesse em Goa?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Campo de Ourique: um conto cento e dez por mês

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 9 novembro 2022

Ser bairrista é bom. Mas, para tal, é preciso ser rigoroso e exigente na apreciação dos múltiplos critérios de avaliação.

Logicamente, todos preferem habitar em zona agradável. Todos gostam que o bairro de residência seja limpo, apresentável e atraente. Na dimensão urbana, tem que ser bem planeado e gerido. Igualmente, deve ter árvores, jardins muito cuidados, equipamentos sociais destinados a crianças e idosos, também. É bom que assim aconteça.

Mesmo, atendendo à saúde individual e da família, é importante a ligação afetiva estabelecida entre a pessoa e o apartamento onde se habita, que deve ter luz natural e receber raios solares. O respetivo prédio tem que estar devidamente conservado e implantado em quarteirão espaçoso e recheado de blocos, mas de dimensão humana.

Segurança nas ruas, imprescindível. Lugares de estacionamento de automóveis, indispensáveis.

Assim acontecia em Lisboa, precisamente, em Campo de Ourique. Eram os anos 50 e 60 do século passado. Ambiente, então, de encantar. Uma vaidade para quem aí morava. Rendas acessíveis, apenas para a classe média, visto que estavam limitadas pela “tabela” de um conto cento e dez escudos por mês para um apartamento com cozinha, casa de banho, sala e dois quartos.

Por isso, os andares com papeis brancos colados nos vidros das janelas que assinalavam estarem vazios e prontos para alugar eram visitados por jovens casais à procura de casa. Quase todos eram médicos, advogados, engenheiros ou professores. Profissões liberais, mas, também empresários e empregados de escritório de grandes empresas.

As edificações, relativamente equilibradas em altura, preenchiam os arruamentos perpendiculares e paralelos ao redor do Jardim da Parada.

O Bairro foi sempre servido por abundantes transportes assegurados pela Companhia Carris, quer em autocarros quer em carros elétricos com percursos dos Prazeres até à Baixa ou pela Ferreira Borges a caminho das Amoreiras.

O grande mercado municipal da Coelho da Rocha garantia o abastecimento regular de alimentos, frescos, de qualidade, a par das lojas de mercearias finas, quase sempre familiares. As cafetarias principais mais frequentadas eram a Tentadora, Aloma e a Értilas. Entre os restaurantes mais procurados, estavam o Canas, Gigante, Sevilhana e Velha Goa.

Os cinéfilos iam ao Europa ou ao Paris, na Domingos Sequeira. A Concorrente e a Volga como livrarias e papelarias eram muito apreciadas.

Ali residiram intelectuais, escritores e políticos que marcaram a História da Cultura Portuguesa: Fernando Pessoa e os seus heterónimos (1888-1935), Bento de Jesus Caraça (1901-1948), António Ferreira de Macedo (1887-1959), Rómulo de Carvalho e António Gedeão (1906-1997), Joel Serrão (1919-2008), Jorge Borges de Macedo (1921-1996), Fernando Assis Pacheco (1937-1995), Luís Sttau Monteiro (1926-1993), Jorge Sampaio (1939-2021) …

Por outro lado, os trabalhadores e operários, viviam nas zonas mais periféricas do Bairro, como a Travessa do Bahuto, Fonte Santa, Meia-Laranja, Casal Ventoso, Maria Pia…

Nessa época, a pobreza era chocante. Era o tempo dos meninos pés-descalços e dos caixotes de lixo, logo pela manhã, remexidos por quem andava ao trapo com um grande saco ao ombro, à procura de restos e de papel para vender.

Moral da história:

A vida urbana pode ser compensadora, se …

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Terror Atómico

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 2 novembro 2022

O urânio é um elemento químico, metálico, radioativo, que se encontra na natureza, nomeadamente em Portugal.

A principal característica que possui, em emitir radiação, foi descoberta, em 1896, pelo físico francês Antoine-Henri Becquerel (1852-1905). Foi ele que demonstrou que tanto em estado de metal como em qualquer combinação (compostos) o urânio irradia, espontaneamente, radiações invisíveis que, na altura, descobriu por impressionarem as chapas fotográficas.

