Opinião Pessoal (XVII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 3 abril 2024

No âmbito das infeções bacterianas transmitidas por via sexual já aqui esclareci que a sífilis é a mais grave e, ao mesmo tempo, a mais fácil de curar (com a penicilina prescrita pelo médico).

Confirmo que, em Portugal, há uma tendência de aumento de casos novos dessas infeções que constitui justificada preocupação em Saúde Pública.

Os dados publicados, referentes ao ano de 2022, indicam 2200 infeções gonocócicas; 1500 por Clamídia e 1500 novas infeções de sífilis (números redondos) que traduzem uma elevação expressiva das respetivas incidências em relação a anos anteriores.

São retrocessos que não podem ser ignorados. Antes de tudo têm que ser compreendidos. É preciso perceber as razões que explicam esses aumentos para serem aplicadas medidas de controlo, necessariamente baseadas em comprovação científica.

Será que os preservativos são menos utilizados em comparação com anos anteriores?

Para responder à questão formulada terão que ser convocados os especialistas em psicologia e ciências sociais para analisarem as causas da aparente menor adesão ao uso de preservativos. Será devido ao excesso de confiança porque a SIDA já não é uma doença fatal? Ou serão dificuldades de acesso a preservativos nos locais e nos momentos que antecedem as relações sexuais? Ou serão outras as explicações?

Só depois de respostas, devidamente fundamentadas, será possível desenhar um plano de prevenção, especialmente dirigido aos motivos das falhas identificadas pelas investigações sociológicas.

Na minha opinião, o aumento de casos novos de infeções transmitidas por via sexual não está relacionado com o anonimato da pessoa infetada. Reparemos que a confirmação da doença é sempre competência do médico que diagnostica e trata a pessoa infetada. Ora, é esse mesmo médico que terá que aconselhar e prescrever a terapêutica a todos os contatos do seu doente que fica, ele mesmo, desde logo, incumbido de colaborar nesse sentido. Na dimensão ética não seria aceitável que o médico que declara o caso transmitisse a outras equipas o nome, a morada e a natureza da doença diagnosticada. Aliás, é fundamental que os doentes portadores destas infeções tenham confiança no “seu” médico, sabendo que o assunto é segredo profissional.

Para reduzir o problema, proponho as seguintes seis medidas: 1 Solicitar às faculdades de sociologia e de psicologia a análise dos comportamentos de risco de jovens e adultos; 2 Melhorar o desempenho da Educação Sexual nas escolas como parte da estratégia de educação para a saúde e para a cidadania; 3 Introduzir a distribuição gratuita de preservativos em todas as farmácias do país; 4 Alargar a rede de máquinas de venda de preservativos, a baixo custo, em todos os locais de diversão noturna; 5 Organizar centros de testagem com marcação online;  6 Garantir o acesso às pessoas que o solicitem de consulta médica em regime “via verde”, assegurando o atendimento no mesmo dia, em todas as unidades de ambulatório (setores público, privado ou social).

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XVI)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 27 março 2024

A partir de 1940, a introdução no mercado farmacêutico da Penicilina marcou a diferença com os antigos tratamentos para a sífilis (como o Salvarsan). O novo antibiótico foi muito eficaz para tratar e curar a infeção, sem efeitos secundários. O seu agente bacteriano (Treponema pallidum) ainda hoje é sensível à penicilina. Por esta razão, compreende-se que todos os doentes devam ser diagnosticados precocemente para, logo depois, sem esperas, cumprirem o tratamento médico a fim de ficarem curados. Sublinho, que a penicilina cura a sífilis. Assim sendo, a propagação em cadeias de transmissão deixa de acontecer. Para tal, é indispensável que a terapêutica antibiótica seja, rapidamente, administrada a todos os parceiros, mesmo a todas as pessoas que mantêm ou tiveram relações sexuais sem preservativo nos últimos três meses.

O motivo desta regra é simples de perceber.

Preciso.

