Mauzão à Paisana

Em 1966, recém-encartado, conduzia eu, no Centro de Lisboa, tranquilamente, o Morris de minha Mãe que, aliás, estava matriculado em nome de meu Pai. Tinha saído da Sociedade Nacional de Belas Artes à Rua Barata Salgueiro e descia, a meio da manhã, a caminho da Avenida da Liberdade na curva para o São Jorge.

Lá ia eu dobrar a esquina para, como sempre era meu hábito, espreitar as sucessivas montras com os cartazes do cinema. Tudo se passava com inteira serenidade, sublinho. Na altura, mesmo a principal Avenida tinha pouco trânsito. O ambiente era absolutamente normal, diria.

Porém, repentinamente, através da janela da direita que estava entreaberta, comecei a ouvir gritos de uma criança e reparo que um jovem de pé descalço, que teria provavelmente 12 ou 13 anos de idade, estava a ser brutalmente pontapeado por um adulto. O pobre do rapaz, deitado no chão do passeio, dobrado com as mãos na cabeça, gritava de dor a cada golpe de pontapé que de forma impiedosa sofria repetidas vezes. Parecia não parar. Em voz alta e com sofrimento clamava por socorro.

Ora, perante cenário tão medonho, resolvi parar para ajudar e ir socorrer o jovem. Empurrei o “mauzão” que caiu e, nos instantes que se seguiram, houve tempo para o rapaz fugir e eu correr para o carro que estava com o motor a trabalhar encostado, estrategicamente, à minha espera.

Fiquei contente com a minha ação do dia e, para auto-comemorar decidi ir à sessão das 15 horas ver uma obra inesquecível de Claude Lelouch. Nunca mais pensei no assunto do “figurão mau”, até porque o filme “Un Homme et une Femme” ocupou-me a atenção, não só pelo romance em si, mas também por Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant.

Já à noite, antes do jantar, meu Pai chamou-me, com ar solene, para me comunicar que estava desapontado comigo pela cena que tinha provocado ao ter agredido uma autoridade policial, por isto e por aquilo… Nem me dava oportunidade de responder. Já quase no final da zanga percebi que aquilo que meu Pai não admitia como correto era eu ter agredido um polícia. Foi, então, que respondi que não sabia que era polícia porque o tal figurão estava à paisana e porque só me interessou salvar o rapaz que além de pobre era uma criança. Fez-se de imediato luz.

Meu Pai não sabia que o agredido era uma criança que mendigava e que o tal “mauzão” estava à paisana. Logo depois, estendeu-me a mão que apertou com força, felicitou-me pela coragem que mostrara e levou-me a festejar, nessa mesma noite, com um jantar especial num dos bons restaurantes da época, em Campo de Ourique. Durante a gostosa refeição no “Velha Goa” explicou-me que o tal paisana estaria a “acalmar” um pedinte teimoso e que depois de ter sido empurrado por mim, tinha anotado a matrícula do Morris durante a minha fuga.

Ora, através dos registos policiais, encontrou a identidade do proprietário do carro sem qualquer dificuldade para, logo a seguir, o procurar com a intenção de o deter. Foi então que dois agentes da Esquadra da PSP da Praça da Alegria foram encontrar o Diretor dos Hospitais Civis de Lisboa a quem relataram o incidente.

Visivelmente incomodados, os polícias recuaram perante tão “importante” médico (um dos agentes fazia serviço regular no Posto da PSP do Banco de São José e conhecia, por isso, o Diretor que estava à sua frente) e nem quiseram saber do verdadeiro condutor.

Em resumo, terei feito uma boa ação, em defesa de pobres e contra os prepotentes. Viria, por isso, a celebrar duplamente, primeiro com a minha iniciativa de satisfação pessoal comemorada com a ida à matiné do Cinema e depois, já em família, com o melhor sarapatel da Cidade.

Francisco George, verão de 2018.

Cuidado com as Curvas

No princípio do outono de 1976 iniciei os meus trabalhos como Delegado de Saúde no Concelho de Cuba. Anos inesquecíveis no Baixo Alentejo.

Portugal acabara de se libertar da Ditadura e de atravessar o período de governos provisórios. A Constituição da República, aprovada nesse ano, abriu uma época de esperança para todos e transmitiu novas energias.

Foi neste quadro que uma pequena equipa do então Centro de Saúde, provisoriamente instalado na Casa do Povo, lançou-se ao trabalho com ânimo redobrado e com a participação de cidadãos e famílias.

Uma das primeiras prioridades identificadas foi a necessidade de melhorar o abastecimento de água, quer na Vila quer nas sedes de freguesia ou, ainda, nos montes periféricos. A principal preocupação era promover a melhoria das frágeis infraestruturas de saneamento na perspetiva de cuidar da Saúde Pública e da preservação da qualidade do meio ambiente.