As investigações sobre a aplicação das propriedades, singulares, do urânio prosseguiram na primeira metade do Século XX. Rapidamente, os cientistas concluíram que poderia ser utilizado quer na produção de energia elétrica em centrais nucleares construídas para o efeito (com a vantagem de não produzir carbono), quer em armamento com poder de destruição maciça.

Por isso mesmo, agora, é preciso falar de bombas atómicas e em acidentes ocorridos nas centrais de energia nuclear. É preciso que os cidadãos conheçam mais sobre os seus efeitos. Que imaginem o nível de devastação e de imensa destruição que provocam.

Só assim poderá crescer o clamor a favor da sua eliminação como arma.

Só assim poderá crescer o clamor a favor da Paz.

Precise-se.

Passaram 77 anos desde os lançamentos de duas bombas atómicas lançadas pelos Estados Unidos da América sobre o Japão, em Hiroshima, a 6 de agosto e três dias depois, em Nagasaki, em 1945. A primeira foi uma bomba de urânio e a segunda de plutónio. Em Hiroshima morreram, instantaneamente, mais de 70.000 pessoas e em Nagasaki um número superior a 40.000.

Foi há 77 anos, sublinhe-se. Ao longo de tantos anos, desde o final da II Guerra Mundial, não será difícil de imaginar o grau de “aperfeiçoamento” das novas armas nucleares. Por isso, é de admitir que um eventual próximo bombardeamento seria ainda muito mais dramático. Ninguém duvida que os efeitos provocados, hoje, pelo lançamento de uma bomba atómica seriam arrasadores para seres humanos, fauna, flora e ambiente. Uma imensa devastação.

Um cenário de guerra atómica, a acontecer, deixaria a região bombardeada sem qualquer resposta. Um terror. Nada haveria a fazer para reduzir as consequências e para prevenir os efeitos na saúde de sobreviventes. Nem caves de betão como, antigamente, se construíam na Suíça para servirem de refúgios atómicos, por inutilidade absoluta. Nem comprimidos de iodo que apenas têm indicação para o caso de desastres nucleares ocorridos em centrais de produção de energia, num raio de 30 quilómetros do local do acidente (como sucedeu em Chernobyl e Fukushima).

Em síntese: nada capaz de prevenir os efeitos depois da explosão do cogumelo. Nada como limitar, nem encurtar, os danos a seguir. Ou se morre imediatamente, ou nas semanas seguintes, devido a queimaduras e ao envenenamento radioativo.

Moral da história:

O único reator nuclear em Portugal, localizado em Sacavém, foi desativado em 2016 e o respetivo combustível nuclear foi enviado para os Estados Unidos da América, em 2019. Por isto mesmo, uma vez que não existe qualquer instalação nuclear, a utilização de comprimidos de iodo não faz qualquer sentido.

Falar sobre a Guerra e lutar pela Paz são as mais importantes medidas de prevenção para evitar a atual escalada a caminho de conflitos nucleares.

Estarão as sanções à Rússia apontadas neste sentido?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Mulheres (II)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 26 outubro 2022

Já aqui foram retratadas, resumidamente, as histórias de duas mulheres portuguesas, contemporâneas. Ambas lutadoras. Uma nascida na Póvoa de Lenhoso, no Minho, e outra, no outro lado do Atlântico, no Brasil, mas ainda integrado no tempo do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.  Uma, foi Maria da Fonte e a outra Ana Maria de Jesus Ribeiro que viria a ser Anita Garibaldi, depois de casar com o célebre general libertador da Itália.

Infelizmente, sabe-se muito pouco do percurso da vida de Maria da Fonte. Terá mesmo existido? Ou será uma alegoria? Um mito? Uma lenda?

Mas, a ser verdade que existiu e admitindo que teria cerca de 20 anos quando liderou a Revolta do Minho, durante a Primavera de 1846, teria sido possível que tivesse nascido na freguesia de Fonte Arcada, por volta de 1826, durante o reinado de Maria II de Bragança.

É um período fascinante da História de Portugal. Era uma época marcada por permanente agitação, expressa por exaltadas lutas, guerras civis, motins, emboscadas, tumultos, escaramuças, revoltas, remexidas, revoluções e golpes palacianos que se seguiram ao Grito da Independência Brasileira, a 7 de Setembro de 1822.