A bactéria da sífilis é adquirida por qualquer pessoa durante o contacto sexual direto com outra pessoa que tenha lesões infetadas (pequenas feridas ou úlceras nas mucosas). Essa transmissão pode ocorrer em consequência de relações sexuais vaginais, anais ou orais. Aliás, pode até suceder que o portador da doença ignore a sua condição de estar infetado pela sífilis devido à frequente ausência de sintomas e de sinais. Nada sente e nada vê de anormal. Mas, mesmo assim, pode transmitir a infeção a outra pessoa, anteriormente saudável, que ficará com sífilis, por sua vez também contagiosa a seguir ao período de incubação (entre 10 dias e 3 meses, sendo em média de 3 semanas). Nesta situação, se não tomar medidas de precaução, começará a propagar a sífilis durante relações sexuais seguintes. Habitualmente, nem sequer se apercebe dessa infeção porque as manifestações clínicas são ligeiras (por isso, muitas vezes, passam despercebidas).

Este é o grande problema!

Atualmente, em termos de senso comum, a prevenção da sífilis e a organização de cuidados para controlar a sua propagação impõem medidas ponderadas que devem ser observadas pelas pessoas com atividade sexual: 1 Uso sistemático de preservativo durante todas relações casuais, sem exceções; 2 Depois de relações sexuais sem proteção, em particular no cenário de múltiplos parceiros, essa pessoa deverá fazer um teste passadas três semanas e repetir aos três meses; 3 Quando o teste indicar que a infeção foi adquirida terá que procurar, imediatamente, o médico para confirmação e prescrição da terapêutica; 4 O mesmo tratamento será indicado para todos as pessoas com quem mantém ou manteve relações sexuais nos últimos três meses; 5 Se for mulher em idade fértil terá de fazer um teste de gravidez e, se o resultado for positivo, procurar uma consulta de vigilância pré-natal; 6 Ter confiança e tranquilidade, visto que há a certeza que a infeção sifilítica é curável, desde que seja diagnosticada e tratada por um médico.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XV)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 20 março 2024

Se bem que os resultados das eleições tenham ofuscado a recente polémica surgida em torno do anonimato das pessoas com infeções transmitidas por via sexual, considero ser oportuno retomar o assunto.

Assumo, desde já, ter tido responsabilidades na medida adotada, em 2015, que acabou com o envio dos nomes dos doentes para os delegados de saúde. O anonimato das pessoas com certas infeções sexualmente transmitidas passou a ser respeitado como regra geral. Foi uma decisão acertada.

Como o tema é vasto, será aqui resumido por partes.

Como se sabe, na Antiguidade, para os romanos, a deusa da beleza e do amor era Vénus. Por isso mesmo, as doenças associadas ao sexo são designadas como doenças venéreas. Neste sentido, a Medicina Moderna criou a disciplina de Venereologia que, como especialidade médica, ficou ligada à dermatologia. Ainda me lembro de tabuletas à porta das policlínicas anunciarem o nome do médico e a indicação de “especialista em doenças da pele e sífilis”.

No século XIX, a sífilis constituía a mais preocupante das doenças transmitidas por via sexual. Na altura, era muito temida porque não tinha tratamento eficaz e porque apresentava uma evolução crónica incurável depois de um período de silêncio que podia chegar a 20 anos. As manifestações finais sifilíticas incluem graves perturbações neurológicas e mentais. Calculava-se, então, que 20% dos doentes internados nos manicómios sofriam de demência de origem sifilítica.

Nessa época, a sífilis era uma imensa apreensão, de certa forma equivalente à SIDA nos anos 80 do século XX. A esse propósito, recordo-me da lição proferida por um professor meu da Faculdade ter dito que a sífilis era, por vezes, um “presente” de casamento na noite de núpcias quando um dos noivos estava infetado… Por outro lado, a sífilis durante a gravidez provoca lesões ósseas no feto: sífilis congénita do recém-nascido que ainda persiste atualmente, se bem que com menor frequência.

A primeira consulta especializada foi criada, em 1897, no Hospital do Desterro, em Lisboa, pelo médico Thomaz de Mello Breyner (1866-1933) que dedicou atenção especial ao controlo das doenças venéreas. Apesar de todas as ações por ele conduzidas nesse tempo, a inexistência de antibióticos explicava as elevadas incidência e prevalência de doenças por via sexual, bem como as manifestações tardias da sífilis.

Estranhamente, o médico austríaco Julius Wagner-Jauregg recebeu o Prémio Nobel, em 1927, pela “descoberta” que a inoculação do paludismo nos doentes melhorava as manifestações de demência sifilítica. Tratamento inaceitável na dimensão ética e de efeito terapêutico duvidoso no plano científico.