Para além da água potável, a ideia era reduzir a desordem na eliminação e no destino final de resíduos com a colaboração dos serviços da Câmara Municipal. Na altura, o Senhor Abrantes era o Presidente da Comissão Administrativa e logo assegurou o apoio possível. Mas, os recursos eram muito limitados e manifestamente insuficientes.

Era tempo de Cólera. Portugal estava confrontado com atividade epidémica de Cólera. Era, pois, preciso garantir a qualidade da água destinada ao consumo humano. Garrafas com solução de hipoclorito tinham sido enviadas pela Direção-Geral da Saúde. Também era preciso preparar os potes para serem cheios com “cloreto das lavadeiras” e, a seguir, mergulhados no fundo dos poços a fim de o cloro passar através das porosidades da cerâmica. Para tal, a localização dos poços em todo o espaço do Concelho fora assinalada em mapas militares.

A concretização do plano de luta contra a Cólera exigia a distribuição das garrafas com a solução de hipoclorito e a colocação dos potes na água dos poços.

Nestes trabalhos, relembro a importância desempenhada pelo Agente Sanitário do Centro de Saúde.

Um dia, depois de almoço “à do Jacinto” procurou-me. Estava ele em cima da motocicleta:

– Ó Doutor, monte a “cavalo” aqui atrás! Vamos a Albergaria dos Fusos aconselhar os habitantes a utilizarem as garrafas e a seguir colocar um pote a São Matias! Ora venha também, insistiu.

Olhei para ele desconfiado. Tirei as medidas ao banco da motocicleta e respondi-lhe:

– Porque não? Vamos! Cuidado com as curvas!

Francisco George
Setembro 2017

Férias Grandes

Reviver o passado é bom.Gémeos George

As fotografias da época ajudam a revisitar tempos, locais e cenários vividos nas antigas férias grandes de julho a outubro. Férias prolongadas que marcam a memória. No meu caso, durante a transição da adolescência para a juventude, os anos do rock and roll dos discos de 45 rotações estão sempre presentes.

Na Praia das Maçãs era assim: pela manhã, eu e o meu irmão gémeo frequentávamos as areias à beira mar protegidos pelas abas dos toldos. Ao lado, lá estava o escritor Ferreira de Castro sentado num banco de madeira, também à sombra, mas completamente vestido “à cidade” e que, por isso, marcava a diferença. Todos nós sabíamos que era o autor d’ A Selva. A sua filha Elsa alinhava, igualmente, no nosso grupo.

À tarde, na piscina de água salgada, as lições com o nadador olímpico João Franco do Vale a ensinar bruços, mariposa, crawl e costas preparavam-nos para as competições do final de agosto.

À noite, os bailes de garagem nas casas dos pais de uns e outros eram animados pelo gira-discos que não parava. Invariavelmente, as músicas eram sempre as mesmas e o ambiente “romântico” via nascer os primeiros amores de Verão. Outras vezes, frequentávamos o cinema em dias de filmes imperdíveis, assinalados ou por Brigite Bardot e Elizabeth Taylor ou, mais raramente, por filmes de referência como “O Leopardo” ou “Bruscamente no Verão Passado” ou ainda “O grito” de Michelangelo Antonioni.

As energias eram gastas pelos pedais das bicicletas e, infelizmente, repostas pelas bolas de Berlim do “Lá vou eu”.

Geraram-se amizades e cumplicidades para sempre. De entre as famílias da nossa Linha Azenhas do Mar, Praia das Maçãs e Praia Grande algumas passaram, muito mais tarde, para as primeiras páginas dos jornais. Foi o caso de Palma Carlos, o primeiro Primeiro-Ministro do Governo Provisório, Jorge Sampaio, Presidente de Regime Constitucional, e, mais tarde, o atual Presidente da Assembleia, Eduardo Ferro Rodrigues, ou o ex-ministro Jorge Braga de Macedo.
Em distinta dimensão de projeção pública, na altura, também, todas as manhãs caminhavam para a Praia das Maçãs os irmãos Lobo Antunes.

Inesquecível foi a decisão do nosso Pai ter premiado o meu irmão João devido ao salvamento, por ele protagonizado, de uma amiga que estava na iminência de se afogar nas retorcidas águas da pequena praia das Azenhas do Mar. Ao ver Teresa a imergir, destemidamente atirou-se para a ir buscar. Por alguma razão era ele que recebia mais medalhas das provas de natação…

Memoráveis são também os mexilhões apanhados nas rochas e os polvos agarrados com longos ganchos que os pescadores levavam aos ombros.
O regresso a Campo de Ourique era, à chegada, sinalizado pela presença dos vendedores de castanhas assadas que, à partida para férias, não estavam presentes.

Tudo são memórias inesquecíveis das nossas idades inocentes.