Portugal, em 1846, era, então, um país marcado por imensa pobreza. A população residente ainda não atingia quatro milhões de habitantes. Nesse ano, os adultos eram maioritariamente analfabetos. Em cada dez Portugueses, oito não sabiam ler nem escrever. As povoações estavam isoladas, sem vias de comunicação entre elas e sem meios de transporte. Entre Lisboa e Porto, devido à falta de estradas seguras, as pessoas iam de barco ao longo da costa marítima. As epidemias, associadas à miséria, eram persistentes, em especial a cólera. À frente do Governo estava António Costa Cabral (1803-1889).  Era o Cabralismo.

É nesse período histórico que surge a figura de Maria da Fonte. Real ou fantástica, a ela se deve a Revolta para combater o nepotismo e a corrupção de Costa Cabral.  Para tal, como era preciso animar a mobilização popular, muito terá contribuído o famoso hino, composto no mesmo ano, em 1846, que tem como refrão inspirador:

Eia avante, Portugueses!
Eia avante, não temer!
Pela santa Liberdade,
Triunfar ou perecer!

 E assim aconteceu. Uma vez derrubado, definitivamente, o Cabralismo, em 1851, começou um novo ciclo assinalado pela mudança dos protagonistas políticos. Mais jovens. Mais dinâmicos. Mais patriotas.

Foi a época da Regeneração que proporcionou um processo de aceleração de desenvolvimento socioeconómico, traduzido por indiscutível prosperidade, comandado por António Maria Fontes Pereira de Melo (1819-1887). Foi o Fontismo.

Logo em 1853, começam a ser utilizados selos postais e iniciam-se as obras públicas de assentamento dos caminhos de ferro. O primeiro troço, entre Lisboa e o Carregado, foi inaugurado três anos depois, no mesmo ano da entrada em funcionamento da rede de telégrafos elétricos.

Em 1854, os escravos pertencentes ao Estado são libertos e no ano seguinte é concedida a liberdade a todos os escravos, desembarcados em Portugal, na India e em Macau.

Constroem-se mais escolas. Mais infraestruturas. Há mais Liberdade. Mais desenvolvimento.

Moral da história:

É preciso visitar a Póvoa de Lenhoso. Parar aí. Pensar em Portugal de 1846. Reviver esse tempo. Relembrar o exemplo de Maria da Fonte. Reconhecer que a vontade popular é inquebrantável.

Francisco George
george@icloud.com

Mulheres (I)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 19 outubro 2022

Maria da Fonte é uma figura histórica, fascinante. Uma heroína. Provavelmente a mais conhecida dos Portugueses. Foi ela que, em 1846, mobilizou as populações do Norte para lutarem por melhores condições de vida.

Os aumentos de impostos e o novo recrutamento militar, por um lado e por outro a proibição governamental de enterrar mortos nas igrejas, despoletou a Revolta. Maria da Fonte, cedo percebeu que era necessário pelejar muito para mudar as políticas ditadas por Lisboa. A partir da freguesia de Fonte Arcada, em Póvoa de Lenhoso, Maria lidera a luta que, rapidamente, alastra por todo o Minho. É o Povo que se manifesta contra os governantes para exigir viver melhor.

Em Lisboa, os políticos descontentes com o Governo, juntam-se à contestação. Espontaneamente, apoiam Maria da Fonte. Também, pretendem um rumo diferente. Mais prosperidade. Reconhecem que para tal, são precisas mudanças no Poder Político.

Nesse tempo, Costa Cabral estava à frente do Governo do Reino. A população culpa-o de nepotismo, uma vez que, pela sua mão, o seu pai e dois irmãos ingressaram no Parlamento. É, igualmente, acusado de corrupção, por ter enriquecido à custa do seu cargo político, apesar das suas origens familiares serem modestas. Pouco tempo depois, a Revolta da Maria da Fonte vence o Cabralismo. Os “Cabrais” são afastados. Derrubados. Iria, a seguir, começar o período da Regeneração, com outros protagonistas políticos, mais jovens e pontuado pela figura mais simpática de Fontes Pereira de Melo. Maria da Fonte está, devidamente, representada na estátua do Jardim da Parada, em Lisboa, a partir de 1920. É a heroína inspiradora. A obra, esculpida em mármore por Costa Mota, retrata uma mulher jovem, descalça, com vestes populares minhotas, empunhando um pau com ponta de ferro por cima do ombro esquerdo e uma pistola na mão direita. Parece correr à frente de manifestantes contra o Cabralismo.