Só a partir de 1940, a penicilina iria modificar o panorama.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XIV)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 13 março 2024

Tendo eu entrado na Faculdade de Medicina de Lisboa em 1966 e terminado o curso em 1973 (há mais de 50 anos!), compreende-se que para um médico de formação humanista seja muito penoso ver as imagens emitidas diariamente por todas as estações de televisão sobre a evolução dos acontecimentos em Gaza e na Ucrânia. Os horrores, refletidos pelas incessantes matanças de civis e combatentes, são ateados por governantes belicistas. Obstinados, recusam dialogar e negociar. Desconhecem a importância da diplomacia. Fazem Guerra. Inexplicavelmente, recusam construir Paz. Mandam avançar canhões, tanques e mísseis. Morte e destruição. Muito sofrimento.

Escrevo sobre este tema depois de ter visto um magnífico documentário produzido, em 2023, para a Netflix intitulado “Segunda Guerra Mundial: na Linha da Frente”. Os conteúdos dos seis episódios da minissérie espelham a sucessão, bem organizada, de imagens reais de arquivo, mas devidamente restauradas e coloridas com recurso às novas ferramentas tecnológicas. A narração está a cargo do ator inglês John Boyega que, para além de competente, é absolutamente imparcial. O impressionante realismo faz reviver o tempo de 1939-1945.

Admito que no fim fiquei abalado. Emocionado. Mas, igualmente, muito revoltado.

Para quem não conseguir ver toda a série, recomendo, pelo menos, o sexto episódio sobre as derradeiras semanas da Guerra, em 1945. Este último segmento começa com o cerco dos Aliados a Berlim, logo seguido da queda de Hitler quando o Exército Soviético ultrapassa as últimas defesas alemãs. O documentário termina com as imagens arrasadoras das duas bombas atómicas que os americanos lançaram sobre Hiroshima (6 agosto de 1945) e em Nagasaki, três dias depois.

As filmagens realizadas em Dachau devem ser vistas com redobrada atenção, apesar da intensa comoção que provocam, porque fazem perceber que a extrema desumanidade aconteceu na Alemanha. Existiu mesmo e há relativamente pouco tempo.

Estou consciente que a objetividade histórica dos acontecimentos relatados é motivo de perturbação para todas as pessoas. Todas, sublinho. Mas, também estou em crer que é preciso reviver essa época na perspetiva de ser gerada a ideia do “nunca mais”.

Em termos de ficção, gostaria de imaginar os nossos principais líderes do Ocidente a verem esse documentário. A seguir, iria também apreciar a reação de cada um deles. Vem este pensamento a propósito de ter sido anunciada a decisão da União Europeia em aumentar a produção de mais armas, mais munições e mais bombas.

Será que não percebem que os cenários da II Guerra não podem regressar?

Será que não percebem a grandeza da Paz?

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XIII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 6 março 2024

Surpreendentemente, fomos chamados a votar já no próximo domingo, dia 10 de Março. Por esta razão, nas últimas semanas, a partir do início da pré-campanha eleitoral, tenho insistido em escrever crónicas relacionadas com a ponderação indispensável no processo de decisão final da opção de voto, em função do programa partidário e do candidato que se apresenta a primeiro-ministro.

Sou daqueles que reconheço que governar não está ao alcance de qualquer pessoa. Não é uma questão de mera simpatia e muito menos de aparência exterior ou do grau de popularidade. É, isso sim, absolutamente necessário que o líder do partido seja dotado de um vasto conjunto de atributos, designadamente de inteligência, sagacidade, capacidade de diálogo, de ouvir e de falar, de flexibilidade, de conhecimentos, de competência, bem como de serenidade e honestidade genuínas. Se assim acontecer, merecerá aceitação social e poderá receber mandato popular para governar em nome de todos.

É certo que o eleitor exigente, em puro exercício de pensamento, inclinar-se-á para escolher o candidato com aquelas qualidades que apontei. Claro que para votar tem que somar à sua própria consciência a confiança nas ações previstas em cada programa. Por outras palavras, tem que se rever nas propostas enunciadas que passarão a ser as suas, de preferência. Não poderá basear-se nem no instinto nem na pressão de marketing correspondente aos cartazes que enchem as ruas. Muito menos nas notícias falsas e fraudulentas (fake) que são frequentemente difundidas nas redes sociais do costume.