Olhar para trás é bom.

Francisco George
Julho de 2017

Campo de Ourique – Memórias da vida até à adolescência

Campo de Ourique é, saliento, desde já, um bairro muito especial. Os aí residentes desenvolvem um sentimento de cidadania particular e, mais do que isso, uma maneira de estar e de compreender a cidade de forma diferente.

A minha infância e juventude estão associadas ao Bairro. Por isso, descrevo alguns cenários inesquecíveis que vivi no terceiro quartel do fantástico Século XX.

Em 1947, quando nasci, saí da Maternidade Alemã e fui levado para o número 28 da Rua 4 de Infantaria, melhor diria, fomos levados, uma vez que tenho um gémeo que nascera cinco minutos antes. A casa dos meus Pais era no 1º andar por cima da Farmácia Castro Fonseca.

Joaquim de Castro Fonseca (1884-1964) nascera em Ponte de Sor e a partir de 1911 ficou habilitado pela Escola Superior de Farmácia de Lisboa a “exercitar a Arte de Farmácia”. Era um firme defensor da República. Foi oficial do Exercito mas, em 1913, fundou a sua Farmácia naquele número 28 da 4 de Infantaria.

Ora, as minhas memórias, as minhas recordações mais recuadas, mas ainda muito nítidas, colocam-me umas vezes atrás do balcão da Farmácia e outras a brincar no passeio amplo na banda do Jardim da Parada colada à 4 de Infantaria. Provavelmente teria 4 anos de idade. Julgo que eu costumava fugir para a parte traseira do amplo espaço da Farmácia quando minha Mãe esperava para ser atendida à frente do balcão ou, simplesmente, quando a caminho da rua descia as escadas com meus Pais; então, de fugida, lá conseguia eu escapar pela porta do lado para ver Castro Fonseca trabalhar. À entrada estava um cão perdigueiro, grande, branco com manchas castanhas, aliás, muito pachorrento, pelo que só muito raramente ladrava.

Depois de passar pelo “Fiel”, ficava a contemplar o Farmacêutico a preparar remédios na bancada. Era um homem alto, com barba branca e que vestia invariavelmente uma bata de cor acastanhada muito clara, semi-aberta a mostrar o colete apertado que exibia o relógio metido na bolsa. Parecia um sábio. Na época, eram muitos os medicamentos que precisavam de prévia preparação antes de entregues aos clientes. Eram meticulosamente fabricados segundo as receitas dos médicos, viria eu a compreender mais tarde. Impressionava-me ver a sequência dos gestos para manobrar a balança de precisão. Também nunca esqueci o alinhamento dos grandes frascos de vidro semitransparentes, castanhos avermelhados, que continham pós ou líquidos. Uns com rolhas de cortiça e outros com tampas de vidro maciço afuniladas e com um “chapéu” redondo no topo. Almofarizes de todos os tamanhos povoavam, também, a bancada principal. Pequenas caixas redondas de cartolina robusta, empilhadas segundo diversos tamanhos, eram depois utilizadas para embalar pastas, pomadas e cremes. Tudo aquilo parecia magia. Castro Fonseca tinha no Agostinho Palhinhas (1927-2014) um ajudante de primeira água. Figura muito popular em Campo de Ourique, o Senhor Palhinhas, como era sempre chamado, controlava com mestria os pedidos manuscritos pelos médicos que logo depois eram preparados nas bancadas traseiras. Conhecia a letra de todos eles. Descodificava, sem problemas, os seus rabiscos. Provavelmente conhecia o hábito das prescrições em função do médico ou das doenças dos seus clientes.

Quando, em 1951, os meus Pais mudaram de casa para uma mais ampla no 3º andar do número 105 da Rua Coelho da Rocha, na esquina com a Azedo Gneco, as visitas frequentes ao Palhinhas eram sistemáticas, se bem que menos frequentes, naturalmente.

Prédio da Coelho da Rocha era simultaneamente grande e pequeno. Com muitas divisões assoalhadas por cada andar, só tinha mais um inquilino no 2º andar, uma vez que o 1º e r/c eram ocupados pela Família Alvorão – proprietária deste bloco que dobrava a esquina com a Azedo Gneco. A proximidade gerou um ambiente marcado pela amizade que juntou três famílias: George, Ribeiro e Alvorão.

O Jardim da Parada, logo em frente da Farmácia, adequado às primeiras brincadeiras com triciclos, trotinetas ou carrinhos tornou-se cada vez mais “pequeno”. Foi trocado pelo Jardim da Estrela nas horas dedicadas ao ar livre e às correrias de cowboys. As grandes folhas secas amareladas das seringueiras, atadas umas às outras com paus de fósforos apanhados do chão, faziam coroas para imitar os índios nos jogos do toca e foge. Foi aqui que conheci Jorge Avelino Braga de Macedo, também ele residente na Coelho da Rocha, com quem estabeleci laços de amizade que perduram.