Menos conhecida, em Portugal, é Ana Maria de Jesus Ribeiro que nasceu a 30 de Agosto de 1821, em Santa Catarina, antes da Independência do Brasil. Contemporânea de Maria da Fonte, Ana tem um percurso muito distinto e, ao contrário da Minhota, percorre os “dois lados do mundo” a batalhar pela Liberdade.

Também diferente de Maria da Fonte, Ana tem uma história real. Muito bem documentada. A sua vida é romântica, mas ao mesmo tempo de glorificação pelo exemplo da sua coragem, heroísmo e pela dedicação à causa da Liberdade. Ana é descendente de açorianos pobres que imigram para o Brasil. Casa pela primeira vez com um artesão sapateiro. Mas, o casamento acaba ao fim de 3 anos, sem filhos. Depois, em 1839, encontra o patriota italiano Garibaldi, na altura refugiado no Brasil. Entre eles, nasce paixão. Há comunhão de ideais. Passa a ser Anita Garibaldi. Com ele, combate nas Américas e depois pela Independência de Itália. Mãe de três filhos, continua a batalhar, em Roma, pela unificação de Itália ao lado de Garibaldi. A etapa final da sua vida é dramática. Em 1949, morre, grávida de 5 meses, a lutar.

Moral da história:

Simbolismo e realidade associam Maria e Anita.

Procuram-se produtores e realizadores de cinema para filmarem as fantásticas histórias de vida das duas heroínas Maria da Fonte e Anita Garibaldi. Poderão submeter os respetivos argumentos às plataformas de streaming NETFLIX ou HBO Max. Sucesso garantido. Inadiável.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Humanismo

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 12 outubro 2022

Trabalhar, voluntariamente, em organizações humanitárias representa uma forma diferente de estar na vida, por múltiplas razões. Antes de tudo, pela sensação, única, em construir Humanismo. Desenvolver Solidariedade. Cultivar Fraternidade.

Esta ideia começou há muitos atrás, no tempo da Segunda Guerra da Independência de Itália, em 1859. Então, o poderoso Exército do Imperador Austro-Húngaro, Francisco José, combatia a Itália que lutava pela Libertação do seu Território.

Era o tempo do guerrilheiro Garibaldi (1807-1882), mas, também, do compositor Verdi (1813-1901) que compunha as suas eternas óperas.

Nesse ano, em 1859, confrontaram-se, por um lado, as tropas francesas de Napoleão III, aliadas aos exércitos italianos do Reino da Sardenha de Vítor Emanuel II e das Províncias Unidas do Centro e por outro lado, os contingentes do Império da Áustria às ordens de Francisco José I. Os Aliados juntam mais de 190 mil soldados e 800 peças de artilharia. Os austríacos, em desespero, chegam a mobilizar, ao longo da campanha, um total superior a 250 mil militares.

Primeiro, foi Garibaldi, que à frente de forças voluntárias, conhecidas como Caçadores dos Alpes, derrotou os austríacos em Abril e depois, em Solferino (aldeia da Lombardia), em Junho, o Imperador da Áustria sofreu, novamente, pesada derrotado imposta pelos Aliadas.

As crónicas da época que descrevem em pormenor a Batalha de Solferino são impressionantes. Perturbam pela crueldade. Comovem. O conflito armado envolveu, somando os dois lados, mais de 200 mil soldados. No final do dia, os campos dos confrontos armados ficaram povoados de corpos prostrados no chão vermelho, ensanguentado. Eram muitos milhares de soldados, mortos e feridos, dos dois exércitos. A impiedosa dureza dos combates retrata uma desumanidade absoluta.

Era preciso organizar o socorro aos combatentes, mas sem distinção de nacionalidade. Eram muitos milhares de feridos. Homens em horrível sofrimento que necessitavam de apoio urgente. Reclamavam por cuidados, às vezes era até tão simples como a limpeza de um ferimento superficial ou dar água a beber. Outras, pelo contrário, em soldados sem forças devido aos ferimentos graves provocados por tiros de espingarda, de canhão ou baionetas. Um horror difícil de descrever.