Mas, por outro lado, também é verdade que a análise resultante da leitura dos programas eleitorais faz transparecer o sentido e a tendência das políticas a serem concretizadas para os quatro anos da Legislatura.

Na minha opinião, estamos perante três opções possíveis: partidos da esquerda; centro-direita; e extrema-direita radical de raiz populista.

Por mim, defendo, antes de tudo o mais, as propostas que advogam melhores salários e pensões, menos pobreza, mais qualidade no acesso ao Serviço Nacional de Saúde, à Habitação, à Educação e à Justiça. No fundo, traduzem princípios que refletem o desejo de justiça social e de mais igualdade. Mais prosperidade. Mais democracia.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 28 fevereiro 2024

Atendendo à proximidade das eleições legislativas, resolvi continuar a escrever focado em assuntos com tonalidade mais adequada à opção política relacionada com o voto de 10 de Março.

Hoje, pretendo clarificar a importância que o Serviço Nacional de Saúde assume na génese da própria democracia e, portanto, na decisão de votar.

A meu ver, é preciso analisar com ponderação o programa apresentado por cada partido, em especial o capítulo dedicado ao Estado Social e, principalmente às medidas propostas para as políticas públicas de Saúde.

Preciso.

A acessibilidade universal aos cuidados de saúde, quer preventivos quer assistenciais, tanto em centros de saúde como hospitalares ou cuidados continuados, é condição básica para todas as pessoas, famílias e comunidades. Só assim, estarão coletivamente envolvidas no processo de construção que visa alcançar mais produção. Mais prosperidade.

A Saúde Pública, como componente principal para o desenvolvimento socioeconómico do país, compreende a seguinte equação:

Literacia + exercício físico regular + alimentação saudável, equilibrada em calorias e com  redução de açucares e substituição do sal por ervas aromáticas + inexistência de comportamentos aditivos nem dependências, incluindo moderação do consumo de álcool + eliminação da exposição ao fumo do tabaco + participação dos doentes no respetivo tratamento da doença,  em regime de coprodução de resultados terapêuticos + justeza na atribuição de benefícios fiscais e prestações sociais concentradas em crianças que mais precisam, sobretudo inseridas em famílias pobres + garantia de acesso  a todos os níveis do Serviço Nacional de Saúde, sem barreiras para residentes ou imigrantes, independentemente dos rendimentos familiares + qualidade ambiental, incluindo em infraestruturas de abastecimento de água potável, saneamento básico e fornecimento de energia elétrica ao alcance de todas as famílias = VIVER MAIS TEMPO E COM MELHOR QUALIDADE DE VIDA.

Esta conclusão da equação traduz, necessariamente, um ganho marcante em saúde que é refletido pela redução do fosso social que separa ricos e pobres (social gap).

Por outras palavras, o gradiente social que progressivamente seria estabelecido entre crianças, jovens, adultos e idosos em função dos respetivos proveitos materiais, ficará atenuado. Assim, haverá mais igualdade. Menos iniquidades. Mais Democracia.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (XI)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 21 fevereiro 2024

Ao jantar na “Ribeirinha de Colares”, em amena conversa com netos, o mais novo, ainda adolescente, influenciado pelos debates políticos pré-eleitorais, colocou-me a questão de querer perceber a diferença entre os candidatos da Esquerda e da Direita. Pretendia saber a justificação da designação e, também, classificar cada um dos partidos concorrentes às eleições de 10 de Março.

Naturalmente, procurei pensar na minha resposta que teria que ser clara, mas sem ser tendenciosa. Resolvi introduzir algum conteúdo pedagógico.

Foi um exercício difícil que julgo ter conseguido com sucesso.

Relato.

Comecei por dizer que a origem da designação de esquerda ou de direita estava, no plano histórico, associada à Revolução Francesa no final do século XVIII. Nessa altura, nas assembleias, os lugares ocupados pelos representantes do povo eram do lado esquerdo e os aristocratas, defensores da Monarquia, sentavam-se do lado direito. Em termos físicos era uma exposição facilmente compreensível.

Ainda sobre a disposição dos assentos, fiz um esquema de um hemiciclo ao estilo da Assembleia da República. Com o desenho foi mais fácil explicar que havia lugares não só à esquerda como à direita, mas também ao centro e nos extremos.