A morte de minha Avó paterna, em 1952, marca este período. Era viúva do meu Avô inglês Albert George que morrera em 1940 (nunca o conheci, portanto). Viviam no 75 da Coelho da Rocha. Por perto, na 4 de Infantaria, viviam os meus avós maternos, sempre presentes.

No ensino pré-escolar frequentei primeiro a Queen Elizabeth`s School de Miss Denise Lester à Rua da Quintinha, em São Bento. Lembro-me de uma sala grande com piano e das primeiras lições a aprender a dizer as cores em inglês.

Depois, a partir de 1952, devido à mudança do Colégio Inglês para Alvalade, a opção foi “O Lar da Criança” da notável pedagoga Berta de Ávila (conhecida por todos como “Bertinha”), próximo da Estrela e, portanto, de Campo de Ourique. Aqui fiz o ensino primário completo. Alice e Estefânia ensinavam as letras e aritmética e Francine Benoit (1894-1990) música e canto coral. Com ela aprendi a cantar a Portuguesa e a perceber o sentido do diapasão que sempre ostentava. Tal como os meus irmãos e primos, os amigos de sempre (os Pinto Nogueira e os Silva Carvalho) lá estavam igualmente.

Destacavam-se, entre nós todos, já na altura, os alunos Eduardo Barroso e Marcelo Rebelo de Sousa. Na cantina da Escola nunca mais esqueci a empregada, de origem africana, Maninha a preparar as célebres gemadas de ovo cru batido com açúcar. Os recreios ao ar livre eram animados pelos jogos de bola. A seguir ao almoço todos os alunos descansavam em camas de lona de armar. Entre as pernas, de cadeira em cadeira, o “Jack” (o cão da Bertinha) farejava mas nunca mordia.

Também impossível esquecer a epidemia da Gripe Asiática que fez suspender a actividade escolar em Outubro de 1957. Todos nós ficamos, alegremente em casa, à espera de melhores dias para voltarmos à Escola.

Em 13 de julho de 1958, na Escola Oficial da Lapa, fiz exame de 4ª classe. Sala austera, inesquecível, com crucifixo na parede e duas grandes fotografias emolduradas, uma de Craveiro Lopes e a outra de Oliveira Salazar.

A seguir foi o Liceu Pedro Nunes (no famoso anexo, por nós batizado como TEXAS).

Em 1958 Lisboa, no Inverno, ficou coberta de neve. Foi uma festa. Todos na rua a erguerem bonecos de neve. Cenários inesquecíveis.

Mas, até à adolescência, a minha atenção estava centrada no 105 da Coelho da Rocha e, muito em particular, nos quarteirões contíguos e ruas mais vizinhas. A vista a partir do nosso 3º andar era sempre a mesma. A Ocidente a quinta das Terras do Sabido e a Oriente a rua alongava-se até ao seu início junto à Silva Carvalho.

Da janela do meu quarto avistava, em frente, a Taberna com a inevitável carvoaria ao lado (incluindo corvo) e na esquina oposta a Tabacaria com serviço de “apanha malhas” logo à entrada. Era frequente ver mulheres a entregarem encomendas para conserto das meias de vidro. A trabalhadora, solitária, sentada junto à porta, esforçava-se para compor as meias. Não seria uma tarefa nem fácil nem agradável. Sentada num banco, semi-dobrada sobre uma pequena mesa que suportava um tubo concebido para verificar imperfeições das meias. Com uma agulha manual ou com o apoio de uma maquineta eléctrica parecia que não parava de trabalhar.

Em baixo, do lado dos números ímpares, as três lojas seguidas: o Matias à frente da sua ourivesaria, o eletricista Dias e o pequeno atelier do alfaiate Nita. Logo depois vinha o Mercado.

Do lado da Azedo Gneco as Terras do Sabido representavam o que restava da ruralidade das antigas zonas periurbanas bem próximas do coração de Lisboa. O “Tio” Albano, com o seu cão-pastor “Leão”, conduzia um rebanho de ovinos pelos pastos da quinta (hoje ocupada pelos prédios altos recuados até à Sampaio Bruno). Aí vi nascer um cordeiro.

As ruas de Campo de Ourique eram mais agitadas durante a manhã, sobretudo porque os vendedores ambulantes povoavam os passeios. Muitas vezes, subitamente, começavam as gritarias e algazarras que assinalavam a proximidade da polícia que perseguia sem contemplações os vendedores não possuíam licenças de venda. Vendiam flores, fruta, hortaliças e até pintassilgos. Dizia-se que tiravam a freguesia ao Mercado Municipal. Era a época das licenças obrigatórias, desde a bicicleta ao simples isqueiro de bolso. A fiscalização exercida por denunciantes à paisana representava uma forma de repressão sempre presente.