Foi então que o cidadão suíço, Henry Dunant, que presenciou a desumanidade da Batalha, foi procurar ajuda aos residentes, civis, da aldeia para recolherem os soldados feridos, a fim de serem tratados sem qualquer distinção. Derrotados e vitoriosos. Os socorristas voluntários ignoravam as cores dos fardamentos e as nacionalidades. Era tempo de sobrepor os valores do Humanismo a quaisquer outros interesses. Italianos, franceses, austríacos eram todos homens. Todos sofriam. Todos distantes das famílias. Todos precisavam de auxílio. Por igual. Sem nenhum tipo de discriminação.

Logo depois, muitos outros conflitos, com cenários semelhantes, voltaram a acontecer.

Homens continuam a guerrear contra outros homens. Preferem soluções belicistas na resolução de conflitos. Não privilegiam o diálogo.

Hoje, assim é, entre Russos e Ucranianos. Que atrocidades! Uma vergonha, antes de tudo, para Putin.

Moral da História:

Será que os líderes da NATO, da União Europeia, do Reino Unido e Estados Unidos da América, ao enviarem tanto armamento para a Ucrânia, estarão a erguer a Paz ou a Guerra?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Portugal em 1910-1911

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 5 outubro 2022

Quando José Relvas (1858-1929), à Varanda da Câmara Municipal de Lisboa, proclama a implementação da República, às 11 horas da manhã, do dia 5 de Outubro, de 1910 e anuncia a constituição do Governo Provisório, presidido pelo açoriano Teófilo Braga (1843-!924), começa uma nova era em Portugal. Pouco mais de 30 horas de combates armados, unicamente em Lisboa, foram suficientes para por fim à Monarquia que acabaria nesse dia, sem oposição.

Como se sabe, na véspera, o rei Manuel II de Bragança fugiu de Lisboa para ir dormir nos seus aposentos no Palácio Nacional de Mafra. Foi a sua última noite em Portugal. No dia seguinte, na Ericeira, irá embarcar no iate “Amélia” rumo a Gibraltar. Sua mãe, a rainha consorte, Amélia de Orleães, sai do Palácio da Pena, para se juntar a Manuel e restante família real, incluindo a rainha Maria Pia de Saboia, consorte do rei Luís de Bragança. Na Praia dos Pescadores, o local onde toda a família partiu para o exílio está, ainda hoje, devidamente assinalado na muralha do areal. Uma vez chegado ao porto de Gibraltar, Manuel II foi para Inglaterra, onde viria a casar. Morreu, em 1932, sem deixar descendentes.

Portugal, na altura do Governo Provisório (1910-1911), era rural e atrasado nas dimensões económica e social. À época, estava muito distante da Europa. Pobreza generalizada, localidades isoladas, ausência de sistema de saúde. Fragilidade da instrução pública.

Repare-se.

O País tinha 5,5 milhões de habitantes.

A taxa de analfabetismo da população total ascendia a 75%. Porém, a situação era ainda mais grave no género feminino, visto que em cada 10 mulheres com idades superiores a 7 anos, 8 não sabiam ler nem escrever.

No final da Monarquia, a Indústria Portuguesa era principiante. Em termos de energia, utilizava apenas 111 mil cavalos-vapor (o equivalente a quase 7 vezes menos do que a “pequena” Bélgica)

Era preciso recuperar. Andar depressa. Colocar a prosperidade no centro de todas as preocupações.

Até à aprovação da nova Constituição, em 1911, os governantes iriam cumprir as principais medidas previstas no Programa Republicano. Naturalmente, o atraso estrutural da sociedade portuguesa continuaria, mas o ambiente social do País passa a ser bem distinto.

Mesmo antes da eleição de Manuel de Arriaga como primeiro Presidente, em 1911, a Portuguesa é adotada como hino. Ao mesmo tempo, é introduzido o Escudo como nova moeda nacional: 1 escudo passa a equivaler 1000 reis, dividido em 100 centavos (10 centavos eram designados como um tostão).

Para além da política monetária, são promulgadas importantes reformas que criam um clima diferente, nomeadamente as Leis do Divórcio, do Inquilinato e da Família.