A seguir foi necessário passar à fase dos esclarecimentos sobre as diferenças ideológicas. Comentei que os da Esquerda queriam mudanças rápidas no sentido da melhoria das condições de vida. Lutavam por salários mais altos. Não queriam ser explorados. Combatiam por condições de habitação dignas e pela prosperidade coletiva. Pela Justiça social. Já os da Direita eram conservadores. Não desejavam qualquer mudança de regime. Não tinham preocupações sociais.

Eram estas as ideias básicas para aquele tempo. Atualmente, apesar de terem passado 235 anos, permaneceram as designações de Esquerda e Direita, respetivamente para progressistas e para conservadores.

A conversa prosseguiu.

Acrescentei, logo depois, que muitos Estados-membros da União Europeia mantinham a mesma tradição na ocupação de lugares dos deputados nos respetivos parlamentos.

Foi então, que perguntou:
–  Ó Avô, como é em Portugal?

Respondi de imediato:
– Os 230 deputados da Assembleia da República sentam-se nos lugares ordenados da direita para a esquerda, assim: na estrema direita está o CHEGA, depois a Iniciativa Liberal, o PSD, o PAN, o PS, o LIVRE, o PCP e o Bloco de Esquerda.

Comentou logo:
– Já percebi!

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (X)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 14 fevereiro 2024

Sobre as eleições, já escrevi que, para mim, as medidas preconizadas para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) nos programas eleitorais são determinantes na opção do voto.

Considero que todas as pessoas residentes em Portugal deverão ter direito a cuidados de saúde de qualidade, sem nenhuma discriminação.

O SNS é financiado pelo Estado, isto é, por verbas oriundas da coleta de impostos que todos pagamos. Este ano, pela primeira vez, as despesas do Orçamento com a Saúde ultrapassam 15 mil milhões de euros.

Curiosamente, quando analiso propostas associadas ao SNS, revivo o tempo da sua criação em 1979. Sinto prazer em recordar os dias antes da aprovação da Lei pelo entusiasmo contagiante vivido por muitos de nós. Na altura, eu era um jovem médico, delegado de saúde no pequeno concelho de Cuba, perto de Beja.

Em 1978, Mário Soares formara o II Governo Constitucional que durou apenas 7 meses. Apesar do curto período, houve energia para lançar as ideias principais que iriam ser a base da Lei aprovada no ano seguinte. O ministro da Saúde, António Arnaut, visitou o Baixo Alentejo para ensaiar os seus projetos de integração das unidades que estavam até então dispersas em pequenas “capelas”: o hospital concelhio da Misericórdia, a assistência aos tuberculosos (IANT), o centro de saúde, os serviços da Caixa de Previdência e da Casa do Povo… Essa dispersão, não só física como também funcional, marcada pela multiplicidade de chefias, representava um sério obstáculo à nova organização dos cuidados de saúde. A mudança era difícil. Mas, a coragem e determinação de Arnaut eram geradoras de inspiração e ânimo.

Uma vez fui ao Gabinete do Ministro, tendo sido recebido por um médico que deu importantes contributos à Reforma que se aproximava. Nunca esqueci a classe de Manuel Sá Correia, obstetra em Viseu que estava em Lisboa como assessor para a Saúde Materna do Ministério. Insistia que proteger mães e crianças era uma prioridade absoluta. Estratégia que foi cumprida com sucesso.

No plano político, Arnaut terminou o seu mandato de ministro em consequência da queda do II Governo. Porém, como deputado, continuou a batalhar pela construção do Serviço Nacional de Saúde que conseguiria aprovar na Assembleia da República, no dia 28 de Junho de 1979, tendo, simbolicamente, presidido à Sessão, uma vez que era Vice-Presidente da Assembleia.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.pt

Opinião Pessoal (IX)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 7 fevereiro 2024

O Instituto Português de Oncologia comemorou o seu primeiro centenário. No âmbito das iniciativas promovidas pela atual Administração, a Imprensa Nacional acaba de editar o volume intitulado “O Essencial sobre o IPO Lisboa”, escrito pela historiadora Helena da Silva. Trata-se de um pequeno livro que descreve o percurso do Instituto ao longo de 100 anos. Considero que a obra, para além de oportuna, assume indiscutível interesse, sobretudo no contexto atual de eleições, visto que apresenta propostas a serem implementadas a curto, médio e longo prazos. Acaba por ser a história do IPO desde a sua fundação até ao futuro.