Os cães sem licença camarária eram apanhados com grandes redes e logo depois metidos em carrinhas de cor verde-azeitona escura. À sua chegada ouviam-se, sistematicamente, gritos de protesto.

O som característico da flauta dos amoladores que empurravam um bizarro carrinho de mão assinalava a oportunidade para afiar facas ou arranjar guarda-chuvas.

A Rua Coelho da Rocha tinha, na altura, poucos carros estacionados de um e do outro lado. Não seriam mais de 5 ou 6. Era o tempo da necessidade de ajudar a bateria para o carro pegar, em regra pela manhã. A “mise en marche” à manivela era possível porque os para-choques da frente tinham um orifício para a milagrosa ferramenta funcionar. Era também a época dos frequentes furos dos pneus. Por isso, os automóveis vinham de fábrica equipados com manivelas e poderosos macacos.

Em Maio de 1958 começaram a surgir pequenas tarjetas na fantástica campanha de Humberto Delgado. A maioria eram coladas às vidraças das montras das lojas ou nas portas das casas, nas caixas do correio, etc. Tinham dimensões pequenas (equivalentes a um cartão de visita na vertical), em papel amarelado, fino, que fazia sobressair uma fotografia do General. Não era difícil depreender que tinham sido postas durante a noite em operações relâmpago conduzidas pelos membros da Oposição.

A agitação, o ambiente conspirativo e a propaganda, próprias da Campanha de 1958, terão representado, para mim, o início do interesse pela política nacional. Pai e irmãos mais velhos explicaram-me minuciosamente o significado da importância em desalojar Salazar de São Bento. As diferenças entre ditadura e democracia. Meu Pai, filho de um cidadão Inglês, um dia disse-me “aqui prendem os Oposicionistas e em Inglaterra pagam salários para se oporem ao Governo”. Repetia estas palavras de quando em vez com assinalável revolta. Referia-se aos deputados e à dignidade que tem o estatuto de líder da Oposição no Parlamento Inglês. Foi então que entendi a diferença entre Governo e País. Governo e Estado. Ser Português não implicava apoiar o Governo, sobretudo quando os governantes não representam a vontade popular através de eleições justas.

Ainda adolescente percebi a importância do pensamento de cada cidadão poder ser expresso livremente, mesmo em público. A importância das lutas pela justiça social. Ver crianças e jovens em pé descalço ajudou-me a perceber as diferenças entre pobres e ricos. A injustiça era, naturalmente, geradora de revolta.

Por outro lado, a longa prisão de um irmão de minha Mãe em Caxias elevou esse sentimento de indignação.

Em frente da nossa casa vivia um agente da PIDE. Um carro tipo jeep com a traseira enquadrada por ripas de madeira assinalava o vínculo do condutor à Polícia e à Legião. Curiosamente, no prédio ao lado dele, por cima, no terceiro andar residia um democrata revolucionário. Hoje, pensando para trás, estou convencido que sabiam um do outro.

Aos 12 anos alcancei a idade de entrar no cinema. Campo de Ourique iria fazer de mim um cinéfilo para a vida futura. Vezes sem conta terei visto o Rio Bravo no antigo Europa. Frequentava também o Jardim Cinema (o “Vergas”, assim chamado porque as cadeiras eram em verga) e o Cinema Paris, única sala de cinema que projetava dois filmes diferentes separados pelo intervalo.
Começavam, ao mesmo tempo, os primeiros encontros na Tentadora ou no Canas e a seguir as primeiras festas no Arte & Sport a antecipar o fim da adolescência.

Francisco George
Março, 2015

 

Avelino Cunhal. Meu Professor

Avelino Cunhal (1887-1966) marcou para sempre a minha formação académica e cívica. A minha forma de pensar foi muito moldada pelo seu exemplo. Conheci-o no Colégio Valsassina em Lisboa em 1960. Foi meu professor de História nesse ano. Ensinou-me muito (1).

Na Escola, todos sabiam que era pai de Álvaro Cunhal. Poucos, no entanto, interpretavam com lucidez a razão de tanto segredo à volta da sua figura ou a importância que tinha na política em Portugal.

Ficaram memoráveis as explicações que dava sobre a Antiguidade, os Grandes Filósofos, os Cidadãos de Atenas ou a Guerra do Peloponeso (2). Na aula, sentado ao canto esquerdo da mesa, ligeiramente elevado pelo estrado, perna traçada que evidenciava o uso de capas de feltro a cobrir os sapatos (3), Avelino Cunhal falava de forma muito expressiva, animada pelos movimentos dos seus braços estendidos e das mãos semifechadas colocadas em distintos planos.