Vive-se um ambiente marcado por mais confiança social. Há avanços na valorização do humanismo, na perspetiva de melhorar e dignificar as condições de vida, sobretudo dos pobres e excluídos.

Medidas como o decreto do descanso semanal obrigatório, ou a lei da Greve são, igualmente importantes.

Moral da História sobre a diferença entre a Monarquia e a República:

A Ética Republicana implica dois princípios interligados: por um lado, o Chefe do Estado ser escolhido livremente pelos seus compatriotas, através de eleições e, por outro, a possibilidade de um cidadão, por sua própria decisão, poder candidatar-se à Presidência do seu País.

Assim sendo, Viva a República.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Pobreza – Doença – Pobreza

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 28 setembro 2022

É preciso falar sobre pobreza. Pois, são muitos portugueses que estão em risco de pobreza ou de ficarem na condição de socialmente excluídos. Estimativas já de 2022, calculam que são mais de 2,3 milhões de pessoas. O equivalente 22% da população. Uma dimensão incompreensível em regime democrático. Inadmissível. Intolerável. Quase 50 anos depois da Aclamação da Democracia, ninguém pode aceitar tal magnitude da pobreza. Nem concordar com a sua persistência. Nem ser indiferente a tanta desigualdade.

Reveja-se a História.

A relação da pobreza com a doença é, há muito, conhecida. É geradora de um círculo vicioso, traduzido por um processo infernal: os pobres adoecem mais vezes e uma vez doentes, mais pobres ficam. Por outras palavras: a pobreza é causa de doença e a doença é causa de pobreza.

Aliás, o próprio conceito de saúde pública nasceu, em meados do século XIX, durante a Grande Fome que ocorreu na Irlanda, no seguimento do aparecimento, inesperado, de uma praga que destruiu as plantações de batatas. Como as batatas eram a fonte alimentar principal dos trabalhadores irlandeses, a sua falta provocou uma imensa tragédia, traduzida por doenças, pela elevada mortalidade e pela emigração massiva. Na altura, um milhão de pobres morreram e mais de um milhão emigraram, muitos deles para a longínqua América.[i] Um quarto dos habitantes da Irlanda ou morreram ou fugiram da fome.

Na mesma época, a Oriente da Irlanda, do outro lado do Canal que separa as ilhas, a situação de saúde das classes trabalhadoras de Inglaterra, sem a gravidade da Crise da Fome, assumia proporções impressionantes.

Friedrich Engels, que com Karl Marx viria a escrever muitas obras, publicou, em 1845, o célebre livro sobre “A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra”, baseado nas observações que fez durante a sua demorada permanência em Manchester. No tempo da rainha Vitória, exemplo de cidade altamente industrial, no auge da energia a vapor e das máquinas destinadas a processar o algodão nas unidades têxteis. Mas, cidade marcada pela miséria.

A consciência pública das deploráveis condições de vida do operariado inglês, marcou, historicamente, o nascimento da Saúde Pública como importante sector do Estado. A primeira Lei de Saúde Pública foi aprovada em 1848 (Public Health Act). Estipula, entre outras normas inovadoras, que nas localidades com taxa de mortalidade geral acima de 23 por mil, deviam ser criadas entidades para superentender em matéria de saúde pública, em articulação com o organismo central que foi instituído, igualmente.

Também em Inglaterra, mas já no Século XXI, o especialista em saúde pública, Michael Marmot, demonstrou a existência de um gradiente social, gerador de um fosso (GAP) que separa ricos e pobres. Verificou que os primeiros sinais de Alzheimer aparecem 15 anos antes em pobres quando se compara uma amostra representativa de pessoas com rendimentos altos, por um lado, com uma amostra, também representativa, de pessoas de baixos rendimentos, por outro.

Moral:

Ninguém pode ficar em sossego. É preciso falar de pobreza. Mas, antes de tudo, fazer mais para a combater. Uma questão de responsabilidade.

Francisco George
www.spsp.pt


[i] O mais célebre dos emigrantes terá sido Patrick Kennedy que nasceu na Irlanda em 1823 e viria a morrer nos Estados Unidos da América, em Boston, em 1858. O presidente John F. Kennedy era seu bisneto.