Há 50 anos, quando terminei o curso na Faculdade de Medicina de Lisboa, o IPO era uma referência muito respeitada por todos os médicos. Mas, na altura, lembro-me de ter ficado admirado com a sua dependência em relação ao Ministério da Educação e não ao Ministério da Saúde, como eu imaginaria mais normal. Fui, então, deslindar a razão que explicaria a minha estranheza inicial. Não demorei a descobrir que o Instituto fora criado por iniciativa do ministro da Instrução Pública, António Sérgio, na tripla perspetiva da promoção da investigação, do ensino e da assistência.

O decreto de António Sérgio, logo promulgado pelo Presidente Manuel Teixeira Gomes, a 29 de Dezembro de 1923, desenhou, para sempre, a fronteira para o novo tempo da Medicina Portuguesa.*

Encontrei, igualmente, a explicação para as duas denominações sucessivas do Instituto: primeiro “estudo do cancro” e depois “de oncologia”.

Preciso.

Na Antiguidade Grega, os médicos observaram que as veias dilatadas e vasos linfáticos engorgitados que rodeavam o aparecimento de uma massa (tumor) faziam lembrar as patas de um caranguejo. Por isso, chamaram à massa Karkinos que em grego significa caranguejo e que traduzido para o latim é cancer. Ora, assim se explica que o símbolo do IPO, ainda hoje, seja a imagem de um caranguejo.

Por outro lado, como o aparecimento de uma massa era condição para estabelecer o diagnóstico de cancro e, uma vez que em grego onkos significa massa, conclui-se que a expressão Instituto Português de Oncologia é, absolutamente sinónima de Instituto Português para o Estudo do Cancro, designação que consta do Decreto de 1923.

* Relembro que António Sérgio e Teixeira Gomes são figuras maiores da Cultura e da Política na primeira metade do Século XX.

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com

Opinião Pessoal (VIII)

Artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias” 31 janeiro 2024

Sobre as eleições de 10 de Março já aqui escrevi que a minha escolha resultará da apreciação que eu mesmo irei fazer até ao momento antes de colocar na urna o boletim de voto. A decisão decorrerá do conteúdo do Programa Eleitoral, sobretudo para a Saúde e da minha análise sobre o perfil de cada candidato às eleições para aplicar as propostas anunciadas. Claro que neste processo, o pretendente a primeiro-ministro assume o peso principal.

Já aqui manifestei a minha opinião em considerar que votar é quase um dever para quem tem mais de 18 anos de idade. Por conseguinte, nas semanas que nos separam até 10 de Março há tempo para refletir, desde já, nas ideias e nas políticas públicas que cada Partido pretende desenvolver. Mas, é essencial que os programas sejam realistas na perspetiva de poderem ser realizados.

Por outras palavras, é preciso distinguir se determinado discurso político traduz ideias exequíveis ou se, pelo contrário, são demagógicas.

A esse propósito e a título de mero exemplo, relembro que John Kennedy, em 1961, proferiu o célebre discurso a prometer a ida do homem à Lua até 1970. Muitos julgaram que era uma promessa trapaceira e até impossível de realizar. Porém, como se sabe, foi cumprida e antes do tempo previsto.

Imaginemos, agora, passados 55 anos dos inesquecíveis passos de Neil Armstrong na superfície lunar, que em Portugal surge um candidato a prometer a “Lua”, traduzida em 2000 euros mensais de pensão mínima para todos, se ganhar as eleições …

Não gosto de demagogias, sublinho.

Para mim, o contrato social para a Saúde ocupa atenção principal. A opção em quem votar impõe a garantia do funcionamento regular do Serviço Nacional de Saúde que possibilite o acesso, em condições de igualdade, a pobres ou ricos, a portugueses ou estrangeiros ou imigrantes. Para tal, as reformas terão que ser implementadas em diálogo com os respetivos representantes de sindicatos e ordens profissionais, na certeza que as carreiras têm que ser atrativas em todos os planos, incluindo os regimes de remuneração. Há que investir mais em saúde mental e nos serviços de saúde pública, dando primazia à prevenção das doenças e promoção da saúde. Revitalizar a capacidade tecnológica do SNS e clarificar a relação com o setor privado são aspetos prioritários.

(continua)

Francisco George
franciscogeorge@icloud.com