Iniciei o ano escolar com Avelino Cunhal em Outubro de 1960. Poucos meses antes, em Janeiro (4), o Filho tinha protagonizado a mais espectacular das fugas de presos políticos em presídios portugueses.

Um certo dia, antes de me deitar, pedi a meu Pai que me explicasse o que se passava com o Filho do Professor. Foi então, com entusiasmo indisfarçável, que me relatou o sucesso da fuga de Álvaro Cunhal da prisão de Peniche. Conseguira fugir e nunca mais regressar até, catorze anos depois, ter trepado para cima do tanque do MFA que o esperou no aeroporto de Lisboa.

Antes do final de 1960, abordei Avelino Cunhal quando subia o lance de escadas para o piso superior do corpo principal do Colégio. Disse-lhe que compreendia o desgosto que seguramente tinha em não poder ver o Filho e que em minha casa estavam todos solidários. Pôs-me a mão por cima dos ombros, nada disse de concreto e continuou a caminhada, a meu lado, para a lição daquele dia. Seguiram-se, em diferentes ocasiões, cumprimentos do mesmo género. No ano seguinte, também lhe comuniquei que o meu Pai tinha ouvido o Filho na Rádio Moscovo que, apesar das interferências ruidosas, era motivo frequente de atenção em minha casa (5).

Avelino Cunhal morreu em Fevereiro de 1966. Estive no cemitério do Alto de São João. Era um dia de chuva intensa. Algumas dezenas de pessoas aglomeraram-se no pátio interior junto ao portal principal. Todos esperavam a urna. Percebia-se a presença da polícia. Os agentes da PIDE à entrada estavam inquietos. Sentia-se a tensão. Ambiente pesado. Subitamente, ouve-se vozearia para apoiar o motorista de uma camioneta que tentava acertar a manobra para entrar no portão apertado. Era um camião de caixa aberta que transportava uma coroa gigante de flores vermelhas. Na enorme faixa que a atravessava lia-se: “DO TEU FILHO ÁLVARO”. Foi preciso um guindaste para movimentar a própria coroa. A emoção conjugou-se com a satisfação pelo destaque que a coroa naturalmente assumiu.

Quando casei, em 1970, o meu Sogro ofereceu-me um óleo pintado por Avelino Cunhal que tinha adquirido na Sociedade Nacional de Belas Artes nas célebres exposições dos neo-realistas que se opunham a Salazar (6). Era uma obra de dimensões médias (cerca de 70 por 40 cm) que retratava mulheres a venderem cerâmica na Feira de São Pedro de Sintra. Sobressaíam verdes e as típicas figuras redondas das vendedoras. Em baixo, à direita, a assinatura e a data – A. Cunhal 1947. Sem hesitar, em 1974, decidi oferecer este meu quadro a Álvaro Cunhal. Para tal, contactei uma amiga minha que com ele trabalhava no Gabinete em São Bento (7) depois de ter sido nomeado ministro sem pasta no I Governo Provisório. Mais tarde, vim a saber pela mesma amiga que a primeira reacção de Álvaro Cunhal ao contemplar o óleo foi ter comentado que não tinha sido ele o autor quando reparou na assinatura… Escreveu-me, de seguida, um bilhete que ainda guardo. Nunca mais soube do quadro e do destino que Álvaro Cunhal lhe deu.

Voltei ao Alto de São João em Junho de 2005 para acompanhar o cortejo fúnebre de Álvaro Cunhal. Disse, então, a alguns amigos que encontrei a caminho do cemitério que há quase 40 anos tinha lá estado pelo Pai.

Avelino e Álvaro Cunhal tinham semelhanças não só, no plano físico, mas também em múltiplos outros aspectos. Os dois advogados, os dois combatentes, os dois pintores, os dois escritores e os dois influenciados pelo movimento neo-realista.

Lisboa, Fevereiro de 2011
Francisco George

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(1) Recentemente José Cutileiro que assina uma coluna semanal no EXPRESSO, ao elogiar a figura do director do Colégio, Frederico Valssasina Heitor, escreveu que considerava Avelino Cunhal como um dos seus melhores professores.
(2)  Já recentemente ao ler a edição em português da História da Guerra do Peloponeso revivi os relatos de Avelino Cunhal (Tucídides. História da Guerra do Peloponeso. Lisboa: Ed Sílabo, 2008).
(3)  As polainas que usava nos meses frios do ano eram raramente observadas em Lisboa (é provável que fossem mais comuns em Seia, localidade onde Avelino Cunhal nascera em 1887).
(4)  No 3 de Janeiro de 1960 Álvaro Cunhal foge da Prisão de Peniche juntamente com Joaquim Gomes, Jaime Serra, Carlos Costa, Francisco Miguel, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Guilherme da Costa Carvalho, José Carlos e Francisco Martins Rodrigues
(5)  Então, a Emissora Nacional mantinha no ar um programa intitulado “RÁDIO MOSCOVO NÃO FALA VERDADE”.
(6)  Refiro-me à Exposição Geral de Artes Plásticas na SNBA (1947 ou 1948).
(7)  Refiro-me a Alice Sena Lopes.

Arnaldo Sampaio. Meu Professor (1)

Costumo dizer que os meus professores, Avelino Cunhal, no ensino secundário, e Arnaldo Sampaio na especialização em Saúde Pública, constituíram as minhas principais referências.

Arnaldo Sampaio (1908-1984) foi uma grande figura da Moderna Medicina Portuguesa. Seguramente, foi um dos mais notáveis fundadores da Nova Escola. Participou na formação da maioria dos médicos de saúde pública em Portugal. Ensinou todos. Transmitiu aos seus discípulos a noção da vastidão das áreas de interesse em Saúde Pública.

Foi um dos primeiros a considerar natural a intervenção de médicos no processo de desenvolvimento das comunidades, indissociável do desenvolvimento sócio-económico. Para ele, a Saúde Pública resulta do conhecimento de múltiplas disciplinas e atravessa todos os sectores. Insistia que os interesses da saúde dos cidadãos tinham que ser observados nos programas e iniciativas de outros departamentos do Estado, a fim de garantir a promoção da saúde e a prevenção das doenças através da adopção de medidas concretas capazes de poderem reduzir factores de risco reconhecidos como tal. Atribuía particular destaque à Educação, à Agricultura, Indústria e Ambiente.

Em 1977, Sampaio que integrava o principal órgão dirigente da Organização Mundial da Saúde, participou nos trabalhos preparatórios da Conferência que, no ano seguinte, definiu, na cidade de Alma-Ata, da então URSS, um novo conceito filosófico de Saúde. A participação dos cidadãos e a conjugação de meios mobilizados, dentro e fora do sector da saúde, são as duas componentes essenciais que passaram a ser consideradas na nova abordagem. O antigo Posto Médico dava luga ao Centro de Saúde onde médicos, enfermeiros e técnicos de higiene e saúde ambiental, apoiados por elementos administrativos, estabelecem uma relação de colaboração activa com indivíduos e famílias dando relevo à participação da Câmara Municipal e dos sectores da educação e segurança social na área da saúde.

O antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, o mais velho dos dois filhos de Arnaldo Sampaio, ao visitar o Centro de Saúde de Mértola, em Abril de 1996, lembrou que seu Pai costumava dizer-lhe quando era por ele acompanhado na visita a unidades de saúde: “Não te preocupes em demasiado com os edifícios, se são novos ou velhos. Preocupa-te, sim, com quem lá trabalha, se estão lá, se trabalham, se têm ligações às pessoas, se as pessoas os reconhecem como seus médicos ou seus enfermeiros, se têm carinho com eles, se a unidade funciona lá por dentro. Porque por fora têm pouca importância”.

Sem dúvida que Jorge Sampaio, em visita oficial como Presidente, ao citar seu Pai pretendia realçar a importância em se imprimir elevados padrões de qualidade (centrados na humanização dos serviços) decorrentes do empenho de cada membro que integra a equipa de saúde.

Arnaldo Sampaio foi investigador, professor e director-geral da Saúde entre 1972 e 1978. O seu nome ficará para sempre ligado ao Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, à Escola Nacional de Saúde Pública e à Direcção-Geral da Saúde.

Ainda hoje o seu mandato como Director-Geral é recordado e citado como exemplo. É esse exemplo que constitui um permanente desafio para quem lá exerce funções e especialmente para aqueles que cumprem posições dirigentes.

Conheci pessoalmente Arnaldo Sampaio, foi meu mestre. Amigo também. Trabalhei sob a sua direcção quando fui nomeado Delegado de Saúde no concelho de Cuba, em 1976. Posso, por isso, testemunhar a sua dedicação ao desenvolvimento da Saúde Pública em Portugal. Foi ele que geriu o primeiro Programa de Vacinação administrado gratuitamente a todas as crianças. Um sucesso inquestionável.

Francisco George

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(1) Baseado num artigo escrito pelo Autor para o “Diário do Alentejo”  e publicado em 6 de Fevereiro de 1998.

Francisco Cambournac. Professor de Medicina Topical

Foram muitas as figuras que marcaram a Medicina Portuguesa no século XX. Nesta galeria de médicos, há que reconhecer os trabalhos de Francisco Cambournac (1903-1994) que colocaram a Saúde Pública Tropical em patamar de elevada qualidade quer a nível nacional quer internacional. A sua vida foi exemplar em múltiplos planos, em muitas dimensões. Antes de mais pela forma como conduziu a eliminação do paludismo em Portugal, mas, também, como ensinou sucessivas gerações de especialistas e, sobretudo, como representou o seu País na Organização Mundial da Saúde, em particular como Director de África eleito por duas vezes.

Conheci-o muito bem. Já aposentado. Tinha ultrapassado os 80 anos de idade. Foi em Bissau, em 1983. Antes, só de nome e como referência. Como símbolo.

Infelizmente, Francisco Cambournac não era muito conhecido em Portugal. Fenómeno quase incompreensível quando comparado com a notoriedade que outros colegas seus adquiriram na mesma época. Um dia, a título de justificação, sua Filha, Graça Cambournac, explicou-me que Salazar não gostava dele porque os princípios que guiaram a sua acção como Director em África eram distantes da política colonial do regime. Aliás, a segunda vez que Cambournac foi eleito para director regional da OMS (sublinho eleito pelos países africanos) recebeu os votos dos novos Estados que recentemente tinham conquistado a independência.

Foi muitas vezes a Bissau. Colaborava, apoiava, transmitia energia, comunicava o seu saber e as suas experiências. Conversar com ele era fascinante. Um imenso prazer. Estar com ele no gabinete, à mesa, no mato ou a participar num curso sobre diagnóstico laboratorial de paludismo eram momentos únicos. Eu redobrava a minha atenção para o ouvir. Tinha a preocupação de nunca mais esquecer. Aprendia sempre muito.

Ainda hoje, na DGS, quando se discute um assunto de interesse em medicina tropical utilizo os seus ensinamentos. Muitas vezes tenho o cuidado de o citar. Assim aconteceu com a “crise” do West Nile no Algarve em 2003, com o caso da portuguesa de Leiria que morreu de paludismo sem nunca ter saído do Continente, com a criação do sistema de vigilância das populações de vectores, com os efeitos em saúde pública que decorrem das alterações climáticas, etc.

Quando me pedem para descrever o Professor costumo recorrer a episódios que testemunhei e que ajudam a desenhar com mais nitidez o seu perfil. Por exemplo, relato com grande brilho que Cambournac tinha um óculo desdobrável na bolsa destinada ao relógio que antigamente as calças tinham. Ao andar no mato, de quando em vez, parava, puxava da luneta e de muito longe identificava uma ave, um réptil ou uma planta perdida na paisagem. Classificava fauna e flora em géneros, famílias e espécies com os respectivos nomes em latim com a precisão própria de um biólogo eminente. Eram banais as manifestações do seu enorme saber muito para além da Medicina. Demonstrações que eram naturais para ele e que as revelava sem exibicionismo. Cambournac tinha prazer em aprofundar os seus conhecimentos em muitas disciplinas científicas e, seguramente, sentia necessidade de os aplicar na prática. Era um sábio, pensava eu com frequência.

Uma outra altura, ao jantar, também em Bissau, Cambournac contou-me que a seguir à II Grande Guerra, logo depois da Organização Mundial da Saúde ter sido criada em 1948, foi incumbido de preparar um relatório para propor uma capital Africana para acolher a instalação da sede regional da OMS. Descrevia com detalhe e com visível orgulho esta sua missão. No final das visitas efectuadas, apontou Brazzaville, no antigo Congo Francês, porque concluiu que era a cidade com padrão de vida mais humanista onde não existiam sinais chocantes de apartheid, ao contrário, por exemplo, de outras grandes cidades anglófonas como Nairobi. O seu relatório foi decisivo na opção de Brazzaville. A Sede foi, então, instalada no alto de uma colina nos arredores da cidade, no Haut de Joué. As antigas casas que tinham sido projectadas para residência dos engenheiros da barragem que ali os franceses construíram, foram adequadamente adaptadas e aproveitadas. Ainda bem que assim aconteceu, não só pelas boas infra-estruturas, mas, sobretudo, pela vista panorâmica deslumbrante sobre os rápidos do imenso rio Congo.

Para Cambournac o paludismo (ou malária para os anglo-saxónicos) constituía o principal problema de saúde pública. Sabia tudo sobre o vector, sobre as espécies dos protozoários agentes da doença e, naturalmente, sobre os aspectos clínicos. Era um respeitado paludólogo. Aliás, à época, tal como ele, muitos dirigentes da OMS eram paludólogos, nomeadamente o brasileiro Marcolino Gomes Candau (1911-1983) que foi Director-Geral entre 1953-1973 e com quem Francisco Cambournac trabalhou de perto.

Em 1978, Cambournac foi distinguido pela OMS com o Prémio da Fundação Leon Bernard pelos contributos que deu para a prevenção e controlo das doenças endémicas tropicais, mas também pela forma como ajudou a erguer a OMS em África, certamente a mais necessitada de todas as regiões do Globo no domínio da Saúde Pública.

Francisco George
Verão de 2012